Mostrar mensagens com a etiqueta Stereolab. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Stereolab. Mostrar todas as mensagens

14 dezembro 2009

Atlas Sound – “Logos” (2009 Kranky)

Bradford Cox ofereceu-nos no ano transacto, dois excelentes discos, que estiveram entre os melhores desse mesmo ano - “Microcastle” dos Deerhunter e o primeiro disco do seu projecto a solo, Atlas Sound - onde regressa agora.
Aqui, em oposição ao Deerhunter, Cox permite a si próprio mais liberdade na composição, e o resultado é mais um disco extremamente ecléctico, cuidadosamente composto, e com uma atenuante elegância.
Dentro do seu admiravelmente invulgar e intenso mundo interno, ”Logos” consegue combinar melodias simples com bastante experimentalismo, o que permite ao ouvinte regressar sempre preparado para novas sensações auditivas.
Gravado de forma súbita em tournée, conta com bastantes convidados ilustres, como Noah Lennox/Panda Bear dos Animal Collective, no desenvolto e sublime “psych-pop” de “Walkabout”, Sasha Vine dos Sian Alice Group, na frágil tolerância de “Attic Lights” ou Laetitia Sadier dos Stereolab, que empresta a sua volátil voz às acidentadas matrizes sonoras do épico “Quick Canal”. Estes convidados efectivamente ajudaram a dar uma nova ressonância a este caleidoscópio sonoro, mas apesar da sua presença, “Logos” é ainda predominantemente uma questão verdadeiramente insular para Cox, mas que aqui soa mais vivo e mais solto do que no primeiro disco. Isso é visível nas harmónicas tonalidades que emergem de “An Orchid”, no evasivo “pop” acústico de “Criminals”, na interminavelmente memorável e vibrante pseudo-balada “Sheila” ou nos cintilantes sintetizadores e ritmos activos de “Kid Klimax”.
Dolorosamente belo.
_

06 novembro 2009

Do fundo da prateleira # 18 - McCarthy – “The Enraged Will Inherit The Earth” (1989 Midnight Music)

Apesar de serem muitas vezes apenas referenciados por terem sido o grupo onde estiveram os futuros criadores dos Stereolab, Tim Gane e Laetitia Sadier (esta apenas tinha entrado no grupo pela altura do ultimo álbum), este quarteto inglês, originário da pequena cidade de Barking, criou uma sonoridade verdadeiramente única na combinação entre a guitarra melodiosa de Gane, com a distinta percussão de Gary Baker e a voz à menino do coro de Malcolm Éden. Daí resultaram pequenas jóias de “pop” dissonante que poderiam ter sido extraídas do reportório primário dos The Smiths, e que iriam inspirar futuros dissidentes da “agit-pop”, através de repetições melódicas, que apoiavam as manifestamente e expeditamente canções políticas, mas sem os slogans e o dogma, pois eram canções avunculares, recheadas de sátira social, sarcasmo e inconformismo, criticando os capitalistas, os banqueiros, os governantes ou a monarquia.
Destaco o segundo disco (“I Am A Wallet” de 1987 também é indispensável), porque foi o primeiro que tive e por incluir a minha canção favorita deles – “Keep An Open Mind, Or Else” – e para além desta obra-prima, inclui outras preciosidades como “Boy Meets Girl So What”, “I’m Not A Patriot But”, “You’ve Got To Put An End To Them” ou “The Home Secretary Briefs The Forces Of Law And Order”.
_

29 julho 2009

Inovadores # 13 - Neu! – “Neu! 75” (1975)

Provalvelmente, e em conjunto com os Can e os Faust, os Neu! foram os melhores representantes do “krautrock”. Este exemplar notável, é tal como os dois discos anteriores, um trabalho fascinante e que ainda hoje não soa datado. Mas este foi também o álbum onde deixaram completamente de lado a sua componente mais abstracta, que dominou os dois primeiros discos, e incorporaram melodias e ritmos mais estruturados, tornando-o no mais consistente e mais audível.
Criado após uma separação inicial, a reunião resultou num esforço esquizofrénico, onde belas texturas sonoras e ruído, se fundem com guitarras flutuantes e uma percussão rítmica verdadeiramente única para criar no ouvinte um efeito verdadeiramente hipnótico.
O disco divide-se entre a abordagem mais ambiental e minimalista de Michael Rother e o “rock” abrasivo e impetuoso infundido pelo demente Klaus Dinger (e a sua irresistível batida repetida conhecida como “motorik”). A primeira parte, mais sedativa e mais melódica, inclui os sedutores e melodiosos teclados de “Isi”, a derivante imponência de “Seeland”, e a quietude hipnótica de “Leb Wohl” é de Rother, e onde estão ausentes as usuais e regulares batidas de bateria. Já a segunda parte é toda de Dinger (onde ele geme e grita), e está recheada de guitarras inflamáveis e ondulantes, e estranhos efeitos electrónicos, que criam paisagens sem expressão, evidenciadas no “proto-punk” de “After Eight” ou no agressivo “Hero”.
Mas o resultado final demonstra que apesar das diferenças globais entre Rother e Dinger nas suas abordagens sonoras e mesmo nas suas personalidades, eles conseguiam produzir em conjunto alguma da melhor música de sempre. Deixaram-nos três registos altamente originais e sem precedentes, e exerceram uma enorme influência em muita da moderna música alternativa, desde o “punk”, passando pelo “techno” de Detroit até ao pioneiros “lo-fi”. E isso é evidente nas várias referências proferidas por gente tão diversa como por exemplo, John Lydon , Negativland, Stereolab, Spacemen 3, Add N To X ou Wire.
_

22 abril 2009

Seeland – “Tomorrow Today” (2009 Loaf)

Primeiro chamaram-me a atenção os nomes de Tim Felton e Billy Bainbridge, que estão associados às suas experiências anteriores nas bandas Broadcast e Plone, respectivamente, duas das melhores propostas musicais que surgiram da cidade de Birmingham nos últimos anos.
Regressaram agora com o projecto Seeland (presumivelmente inspirados no tema dos Neu!). E depois de dois singles editados na Duophonic dos Stereolab, e já como um trio com a entrada do baixista Neil McAuley, editam o seu primeiro álbum. E aqui apresentam-nos uma nova sonoridade que combina com aprumo elementos de “krautrock”, da subtil electrónica analógica reminiscente de uns White Noise e de electrónica “indie” anos 80 (mas também é evidente que foram muito influenciados pelos primeiros discos a solo de Brian Eno).
Através de arranjos complexos, melodias extremamente fortes e delicados padrões electrónicos, criam pequenos, mas concisos e melodiosamente vibrantes regalos “pop”, assentes na linear e voluntariamente impassível voz de Felton, que nos transmitem uma sensação de abstracção. E chegam a atingem um tipo de grandeza sonora que nos dá arrepios através de canções como a propulsiva “Burning Pages”, nos intensamente cortantes dedilhados de guitarra na brumosa “Library”, no efervescente acidulado “pop” de “Goodbye”, na superlativa “Call The Incredible”, ou na implacável batida mecânica e vibrante linha de baixo presente em “Static Object”.
_

16 novembro 2008

Stereolab - “Chemical Chords” (2008 4AD)

Em quase duas décadas, a discografia da banda de Tim Gane e Laetitia Sadier sempre foi uma íntima exploração de ideias. Apareceram no início da década de 90 desafiando o dominante “shoegazing”, oferecendo uma mistura de “krautrock”, electrónica, e vozes despidas. E ao longo dos anos tiveram desvios pelo universo de Martin Denny, da Tropicália, da “french chanson” ou do cinema italiano, “Chemical Chords” não foge à regra, mas é um excelente exemplo de exploração e um novo propósito para a banda.
A música aqui presente encontra-se na forma mais elaborada, mas fluida e natural, descarada no efeito desejado – uma massiva reacção emocional. Tal como muitos dos anteriores discos, contém uma simplicidade do princípio ao fim que pode-nos abstrair do seu encanto. Temos de insistir gradualmente, pois neste disco, está presente uma urgência que já não ouvíamos à muito nos Stereolab, tudo parece inteligentemente compacto e agrupado magnificamente como num organismo vivo. O regresso de Sean O’Hagan (High Llamas) é uma mais valia pelos seus dominantes e delicadamente cuidados arranjos presentes em todo o disco.
Destacam-se o requintado “pop”, aqui presente no mais puro dos encantos e esplendor em “The Ecstatic Static”, “Valley Hi!” e “Self Portrait With Electric Brain”, a circulatória energia e intrigante melodia de “Neon Beanbag”, a furtivamente “sexy” linha sonora e os arranjos de sopros de “One Note Symphony”, ou o agitante e incandescente baixo de “Three Women”.
Muitos poderão ouvir “Chemical Chords” e afirmar que ainda soa aos velhos Stereolab, mas como uns Sonic Youth, as pequenas mutações vão existindo, no entanto mantêm-se sempre fieis ao seu projecto sonoro
Não será tão épico como eles já provaram ser capazes, mas é extremamente satisfatório, e após algumas audições ficará alojado no nosso cérebro.

Stereolab - Three Women

29 outubro 2007

The Sea And Cake – “One Bedroom” (2003 Thrill Jockey)

Ao longo dos anos, o grupo “pós-rock” de Chicago, sempre se manteve fiel ao seu rumo.
Composto pelas guitarras e vocalizações aspiradas de Sam Prekop, pelo baixo de Eric Claridge, pela complexa percussão de John McEntire e pela guitarra tensa de Archer Prewitt, os S&C, insistem na mesma mestria ao longo da sua carreira.
O seu sexto disco, “One Bedroom” (que para mim será o mais conseguido), por um lado relembra a pop cintilante das bandas da Postcard, por outro as influencias “motorik” dos Stereolab. A voz suave, mas elevada de Prekop combina com o som “jazzy” criado pela banda, que ao introduzir sintetizadores retro, uma complexa electrónica, e o serpentear das guitarras, cria um som atenuante, mas perfeitamente melódico.
Provavelmente menos “jazzy” do que por exemplo “Oui”, é no entanto mais definido.
“Four Corners” e “Left Side Clouded” são do melhor que produziram, sedativos e melancólicos, com o tilintar das guitarras e um rude, mas melódico baixo, superiormente quebrados pela distorção. O ritmado “Hotel Tell” utiliza os atributos de programação de McEntire, nos sóbrios, mas irresistíveis batimentos da caixa de ritmos.
O destaque do álbum é a perfeita versão de “Sound And Vision” de David Bowie. Exuberantes arranjos estruturadamente ricos em detalhes são perfeitos para o agridoce logro de Bowie.
Ao longo do disco, encontramos uma música delicada e perfeita. Em contraste com a aparente casualidade das letras, a música é perfeitamente esculpida à volta das vozes. A produção é tão delicada e os arranjos tão bem trabalhados e cheios de detalhe que é impossível não ficar-mos totalmente seduzidos por este elegante e descerrado disco.

Hoje - 23H00 - O Meu Mercedes é Maior que o Teu