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20 janeiro 2009

Grouper – “Dragging A Dead Deer Up A Hill” (2008 Type)

Grouper é o projecto muito pessoal da enigmática Liz Harris. E se os primeiros discos, desta originária de Portland, eram mais baseados em “drones” de guitarra e muito mais abstractos, neste terceiro, onde ainda continuam presentes os murmúrios minimalistas, existiu uma expansão e desenvolvimento sonoro, onde Harris reduziu a quantidade de distorções e introduziu muitos mais rudimentares dedilhados de guitarra acústica que permitiu tornar a sua voz mais límpida.
Um disco introspectivamente melancólico calorosamente emocional que merece grande elogio e atenção – pela utilização de delicadas estruturas sonoras baseadas nas arrepiante mas serenas e ininteligíveis vocalizações e nas assombrosas mas calmantes guitarras carregadas de efeitos sobre arrebatadores “drones” ambientais.
Apesar da presença única de Harris na guitarra e vocalizações, ambas são multiplicadas, causando uma ressonância das mesmas, tornando estupendamente rica a atmosfera sonora, e dando ao disco uma estranha e inexplicável coesão. E apesar do seu perturbador titulo e da arrepiante fotografia da rapariga com o chapéu preto na capa, existe uma grande profusão de beleza evidente em canções como a absolutamente fabulosa “Heavy Water/I’d Rather Be Sleeping”, a excelentemente construída “Disengaged”, a assustadora “Invisible”, as atmosféricas “Wind And Snow” e “Tidal Wave”, ou a ritmada “Fishing Bird”.
Uma “pop-drone” experimental onde as comparações com Cocteau Twins podem justificar-se pelas sedutoras vocalizações de Harris, mas a sua atmosférica temerosa e as dissonantes harmónicas “folk” relembram também o trabalho de Andrew Chalk.
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30 dezembro 2008

High Places – “High Places” (2008 Thrill Jockey)

O duo Rob Barber e Mary Pearson esforçaram-se por fazer com que a sua sonoridade não se enquadrasse facilmente nos géneros habituais e apresentam-nos uma excitadamente única experiência auditiva. O facto do disco ter sido gravado no seu apartamento de Brooklyn, e a utilização de um conjunto de objectos domésticos mundanos, tornam os resultados dessas experiências muito terrenos.
Através de uma gradual e paciente construção de sons e dinâmicas sonoras onde a presença constante da voz demasiado doce de Pearson, que nos surge abafada de forma de a repercutir e a retardar, torna-a em mais um versado instrumento na incompreensível mistura de colagens rítmicas de “ruídos e sons” de Barber, criando uma música irregular, adequada para as alegres e meditativas letras infantis, cheias júbilo e surpresas, que invocam contos de fadas e dão às canções um sentimento de absorção.
O resultado é um conjunto de canções hipnóticas, impetuosas, soporíficas, normalmente dolorosamente doces que nos deslumbrem completamente. Desde as finas porções de electrónica e os oscilantes tons penetrantes de “The Storm” e “The Tree With The Lights In It”, passando pela maravilhosamente incerta percussão, da excelente literalmente “Vision’s The First”, pelos hesitantes “beats” de “Gold Coin”, pelo esplendorosamente apurado “electro-pop” de “From Stardust To Sentience”.
Algures num universo perdido entre Panda Bear e Aphex Twin.
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10 dezembro 2008

The New Year – “The New Year” (2008 Touch & Go)

Um disco que exige a nossa atenção, pois gentilmente nos envolve na sua subjugante “Wall of Sound” em mais uma gloriosamente impura produção de Steve Albini.
A música é extraordinariamente consistente, e as cáusticas e intimistas letras mantêm-se como o centro emocional na senda dos extintos Bedhead, cujo núcleo central constitui agora este grupo.
Com um sonoridade muito própria, baseado no glaciar entrelaçamento das guitarras, com a incorporação ocasional do piano para um efeito estimulante e um enormemente sóbrio trabalho de bateria a cargo de Chris Brokaw (ex-Codeine), harmonizadas perfeitamente com as vocalizações abatidas e frágeis de Matt Kadane, dão uma beleza luminosa às canções.
Ouçam a forma como “Folios” começa com a guitarra acústica e depois é cercada pelas guitarras eléctricas, bateria e órgão num crescendo até à triunfante pequena altercação próximo do fim. A forma perfeita como o ondulante piano e a vigorosa melodia de “The Company I Can Get” coabitam com as sarcásticas mas divertidas vocalizações. Como as mudanças, na imersa em “feedback” “The Idea Of You” demonstram um equilíbrio dinâmico. Ou a complexidade, mas de interpretação simples da emotiva” The Door Opens”, da agridoce “MMV”, da existencialista “Body And Soul”
Um disco sólido, recompensador, encantadoramente e dedicadamente elaborado.
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The New Year - The Company I Can Get

25 novembro 2008

Deerhunter – “Microcastle” (2008 Kranky)

Depois da edição do primeiro disco do seu muito pessoal projecto paralelo - Atlas Sound – era com muita ansiedade que aguardava pelo novo disco da banda de Bradford Cox. E os Deerhunter não me desiludiram, pois apresentam-nos um disco colossal.
“Microcastle” é um disco original e imaginativo, com um charme e uma competência fora do comum, e está recheado de um “pop” florescente, com calorosos e sibilantes solos de guitarra e uma percussão enérgica. Aqui as rudes arrestas sonoras foram limpas para um formato mais digestível e orientado para a canção, comparado com a dura escuridão ambiental de “Cryptograms”, e se a redução do “noise” pode diminuir o impacto, é o lado mais brando dos Deerhunter que torna a sua música tão compelível. Existe uma elegância nesta simplicidade, que pode comprovar que as guitarras distorcidas de “Cryptograms” não serviam para esconder algum tipo de incompetência. Sobressaem as directas e enérgicas “Nothing Ever Happened” e “Saved By Old Times”, a despreocupada melodia de “Never Stop” ou a simetria da flutuante “Agorophobia”, que não estavam associadas ao som dos Deerhunter.
Os temas base (morte, perda e desespero) continuam presentes, mas parecem mais preocupados em arranjar formas de escapar aos mesmos, mesmo que seja de uma forma efémera e assim uma impressionantemente postura esperançosa está presente em temas como “Little Kids” e “Green Jacket”, apesar das vocalizações continuarem submissas e deprimidas.
A natureza complexa e individualista dos vários membros é uma mais-valia, que se pode comprovar pela brilhante contribuição do guitarrista Lockett Pundt, que também partilha por esta via as suas obsessões.
“Microcastle” é uma luxuriante paisagem sonora, muito mais próxima da perspectiva de uns My Bloody Valentine do que de outros grupos de rock experimental com quem os Deerhunter costumam ser associados e mais uma forma de Bradford Cox confirmar a sua influência como futuro ícone musical.
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16 novembro 2008

Stereolab - “Chemical Chords” (2008 4AD)

Em quase duas décadas, a discografia da banda de Tim Gane e Laetitia Sadier sempre foi uma íntima exploração de ideias. Apareceram no início da década de 90 desafiando o dominante “shoegazing”, oferecendo uma mistura de “krautrock”, electrónica, e vozes despidas. E ao longo dos anos tiveram desvios pelo universo de Martin Denny, da Tropicália, da “french chanson” ou do cinema italiano, “Chemical Chords” não foge à regra, mas é um excelente exemplo de exploração e um novo propósito para a banda.
A música aqui presente encontra-se na forma mais elaborada, mas fluida e natural, descarada no efeito desejado – uma massiva reacção emocional. Tal como muitos dos anteriores discos, contém uma simplicidade do princípio ao fim que pode-nos abstrair do seu encanto. Temos de insistir gradualmente, pois neste disco, está presente uma urgência que já não ouvíamos à muito nos Stereolab, tudo parece inteligentemente compacto e agrupado magnificamente como num organismo vivo. O regresso de Sean O’Hagan (High Llamas) é uma mais valia pelos seus dominantes e delicadamente cuidados arranjos presentes em todo o disco.
Destacam-se o requintado “pop”, aqui presente no mais puro dos encantos e esplendor em “The Ecstatic Static”, “Valley Hi!” e “Self Portrait With Electric Brain”, a circulatória energia e intrigante melodia de “Neon Beanbag”, a furtivamente “sexy” linha sonora e os arranjos de sopros de “One Note Symphony”, ou o agitante e incandescente baixo de “Three Women”.
Muitos poderão ouvir “Chemical Chords” e afirmar que ainda soa aos velhos Stereolab, mas como uns Sonic Youth, as pequenas mutações vão existindo, no entanto mantêm-se sempre fieis ao seu projecto sonoro
Não será tão épico como eles já provaram ser capazes, mas é extremamente satisfatório, e após algumas audições ficará alojado no nosso cérebro.

Stereolab - Three Women

30 outubro 2008

Human Bell - “Human Bell” (2008 Thrill Jockey)

A música de Nathan Bell e Dave Heumann (dos Arbouretum) desafia qualquer fácil categorização. Estamos na presença de um disco instrumental, que mistura de uma forma exemplar padrões musicais tradicionais: “rock”, “folk”, “pós-rock”, “blues” e “americana”.
O que transmite é uma evidente sinergia e um genuíno bem-estar dos intervenientes nestas cuidadosamente executadas composições, simultaneamente sensoriais e evocativas, com os dois guitarristas sempre em perfeito sincronismo.
É notável a forma como estruturam os longos temas. “A Change In Fortunes” abre sinistramente com uma fúnebre guitarra no estilo “americana”, mas lentamente transforma-se num belo e desapressado conjunto de acordes optimistas. “Splendor And Concealment” começa brando e vasto antes de repentinamente acelerar e cerrar-se quebrando a hipotética fantasia numa expressiva dupla improvisação bem ao estilo do visionário John Fahey. São melodias que perduram, graças às repetições hipnóticas e aos momentos rítmicos verdadeiramente empolgantes que conduzem a um climax espiritual.
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20 outubro 2008

Ra Ra Riot - “The Rhumb Line” (2008 Barsuk)

Um disco de estreia marcado pela morte prematura do baterista e compositor John Pike, ocorrida pouco tempo antes da sua gravação. Assim um sabor agridoce está presente em canções como a explosiva e voluta “Ghost Under Rocks” ou a suspirante “St. Peter’s Day Festival”, que foram co-escritas por Pike.
Assim para além das constantes e óbvias referências à morte e ao mar (onde o corpo de Pike foi encontrado, e vividamente evocando perda numa cidade da costa marítima), a presença do violino e do violoncelo, reforçam a gentil melancolia presente ao longo do disco.
Mas se a musica é essencialmente sepulcral, também é efervescente e dilacerante, pois torna-se cativante por ser fundamentalmente uma afirmação da vida, e não só um réquiem por um amigo perdido, mas também um tributo para os que se aguentaram nos tempos mais difíceis.
Para além das duas canções referidas anteriormente, destacam-se neste “opus”, a macabra, mas irreprimivelmente contagiante “Dying Is Fine”, a jovial “Can You Tell”, ou a inesperadamente energética “Too Too Too Fast”, carregada de ruidosos sintetizadores.
As sólidas e exultantes melodias e a performance segura, permite que este seja um apropriado e muito particular memorial.
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23 setembro 2008

Leila – “Blood, Looms and Blooms” (2008 Warp)

Após oito anos sem editar, a misteriosa Leila Arab, está de regresso agora na Warp, depois dos excelentes “Like Weather” (1998 Rephlex) e “Courtesy of Choice” (2000 XL), que com o passar dos anos continuam a revelar qualidades escondidas. O facto de neste período ter perdido os seus pais (que indiscutivelmente deixa a sua marca no disco) servirá como uma possível explicação.
Mas volta com a mesma qualidade arrebatadora, disposta a mexer com os velhos pressupostos do que a música electrónica deveria supostamente ser. Pois presenteia-nos com aprazíveis e invulgares estruturas musicais, agradavelmente variadas, recheadas de sons electrónicos nauseabundos e desprovidos de quaisquer pontos de referência ou distantes de fórmulas estabelecidas.
Assim produz um disco singular e incomparável, com um mostruário sublime, como os momentos “electro” presentes em “Molie” e nesse conto de fadas subaquático que é “Lush Dolphins”. Na excêntrica melodia “pop” de “Little Acorns”, ou em “Mettle”, com as suas borbulhantes correntes divergentes e a estrondosa guitarra.
São várias as contribuições vocais, mas destacam-se a sublime prestação de Roya na sedutora “Daisies, Cats and Spacemen” e Zan Lyons em “Young Ones”. E a colaboração dos dois nomes mais “mainstream” presentes no disco, Terry Hall em “Time To Blow” e Martina Topley-Bird em “Deflect”, ou o alterado dueto em que ambos participam, “Why Should I’”.
“Blood, Looms and Blooms” é perturbador e intrigante, mas será uma das melhores experiências traumáticas do ano.
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08 setembro 2008

Wire – “Object 47” (2008 Pink Flag)

Os veteranos Wire estão de regresso com o seu 47º registo de material original, e mostrando que continuam fiéis ao seu estilo muito próprio, nomearam o disco “Object 47”. E mais uma vez, presenciamos uma nova direcção para uma banda que fez a sua carreira dedicada a reinvenção (veja-se a mudança de “Pink Flag” para “Chairs Missing”). Pois se desde 1999, nesta sua terceira reunião, os seus discos, como “Send” (2003), eram mais densos e toldados de excessiva violência sonora, agora existe uma aproximação à sonoridade que os caracterizou nos anos 70. Um som mais aberto, polido e resplandecente, cheio de “riffs” contagiantes e graciosos trocadilhos, acompanhados pela atmosfera coral dos sintetizadores e a precisão da bateria (o abandono de Bruce Gilbert, provavelmente o mais aventureiro, poderá ser uma justificação).
Apesar de diferente desses três históricos primeiros discos, é uma interessante actualização desse som, funcionando como um somatório das experiências sonoras realizadas pela banda ao longo dos anos e o obvio aumento da sua capacidade musical, para além do persistente amor pelo estúdio de gravação como um instrumento de Colin Newman e Graham Lewis.
No entanto as letras continuam com os seus temas de oposição e as filosóficas lutas políticas e sociais. Pois mantém a agressividade “punk” de 1977, seja nas melódicas “One Of Us” ou “Perspex Icon” e as suas tendências “Madchester”, seja na recordação do “art-punk” nas ásperas “Patient Resurrection” ou “All Fours”, seja na influências do “trip-hop” em faixas como a cínica “Hard Currency”.
Mais um habilmente robusto trabalho combinado com a habitual inteligência e impertinente sensatez.
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06 agosto 2008

My Brightest Diamond – “A Thousand Shark’s Teeth” (2008 Asthmatic Kitty)

Shara Worden está de regresso com o seu projecto My Brightest Diamond, e mostra uma grande evolução do primeiro disco, “Bring Me The Workhorse” de 2006, pois este é muito mais ambicioso, com um maior recurso à experimentação e uma maior utilização de instrumentação, sendo meticuloso em todos os detalhes, realçando a sua violência emocional.
Podem ser evidentes as influências de Kate Bush ou Bjork, mas são essencialmente pelo uso de secções e versos não repetitivos. Pois o que a torna distinta é que a sua música a posiciona como uma digna adição ao rol destas, nunca existindo a impressão de ser uma cópia inferior.
Inicialmente destinado a ser um disco de apenas instrumentos de corda, a sua vontade e prontidão de se focar noutros instrumentos, faz com que ao se acompanhar de extraordinários músicos, esta pianista com formação clássica, crie uma poderosa e eficaz instrumentação.
Mas se a instrumentação é brilhante, é a sua voz soberba e rara, habilidosa e comovedora, que impele o disco, atingindo o apogeu na decidida “Inside A Boy”, apoiada numa vacilante linha de guitarra e uma elegante secção rítmica; na frágil “Ice And The Storm” e os seus emotivos arranjos; na estranha, mas todavia bela “Apples”, com o seu amora “bossa-nova”; na etérea e atmosférica “To Pluto’s Moon”; até ao brilhante final em “The Diamond”, que é uma encruzilhada de todos os estilos presentes no disco.
Um incomparável universo de fantasia.
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14 julho 2008

Minilogue – “Animals” (2008 Cocoon)

Um surpresa que chega de Malmo na Suécia. Marcus Henriksson e Sebastian Mullaert apresentam-nos um duplo CD (belíssimo “digipack”) – 26 faixas, 154 minutos de música. E apesar de que o título ou a duração do disco, me fizessem pensar nos Pink Floyd ou no rock progressivo dos anos 70, felizmente estamos muito longe.
O disco divide-se em duas partes deliberadamente diferentes, a primeira repleta de vacilantes “bleeps” e “beats”, é uma viagem pelos caminhos do “minimal techno”, reminiscente da segunda geração de Detroit, mas apimentada com temas que desobedecem a esse padrão musical, de uma forma ameaçadoramente inventiva e que fazem com que o disco circule por outros caminhos. Assim temos ecos de “jazz” e “funky-house” em “Loud”, vibrantes ritmos “dub techno” em “Hitchhiker’s Choice” e “electro” em “Giant, Hairy Spiders”. E que chegam a atingir a perfeição no brilhante “33.000 Honeybees” e os seus vigorosos padrões rítmicos.
O segundo disco deveria funcionar como uma suposta peça de música ambiental contínua, que deambula livremente, pois cada estrutura sonora cuidadosamente construída encaixa na próxima, mas que poderiam ter sido realizadas cada por uma diferente banda. Mas aqui o titulo “ambiente” é enganador pois quem esperar “ambient pop” ao estilo de Brian Eno ficará desapontado, pois para todas as longas espirais de sintetizadores ou delicados dedilhados de guitarra acústica, existem complexas melodias que se misturam intimamente com oscilantes “beats” reminiscentes dos Boards of Canada ou dos Global Communication.
Um disco corajoso e aventureiro, sem medo em avançar para novos terrenos, e que será difícil de esquecer.
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02 julho 2008

Phoebe Killdeer & The Short Straws– “Weather’s Coming” (2008 PIAS)

Em primeiro lugar, quero afirmar que nunca apreciei muito o projecto Nouvelle Vague. Agora uma das vocalistas, Phoebe Killdeer, acompanhada por um competente trio clássico (guitarra, baixo, bateria), The Short Straws, avança com o seu disco de estreia. E quem esperava uma continuação do som dos Nouvelle Vague, bem pode olhar noutra direcção, pois este disco é totalmente diferente da sonoridade desenvolvida nesse projecto, e provavelmente era essa a sua intenção. Apesar de ter sido gravado com Marc Collin (o líder do projecto Nouvelle Vague), foi misturado por Oz Fritz, velho colaborador de Tom Waits.
Versátil e ecléctica, ela própria refere como influências, Tom Waits (é obvio), Nick Cave, Yma Sumac ou Art of Noise, e afirma que tem um especial fascínio pelas palavras. Isso obviamente revela-se nas viciantes canções que abordam temas simples – as relações das pessoas e os seus sentimentos, emoções, perturbações, equívocos. Com essas tendências literárias elegantemente subjacentes, as canções serpenteiam de uma forma impressionante à volta da sua invulgarmente pretensiosa voz.
Musicalmente, entre “pop” experimental, blues acústico, jazz psicadélico, soul-rock, r&b (e muito mais), os instrumentos fundem-se com os melódicos arranjos, para criar uma brilhante amálgama sonora, visível na luxuriante “Let Me”, ou na “jazzy” “He’s Gone”. Mas a excelência é atingida na assoladoramente contagiante “Big Flight” e na devastadoramente assombrosa” “I Get Nervous”, que comprovam o talento desta senhora.
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27 junho 2008

Bonnie “Prince” Billy - “Lie Down in The Light” (2008 Drag City/Domino)

Este senhor anda a estragar-me o orçamento. Will Oldham sempre foi muito prolífero, mas ultimamente tem sido demais. Depois das colaborações (menos conseguidas) com Tortoise ou Matt Sweeney, este ano já tivemos o disco de versões e a colaboração com Dawn McCarthy dos Faun Fables. E se pensássemos que toda esta actividade o fizesse distrair, enganamo-nos, pois aqui temos mais um disco magnificente, o melhor desde “I See A Darkness”.
Existe um regresso ao som mais tradicional de “Master & Everyone” (não será estranho a presença em ambos do produtor Mark Nevers dos Lambchop), e um afastamento do som mais polido de “The Letting Go”. Mas Oldham introduziu algumas peculiaridades, como a sonoridade “jazzy” presente em “For Every Field There’s a Mole”. Os temas são os habituais: a futilidade humana, amores perdidos e hinos a Deus, as canções, simples na estrutura, mas nunca monótonas, são luxuriantes, vigorosas, e os meticulosos arranjos são do melhor que já produziu na sua carreira. Ouçam a forma como se diverte ruidosamente no comicamente sério “Easy Does It”, ou a simpática e sensível melodia acústica de “(Keep An Eye On) Other’s Gain”.
Mas a maior transformação é a voz de Oldham, mais potente na forma emocionada de articular tão alegremente as superiormente esculpidas melodias. E que é reforçada nas canções que contam com a presença de Ashley Webber dos Black Mountain, com a sua voz enrouquecida, mas muito feminina. Oiçam o contraste no originalmente seco, mas romântico “So Everyone”.
Neste conjunto de canções, Oldham demonstra confiança, ousadia e franqueza, e não uma exagerada inflexibilidade, ao mostrar-se muito menos introspectivo (excepções são a notável “Missing One”e “Lie Down in The Light”), neste disco afectuosamente concebido e maravilhosamente recompensador.

Bonnie "Prince Billy - Easy Does It

20 junho 2008

Dosh - “Wolves And Wishes” (2008 Anticon)

Para além do facto de ser na Anticon, inicialmente o que me chamou a atenção foi enorme quantidade de colaboradores que surgem neste segundo disco do talentoso Martin Dosh. Para além de Andrew Bird no violino (que retribui a participação que Martin teve na sua banda), temos a presença do saxofonista Mike Lewis dos Happy Apple, de Odd Nosdam dos Clouddead, do guitarrista Andrew Broder dos Fog, e ainda de Will Odham/ Bonnie “Prince” Billy. E é a forma como Martin utiliza as diferentes características desses diversos colaboradores que transformam a sonoridade deste ambicioso disco.
Pois para além de ser um baterista inventivo, a forma como habilidosamente misturou as suas próprias ideias com alguns conselhos dos convidados, é que permite que as experiências resultam em ecléticos, intrigantes, explosivos e inovadores exercícios de ambiente/pós-rock.
Ouçam a brilhante e harmoniosa “Don’t Wait for the Needle to Drop”, com a percussão ressonante, e o violino de Bird, descontraído e subjugado, para um elevado final. A seca e fria “Bury The Ghost” com a borbulhante bateria, e o clamor tribal em cólera de Will Oldham. “If You Want To, You Have To” que começa com suaves guitarras e piano, e depois lança-se numa mistura propulsiva de sintetizadores, violino, guitarras, tambores e gritos. A forma como “First Impossible” se eleva e cai, num minuto sorumbática, noutro eléctrica. E o que dizer das guitarras “shoegazing” de “Wolves”.
Depois de “Alopecia” dos Why?, mais um disco completo e excitante, que não soa como a maioria.
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13 junho 2008

Robert Forster - “The Evangelist” (2008 Yep Roc)

A segunda vida dos The Go-Betweens, estava definitivamente em alta após a edição em 2005 de “Oceans Apart”, um clássico ao nível de “16 Lovers Lane”. A morte de Grant McLennan, em 2006, ditou o fim de uma ligação de duas pessoas com personalidades opostas, mas que se influenciaram uma à outra ao longo de 30 anos, resultando numa das melhores associações criativas da história da “pop”.
Robert Forster editou este disco a solo, que, apesar de não ser um disco dos Go-Betweens (mas foi assim iniciado), conta com a presença de antigos colaboradores dos tempos de “Liberty Belle…” e “16 Lovers…”, como o produtor Mark Wallis e Audrey Riley, responsável pelos arranjos, inclui a ultima secção rítmica do grupo, e está centrado na memória de Grant McLennan, não deve ser considerado como uma elegia, mas sim como um testemunho da influência e camaradagem vivida com McLennan.
E o resultado mais visível, é que neste disco existe uma maior coesão do que em anteriores trabalhos a solo de Forster. Pois, e ao contrário das suas composições a solo ou nos The Go-Betweens, onde sempre foi o mais poético, o mais literário, onde as suas metáforas e alusões, sempre foram complementadas e balançadas pelas composições mais directas e terrenas de McLennan, aqui surge muito mais directo, puro, honesto e vulnerável.
É um disco predominantemente acústico, com momentos notáveis, desde o elegíaco “If It Rains”, passando pelo misterioso “Did She Overtake”, seja nas canções escritas a meias com Grant – “It Ain’t Easy” um franco tributo a um amigo desaparecido, “Demon Days” a alegre tristeza de uma fatal lembrança - ou acerca dele – a elegante e brilhante “Pandanus”. E que melhor forma de fechar melancolicamente um disco com “From Ghost Town”, a arrebatadora e devastadora meditação sobre a perda.
Em “The Evangelist”, Forster, libertou-se e inspirado pelo seu eterno colaborador, criou um disco impressionante e incisivamente emocional.
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07 junho 2008

Two Banks of Four - “Junkyard Gods” (2008 Sonar Kollektiv)

Já tardava o regresso dos veteranos Robert Gallagher e “Demus” Harris, ilustres membros e colaboradores de projectos como Galliano ou Young Disciples.
Depois dos superlativos “City Watching” e “Three Street World”, regressam agora na Sonar Kollektiv, para mais uma intrigante viagem através de um elegantemente retorcido labirinto de géneros musicais - desde “soul” ao “funk”, passando pelo “jazz”, “house” e “broken beat”. Mas agora a ênfase reside muito mais na interacção e na improvisação entre todos os músicos envolvidos.
Assim através da combinação entre as subtis e complexas experimentações electrónicas, e instrumentos clássicos como flautas, saxofone, trompete e piano, criam fantásticas harmonias estranhamente caóticas.
Desta deliciosa colecção, destaca-se “Queen of Crows”, com uma jovial performance vocal de Valerie Etienne (cuja presença sobressai ao longo do disco), e o contagioso revolver do piano de “Shadowlands”. Depois temos temas mais acessíveis como “Dead Afternoons” ou mais experimentais como “Wake Me 5.30”, e uma re-interpretação “electro” de um tema de Wayne Shorter, “Go”.
Rico e complexo na estrutura, é um disco para ouvidos exigentes, que nos trás uma nova perspectiva para uma fórmula de sucesso.

30 maio 2008

Evangelista - “Hello, Voyager” (2008 Constellation)

Quantos artistas se tornaram ferozmente genuínos com o passar dos anos?
Quantos tentam codificar o que fizeram anteriormente, cuidadosamente, num fácil formato sonoro?
Carla Bozulich não. Já sendo uma semi-veterana com passagens por várias bandas (investiguem os excitante Geraldine Fibbers), regressa com uma banda (Evangelista) que era o título do seu último disco a solo. E aqui, num disco sincero, mas ferido, Bozulich, vai ainda mais longe na exploração das opressões íntimas, ao expor sofrimento e dor.
Acompanhada por alguns elementos dos A Silver Mt. Zion, e através de desarticuladas orquestrações, melodias formaldeídas, ásperos arranjos de cordas, e uma prosa perniciosa, Bozulich surge elegante e astuta, mas angustiada, criando uma sonoridade subtil e ríspido. Os cenários variam: a sabedoria negra e anciã em ” Mystical Prankster”, a provocação inabalável em “Truth Is Dark Like Outer Space”, a crueldade e o perigo em “Lucky Luck Luck”, culminando no claustrofóbico épico hino de “Paper Kitten Claw”. E não há palavras para descrever a grandiosa e delicada “The Blue Room”
Bem-vindos a um mundo invulgar e maravilhoso.
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16 maio 2008

Kelley Polar – “I Need You to Hold On While The Sky Is Falling” (2008 Environ)

Em 2005, com “Love Songs of The Hanging Garden”, foi comparado com o malogrado Arthur Russell. Ambos eram músicos com formação clássica na prestigiada Julliard School de Nova Iorque. E tal como Russell, duas décadas antes, também Polar travou conhecimento com músicos de dança que o introduziram a novos universos musicais. Russell com o pioneiro do “disco” Larry Levan, Polar com Morgan Geist dos Metro Area, um dos melhores na utilização das penetrantes linhas orquestrais do “disco” na “house”.
No disco de estreia tentou provar que era possível criar uma música profundamente pessoal, ao desenvolver cenários melancólicos, assentes em soluções rítmicas compactas e evolutivas.
Este novo disco, é um passo em frente, e cimenta essa capacidade ao reunir uma colecção de estranhamente exuberantes e belas canções, mas que permanecem totalmente acessíveis.
O disco abrange uma diversidade de ideias, infiltrando elementos de “pop”, “disco”, “house”, “minimal techno”, e até “r&b”, para criar uma banda-sonora de um universo alternativo, que nos ocupa e estimula a mente e o espírito.
Mais uma vez a produção de Morgan Geist dá uma atenção especial aos detalhes. E como destaques selecciono: a sinfonia “electro” de “A Feeling of the All-Thing”, “Chrysanthemum”, o sumptuoso dueto de “Entropy Reigns (In the Celestial City)”, “Satellites” e “Thurston & Grisha”.
Um disco, que pelas suas concebíveis contrariedades, não soa como nada que foi antes produzido. E por isso mesmo muitas pessoas não gostarão deste disco.

09 maio 2008

DeVotchka - “A Mad & Faithful Telling” (2008 Anti)

Já não é de agora (David Byrne ou Peter Gabriel, entre outros, já por lá passaram), mas a globalização tem uma participação cada vez mais acentuada na música “pop”/“rock”. Existem cada vez mais bandas a buscar inspiração em temas globais (podemos referir Beirut, A Hawk and a Hacksaw, Gogol Bordello, M.I.A., Vampire Weekend, como os mais recentes).
No entanto ninguém cultivou o seu multiculturalismo como os intrigantes DeVotchka.
Originários de Denver, é certo que os DeVotchka nunca foram estritamente uma banda “indie-rock”, sempre navegaram por outros territórios, onde as influências ciganas, eslavas ou gregas, ajudaram a criar este “global gypsy folk” caracteristicamente único. Mas é certo que o seu ecletismo instrumental sempre criou canções épicas e emocionais, que oscilam entre um tipo de “cabaret” teatral e as confissões pessoais.
A fantástica vibração produzida pelo violino, pelo acordeão, pelo “bouzouki”, pelos trompetes, ou pelo “sousaphone”, desembainha uma esfera musical sem limites, desde a introdução com “Basso Profundo”, que mistura “folk” da Europa de Leste com influências Morricone, ou no subtil e luxuriante “Along The Way”, com a impetuosa secção de cordas e as cornetas “mariachi”. E assim como “Head Honcho” se diverte com a “polka”, o bolero está presente em “Undone”e a música cigana em “Comrade Z”. Se a todo isto juntarmos o trautear de Nick Urata, temos o som de um novo mundo global.

02 maio 2008

Fuck Buttons - “Street Horrrsing” (2008 ATP)

Numa primeira impressão, este duo não está a fazer nada de novo. Mas se prestarmos alguma atenção eles estão a pegar em barulhos estranhos e a misturá-los energicamente com um punhado de esplendorosos padrões sonoros, para criar algo verdadeiramente novo, e que se torna mais cativante a cada audição.
Podíamos efectuar comparações com os Black Dice, por exemplo, mas existe aqui um equilíbrio cirúrgico que mais ninguém conseguir realizar. É “noise”, mas virtuoso, intenso, inteligente e apocalíptico.
O facto de terem gente como Bob Weston (Shellac) ou John Cummings (Mogwai) na masterização e produção, certamente ajudou. São seis temas que se estendem em cerca de cinquenta minutos, e apesar de repetirem alguns artifícios, continuam a ser cativantes, nunca atingindo a redundância.
A resplandecente “Sweet Love for Planet Earth” dá o mote, e prepara-nos a mente, com a longa introdução de harmoniosos sons refractores, antes do massivo e deformado baixo e as vozes lutarem entre si, ao longo de nove claustrofóbicos minutos. Seguem-se momentos brilhantes como o tribal “Ribs Out”, construído a partir de uma divertida percussão, ou o sónico “Okay, Let’s Talk About Magic”. Até encontrarmos “Bright Tomorrow” que derrama uma batida “house” directa sobre melodiosas texturas criadas por um indistinto órgão e outros efeitos, até culminar num clímax que é simultaneamente brutal e arrepiantemente belo.
Para os interessados em música verdadeiramente inovadora.