30 janeiro 2008

School of Language - “Sea From Shore” (2008 Thrill Jockey)

A música unicamente comovente e sofredora dos Field Music, foi para mim uma das melhores revelações de 2007. Parece que infelizmente se separaram, tendo David Brewis criado este projecto, para o qual gravou maioritariamente sozinho os temas que constituem este disco (ocasionalmente surgem os elementos dos Futureheads, seus amigos pessoais, e também eles originários de Sunderland).
Aqui encontramos essencialmente sons vocálicos, mas expansivos, e intrigantes ao mesmo tempo, pela forma notável como Brewis utiliza o seu computador para os criar. Outro aspecto fundamental é o excelente trabalho de produção realizado, especialmente nas percussões.
O disco abre excelentemente com o desarticulado “Rockist Part 1”, continua em alta através da estruturadamente distorcida “Disappointment 99”, da emocionante fluência de “Poor Boy’s”, até chegar a esse exercício interior que é “Rockist Part 3 (Aposiopesis)”, onde Brewis retoma “Rockist Part 1” de uma forma mais tradicional.
Ecos da “pop” seca dos XTC continuam presentes, mas também estão reminiscências dos Broken Social Scene e de toda a escola “pós-rock” de Chicago.

28 janeiro 2008

Do fundo da prateleira # 8 - Helmet – “Strap It On” (1990 Amphetamine Reptile)

Provavelmente sejam mais (re)conhecidos pelo seu trabalho de 1992, “Meantime”, editado já na Interscope, que acabou por ser um disco bastante apreciado pela crítica, e que até podemos considerá-lo como quase perfeito. Mas “Meantime”, não seria a primeira grande produção deste quarteto oriundo de Nova Iorque. Com “Strap It On”, o seu disco de estreia, os Helmet ampliaram o triturar ruidoso que caracterizava os seus primeiros registos ao extrair a sua essência.
Consta que o vocalista, compositor e guitarrista principal do grupo, Page Hamilton, tinha rigorosos processos na composição da canções, mas temas como “Repetition” e “Distracted” foram construídas a partir de pouco mais do que letras simplesmente berradas, alguns “riffs” verdadeiramente defraudantes e um solo de guitarra totalmente discordante. Mas a sua simplicidade era única, e que o baixista Henry Bogdan e o baterista John Stanier (actualmente nos Battles) ajudaram a intensificar com uma combinação de frugalidade e força bruta.
Apesar de a banda posteriormente se ter tornado mais “funky” no álbum “Betty” de 1994 e de ter assimilado os benefícios de uma melhor produção, nunca mais se aproximaram da fórmula aqui aperfeiçoada.

24 janeiro 2008

Inovadores # 6 - Steve Hillage - “Rainbow Dome Musick” (1979 Virgin)

Esqueçam todos os discos de rock progressivo que Steve Hillage editou ao longo da sua carreira, e foquem-se neste “Rainbow Dome Musick”, que é actualmente considerado como um percursor (juntamente com o trabalho de Brian Eno) no que seria denominado de “ambient music”.
Originalmente concebido para um festival intitulado “Mind, Body and Spirit”, o objectivo de Hillage era criar um oásis de harmonia atmosférica.
Juntamente com a sua mulher Miquette Giraudy, Hillage (que nos anos 90 teve algum êxito com o seu projecto System 7), criou um disco onde abundam texturas e cores ambientais, e que é simultaneamente suave e intenso.
Constituem o disco dois belíssimos temas, o primeiro, o relaxante “Garden of Paradise” é baseado em matrizes ressonantes de sequenciadores e umas crescentes texturas sonoras de piano e guitarra eléctrica.
O segundo, o hipnótico “Four Ever Rainbow” começa com o som de um órgão que se desloca ao encontro de ondas deslizantes de guitarra e sintetizador.
Na data da sua edição, em 1979, numa altura em que “punk”, “disco” e “new wave” preenchiam os “tops”, estavam aqui definidas as raízes do que iriam posteriormente denominar como “trance” e “chill-out”.

21 janeiro 2008

Classic # 11 - David Sylvian - “Secrets of the Beehive” (1987 Virgin)

O que mais me fascina neste disco produzido por Steve Nye é a sua simplicidade, que assenta em três características essenciais: a primeira, a instrumentalização simples, num estilo experimental, com elementos de “jazz” em algumas faixas, e nos ordenados arranjos: obsidiantes, orgânicos e apaticamente terrenos; a segunda é a voz quente de David Sylvian que tem o poder de nós embalar num estado de tranquilidade; e a terceira, as canções: as requintadas letras demonstram uma profundidade fora do alcance das casuais contemplações relativas ao amor e à vida, esperança e desespero, fundidas com mitos e mistérios e são recheadas em metáforas e magia. São pequenas histórias elípticas, todas elas lacónicas, mas no entanto sedutoras. Assombrosas, mas não depressivas.
O disco abre de uma forma minimal com “September”, piano, arranjo de cordas, e voz, que fala sobre a dualidade do Outono que traz beleza no amontoar da queda das folhas.
E inclui duas das minhas canções favoritas: “The Devil’s Own” com uma sofisticada melodia que parece que flutua no ar, este tema tem uma qualidade etérea que torna difícil de descrever ou replicar, e a toxicamente bela “When Poets Dreamed of Angels” com uma poderosa qualidade rítmica e emotiva.
Mas ainda temos canções do calibre de “Orpheus”, “The Boy with The Gun” ou “Let the Happiness In”, que tornam o disco verdadeiramente arrebatador.
Como bónus a edição em CD contém ainda uma versão da magnífica colaboração com Ryuichi Sakamoto para a banda-sonora de “Merry Christmas Mr.Lawrence”: “Forbidden Colours”. Mais uma pérola.

18 janeiro 2008

Um blog

1 ano...
Primeiro objectivo conseguido...
Não foi fácil, mas tentei colocar 2/3 post por semana - e tentei não falar só dos meus artistas favoritos, alguns deles nem um post tiveram.
Falei sobre os meus discos favoritos, os meus clássicos, alguns discos perdidos, discos que na minha opinião mais impacto tiveram na história e evolução da musica rock. Digo rock, pois é mais fácil, pois generos musicais é que não é comigo, como já devem ter constatado, pois uma dificuldade acrescida é o facto de existirem ainda muitos grupos e discos de quadrantes musicais totalmente opostos que gostaria de partilhar, porque os meus gostos musicais são extremamente variados (como diz a minha mulher: "isso é muito calmo" ou "isso é muito barulho"), e o tempo livre disponivel não permite a dedicação ao "bichinho" que eu bem gostaria (ah...nunca mais sai o Euromilhões).
E como existem vários blogs muito interessantes que divulgam as notícias relevantes e promovem as novidades musicais, tentei falar de alguns projectos que não tiveram o mesmo destaque, mas que na minha opinião o mereciam.
Próximo objectivo: continuar com o blog por mais um ano
Vamos tentar introduzir algumas alterações. Ideias não faltam, é só uma questão de se concretizarem.


Agradeço a todos os visitantes os seus reconfortantes comentários

Novidades - The Jesus and Mary Chain

Na sua página no MySpace, os The Jesus and Mary Chain colocaram versões demo de três músicas novas. "War On Peace", "Cookies" e "Boiling Over" são o primeiro material apresentado pela banda desde o lançamento de "Munki".

Está ainda previsto para o mês de Março, um regresso aos palcos, com 2 datas previstas para o Roundhouse, em Londres.

16 janeiro 2008

Singles # 12 - Ian Dury – “Sex & Drugs & Rock & Roll” (1977 Stiff)

Há trinta anos atrás, quando criou esta terminologia trivial, Ian Dury não era um miúdo punk, mas antes um veterano do “pub-Rock”, pois em 1977 quando assinou pela Stiff já tinha 35 anos.
E curiosamente seria ao adaptar uma nota de uma canção do veterano músico de “jazz”, Ornette Coleman, que iria criar uma das canções universalmente mais conhecidas, e constantemente referenciada como o típico estilo de vida do músico “rock“.
Mas no entanto este hino, não iria celebrar o hedonismo pateta associado ao movimento, antes pelo contrário, pois a canção esconde uma letra de grande sobriedade e perspicácia.
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14 janeiro 2008

Mouthus – “Saw a Halo” (2007 Load)

Desde a sua formação em 2002, este enérgico duo de Brooklyn já tinha editado dez registos em diversas editoras independentes, o que torna difícil o acompanhamento da sua carreira.
Este “Saw a Halo” é um registo diferente do seu característico som “noise-drone”, pois apesar dos sons eléctricos e abrasivos estarem bem presentes, o aparecimento de guitarras acústicas em três dos sete temas do disco, é uma interessante e imprevista surpresa.
É certo que mantém-se a experimentação sónica que os tornou tão inovadores, mas existiu uma mudança na forma definida que a torna nova e convincente.
Os Mouthus não disfarçam o espírito original da escola experimental nova-iorquina, ao misturar o “noise” com o psicadelismo ambiental (como tão bem fazem os Wolf Eyes). Mas sempre sem esquecer o elemento “rock”, nas longas excursões sonoras até ao infinito, baseadas em estruturadas experiências sónicas, com as suas alterações constantes de ritmo, criadas pela tribal e furiosa bateria, pela explosiva guitarra e pelas gementes vozes.

10 janeiro 2008

Inovadores # 5 - A.R.Kane - “69” (1988 Rough Trade)

Quando os A.R.Kane participaram em “Pump Up the Volume”, a sua contribuição foi mínima, no entanto, no lado B do referido tema, criaram “Anitina”, onde já demostravam o rumo que pretendiam seguir.
Só a forma como o disco começa, com o estranhamente cativante “Crazy Blue”, é um pronuncio do que se segue. Pois estamos perante um exercício ecléctico, alucinogénico e experimental, cujo resultado são canções extraordinárias, com letras alucinantes, do calibre da refrescante “Baby Milk Snatcher” com as suas referências ao sexo oral, ou da cristalina fantasia que é “Spermwhale Trip Over” e os seus delírios obtidos através dos efeitos do LSD. Na balbuciante agregação de sons de “Sulliday” atingem o limite máximo da incompreensível experimentação.
Da combinação da voz única de Rudi Tambala, com os instrumentos de Alex Ayuli, através da utilização de som e texturas que relembram os experimentalismos dos pioneiros do rock psicadélico dos anos 60/70, com elementos adicionais do indie-pop dos anos 80, resulta uma sensual atmosfera imersa em reverberatório feedback, onde muitos temas podem não ser considerados canções, mas “sarrabiscos” sonoros.
Foram comparados com os The Jesus and the Mary Chain, Cocteau Twins (Robin Guthrie co-produziu alguns temas anteriores) ou até com os Pink Floyd (fase Syd Barrett). E posteriormente, também seriam considerados como percursores do “shoegazer”.
Os registos seguintes (“i” e “New Clear Child”), são satisfatórios, mas falta-lhes a profundidade deste disco.
Aqui criaram um disco inventivo e verdadeiramente elíptico.

08 janeiro 2008

Do fundo da prateleira # 7 - The God Machine - “One Last Laugh In A Place of Dying” (1994 Fiction)

Os The God Machine eram um trio de amigos oriundos de San Diego, que se encontrariam ocasionalmente em Inglaterra onde acabariam por formar uma banda.
Aí permaneceriam ilegalmente, tendo habitado em casas abandonadas, trabalhado como lacaios, até conseguirem juntar o dinheiro suficiente para adquirir instrumentos musicais. Posteriormente, e através de “demos” atraíram o interesse da editora Fiction, propriedade dos The Cure.
O seu disco de estreia “Scenes From The Second Storey” era hipnótico e minimalista, mas com um lado melódico que penetrava através das sombrias atmosferas e do lamento “ferido” do vocalista Robin Proper-Sheppard.
Para o segundo disco, ampliaram o som, sem o tornarem macio.
Utilizando como inspiração uma técnica de produção, que podemos classificar como similar à fase final dos Talk Talk, que pretendia suavizar o acesso à sua introspecção e cólera.
Assim através de arranjos pouco densos e da produção “simples”, conseguiram que as estimulantes letras de Proper-Sheppard fossem ainda mais incisivas.
Ele dizia em “Painless”: “You said life could be painless and I’m sorry but that’s not what I’ve found”, e infelizmente, a letra profetizou a morte do baixista Jimmy Hernandez, que iria falecer pouco tempo depois do disco estar concluído com um hemorragia cerebral (e assim a origem do título do disco seja apropriada).
No final, a edição que saiu para a rua, continha as versões rudimentares, ainda sem o polimento pretendido, mas as imponentes canções e a forte química existente foram elevadas pela produção agreste.
Proper-Sheppard trocou a afronta pela resignação, e a electricidade pela acústica, no seu projecto actual Sophia.

05 janeiro 2008

Best of 2007

Custou, mas para não deixar que fiquem com má opinião sobre o blog, anexo uma selecção pessoal dos melhores discos adquiridos no ano de 2007:

Os 15 que mais me fascinaram
Andrew Bird - "Armchairs Apocrypha"(Fat Possum)
Arcade Fire - "Neon Bible"(Merge)
Battles - "Mirrored" (Warp)
Burial - "Untrue" (Hyperdub)
Electrelane - "No Shouts No Calls" (Too Pure/Beggars)
Iron & Wine - "The Shepperd's Dog" (Sub Pop)
LCD Soundsystem - "Sound of Silver" (DFA)
Liars - "Liars" (Mute)
Panda Bear - "Person Pitch"(Paw Tracks)
Robert Wyatt - "Comicopera" (Domino)
Stars of the Lid - "And Their Refinement of the Decline" (Kranky)
The Fiery Furnaces - "Widow City" (Thrill Jockey)
The National - "Boxer" (Beggars Banquet)
The Shins - "Wincing the Night Away" (Sub Pop)
Yesterdays New Quintet - "Yesterdays Universe" (Stones Throw)

Mais 15 que me surpreenderam
Antibalas - "Security" (Anti)
Band of Horses - "Cease To Begin" (Sub Pop)
Beirut - "The Flying Club Cup" (4AD)
Caribou - "Andorra" (Merge)
Field Music - "Tones of Town" (Memphis Industries)
Jens Lekman - "Nights Fall Over Kortedala"(Secretly Canadian)
Jimi Tenor & Kabu Kabu - "Joystone" (Sahko)
Lobster - "Sexually Transmited Electricity" (Borland)
Micro Audio Waves - "Odd Size Baggage" (Magic Music)
Mudd - "Claremont 56" (Rong)
Nina Nastasia & Jim White - "You Follow Me" (Fat Cat)
Pinch - "Underwater Dancehall" (Tectonic)
P J Harvey - "White Chalk" (Island)
Spoon - "Ga Ga Ga Ga Ga" (Merge)
The Field - "From Here We Go Sublime" (Kompakt)

5 Maxis que fizeram o velhinho SL 12000 trabalhar muito
LCD Soundsystem - "Someone Great" (DFA)
Pop Dell'Arte - "Querelle" (Bloop)
Tony Allen - "Kilode" (Carl Craig Remixes) (Honest Jon's)
Faze Action - "In The Trees" (Carl Craig Remixes) (Juno)
!!! - "Must Be The Moon" (Emperor Machine Remix) (Warp)

29 dezembro 2007

My Favorites # 6 - Liz Phair - “Exile In Guyville” (1993 Matador)

Neste disco é possível descortinar o que bem quisermos: desde hinos ao pós-feminismo, passando pela rapariga dos subúrbios a armar-se em “tesa”, ou a pretensa e assumida réplica de “Exile On Main Street”.
Eu ao escutá-lo prefiro pensar em Liz Phair como uma rapariga que pretende encontrar o amor verdadeiro, ou uma que pretende ser uma “blow-job queen”.
O que não se pode é menosprezar a importância deste disco: um registo suave, dramático, que foi editado numa altura em que todos os outros se baseavam em gritos estridentes; o disco que demonstrou o poder das produções caseiras “lo-fi”; o disco que melhor capturou o sofrimento e a ansiedade da confusão pós-adolescência/ pré-idade adulta; o disco cujo sucesso influenciou que muitas multinacionais contratassem uma geração de cantoras-compositoras.
A sua musicalidade é por ventura desnivelada, a sua performance vocal não é revolucionária, mas a sua escrita… uau!!! que canções.
São canções que nos tocam no coração, comprometem a mente e até chegam a estimular sexualmente.
Liz sabe como construir um relato intenso e pessoal.
Apesar de todas serem fantásticas, gosto especialmente de “6’1””, “Help Me, Mary”, “Never Said”, “Mesmerizing”, “Fuck and Run”, “Divorce Song” e “Shatter”.
Ao contrário da maioria das cantoras-compositoras referidas anteriormente, a quem faltava a subtileza elegante” de Liz Phair, esta continuou a demonstrar o seu singular talento em trabalhos posteriores como “Whip-Smart” ou “Whitechocolatespaceegg”.
Com “Exile In Guyville” deixou-nos um registo que é um tributo à qualidade da “canção rock”, e que o torna num dos melhores discos de todos os tempos.

21 dezembro 2007

Canções de Natal I


Big Star – “Jesus Christ” (1978 do album “Third/Sister Lovers”)

Gorky’s Zygotic Mynci – “Christmas Eve” (1999 do album “Spanish Dance Troupe”)

Lou Reed – “Xmas In February” (1993 do album “New York”)

Okkervil River – “Listening To Otis Redding At Home During Christmas” (2002 do album “Don't Fall in Love with Everyone You See”)

Palace Songs – “Christmastime In The Mountains” (1994 do EP “Hope”)

The Fall – “Christmas with Simon” (1990 lado B do single “High Tension Line”)

The Flaming Lips – “Christmas at the Zoo” (1995 do album “Clouds Taste Metallic”)

The Pogues – “Fairytale of New York” (1987 do album “If I Should Fall from Grace with God”)

Tom Waits – “Christmas Card From A Hooker In Minneapolis” (1978 do album “Blue Valentine”)

19 dezembro 2007

The Autumns - “Fake Noise From A Box Of Toys” (2007 Bella Union)

O quarto disco do quarteto americano, mostra-nos uma banda que amadureceu em termos de ambição e na capacidade de produzir brilhantes e detalhadas canções.
É verdade que as influências do “Shoegazer” ainda estão lá (mas já não são tão evidentes), que a voz de Matt Kelly é comparável com o “falsetto” de Jeff Buckley ou Thom Yorke, que o disco pode ser mais acessível que os trabalhos anteriores, e que ao longo do mesmo denotam-se variadas influências, mas que os The Autumns assimilam e transportam para peças musicais originais, alternando constantemente entre momentos mais fortes e rápidos, e outros mais lentos e de delicada beleza, sempre com a secção rítmica a comandar e a conduzir os destinos.
Dos momentos altos do disco destacam-se a triologia: “Night Music” que é um momento verdadeiramente mágico, com uma fantástica prestação vocal de Kelly; “Killer in Drag” e o seu contagiante refrão, e “Only Young” com uma melodia antífona.
Mas ainda temos “Boys”, acessível, mas com uma fantástica melodia, apoiada nas magistrais guitarras, o rock vicioso de “Adelaide”, e as inesperadas alternâncias rítmicas de “Glass Jaw”.
Quando chegamos a fim, estamos emaranhados na música.
A edição/distribuição perto do fim do ano, poderá fazer com que o disco passe despercebido, o que é lamentável, pois estamos perante um grande e resoluto disco.

17 dezembro 2007

Singles # 11 -Sugarhill Gang – “Rapper’s Delight” (1979 Sugarhill)

“Rapper’s Delight” foi o primeiro grande sucesso do hip-hop/ rap, e permitiu ao movimento ganhar uma dimensão mundial.
Reza a história que Sylvia Robinson (veterana cantora, produtora e editora musical, que iria criar a editora Sugarhill) ouviu que na Bronx, em Nova Iorque, estava a surgir uma forma musical que utilizava o rap sobre colagens instrumentais. O rap já existia como forma musical há uma década desde que pioneiros como os Last Poets começaram a utilizá-lo.
Pensando que poderia tirar proveito desta nova forma musical, juntou um trio de desconhecidos, e utilizando uma base rítmica baseada numa parte de “Good Times” dos Chic, criou uma canção que cativou os ouvidos dos habitantes nova-iorquinos que reclamaram por mais.
Eram 15 minutos (só foi editado na versão 12”) que apresentaram uma mensagem positiva, onde encorajavam as pessoas a dançar e a afastar-se das drogas. As suas mensagens sempre foram de carácter social, ao contrário da maioria do hip-hop actual, cujas referências líricas são bem diferentes.
Criariam mais sucessos como “8th Wonder, e serão para sempre recordados como pioneiros da “old school”.
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11 dezembro 2007

Rock # 2 - The Sonics - “Here Are The Sonics!!!” (1965 Etiquette/Norton)

Se muitas das bandas de “garage-rock” dos anos 60, tendiam a soar similares, o som dos The Sonics era totalmente diferente.
Criaram um som novo, intenso, selvagem, através de composições básicas, e ao combinarem os gritos histéricos de Gerry Roslie, o som forte das enérgicas guitarras de Larry Parypa, da intensa e violenta bateria de Bob Bennett, em conjunto com uma produção intencionalmente tosca, com uma rudimentar qualidade sonora. Era puro e genuíno “rock’n’roll”.
Para a história deixaram-nos clássicos como os originais “Psycho”, “The Witch”, “Boss Hog” ou “Strychnine”, e versões insanas de clássicos de R&B.
A introdução de “The Witch”, com o seu característico órgão, é uma referência do movimento “garage-rock”. E “Psycho” ainda hoje continua brutal e psicótico.
Como eram originários de Tacoma, que geograficamente era próximo de Seattle, e como também era localizado no estado de Washington na zona Noroeste do Pacifico são muitas vezes referenciados como precursores do “grunge”, mas é muito mais evidente a influência que esta banda teve nos movimentos “proto-punk” e “punk”, e que ainda hoje têm em todas as “garage-bands” actuais.
Bandas como The Stooges, Ramones The Cramps, The Gories, Jon Spencer Blues Explosion ou White Stripes, devem ter escutado este disco várias vezes.

Editaram ainda “Boom” (1966 Etiquette), que apesar de ser um disco interessante e de ter tido um inesperado relativo sucesso comercial, já não é tão fascinante e não causa o mesmo impacto. Neste disco, para além de “Shot Down” e “He’s Waitin’, destaco somente uma magnífica versão de “Louie Louie”.

07 dezembro 2007

Classic # 10 - Jane’s Addiction - “Ritual De Lo Habitual” (1990 Warner Bros.)

A combinação singular da estridente e cortante voz de Perry Farrell, dos ritmos tribais de Stephen Perkins, do ressonante e melódico baixo de Eric Avery e dos espantosos atributos técnicos de Dave Navarro, permitiram criar uma música psicadélica, esquizofrénica, repleta de “funk” e com um carácter etéreo.
Em 1988 com o surpreendente “Nothing’s Shocking”, já tinham conseguido abalar a indiferente indústria musical. E para mim, a banda ainda se conseguiu superar, pois considero “Ritual…” musicalmente mais interessante e desafiante que “Nothing’s…”, pois assumiram mais riscos ao criarem uma alucinatória viagem sonora.
Com “Ritual De Lo Habitual” apresentam-nos mais nove exuberantes temas, ao nível do melhor que já tinham feito, mas ainda adicionaram a agradável habilidade da canção “pop”.
O disco pode dividir-se em dois lados distintos.
De um lado estão as canções mais “rock”, as mais enérgicas, que com as suas batidas rítmicas e o irromper das explosivas guitarras tornaram “Stop!” (com a subversiva introdução em Espanhol), “No One’s Leaving”, “Ain’t No Right” e “Been Caught Stealing” (uma gracejante paródia) apropriadas para a rádio e a MTV. Enquanto do outro temos as canções mais “calmas”, as mais experimentais e diversificadas, como a belíssima “Classic Girl”, “Then She Did…” e a épica obra-prima de 12 minutos que é “Three Days”, composta por cinco distintas secções, que contemplam guitarras acústicas, secções de cordas, até aos desenfreados solos de bateria e guitarra que conduzem a canção ao seu grandioso final, e que deram aos fãs algo para devorar e idolatrar.
“Ritual…” é simultaneamente suculento, estimulante e sarcástico, mas também intenso e teatral.
Quem sabe, se não tivesse existido um disco, editado no ano seguinte, de nome “Nevermind”, e este talvez não fosse considerado como o exponente do rock moderno.

29 novembro 2007

Passos para o Futuro

Burial - “Untrue” (2007 Hyperdub)

Pinch - “Underwater Dancehall” (2007 Tectonic)

Em 2007, o “dubstep” é provavelmente um dos géneros que mais destaque está a merecer pela imprensa musical mundial, e em especial a britânica, de onde é originário.
E se nesta fase poderíamos ter atingido um limite criativo, eis que surgem dois registos que os permitem olhar para o futuro com esperança.

De Bristol, chega-nos um disco que enriquece a definição de “dubstep”, ao conseguir conjugar o som mais pesado proveniente de Londres, com o som mais emotivo da escola clássica de Bristol (Wild Bunch/Massive Attack).
É um disco ambicioso, ao introduzir vocalizações num género reconhecivelmente instrumental, mas mantendo a pureza do mesmo. Assim temos dois discos por onde se dividem os temas – um é vocalizado, o outro instrumental.
Desde o tema de abertura, “Brighter Day, que mistura elegantes batidas com vocalizações de base “dancehall”, passando pelas estruturas minimais de “Airlock”, as influências “reggae” em “One Blood, One Source”, até ao futuro clássico que certamente será “Get Up”, com uma maravilhosa voz sobre os difusos ritmos. O disco termina em grande com os complexos ritmos atmosféricos de “Lazarus”.
O disco de Pinch é único e excepcional, sendo um dos melhores álbuns de música electrónica que tive oportunidade de ouvir este ano.

Sobre “Untrue”, o segundo registo de Burial, que está a ser considerado como um dos melhores discos do ano, já muito foi dito. Apenas posso acrescentar que o poder deste disco reside em si mesmo.
E se o disco de estreia foi uma revelação, este é uma confirmação. E parece que existe, em relação a esse primeiro disco, uma regressão controlada que contrasta com uma progressão desorientada.
A influência do “soul” é evidente nas canções, mas o som corrosivo mantém-se, sendo arcaico e decrépito nalguns casos, alienado e sombrio noutros. O resultado final é magnífico. A simetria e a distinção sonora sobressaem num disco que marcará uma época.

26 novembro 2007

Rock # 1 - The Cramps - “Songs The Lord Taught Us” (1980 I.R.S.)

Apesar de existirem desde 1976 (no apogeu do “punk”), quando este disco apareceu em 1980, o universo musical estava em mudança. O “punk” tinha-se fragmentado e espalhado por géneros como o Gótico, o Industrial e a “new-wave”. E surgiu também o movimento que foi designado por “Psychobilly”/”Rockabilly” – uma mistura de surf rock, psicadelismo e garage-rock dos anos 60. Não me recordo de mais nenhuma banda que tenha popularizado da mesma forma este género (ex: os Stray Cats eram muito puros). Apesar de não se poderem considerar uma banda “punk”, tinham mais atitude do que a maioria devido à sua intratável imagem e inclassificável sonoridade.
Eram compostos por Lux Interior que gritava e uivava de uma forma louca, e era uma mistura entre Elvis Presley e Vincent Price, por Ivy Rorschach que tocava guitarra de uma forma ordinária mas eficaz, dentro do espírito do “rockabilly”/“garage-rock”, por Bryan Gregory, que era obcecado pelo oculto, é era um monstro do feedback, e por Nick Knox, impassível atrás dos seus óculos escuros e da sua batida primitiva.
O seu disco de estreia, gravado nos estúdios de Sam Phillips em Memphis e produzido pelo lendário Alex Chilton dos Big Star, estava no seu estado bruto o que o tornava tão excitante.
A combinação da poderosa voz, das guitarras e da pulsante bateria, juntava-se às misteriosas letras (referências à lobisomens, horríveis assassinatos, atmosfera “b-movie”, etc) que perturbavam a conservadora sociedade americana, para criarem canções eternas.
A guitarra minimalista e a voz gorgolejante de Lux Interior na contagiante “Garbageman”, cuja simplicidade lírica dá-lhe uma sensibilidade “pop”, “T.V. Set” que é verdadeiramente doentia e repulsiva, “Zombie Dance” que é perfeita para uma festa de “Halloween”, “I Was A Teenage Werewolf” que representa toda a estética dos Cramps, “Tear It Up” que é a perfeita síntese do “rockabilly” e “garage- punk”, ou a sóbria versão de “Strychnine”, que tal como o original, é uma paródia às festas nas praias durante os anos sessenta.
Outra versão fantástica é a do clássico “Fever”, transformado numa espécie de hino fúnebre, que encerra de uma forma deliciosamente subversiva o álbum.
Um divertido e bizarro espectáculo de aberrações.

22 novembro 2007

Singles # 10 - The Normal - “Warm Leatherette/T.V.O.D.” (1978 Mute)

Não se deixem enganar pelo nome, isto é tudo menos música “normal”.
Reza a história que Daniel Miller, um ex-punk, fã de “krautrock”, adquiriu, em segunda mão, um sintetizador Korg e um gravador de 4 faixas, e começou a experimentar com os sons criados. Compôs e gravou dois temas no seu quarto, que resolveu editar em single, por conta própria ao criar a etiqueta Mute Records, tendo recorredo à distribuição da Rough Trade.
O suposto lado A, “Warm Leatherette” é inspirado na novela de JG Ballard, “Crash” (a mesma que foi posteriormente adaptada ao cinema por David Cronenberg), e aborda os fetiches sexuais relacionados com acidentes de viação. A rígida caixa de ritmos e o som sibilante dos sintetizadores, ajudam ao conteúdo. (Grace Jones iria realizar uma excelente versão).
Mas seria o lado B, que iria ser mais apreciado, “T.V.O.D.” que observa a dependência e saturação dos “media”, e em particular da televisão. Um extraordinário “cocktail” sonoro, que inclui “samples” de excertos de programas de TV, sons electrónicos adulantes e “noise”, reminiscente do que os Cabaret Voltaire faziam na mesma altura.
“I don’t need a TV screen”, diz.
É hoje referenciada como um marco no desenvolvimento do “post-punk” e da “new-wave”.
Miller apenas editou este disco e dedicou-se a promover a Mute, e os seus primeiros artistas, como Fad Gadget ou D.A.F.

19 novembro 2007

Inovadores # 4 - Wire – 1977-1979

“Pink Flag” (1977 Harvest)
“Chairs Missing” (1978 Harvest)
“154” (1979 Harvest)



Ainda em actividade, devido a inúmeras reformações, os Wire são muitas vezes referenciados como um dos grupos mais importantes dos 70 e 80, devido à sua reputação pelas experimentações sonoras.
O período entre 1977 e 1979 será recordado como o mais interessante e criativo.
Nos seus três primeiros discos expandiram as fronteiras sonoras, não só do “punk”, mas do “rock” em geral.
Existiu uma constante evolução sonora, desde o estilo áspero de “Pink Flag” (1977), até ao som mais complexo e estruturado de “Chairs Missing” (1978) e “154” (1979).
Devido ao seu amplamente detalhado e atmosférico som, às letras de cariz político, e a abordagem de temas obscuros, foram catalogados com o “post-punk”.
Superficialmente “Pink Flag”, é um disco “punk”, mas pegou no minimalismo do “punk”, e transportou-o para outro patamar, criando um som puro e concentrado.
Todas as canções são curtas e directas, mas que nos deixam sem alento. “12XU”, “Lowdown”, “Three Girl Rhumba” possuem “riffs” sedutores, enérgicos e monocórdicos.
“Chairs Missing” distancia-se do disco de estreia, ao introduzirem teclados e efeitos sonoros, e por possuir composições mais longas, menos “punk” e musicalmente mais rebuscadas. Destaco “Outdoor Miner”, a hilariante “I Am The Fly”, mas também a épica “Mercy”.
“154” é ainda mais diferente dos anteriores, mais produzido, e ainda mais pensativo. Como se fosse uma versão mais lúcida e elaborada de “Pink Flag”. Nas favoritas incluem-se as contagiantes melodias de “The 15th” “Map Ref. 41N, 93W” e “A Touching Display”.
É notável como ainda hoje estes álbuns se mantém tonificantes e fundamentais.
E tiveram uma enorme influência nas décadas seguintes, ao serem referenciados por bandas tão distintas como R.E.M., Hüsker Dü. ou Minor Threat, entre outros.

16 novembro 2007

Do fundo da prateleira # 6 - Flying Saucer Attack – “Flying Saucer Attack” (1993 VHF Records)

O título alternativo do disco de estreia dos FSA (também conhecido como “Rural Psychedelic”), já diz praticamente tudo.
Claramente inspirados pelos My Bloody Valentine e pelos místicos “krautrockers” Popol Vuh, mas sem possuírem a qualidade de equipamentos e estúdios dos mesmos, os FSA contudo aspiraram ao som denso e envolvente dos MBV.
Iriam ser responsáveis por influenciar inúmeras bandas “shoegazer” a tornarem-se “stargazer” com as suas suaves guitarras e melodias melancólicas. Eram originários de Bristol, de onde surgiram, entre outros, os Third Eye Foundation e Movietone.
O que poderia soar ou parecer a um tipo de engano, é realmente uma elaboradamente estruturada nova expressão musical. Uma combinação singular de melodia e som, cujo objectivo parece ser a exploração de novas regiões e paisagens sonoras.
A produção “lo-fi” realça a aspereza das canções. E nas vocalizações existe um esforço de fazer com que as palavras fluam tranquilamente com a música.
Mas se temas como “My Dreaming Hill” ou “Wish” evocam claramente os MBV, os FSA tentar afastar-se desse território, ao aventurarem-se também no “free-jazz” em “Moonset” ou na pura experimentação ambiental em “Still”.
Ecos dos FSA podem ser descortinados nos trabalhos dos Bardo Pond ou dos Godspeed You Black Emperor.
Um disco fundamental da “dream pop” dos anos 90.

13 novembro 2007

Singles # 9 - New Order – “Blue Monday” (1983 Factory)

Muito se poderia dizer sobre “Blue Monday”, um dos grandes singles da história da música de dança. É provavelmente o mais importante e influente das últimas 3 décadas. O outro disco de dança que se aproxima em termos de originalidade e influência será a colaboração entre Giorgio Moroder e Donna Summer na criação de “I Feel Love”.
Neste caso, como no de Moroder/Summer, esqueçam as inúmeras remixes que apareceram posteriormente, a versão original de sete minutos e meio é que personifica a perfeição sonora alcançada pelos ex-Joy Division. Os sintetizadores juntamente com o baixo poderoso de Peter Hook criam um irresistivel e contagiante ritmo mecânico.
A capa do disco também ficou celebre por não mencionar nem o nome do grupo nem da canção, apenas um conjunto de pequenos quadrados coloridos que representavam um tipo de código criado pelos designers da Factory, e que seria continuado no álbum subsequente “Power, Corruption & Lies”.

Video

09 novembro 2007

White Williams – “Smoke” (2007 Tigerbeat 6)

Quando ouvi o single “New Violence”, apaixonei-me pelo violentamente irresistível baixo “motorik” que caracteriza a canção.
Descobrir tratar-se de um projecto de Joe Williams, que apesar de apenas só ter 23 anos, já é um veterano da música underground de Cleveland.
“Smoke” é o seu primeiro álbum, e o resultado é um disco ambíguo e incómodo de “synth pop” (grande influência dos anos 80), curiosamente editado na Tigerbeat 6, uma editora mais conhecida pelos seus projectos mais hiper-enérgicos, como Kid 606 ou DJ/Rupture.
Estamos perante canções brilhantemente contagiantes, com uma rica e delicada índole, baseadas essencialmente nos sintetizadores retro e na voz graciosa de Williams.
Para além de “New Violence”, destacam-se os refrescantes “Smoke” e “Going Down” (poderosas guitarras), o adorável “Fleetwood Crack!” ou a incoerente versão de “I Want Candy” dos Bow Wow Wow (lembram-se deles…)
Só existe um requisito inicial, ignorem a capa que é horrível, e de seguida deixem-se levar pelos irresistíveis ritmos aos quais não conseguimos ficar indiferentes.

06 novembro 2007

Inovadores # 3 - A Certain Ratio – “Sextet” (1982 Factory)

Felizmente, devido ao esforço da Soul Jazz, em reeditar, a obra dos A Certain Ratio, a banda de Manchester poderá criar novos admiradores.
E se a mesma Soul Jazz, já promoveu os nova-iorquinos Liquid Liquid e ESG, pioneiros do “punk-funk”. Em Inglaterra (para além dos Gang of Four e dos The Pop Group, já aqui referidos anteriormente), ninguém foi tão inovador como os ACR.
O seu terceiro disco “Sextet” é provavelmente o mais conseguido de um conjunto de excelentes registos.
Se no anterior “To Each” (1981), ao misturarem a obscuridade dos Joy Division com o “funk” criaram um disco excelente e extremamente diferente do que se fazia na altura, em “Sextet” (um disco estruturalmente mais forte que o anterior) adoptaram um som mais límpido e uma palete musical mais abrangente, ao recorrerem às extensas experiências rítmicas aqui presentes.
Assim, é brilhante a forma como criaram uma mistura de ritmos étnicos, que acompanha o sincopado baixo, a alternância do trompete de Martin Moscrop, as guitarras ambientais (mas com contundentes “riffs”), e imensas, imensas percussões.
Existe ao longo do disco um sentido de beleza e serenidade, mas também de ameaça. Ouçam a magnífica melodia propulsiva de “Lucinda” (com a espantosa voz de Martha Tilson), a energia contagiante de “Skipscada”, ou os maravilhosos ritmos arrepiantes de “Knife Slits Water”.
É certamente um dos discos mais sofisticados lançados pela Factory.

02 novembro 2007

Singles # 8 - Buzzcocks – “Ever Fallen In Love…” (1978 United Artists)

Já sem Howard Devoto, Pete Shelley criou aqui uma provocativa canção. Fugia das referências sexuais de “Orgasm Addict”, e das anárquicas de “Boredom”.
Um “riff” de guitarra poderoso, e uma história de paixão, com um memorável refrão, que foge ao normais “clichés” do “pop”, cantada na fria e desapaixonada voz de Shelley.
Os Buzzcocks faziam um espécie de pop-“punk”, melódico, contagiante, bastante diferente dos ritmos frenéticos do movimento “punk”, e criaram alguns dos melhores singles da história.
É uma das canções que mais versões deve ter tido, realizada por gente tão diversa como os Fine Young Cannibals ou Pete Yorn.

31 outubro 2007

Live @ Trintaeum - Faze Action Dj Set - Simon Lee

Hoje à noite...

Reza a história… dois irmãos, um autodidacta, influenciado pelo “funk” e “house”, outro pelo “rare groove”, criaram uma mistura de raiz “disco” com ritmos africanos, latinos e puro “jazz-funk”, que dá aos temas uma sensação puramente orgânica, “live”.

Faze Action - "In The Trees" (Carl Craig Remix) 12" (2007 Juno)

A remistura que tranfigura e expande o original...
responsabilidade Carl Craig



Faze Action - "In The Trees" 12" (1996 Nuphonic)

O original que se tornou num clássico.

29 outubro 2007

The Sea And Cake – “One Bedroom” (2003 Thrill Jockey)

Ao longo dos anos, o grupo “pós-rock” de Chicago, sempre se manteve fiel ao seu rumo.
Composto pelas guitarras e vocalizações aspiradas de Sam Prekop, pelo baixo de Eric Claridge, pela complexa percussão de John McEntire e pela guitarra tensa de Archer Prewitt, os S&C, insistem na mesma mestria ao longo da sua carreira.
O seu sexto disco, “One Bedroom” (que para mim será o mais conseguido), por um lado relembra a pop cintilante das bandas da Postcard, por outro as influencias “motorik” dos Stereolab. A voz suave, mas elevada de Prekop combina com o som “jazzy” criado pela banda, que ao introduzir sintetizadores retro, uma complexa electrónica, e o serpentear das guitarras, cria um som atenuante, mas perfeitamente melódico.
Provavelmente menos “jazzy” do que por exemplo “Oui”, é no entanto mais definido.
“Four Corners” e “Left Side Clouded” são do melhor que produziram, sedativos e melancólicos, com o tilintar das guitarras e um rude, mas melódico baixo, superiormente quebrados pela distorção. O ritmado “Hotel Tell” utiliza os atributos de programação de McEntire, nos sóbrios, mas irresistíveis batimentos da caixa de ritmos.
O destaque do álbum é a perfeita versão de “Sound And Vision” de David Bowie. Exuberantes arranjos estruturadamente ricos em detalhes são perfeitos para o agridoce logro de Bowie.
Ao longo do disco, encontramos uma música delicada e perfeita. Em contraste com a aparente casualidade das letras, a música é perfeitamente esculpida à volta das vozes. A produção é tão delicada e os arranjos tão bem trabalhados e cheios de detalhe que é impossível não ficar-mos totalmente seduzidos por este elegante e descerrado disco.

Hoje - 23H00 - O Meu Mercedes é Maior que o Teu

24 outubro 2007

My Favorites # 5 - P.J. Harvey – “Rid of Me” (1993 Island)

O disco de estreia de PJH, “Dry”, já tinha a marca arrojada de uma genuína cantora-compositora que aparentemente não tinha medo de nada.
Para “Rid of Me”, PJH e a sua banda (Rob Ellis e Steve Vaughan) resolveram trabalhar em Minneapolis, com Steve Albini, que elevou a barreira sonora do disco anterior, ao torná-lo mais áspero e abrasivo, fazendo com que cada corda de guitarra e cada batida do címbalo criem no ouvinte uma sensação arrepiante.
A influência assumida das dinâmicas “noise” dos Pixies, com a do “garage-rock” dos anos 60, faz com que na palete sonora de “Rid of Me”, se encontrem “rock” puro (“50 Foot Queenie”, “Snake”), confissões de dor (“Missed”, “Legs”), arranjos clássicos (“Man-Size Sextet”), e também uma versão de “Highway 61 Revisited” que violentamente transporta Bob Dylan para a década de 90.
Em cada palavra, cada nota, cada batida, estão presentes as emoções cruas e tumultuosas, as provocações que encarnou, sempre cheias de negrume. PJH não foge dos assuntos, não está com meias medidas, quando expressa a sua raiva e a sua sexualidade (é arrebatadora a forma como ela canta “Lick my Legs, I’m on Fire” em “Rid of Me”).
Escutar “Rid of Me” é uma experiência única, e as armas que PHJ utiliza são primárias: a sua versátil e devastadora voz, a guitarra ácida, e uma fantástica secção rítmica.

22 outubro 2007

Band of Horses – “Cease to Begin” (2007 Sub Pop)

O segundo álbum do grupo de Seattle é mais um grande conjunto de canções que reforça a qualidade de compositor de Ben Bridwell, que agora está sozinho, depois da partida de Matt Brooke.
E com uma mudança geográfica ocorrida para a gravação deste disco, o som também sofreu alterações, denotando-se que o tentaram expandir. Tudo parece mais grandioso. As guitarras, a bateria, as vozes.
Apesar disso, o tema que abre o disco, o grande “Is There a Ghost”, demonstra que o som típico dos BOH está presente, ao evoluir dentro da canção, do estilo acústico de Neil Young, para a explosão de distorção bem ao estilo “rock” de uns My Morning Jacket. E no meio desses ruídos sonoros, aquela magnífica voz continua presente, sempre em destaque, elevando a canção ao nível do sublime.
A parir daqui, e apesar de “Cease To Begin” ser um disco de raiz Americana, canções de base “country” como a enérgica “The General Specific” ficam com um ar solene, e outras tipicamente rock como “Lamb on the Lam (In the City)”, “Cigarettes, Wedding Blues” (uma das melhoras aqui presentes) ou “Marry Song”, mexem com o disco.
E fecha de uma forma perfeita com o “country-blues” redentores de “Window Blues”.
O disco fala-nos de amor, morte, pequenas cidades, vizinhos, e também de um ex-jogador da NBA. “Detlef Schrempf”, dedicado ao ex-jogador oriundo da Alemanha, apesar de estranha, é emocionalmente gentil.
Um álbum arriscado, musicalmente, mas que verá o seu esforço recompensado ao figurar nos mais interessantes discos de rock do ano.

18 outubro 2007

Singles # 7 - The Gist – “Love At First Sight” (1981 Rough Trade)

Após o fim dos Young Marble Giants, Stuart Moxham e o seu irmão Philip criaram os The Gist, que seriam basicamente um projecto de estúdio, onde continuaram a explorar a pop minimalista que caracterizava o som dos YMG. Em alguns temas do álbum que se seguiu (“Embrance the Herd” (1983 Rough Trade), introduziram um pouco mais de electrónica, resultando um disco multifacetado.
Aqui criaram uma cativante e contagiante canção. Um pequeno tesouro, com uma mensagem facilmente perceptível e evocativo das nossas paixões.
Sempre que a ouço, para além das boas recordações que traz, fica sempre um bem-estar presente no espírito.
Uma pérola pop.

15 outubro 2007

Classic # 9 - Television – “Marquee Moon” (1977 Elektra)

Companheiros de Patti Smith, e posteriormente dos Ramones, Talking Heads e Blondie no lendário clube nova-iorquino CBGB, os Television foram um dos grupos mais importantes da pré-história do punk-rock e pós-punk. (e de toda a história do “rock” propriamente dito).
A formação original incluía o baixista Richard Hell, que patenteou o “look” punk, muito antes dos Sex Pistols, e o líder Tom Miller, assumiu como novo “apelido” o do poeta simbolista francês. Assim as credenciais eram perfeitas, o problema era que os Television não tocavam punk-rock. Seria mais um “psychedelic jazz punk”? O que quer que fosse, era diferente e original.
Seriam, na minha opinião, o primeiro grupo identificado com o movimento “punk” que realmente criaria algo novo e original, quer ao nível técnico quer ao nível estético.
O disco inicia com o hipnotizante “See No Evil”, passa pelo dramático “Elevation”, com as suas constantes paragens e arranques, e fecha com um longo lamento, que sugere futuras direcções na sinistra, mas profética “Torn Curtain”.
O som do grupo está perfeitamente registado no tema que dá título ao álbum, o épico “Marquee Moon”, com o “staccato” penetrante, sinistro, complexo e labiríntico, cria um super-sofisticado poema sonoro, apoiado na frágil voz de Verlaine. Musica para o corpo e mente.
O virtuosismo instrumental do grupo é evidente na forma perfeita como contrastam as guitarras gémeas – Verlaine, (temperamental e improvisador), Richard Lloyd, (controlado, preciso & denso) – encaixam completamente, enquanto as influências jazz e a sensibilidade melódica iluminam a forma sincopada de tocar do baterista Billy Ficca e do baixista Fred Smith.
Introspectivo, “Marquee Moon”, é um marco de criatividade, de coerência, e de consistência.

11 outubro 2007

Yesterdays New Quintet – “Yesterdays Universe” (2007 Stones Throw)

Possivelmente este será o melhor disco dos YNQ, onde Otis Jackson Jr., ou melhor, Madlib, prova que é um dos mais imaginativos músicos/produtores da actualidade, pela forma brilhante como ao assimilar o imenso leque de conhecimentos/influências cria verdadeiras obras-primas.
Este último disco é uma “pseudo-compilação” criada pelos vários membros da banda, que aparecem disfarçados em curiosos alter-egos.
Uma salutar colisão entre o passado e o futuro, onde teclados Rhodes e “turntablism”, “vibes” e “beats”, fazem mais do que recriar um estilo de música. É a passagem de testemunho do som “mellow jazz funk” praticado nos anos 70 por editoras como a CTI, para o século XXI, o nível seguinte.
Madlib cria um “cocktail” musical completamente distinto, ao fundir electro-jazz, funk, swing, e até hip-hop, na forma como aborda clássicos como “Bitches Brew” de Miles Davis, ou os vários originais presentes.
O resultado é um disco sem comparação, que agrupa neste registo vários capítulos da história da música afro-americana.
Só o futuro dirá se estamos na presença de um visionário do nível de John Coltrane, Miles Davis ou Herbie Hancock.

08 outubro 2007

Singles # 6 - M/A/R/R/S – “Pump Up The Volume” (1987 4AD)

Uma colaboração proposta por Ivo Watts-Russell, líder da 4AD, iria criar um dos discos mais importante da história da música de dança, e do “sampling” em particular. Acabou por ser um êxito global, tendo sido re-editada por mais de dez vezes, e proporcionou à 4AD um sucesso inesperado.
Consistiu na junção de duas bandas que na altura faziam parte do catálogo da casa: A.R. Kane e Colourbox (o nome é composição das iniciais dos nomes dos envolvidos), com os DJ’s Dave Dorrell e C.J. Macintosh (responsáveis pela selecção dos “samplers”, pelos “scratchs” e efeitos sonoros).
Importante seria o trabalho destes últimos ao realizarem a mistura principal, utilizando cerca de 250 samples para o efeito, com a base principal de “Pump Up The Volume” a ser retirada de "I Know You Got Soul" de Eric B & Rakim. Incluía ainda outros extractos de faixas como “Say Kids, What Time Is It?” dos Coldcut, “Im Nin'Alu" de Ofra Haza, ou “Funky Drummer” de James Brown. Mas também incluía 3 segundos “samplados” de “Roadblock” dos Stock Aitken & Waterman, que não foram “legalizados” para uso, e que criou problemas na edição do disco, e nos consequentes “royalties”.
Na altura foi fundamental ao providenciar a ligação entre o som “retro” do “rare groove” com a nova corrente de música baseada em “samplers” oriunda dos Estudos Unidos.

16 setembro 2007

Classic # 8 - Massive Attack – “Blue Lines” (1991 Circa)

Na minha opinião, 1991 foi um ano muito importante para a música. Só nesse ano surgiram álbuns influenciais como “Nevermind”, “Loveless” ou “Screamadelica” (só para enumerar três).
Surgiu também o álbum de estreia de um colectivo de Bristol, que com a fusão da electrónica com o “dub”, o “rap” e o “hip-hop”, iria introduzir os ritmos do “trip-hop” ao mundo, e definir padrões musicais para as décadas seguintes. Mas mesmo que ignoremos a sua importância histórica, é na mesma um clássico.
A visão e criatividade dos vários elementos que participam no disco, permitiu criar uma sensação natural, orgânica, uma verdadeira banda-sonora urbana, ao transformar os elementos citadinos em sons.
O álbum começa de uma forma magistral com “Safe From Harm”, canção padrão do “trip-hop”: vozes “soul”, “rap”, “beats” indistintos, com um poderoso baixo samplado de Billy Cobham/ Mahavishnu Orchestra. Ritmos sonâmbulos que ia contra a corrente “tecno” do inicio da década.
Todas as músicas/canções estão no seu lugar correcto, permitindo ao disco fluir uniformemente, e algumas vezes sem respirar (de “Blue Lines” para “Be Thankful For What You Got”), permitindo uma total absorção do corpo e mente nos sons sedutores do baixo “dub”.
É uma fantástica e variada viagem desde o “dub” de “Five Man Army” com o delicado “falsetto” da lenda reggae Horace Andy, passando pelo arrasador “Unfinished Sympathy”, com os seus elegantes arranjos sinfónicos, por “Daydreaming”, com a grande voz de Shara Nelson, os “beats dub” e um ambiente “soul”, até chegar a “Hymn Of The Big Wheel” que desliza até ao fim do disco, e a nossa vontade é pedir por mais.
Simplesmente essencial.

13 setembro 2007

Nina Nastasia & Jim White – “You Follow Me” (2007 Fat Cat)

Desde “The Blackened Air” (2002), passando pelo meu favorito - “Run to Ruin” (2003), até “On Leaving” (2006), a carreira de Nina Nastasia tem sido impressionante.
Agora, e apesar de Jim White já colaborar com ela há vários anos, Nina resolveu gravou um disco admirável a meias com o baterista dos Dirty Three.
A magnificamente suave, mas resoluta voz de Nina, é mais um instrumento a juntar à guitarra e bateria, conseguindo através das várias canções, todos os tons que procura emocionalmente.
Mas a surpresa é o notável trabalho realizado por White na bateria, com mudanças bruscas de compasso e explosões sonoras (realçadas na forma magistral como Steve Albini captura os sons criados), que conferem a cada canção um carácter único.
E esse trabalho serve de base para Nina explorar novos territórios, que tornam as suas canções ainda mais originais. E funciona tão bem que perguntamos porque é ninguém tentou anteriormente uma abordagem semelhante.
As canções abordam o desejo pela pessoa amada. Desencontros e desilusões afectivas.
Ouçam o assombroso “I’ve Been Out Walking”, o doce e hipnotizante “Our Discussion”, o revoltado “Late Night”, e “The Day Would Bury You” uma das mais emocionantes canções do disco.
Um disco incrivelmente reconfortante, que glorifica a vontade de experimentar.

10 setembro 2007

Singles # 5 - The Smiths – “How Soon Is Now?” (1985 Rough Trade)

Será sem dúvidas a canção mais famosa dos Smiths (aqui foi-o) que no entanto surgiu primeiro em 1984 como o lado B do single "William, It Was Really Nothing".
“How Soon Is Now?” é uma das canções mais “rock” da banda, com uma sonoridade única, na forma como entrelaça as longas partes instrumentais (inesquecível aquele riff/vibrato de guitarra) com as sublimes partes vocais de Morrissey.
A letra é das mais introspectivas que Morrissey escreveu, treatricamente amarga.
Esta seria a base do som dos Smiths: as melodias de Johnny Marr e as letras de Morrissey, histórias de desilusão, desamor e inadequação aos tempos modernos.
Os Smiths gravaram várias obras-primas, mas nenhuma tão perene como esta.
Um hino da música alternativa dos anos 80.

Video

07 setembro 2007

Do fundo da prateleira # 5 - Field Mice – “For Keeps” (1991 Sarah Records)

Os Field Mice eram os cabeça de cartaz da pequena independente Sarah Records.
Tiveram uma carreira curta, e após a edição de alguns singles e dois bons mini-albuns, editaram o seu único álbum de originais, “For Keeps”.
Faziam uma música sofisticada que podemos classificar de indie-pop, mas que é preenchida pelas mais diversificadas influências que vamos deslumbramos ao longo do disco, como o psicadelismo dos anos 60 ou o som típico da Factory do início dos anos 80. E assim criaram uma sonoridade única, que permitiu que se conseguissem afastar das diversas tendências que despertaram no início dos anos 90.
Eram canções simples, que abordavam temas como amor, desânimo, esperança, e cantadas na emotiva voz de Robert Wratten, ou em dueto com Annemarie Davis.
Como minha favorita tenho o épico “This Is Not Here” (recordações de outros tempos).
Uma verdadeira obra-prima perdida.

05 setembro 2007

Liars – “Liars” (2007 Mute)

Após o conceptual “Drum’s Not Dead” e ao quarto disco, os Liars tiveram uma aproximação mais tradicional aos formatos típicos de canção.
As combinações rítmicas são menos complexas, no entanto estes ainda são os Liars cujas credenciais conhecemos, e de quem aprendemos a esperar o inesperado.
Se as experimentações de “Drum’s Not Dead” continuam presentes, a estrutura está mais próxima da canção pop-rock, mas com uma criatividade e variedade incomparáveis.
Senão vejamos: “Plaster Casts of Everything” parte de um único “riff” e cresce em intensidade de uma forma “drone-rock”. O minimalismo synth- funk de “Houseclouds”, transforma-a numa das melhores canções que ouvi este ano. O sónico “Leather Prowler” relembra os Sonic Youth, com muito “echo” e “delay”. “Freak Out” é bubblegum pop. “Cycle Time” é uma canção perdida de “Psychocandy”. Em “Clear Island” evocam o glam-rock e em “Pure Unevil” o “shoegazing”. E em “Protection”, uma balada sobre a infância, temos um órgão eclesiástico que realça o tema em questão.
Continua a ser um disco difícil de catalogar, que ao longo de cada passagem vamos descobrindo algo que não detectamos previamente, permitindo que cada audição seja tão excitante como a primeira.
Um disco mais acessível do que os anteriores, no entanto é corajoso e ousado numa época em que arriscar pode ser um risco, mas como Angus Andrews canta no sedativo “Sailing to Byzantium”: “It’s time to wake these dumb fucks up”.

04 setembro 2007

Mudd – “Claremont 56” (2007 Rong)

O verão merece discos assim. E este disco (que é tão criativo que se torna difícil de catalogar), acompanhou-me no último mês em diversas viagens, e devido à sua refrescante beleza rítmica, ajudou-me a esquecer o pouco sol que temos tido.
Trata-se de um projecto de Paul N. Murphy (este dos Akwaaba e não o dos Soul Drummers), onde a diversidade de influências são evidentes (soul, funk, disco e house), e acabam por enriquecer o disco.
E ao contrário de muita música que actualmente surge em compilações “ambient”/“chill-out”, esta é música electrónica quente e melódica, tratam-se de canções com alma (ouçam “Mount Pleasant Lane”).
Como destaques, ouçam ainda o ambiente refrescante de “C40”, o ritmo funky disco de “Drop Lane”, e o magnífico e irresistível exercício que é “54B”.
Reminiscente do som “nu-disco” que caracterizou o disco de estreia de Lindstrom & Prins Thomas, também podemos classificar as sonoridades de “balearic”, e talvez sejam mesmo essas sonoridades ambientais que me atraem neste disco, ideal para uma “late-night-session” até amanhecer.

30 agosto 2007

Tony Allen – “Black Voices” (1999 Comet)

Aproveitando mais uma visita deste percussionista, por muitos considerado um dos melhores de sempre...

Se devemos relembrar o seu trabalho como líder do grupo que acompanhou Fela Kuti nos seus anos mais produtivos (1969-79), também devemos referir o seu notável trabalho a solo muitas vezes menosprezado.
Para mim um dos melhores registos é este “Black Voices”, um regresso em força após uma década pouco produtiva.
O disco foi gravado em Paris com uma produção minimalista de Doctor L. O resultado é um conjunto estrutural de composições, onde intensos ritmos Afrobeat, rodeados por guitarras, teclados “wah-wah”, e um poderoso e enérgico baixo, apoiados nas vozes (negras e claustrofóbicas) dos veteranos do P-Funk, Mike “Clip” Payne e Gary “Mudbone” Cooper, nos proporcionam uma crescente viagem psicadélica que nos deixa intoxicados.
O seu som continua inovador e experimental, e onde a improvisação serve de complemento às estruturas rítmicas predefinidas, abrindo novos rumos, ao combinar o afro-beat com o dub, e com a electrónica.

Hoje 22H15
Festival Músicas do Mar - Póvoa de Varzim

29 agosto 2007

My Bloody Valentine Reuniting?

Será verdade....

Via DS - But now some tantalizing hints have emerged in the past few weeks that suggest the band is finally gearing up for a return to action. In July, several fans reported encounters with Shields at Primal Scream and Dinosaur Jr. shows in England, Ireland, and Russia, each returning with the same story: that Shields very matter-of-factly spoke of My Bloody Valentine in the very present tense. The fans reported Shields said that two new My Bloody Valentine releases are in the works – an anthology of unreleased 90s material and an album of brand new studio recordings – along with the imminent release of remastered versions of the band’s original studio work. He is also reported as saying, on several different occasions, that a 2008 tour is in the works that will feature the band’s original lineup. Furthermore, in an interview published earlier this year in Magnet magazine, Shields was adamant about the band’s return: “We are 100% going to make another My Bloody Valentine record unless we die or something,” he said.

28 agosto 2007

Singles # 4 - Blur – “There’s No Other Way” (1991 Food)

Após escutar o charme inocente de “She’s So High”, o primeiro single dos londrinos, Stephen Street interessou-se pela banda, e como resultado surgiu “There’s No Other Way”, o primeiro resultado de uma longa colaboração entre ambos.
O segundo single dos Blur é bastante diferente do trabalho futuramente realizado pela banda, está mais próximo da “indie-dance” do final dos anos 80 do que do “brit-pop”, apesar que a melodia me relembra os R.E.M. em “Stand”.
Estávamos numa altura em que a banda ainda não tinha de se preocupar em ser porta-estandarte de uma geração.
Após a edição, no mesmo ano, do álbum de estreia “Leisure”, os Blur iriam reinventar-se e os frutos surgiriam um ano depois com o lançamento de “Popscene”.
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23 agosto 2007

Seefeel – “Quique” (1993 Too Pure)

Apesar de terem assinado posteriormente trabalhos na Warp e na Rephlex, seria no seu disco de estreia
- o meu favorito - que os Seefeel, realizaram provavelmente o trabalho mais conceptual do grupo, e onde se denota uma maior sinergia entre os diversos membros.
Assim criaram uma mistura de hipnóticas texturas analógicas com efeitos de guitarras “Shoegazing” (influência clara My Bloody Valentine) My Bloody Valentine) e as luxuriantes angélicas vozes femininas.
O disco agrupa de uma forma completamente única diversas influências distintas, às vezes de uma forma experimental, outras de uma forma estética.
É difícil escolher um destaque porque o disco funciona como um todo.
Ouçam os três temas iniciais: “Climactic Phase #3” com os seus ritmos simples, e as imensas ondas de sintetizadores, seguida de “Polyfusion” que adorna o “feedback”, com densas camadas sonoras e a bela e incompreensível voz de Sarah Peacock, e “Industrious”, mais uma vez com a voz a estremecer etereamente sobre uma poderosa batida rítmica; e constatem como ao juntarem as possibilidades oferecidas pela electrónica com um trabalho de guitarra e baixo poderoso e sensual, criaram algo verdadeiramente diferente.
Se os Cocteau Twins tivessem integrado mais sintetizadores e caixas de ritmos talvez soassem assim.
Um clássico “indie-electronica” de um grupo que teve uma curta carreira, está agora disponível numa “Redux Edition” de 2 CD’s com mais 9 temas do que a edição original (o costume: B-Sides e remixes). Se ainda não o possuem, aproveitam, pois nos restantes discos nunca mais capturaram a criatividade aqui presente.
Um sedativo de atmosferas digitais.

13 agosto 2007

Extremos # 1 - Naked City – “Naked City” (1989 Nonesuch/Elektra)

Um dos discos que mais me surpreendeu aquando da sua edição em 1989. As primeiras audições foram brutalmente surpreendente, pois do pouco que conhecia do trabalho de Zorn (essencialmente “The Big Gundown”) não esperava nada disto.
Trata-se de um estimulante projecto do multifacetado saxofonista John Zorn, acompanhado pela fina-flor dos músicos nova-iorquinos: Bill Frisell, Fred Frith, Wayne Horvitz, Joey Baron; e com a colaboração do vocalista Yamatsuka Eye dos Boredoms, cujo objectivo inicial era testar os limites da composição e da improvisação com uma banda de rock tradicional.
Dessa forma a música presente no disco incorpora elementos tão diversos como o free-jazz ou o punk-rock.
Assim o disco inclui uma notável reinterpretação de “Lonely Woman” de Ornette Coleman, alucinantes versões de temas de filmes clássicos como “The James Bond Theme”, “Chinatown” ou “A Shot In the Dark”, e inclusive puros exercícios de hardcore-rock, próprios para fãs dos Napalm Death ou Carcass (com quem chegaram a partilhar os palcos), como em “Speedball” ou “N.Y. Flat Top Box”, onde Yamatsuka Eye parece estar possuído.
No entanto a maioria dos temas são imprevisíveis originais, onde são evidentes também as qualidades de compositor de Zorn, que se destacam em “Saigon Pick-Up”, onde vão variando de estilo e “tempos”, mas conseguem-se manter perfeitamente consistentes.
Totalmente diferente do seu trabalho posterior com o projecto Masada, não é um disco para ouvidos e corações frágeis. Excitante, mas assustador.

10 agosto 2007

Singles # 3 - Altered Images – “Don’t Talk To Me About Love” (1983 Epic)

Estes escoceses já tinham editado um single - “Happy Birthday” (podia ser uma escolha) - que os tinha tornado num dos grupos independentes mais populares do início dos anos 80.
Entretanto a banda amadureceu e os frutos estão presentes no álbum “Bite”, o terceiro da sua carreira.
Fundamental para esse desenvolvimento sonoro foi a contratação do produtor Mike Chapman (que produziu “Heart Of Glass” dos Blondie), para a produção do álbum, que continha “Don’t Talk To Me About Love”.
A canção soa tão fresca hoje como quando foi editada.
Atinge o auge da verdadeira expressão artística, liricamente é tão dolorosa como encantadora. E a voz de Clare Grogan, soa voluptuosamente polida.
Infelizmente, actualmente não são muito relembrados, o que é estranho quando ouvimos um dos melhores singles indie-pop de sempre.
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08 agosto 2007

Patrick Cleandenim – “Baby Comes Home” (2007 Ba Da Bing!)

Após o sucesso obtido no ano transacto com o disco de estreia dos Beirut, esta pequena editora parece ter encontrado outro potencial sucessor para o ano corrente, com o disco de estreia do nova-iorquino Cleandenim.
O disco contém uma enorme quantidade de influências, evidentes nos trabalhados arranjos que são um testemunho das suas capacidades de criador de clássicos pop, baseados nos seus conhecimentos enciclopédicos que incluem desde o trabalho inicial de Scott Walker, até às “big bands orchestras” e o swing dos anos 50, passando pelo 60’s beat, pela Motown, e a grandiosidade cinemática que percorre permanentemente o disco.
E se estas influências podem funcionar como homenagens, o disco não está preso ao passado, e tem a capacidade de o recriar. Ouçam “Whispers Only Hurt Them”, com a dualidade entre o piano e o órgão Rhodes e a voz ligeiramente distorcida, que refrega de outro modo uma serena canção.
Com um retro “vibes”, onde “Days Without Rain”, é um perfeito exemplo, com o omnipresente piano suportado pelas maravilhosas investidas da secção de cordas, que a transforma numa canção brilhante ao ponto de poder desafiar Rufus Wainwright.
E como podemos resistir a canções com títulos como “Caviar & Cognac”(outro destaque patetamente elegante).
É um disco ambicioso, a música é super-melódica, com sofisticados arranjos de cordas, e um sofisticado trabalho vocal. Uma das grandes surpresas de 2007.
Um episódio da era dourada do pop revitalizado no século 21.

03 agosto 2007

Classic # 7 - Slint – “Spiderland” (1991 Touch and Go)

Dezasseis anos após a sua primeira edição, “Spiderland”, não perdeu nenhum do seu encanto.
É difícil explicar o impacto que este disco teve, porque paradoxalmente, não soa como nada que surgiu antes ou depois da sua edição.
Para mim o parente mais próximo será o trabalho desenvolvido pelos Tortoise e outras bandas “post-rock” onde estiveram envolvidos os antigos membros dos Slint, nomeadamente o projecto posteriormente desenvolvido por Brian McMahan, os The For Carnation. No entanto ”Spiderland” é no essencial música “rock”, mas com um sentido de mistério que escapa totalmente à maioria das “bandas rock”.
Renunciando completamente a tradicional estrutura da canção:”versos-refrão-versos”, os Slint (Brian McMahan, David Pajo, Britt Walford e Todd Brashear) criaram e estratificaram composições densas e atmosféricas, com dinâmicas diversificadas, mas acessíveis ao mesmo tempo.
O seu encanto reside no facto da sua brutalidade ser “brutalmente” subtil.
Uma música poderosamente enérgica e dramática, notória na intensidade das épicas canções.
E reza a história que as gravações foram tão intensas que vários membros da banda tiveram de receber apoio psiquiátrico.
Como exemplo e destaque óbvio, “Good Morning Captain”, a melhor canção do disco, sete minutos e meio estranhamente “assustadores”, que através dos suspiros de Brian McMahan, complementadas pelas guitarras incendiarias em fundo e o ritmo tribal da bateria, evolui até atingir o seu êxtase, quando a canção explode e liberta aquele grito arrepiante “I Miss You”. Aquele momento é um dos mais emotivos pedaços de música que alguma vez ouvi.
É um final extraordinário para um disco extraordinário.

01 agosto 2007

Singles # 2 - Saint Etienne – “Only Love Can Break Your Heart” (1990 Heavenly)

Surgiram do nada com uma versão fantástica do original de Neil Young, e com o nome inspirado na famosa equipa francesa de futebol dos anos 70.
Pegaram no rústico original e transformaram-no numa excelente canção “pop” para a geração pós-rave, com uma batida irresistível, um crescendo de piano e um baixo orquestralmente mecânico, dando-lhe uma nova e impensável revisão.
Na altura sem vocalista definida, utilizaram Moira Lambert, que ao não acrescentar muita emoção na performance, acabou por favorecer a canção.
A mesma tornar-se-ia um clássico “chill-out” devido à excelente remistura realizada pelo mágico Andrew Weatherall, “mix of two halves” presente na versão 12” e na posterior re-edição em CD.
Como muito do trabalho inicial do St. Etienne (“Nothing Can Stop Us”; “Filthy”; Join Our Club"), “Only Love Can Break Your Heart”, é fortemente evocativo de uma época, o verão do início dos anos 90.

PS – Para os curiosos o original está no “After The Gold Rush”, e também é uma excelente canção, dentro do seu género.

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