31 março 2008

My Favorites # 8 - Moondog Jr. - “Everyday I Wear A Greasy Black Feather On My Hat” (1995 Island)

Apesar de ainda pertencer aos dEUS na altura da edição deste disco, Stef Kamil Carlens já tinha tido as suas experiências nos Kiss My Jazz, e parecia querer definitivamente afastar-se do rumo que Tom Barman pretendia para os dEUS. E essencialmente queria poder gravar as suas composições, e não perder tempo a “lutar” com as composições dos outros membros dos DEUS.
Com a colaboração de vários músicos conhecidos da enérgica cidade de Antuérpia, criou um projecto que iria abordar um som mais “americano”, pois as influências da cultura e música americana são evidentes. O facto do disco ter sido co-produzido pelo competente Michael Blair, conhecido pelo seu trabalho com Tom Waits, e as evidentes semelhanças com o trabalho deste último, aqui presentes, reforçam esse facto (“Cachita” é um excelente exemplo).
O disco é extremamente rico ao nível musical, com variadas fontes: “rock”, “blues”, “country”, “jazz”; que interligadas dão origem a um som original.
As canções como é apanágio em Carlens são extremamente emocionais, intensas, melancólicas.
Destaco algumas das minhas favoritas: “Jintro & The Great Luna”, “Shall I Let This Good Man In” ou “The Ricochet”.
Após a edição do disco teriam problemas legais por causa do nome Moondog, e iriam altera-lo para Zita Swoon. O culto, esse continuaria.

27 março 2008

The Kills – “Midnight Boom” (2008 Domino)

Ao terceiro disco os The Kills continuam a sua visão única de como deve ser o “rock”: tenso, minimal e excitante.
E se pudéssemos pensar que com a contribuição do produtor dos Spank Rock, Armani XXXchange (vulgo Alex Epton), iria existir uma radical mudança sonora, foi puro engano, pois ainda despojaram o seu som para uma forma ainda mais rude e áspera. É certo que existe um ar de modernidade e experimentação, ouçam o alegremente destrutivo “M.E.X.I.C.O.I.C.U.” ou o persistente “Sour Cherry”. E é obvio que também melhoraram os arranjos, mesmo quando só temos bateria, baixo e a disseminada voz, que combinam na perfeição, como no hipnótico “Getting Down”. Ou no delicado momento acústico de “Goodnight Bad Morning”.
Um disco sensual, onde a química e a mística existente entre o duo, não se alterou nem um pouco, e que poderá não alterar a opinião que muitas pessoas têm sobre os mesmos, pois eles não procuram alterar os princípios que firmemente seguem desde o início. Mas certamente poderá ultrapassar os anteriores, pois para quem foi seduzido pelo seu intoxicante charme no passado, é melhor que esteja preparado para se entregarem novamente.

24 março 2008

Drive-By Truckers – “Brighter Than Creation’s Dark” (2008 New West)

Podemos afirmar que “Brighter Than Creation’s Dark”, o seu sétimo disco, inclui algumas das melhores canções dos talentosos Drive-By Truckers.
A saída do guitarrista e compositor Jason Isbell da banda não se notou, pois foi bem compensada pelas composições adicionadas por Shonna Tucker (inclui a impressionante bela “The Purgatory Line”), (e pela integração do veterano Spooner Oldham), que aqui se junta aos principais compositores, Patterson Hood e Mike Cooley, e que mantendo-se em territórios que já nos são familiares, nos relatam histórias únicas como o retrato da desagregação familiar em “Daddy Needs A Drink”, a preocupação da mãe e da mulher que aguarda pelo regresso do seu homem da guerra, em “Goode’s Field Road”. Mas também nos surpreendendo com a divertida crónica de um individuo muito singular em “Bob”.
“Two Daughters and a Beautiful Wife”, “The Righteous Path” e “That Man I Shot”, são absolutamente extraordinários, relatam as negras histórias ocorridas nas pequenas cidades do Sul dos Estados Unidos. E tudo isto transcende para a música, pois tudo aqui soa tão sumptuoso e exuberante.
Um extensivo disco que contem tudo aquilo a que nos habituamos a gostar nos Drive-By Truckers.

13 março 2008

Ebay # 2 - Echospace – “The Coldest Season” (2007 Modern Love)

Este disco é um facilitador, pois reúne quatro 12 polegadas lançados em 2007 por este projecto, que é uma colaboração entre Rod Modell dos Deepchord e Steve Hitchell dos Soultek, que aqui criaram um disco de “ambient dub-techno” reminiscente do som da Basic Channel dos anos 90.
Utilizando uma variedade de equipamentos analógicos, criaram uma atmosfera musical única, um som verdadeiramente autêntico e esplendoroso.
Não sendo um disco muito experimental ou diversificado, pois nunca foge muito do género pretendido, é no entanto extremamente coeso, pois não existe nenhum momento de menor inspiração.
O tema de abertura, “First Point Of Aries”, é um dos melhores do disco, e um perfeito exemplo do som produzido. Começa com um som sibilante contínuo até que uma dissimulada linha de baixo e uma cintilante melodia surgem introduzindo uma enorme e poderosa batida.
Os restantes temas apresentam igualmente magníficas texturas sonoras, que convidam a uma “degustação” contínua desta visionária aventura.
É completamente envolvente, e sem dúvidas um disco indispensável para fãs de música electrónica ambiental.
£1.85

10 março 2008

Classic # 13 - Pavement – “Slanted and Enchanted” (1992 Matador)

O som “lo-fi” impreciso dos Pavement tornou-se numa identidade “indie”, e foi roubado por praticamente todas as bandas que se formaram na sequência de “Slanted and Enchanted”.
Quando este disco surgiu, era inovador e revolucionário, restabeleceu o “indie-rock” numa altura em que grupos como os Nirvana estavam a levar um som mais “limpo” e homogeneizado às massas. Pelo contrário, o som de “Slanted and Enchanted” é “sujo” e “gasto”.
Infalivelmente outras bandas já tinham praticado o “basement rock” antes dos Pavement, mas ninguém antes deles tinha conseguido transformar uma graduação universitária e uma vasta colecção de discos numa estética e mitologia pessoal.
Não seguiam as fórmulas “rock” “standard”, deixavam as guitarras fazer o que queriam, as letras são intencionalmente absurdas e as vocalizações são casuais, muitas vezes desconexas, algumas vezes cantadas outras simplesmente faladas.
A paixão de Stephen Malkmus por trocadilhos (“Zurich Is Stained”, “Fame Throwa”), combinado com um grande sentido de afinação, expressão e melodia, fizeram dele um dos mais interessantes vocalistas do “indie-rock”.
Canções como “Trigger Cut, “Summer Babe”, “Two States” ou “In The Mouth a Desert” são arrebatadoras ao máximo, do tipo de não nos saírem da cabeça o dia todo, e não conseguirmos parar de sussurrar.
No fundo, “Slanted and Enchanted” é um produto do seu tempo – o som de um grupo de miúdos irreverentes que queriam divertir-se e fazer música. Nunca pretendeu ser um clássico.

06 março 2008

Atlas Sound - “Let the Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel” (2008 Kranky)

Um projecto paralelo do prolífero e provocativo Bradford Cox dos Deerhunter, que tenta afasta-se do “noise-rock” claustrofóbico que caracteriza a sua banda. Recolhido em sua casa, criou no seu portátil, uma junção entre electrónica ambiental e melodias”pop”, que resultam numa complexa combinação de sons (na sua maioria inclassificáveis e intrigantes), que tentam retratar os pequenos dramas emocionais da adolescência que carrega.
O disco começa excelentemente com “A Ghost Story” com o “sampler” da criança a narrar uma história assustadora, e se o álbum parece querer continuar nesse território sombrio em faixas como “Cold As Ice” ou “Small Horror”, dando a impressão de se tratar de um disco capaz de assustar e paralisar o ouvinte, não é disso que se trata.
Neste diversificado disco temos composições abstractas como a agitada “On Guard” ou “Winter Vacation” (com a camuflada batida “techno”), e “indie-rock” (mas reinventado) em “Quarantined” ou no exuberante “River Card” (é incrível a percussão). No hipnótico “Recent Bedroom” relembram os My Bloody Valentine, com as suas guitarras “noise”.
O disco inclui ainda “Scraping Past” que contém um inteligente encadeamento da maravilhosamente controlada voz de Cox, com uma saltitante linha de baixo, e que resulta numa bela experiência transversal.
Este disco, que provavelmente suplementa tudo o que Cox criou anteriormente, é sombrio, melancólico e calmante, no entanto completamente reconfortante

Atlas Sound - River Card

05 março 2008

Singles # 13 - Bauhaus - “Bela Lugosi’s Dead” (1979 Small Wonder)

Diz-se que esta canção marcou o início e definiu as elaboradas fantasias cimérias do rock gótico.
Gravado na pequena editora Small Wonder, o primeiro single da banda originária de Northampton, é uma dedicatória ao ícone actor de série B, Bela Lugosi, que se tornaria conhecia pela sua interpretação no filme “Dracula”, realizado em 1931 por Tod Browning, provavelmente ainda hoje o melhor.
Eram dez minutos que criavam uma atmosfera de tensão, resultantes da combinação da voz “cavernosa” de Peter Murphy, apoiada no baixo de David J, na bateria repetitiva de Kevin Haskins e nos sons minimalistas criados pela guitarra de Daniel Ash.
E a canção termina de uma forma magistral com Murphy repetindo “Undead, Undead, Undead…” que parece evocar e reforçar a eternidade dos mitos de Dracula e Lugosi.
Em 1983, a aparição dos Bauhaus no início do filme “The Hunger” de Tony Scott, com David Bowie e Catherine Deneuve, é um prelúdio absolutamente propício para o ambiente soturno que caracteriza a discoteca onde decorre essa primeira cena. E com Murphy a demonstrar porque era (é) um dos melhores “performers” musicais, na forma como interage com a câmara.
A seguir veio “In The Flat Field”.
_
Video

03 março 2008

My Favorites # 7 - The Afghan Whigs - “Gentlemen” (1993 Sub Pop/Elektra)

“Gentlemen”, para além de provavelmente ser o ponto mais alto da carreira dos The Afghan Whigs, é portador de uma dúbia distinção: é sem dúvidas o disco mais negro dos anos 90.
Greg Dulli e os seus rapazes, gravaram um disco impecável: um pesaroso, vingativo holocausto romântico, que audaciosamente infunde todas as cruas emoções da música “soul” dos anos 60, com as tumultosas guitarras do rock moderno.
Mas só um testamento assim tão corajoso e verdadeiro, poderia pronunciar com clareza toda a perturbação emocional presente nestas canções, impressionantemente belas como a sublime e penosa “Be Sweet”.
Como outras favoritas temos “Debonair”, e o papel disfuncional que ocupamos nas nossa relações, “What Jail Is Like” uma poderosa descrição do que é estar preso entre culpa e prazer visceral, e esse hino ao desejo e ao vício que é “Fountain and Fairfax”.
“Gentlemen” é um mapa misterioso para os caminhos baldios dos corações despedaçados. – e sangra brilhantemente.

28 fevereiro 2008

Ebay # 1 - Vários - “After Dark” (2007 Italians Do It Better)

Foi uma das revelações do ano transacto, mas o que é certo é que este disco, numa primeira abordagem parecia não prometer muito. Pois o que no papel poderia soar como algo de verdadeiramente intragável acabaria por se tornar num disco que é equivalente a um magnífico DJ set, pois é extremamente coesivo.
Inicialmente, o disco seria uma amostra com o objectivo de promover a editora americana Italians Do It Better e que colectava faixas soltas, demos, “remixes” e “covers”.
Estes artistas pegaram no som retro do “Italo-disco”, com os seus sintetizadores analógicos e as mais básicas caixa de ritmos, e conseguiram transporta-lo para o futuro.
Estamos perante um tipo de “slow-techno”, seria “synth-pop” se os ritmos não parecessem “desinteressados” em acompanhar a música.
Dos originais destacam-se temas que agora são bem conhecidos como: Chromatics - “In the City”; Professor Genius - “Pegaso”; Farah - “Law of Life”, mas ouçam o que os Glass Candy fazem de “Computer Love” dos Kraftwerk, ou a florescente “remix” que Mirage faz ao clássico “Last Night a Dj Saved My Life” dos Indeep.
Música de dança voluptuosa bem ao gosto de Giorgio Moroder.
£1.99

26 fevereiro 2008

Xiu Xiu - “Women as Lovers” (2008 Kill Rock Stars)

Um regresso excelente do prolífero grupo de Jamie Stewart, após o conceptual “Air Force”. Parece que a expansão dos elementos que o acompanham resultou em seu favor, pois se em discos anteriores o som padecia um pouco por confiarem em demasia nos sequenciadores MIDI, em “Women as Lovers” produzem um som mais rico e mais variado (apesar de continuar agreste), pois as canções diferem bastante umas das outras. Continuam a revelar uma surpreendente criatividade, e a encontrar maneiras de escapar a qualquer catalogação. Mas também nos presenteiam com alguns temas dos mais acessíveis que já criaram, como a claustrofóbica “I Do What I Want, When I Want”, uma canção francamente “pop” ou “In Lust You Can Hear The Axe Fall”.
Como de costume as letras são directas e muitas vezes chocantes, continuando com a abordagem de temas insólitos e dispares como o terrorismo, a transsexualidade, a violência doméstica ou o recrutamento de crianças para a guerra.
A colaboração de Michael Gira, numa surpreendentemente e eficaz versão de “Under Pressure”, originalmente gravada por David Bowie e os Queen, é uma escolha apropriada e um dos destaques do disco. Curiosamente a partir desta faixa, parece que o disco toma outro rumo, pois os temas são mais obscuros e experimentais, como que revisitando terrenos musicais já explorados em discos anteriores.
“Women as Lovers” é uma consolidação das diferentes matérias musicais e líricas que tem obcecado Stewart.
_

22 fevereiro 2008

Arca de Tesouros: ebay

Há medida que os anos passam, a descoberta musical aumenta, e o orçamento para a aquisição das peças que sustentam esse enriquecimento não estica o suficiente.
Antigamente, e durante muito anos era na feira da vandoma que conseguíamos encontrar alguns discos a preços acessíveis que permitiam contrabalançar as aquisições mais recentes em lojas como as já extintas Tubitek e Bimotor, ou na Carbono e Piranha. E agora, é verdade que ainda temos a Louie Louie ou a Lost Underground, mas o Ebay é cada vez mais uma fonte de pesquisa e descoberta.
Foi há cerca de 5 anos que comecei a procurar discos no Ebay e posso dizer que já realizei mais de 400 transacções, de todo um pouco, desde os CD’s mais recentes, até aos 7” mais antigos, mas sempre nunca gastando mais de 2/3 euros por artigo. Pois o gozo é esse mesmo, descobrir pequenos tesouros perdidos, colocados à venda por pessoas que também estão a vender bonecos, roupa, revistas antigas ou chupetas, pois lojas virtuais a vender raridades e edições especiais a preços impeditivos é o que mais existe na Net.

Vou partilhar aqui algumas dessas aquisições.

18 fevereiro 2008

Inovadores # 8 - Melvins – “Bullhead” (1991 Boner)

Os Melvins sempre gostaram de baralhar a indústria musical, e ao longo dos anos, variaram entre estilos como noise, punk, metal ou stoner rock.
Será difícil ficarem na história do “rock”, mas podem ficar com uma nota de rodapé no capítulo dedicado aos Nirvana, por dois motivos: a passagem do baterista Dale Crover pela banda de Kurt Cobain, e pelo facto de terem criado uma versão descarnada, arrastada e psicótica do metal original dos Black Sabbath, ajudando a conceber o que mais tarde viria a ser apelidado de grunge.
O terceiro disco dos Melvins, “Bullhead”, é maravilhosamente grotesco, onde o grupo criou uma completa desordem naquilo que o “rock’n’roll” é suposto ser.
Aqui criaram uma densa superfície de fúria metálica forjada numa orgia de “feedback” em conjunto com uma pura e absoluta demência.
O disco começa abrasivamente com “Boris”, nove minutos de “riffs” de guitarra maciçamente repetitivos, e o magnifico trabalho realizado na bateria por Dale Crover, que torna impossível conseguimos acompanhar o ritmo.
“Anaconda” e “Ligature”, “Zodiac” seguem o mesmo brilhante caminho. Os ritmos são diminuídos até ao excruciar da morosidade.
O disco fecha com “Cow”, um dos melhores solos de bateria que já ouvi. Apesar de Dale Crover não ser um tecnicista, ele parece estar em lamúria sobre a bateria.
“Bullhead” é um exercício de resistência, completamente implacável na sua existência com a acessibilidade.

15 fevereiro 2008

Tributo # 4 - Roky Erickson/ 13th Floor Elevators

Felizmente o êxito do filme “Alta Fidelidade”, despertou o interesse para uma das bandas mais incrivelmente infelizes da história do “rock”, e em especial o seu co-líder, o genial visionário Roky Erickson.
São hoje considerados pioneiros, por terem sido uma das primeiras bandas a ter um som “psicadélico” e também percursores do garage-rock.
Originário de Austin, no Texas, Roky foi desde muito novo, fortemente influenciado para a música pela sua mãe, que era cantora. E cedo demonstrou um grande talento. Mal atingiu os 18 anos decidiu que iria formar uma banda. Após uma primeira experiência sem grande continuidade, conheceu Tommy Hall, um viciado em acídos que era bastante mais velho do que Roky, e que iria exercer uma influência muito forte sobre si, e assim decidiram criar uma banda (existe a história de que uma Janis Joplin iria ser a vocalista, mas receando que o seu envolvimento no grupo pudesse criar uma relação com drogas mais duras, preferiu recusar e ingressar no Big Brother and the Holding Company, e o resto da história já é conhecida, o que não deixa de ser irónico, se considerar-mos o percurso de drogas e a consequente morte daí originada de Joplin).
Adoptaram a designação 13th Floor Elevators, e lançaram em 1966 o primeiro single, “You’re Gonna Miss Me” (composto por Erickson), que obteve um sucesso razoável, e atraíram o interesse da Internacional Artists que iria editar o seu disco de estreia, “The Psychedelic Sounds of The13th Floor Elevators”. Este disco é hoje considerado um clássico, e contém “RollerCoaster” ou “Fire Engine”. O som “garage- psicadélico” que criaram assenta numa produção rudimentar que contrastava com o que era usual na altura, com vocalizações primárias, e imensas referências a experiências místicas e alucinações de drogas.
Problemas com a policia derivados pela divulgação e suporte do consumo de LSD e marijuana, que a banda propagava, fizeram com que os elementos que componham a secção rítmica saíssem da banda e já com uma nova formação iriam gravar o disco seguinte “Easter Everywhere”, editado em 1967, que apesar de manter o som hipnótico da banda, era mais elaborado. Contém grandes temas como “Earthquake” ou “I Had to Tell You”, para além de uma versão de “It´s All Over Now, Baby Blue” de Bob Dylan, e de “Slip Inside This House” popularizado na década de 90 pelos Primal Scream.
Novamente problemas relacionados com a droga, colocaram a polícia na rota da banda. E Roky acabou preso em 1969 por encontrarem na sua posse um cigarro de marijuana. Para evitar ir para a prisão, declarou insanidade mental. Como resultado passou três anos num hospital psiquiátrico, diagnosticado como esquizofrénico, e cujo ortodoxo tratamento era baseado em choques eléctricos e numa forte medicação.
Durante esses anos a editora lançaria dois discos (um ao vivo e outro com sobras de estúdio) mas que nada acrescentariam, e a banda acabou por se desfazer.
Quando Roky saiu do hospital, estava num estado mental lastimável. Ainda continuou a compor e chegou a editar alguns discos. Alguns nem interessa mencionar, outros apesar de serem bizarros exercícios, são brilhantes como o seu disco de 1980, “Roky Erickson & The Aliens”.
Em 1982, desapareceu sem rasto, tendo sido reencontrado na década de 90 a mendigar pelas ruas.
E partir daí alguns fãs célebres como os ZZ Top (também Texanos), R.E.M. ou Henry Rollins, começaram a citar o seu nome como uma influência. Muitos desses fãs reuniram-se e editaram um disco de tributo com versões de canções suas. E outros como King Coffey, convidaram Erickson a gravar novamente discos de originais.
Roky recuperou a alegria da vida, e hoje está a viver confortavelmente e com saúde, continuando a tocar esporadicamente.
Por tudo isto, é hoje uma figura de culto, um sobrevivente, que se tornou uma verdadeira lenda.

13 fevereiro 2008

Silje Nes - “Ames Room” (2007 Fat Cat)

A Fat Cat descobriu mais uma sublime e cativante artista.
Esta multi-instrumentista norueguesa decididamente vai buscar a sua inspiração criativa à dramática vastidão natural do seu país. As letras sugerem uma artista imersa no ambiente que a rodeia.
Ouçam as referências a lagos, sapos, e abelhas presentes no tema de abertura, “Over All”, que apesar de poderem sugerir um ambiente infantil, são complementadas por um instinto poético e um arrojado engenho musical.
A música de Silje combina um mundo de uma frágil beleza e intriga caleidoscópica. Existe uma apaixonante nostalgia presente neste “electro-folk”, que sustenta o espírito da experimentação.
Num momento ouvimos xilofones e guitarras acústicas, noutro temos resplandecente electrónica e manipulações de voz. Talvez pelo facto de ter demorado três anos a gravar este disco, seja evidente a presença de tantas influências diversas.
A esplêndida “Drown”, com uma guitarra assombrosa, desolada, o único acompanhamento de uma bela voz, melódica e dolorosamente frágil. “Bright Night Morning” é uma balada rústica, com Silje a aparentemente num estado de exaustão. “Ames Room” é uma canção de embalar “pop”, numa melodia delicadamente silenciosa (relembrou-me Stina Nordenstam), já “Giant Disguise” é um crescendo hipnótico.
Em “Ames Room”, Silje amplifica sons que são miniaturas, de uma forma que as canções parecem estoirar como meteoritos ao atingir o solo.

Silje Nes - Drown

11 fevereiro 2008

Kanye West and Daft Punk - Stronger (live @ Grammys 08)

Party time...

Classic # 12 - Portishead - “Dummy” (1994 Go! Discs)

Se Beth Gibbons e Geoff Barrow andavam a planear o que seria “Dummy” há mais de um ano, o guitarrista Adrian Utley andava a compor banda-sonoras privadas há muito mais tempo. E seriam as bandas-sonoras que os iria juntar, pois Barrow adorava “samplar” velhas bandas-sonoras para os seus sets de “dj”. E numa dessas sessões conheceu Utley, tendo-o convidado a partilhar e reforçar sonoramente o projecto que inicialmente resultava na partilha de outra das suas paixões – o “hip-hop” - que Barrow estendia sobre as paisagens sonoras criadas, com uma sedutora cadência, esmigalhadas pela delicadamente sombria voz de Gibbons.
“Dummy” é um disco intemporal, que alterna de tom, de dilacerantemente sombrio, até lamentável, até levemente optimista. Está encharcado em melancolia e depressão, ajustada à música. As canções são simples e evocativas, mas substanciais.
A tensa delicadeza de “Sour Times” (“nobody loves me, it’s true” - tornou-se numa das expressões da década), ainda hoje é relevante. E juntamente com “Numb”, “It Could Be Sweet” e “Glory Box”, foram declarados como fundadores de uma nova revolução sonora, denominada trip-hop.
O disco inclui outros destaques, como o espectral e relaxante “Mysterons”, o delicado “Roads” ou o agressivo “Wandering Star”. O disco arrasta o ouvinte para um abismo aveludado.
Os teclados Rhodes e o órgão Hammond são o núcleo do insinuantemente sublime som, adicionando um sentido épico à maioria das canções. Simultaneamente, os flexíveis acordes de guitarra e a percussão “jazzy” dão-lhe um ar terreno.
Muitos estilos musicais estão implícitos no disco (rock, soul, hip-hop, jazz, electrónica, música clássica), no entanto mantendo-o consistente e agonizantemente belo, e por isso mesmo, hoje a sua influência é tão notória e relevante.

08 fevereiro 2008

Extremos # 2 - The Ex – “Starters Alternators” (1998 Touch And Go)

Ao longo de mais de 25 anos de carreira, os The Ex raramente não foram exemplares na forma anárquica e explosiva que abordaram a música. Sempre procuraram novas formas de atormentar a música através das ferramentas base do “rock”: guitarras, baixo, bateria e vozes; com uma elasticidade suficiente para conter a fonte de vida que é o seu “noise”.
Eles praticam as suas autónomas crenças através de canções que colocam em primeiro plano todas as parcelas constituintes.
Aqui Steve Albini coreografa o caos de “Starters-Alternators” permitindo que o ruído não degenere em incoerência. Porque é um princípio e uma forma de orgulho para os The Ex desnaturar as vozes e desafinar os seus instrumentos, de forma que nenhum som brilhe ou seja ofuscada pelos outros. No mesmo espírito, as canções normalmente renunciam a lógica - versos, refrão, versos - por palavras lançadas de uma forma impetuosa e deturpada.
Estamos na presença de um som verdadeiramente glorioso quando se atinge o momento em todos os membros da banda colidem as suas ruidosas trajectórias de guitarras e percussão, e arremessam uma energia de cada um. Durante esses momentos culminantes eles conseguem ser tão excitantes como o foram os Sonic Youth nos anos 80.

06 fevereiro 2008

Bonnie “Prince” Billy - “Ask Forgiveness” (2007 Domino)

Quando não está empenhado em editar, sobre os seus vários pseudónimos, os magníficos álbuns que concebe, Will Oldham, ocupa os intervalos aventurando-se noutros projectos como o foram a colaboração com Matt Sweeney e o anterior disco de versões realizado a meias com os Tortoise.
Regressa agora com um mini-lp de versões, que poderá não ser tão diversificado como o realizado com os Tortoise, pois pode ser mais acessível, mas que não deixa de ter momentos sublimes, pois Oldham tem a habilidade de transformar praticamente tudo o que toca em pungentes canções “folk”, independentemente de as letras originais perderem toda a sua intenção inicial.
Com a ajuda de Meg Baird nas vozes e guitarra acústica, Greg Weeks na guitarra eléctrica (ambos são membros dos Espers) e ainda ocasionalmente por Maggie Wienk no violoncelo, cria uma cintilante combinação entre vozes e guitarras que circulam de um lado para o outro em perfeita harmonia, e que, no fim, fazem com que cada canção se torna sua.
Algumas interpretações são arrebatadoras, nomeadamente as menos improváveis e mais esperadas, como “World’s Greatest” de R. Kelly, ou “Am I Demon?” de Danzig, onde Oldham inverte a impudência ao fazer que a suposta “greatness” esteja ao alcance de qualquer um, na primeira, ou na forma como adopta o tom sombrio na segunda. Mas também o é a tocante e incrivelmente triste “I’ve Seen It All” de Björk, onde Oldham nunca tentar copiar ou imitar a mesma, sendo provavelmente por isso que esta e as restantes canções resultam tão bem. Ouçam como “My Life” de Phil Ochs ganha uma nova vida na melódica versão de Oldham.
Para além das versões inclui um grande original – “Loving The Street”.
São estes grandes momentos que tornam este disco merecedor de atenção.
_
Ask Forgiveness

01 fevereiro 2008

Inovadores # 7 - Yellow Magic Orchestra

“Yellow Magic Orchestra” (1978 Alfa)
“Solid State Survivor” (1979 Alfa)
“Technodelic” (1981 Alfa)



Formados em 1978 pelo talentoso Ryuichi Sakamoto, pelo veterano Haruomi Hosono, e pelo percussionista Yukihiro Takahashi produziram onze discos, até ao seu término em 1984. Para mim, estes três são aqueles que melhor os representam.
Surgiram na altura da ascensão do Japão como inovador tecnológico, utilizaram sequenciadores, sintetizadores, samplers e caixas de ritmos, quando ainda eram regularmente a excepção
São frequentemente esquecidos quando se faz referência aos artistas que desbravaram caminho na evolução da música electrónica.
Criavam um divertido “techno-pop”, ou “twisted pop”, se preferirmos, mas onde nunca esconderam a sua paixão pelos Beatles (daí as versões).
Estes músicos já tinham assimilado todas as experiências primárias realizadas anteriormente com música electrónica, e deram um salto qualitativo para uma fase mais avançada, só que ainda não tinha sido inventado um tipo música para classifica-los. Pois ao contrário de uns frios Kraftwerk ou dos seus aprendizes britânicos como Gary Numan ou John Foxx, que tendiam perseverantemente para a ficção científica, os YMO ofereciam divertidas delicias “pop” totalmente descaradas.
Quando surgiu o disco homónimo de estreia, foram ignorados pela imprensa ocidental, que não se conseguir afastar da cacofonia criada pelos fortuitos ruídos electrónicos que abrem o disco. E assim não descobriu as esquadrilhas melódicas do psicadélico “Simoon” ou do irreflectido “disco-feel” de “La Femme Chinoise”.
Com “Solid State Survivor”, tentaram fugir do ecletismo presente no disco de estreia, e abordaram um som mais “mainstream”, mas nem por isso menos arrebatador. Desde o balouçante instrumental “Technopolis”, passando pelo belíssimo “Absolute Ego Dance”, ou pela sinuosa e pungente melodia de “Insomnia”, este disco está repleto de excelentes momentos.
Em “Technodelic” acontece mais uma reviravolta, criam um disco mais negro, cheio de vozes sinistras, ritmos incomodativos, percussões industriais destruidoras. “Epilogue” de Sakamoto, dá o mote, com uma melodia dilacerante.

30 janeiro 2008

School of Language - “Sea From Shore” (2008 Thrill Jockey)

A música unicamente comovente e sofredora dos Field Music, foi para mim uma das melhores revelações de 2007. Parece que infelizmente se separaram, tendo David Brewis criado este projecto, para o qual gravou maioritariamente sozinho os temas que constituem este disco (ocasionalmente surgem os elementos dos Futureheads, seus amigos pessoais, e também eles originários de Sunderland).
Aqui encontramos essencialmente sons vocálicos, mas expansivos, e intrigantes ao mesmo tempo, pela forma notável como Brewis utiliza o seu computador para os criar. Outro aspecto fundamental é o excelente trabalho de produção realizado, especialmente nas percussões.
O disco abre excelentemente com o desarticulado “Rockist Part 1”, continua em alta através da estruturadamente distorcida “Disappointment 99”, da emocionante fluência de “Poor Boy’s”, até chegar a esse exercício interior que é “Rockist Part 3 (Aposiopesis)”, onde Brewis retoma “Rockist Part 1” de uma forma mais tradicional.
Ecos da “pop” seca dos XTC continuam presentes, mas também estão reminiscências dos Broken Social Scene e de toda a escola “pós-rock” de Chicago.

28 janeiro 2008

Do fundo da prateleira # 8 - Helmet – “Strap It On” (1990 Amphetamine Reptile)

Provavelmente sejam mais (re)conhecidos pelo seu trabalho de 1992, “Meantime”, editado já na Interscope, que acabou por ser um disco bastante apreciado pela crítica, e que até podemos considerá-lo como quase perfeito. Mas “Meantime”, não seria a primeira grande produção deste quarteto oriundo de Nova Iorque. Com “Strap It On”, o seu disco de estreia, os Helmet ampliaram o triturar ruidoso que caracterizava os seus primeiros registos ao extrair a sua essência.
Consta que o vocalista, compositor e guitarrista principal do grupo, Page Hamilton, tinha rigorosos processos na composição da canções, mas temas como “Repetition” e “Distracted” foram construídas a partir de pouco mais do que letras simplesmente berradas, alguns “riffs” verdadeiramente defraudantes e um solo de guitarra totalmente discordante. Mas a sua simplicidade era única, e que o baixista Henry Bogdan e o baterista John Stanier (actualmente nos Battles) ajudaram a intensificar com uma combinação de frugalidade e força bruta.
Apesar de a banda posteriormente se ter tornado mais “funky” no álbum “Betty” de 1994 e de ter assimilado os benefícios de uma melhor produção, nunca mais se aproximaram da fórmula aqui aperfeiçoada.

24 janeiro 2008

Inovadores # 6 - Steve Hillage - “Rainbow Dome Musick” (1979 Virgin)

Esqueçam todos os discos de rock progressivo que Steve Hillage editou ao longo da sua carreira, e foquem-se neste “Rainbow Dome Musick”, que é actualmente considerado como um percursor (juntamente com o trabalho de Brian Eno) no que seria denominado de “ambient music”.
Originalmente concebido para um festival intitulado “Mind, Body and Spirit”, o objectivo de Hillage era criar um oásis de harmonia atmosférica.
Juntamente com a sua mulher Miquette Giraudy, Hillage (que nos anos 90 teve algum êxito com o seu projecto System 7), criou um disco onde abundam texturas e cores ambientais, e que é simultaneamente suave e intenso.
Constituem o disco dois belíssimos temas, o primeiro, o relaxante “Garden of Paradise” é baseado em matrizes ressonantes de sequenciadores e umas crescentes texturas sonoras de piano e guitarra eléctrica.
O segundo, o hipnótico “Four Ever Rainbow” começa com o som de um órgão que se desloca ao encontro de ondas deslizantes de guitarra e sintetizador.
Na data da sua edição, em 1979, numa altura em que “punk”, “disco” e “new wave” preenchiam os “tops”, estavam aqui definidas as raízes do que iriam posteriormente denominar como “trance” e “chill-out”.

21 janeiro 2008

Classic # 11 - David Sylvian - “Secrets of the Beehive” (1987 Virgin)

O que mais me fascina neste disco produzido por Steve Nye é a sua simplicidade, que assenta em três características essenciais: a primeira, a instrumentalização simples, num estilo experimental, com elementos de “jazz” em algumas faixas, e nos ordenados arranjos: obsidiantes, orgânicos e apaticamente terrenos; a segunda é a voz quente de David Sylvian que tem o poder de nós embalar num estado de tranquilidade; e a terceira, as canções: as requintadas letras demonstram uma profundidade fora do alcance das casuais contemplações relativas ao amor e à vida, esperança e desespero, fundidas com mitos e mistérios e são recheadas em metáforas e magia. São pequenas histórias elípticas, todas elas lacónicas, mas no entanto sedutoras. Assombrosas, mas não depressivas.
O disco abre de uma forma minimal com “September”, piano, arranjo de cordas, e voz, que fala sobre a dualidade do Outono que traz beleza no amontoar da queda das folhas.
E inclui duas das minhas canções favoritas: “The Devil’s Own” com uma sofisticada melodia que parece que flutua no ar, este tema tem uma qualidade etérea que torna difícil de descrever ou replicar, e a toxicamente bela “When Poets Dreamed of Angels” com uma poderosa qualidade rítmica e emotiva.
Mas ainda temos canções do calibre de “Orpheus”, “The Boy with The Gun” ou “Let the Happiness In”, que tornam o disco verdadeiramente arrebatador.
Como bónus a edição em CD contém ainda uma versão da magnífica colaboração com Ryuichi Sakamoto para a banda-sonora de “Merry Christmas Mr.Lawrence”: “Forbidden Colours”. Mais uma pérola.

18 janeiro 2008

Um blog

1 ano...
Primeiro objectivo conseguido...
Não foi fácil, mas tentei colocar 2/3 post por semana - e tentei não falar só dos meus artistas favoritos, alguns deles nem um post tiveram.
Falei sobre os meus discos favoritos, os meus clássicos, alguns discos perdidos, discos que na minha opinião mais impacto tiveram na história e evolução da musica rock. Digo rock, pois é mais fácil, pois generos musicais é que não é comigo, como já devem ter constatado, pois uma dificuldade acrescida é o facto de existirem ainda muitos grupos e discos de quadrantes musicais totalmente opostos que gostaria de partilhar, porque os meus gostos musicais são extremamente variados (como diz a minha mulher: "isso é muito calmo" ou "isso é muito barulho"), e o tempo livre disponivel não permite a dedicação ao "bichinho" que eu bem gostaria (ah...nunca mais sai o Euromilhões).
E como existem vários blogs muito interessantes que divulgam as notícias relevantes e promovem as novidades musicais, tentei falar de alguns projectos que não tiveram o mesmo destaque, mas que na minha opinião o mereciam.
Próximo objectivo: continuar com o blog por mais um ano
Vamos tentar introduzir algumas alterações. Ideias não faltam, é só uma questão de se concretizarem.


Agradeço a todos os visitantes os seus reconfortantes comentários

Novidades - The Jesus and Mary Chain

Na sua página no MySpace, os The Jesus and Mary Chain colocaram versões demo de três músicas novas. "War On Peace", "Cookies" e "Boiling Over" são o primeiro material apresentado pela banda desde o lançamento de "Munki".

Está ainda previsto para o mês de Março, um regresso aos palcos, com 2 datas previstas para o Roundhouse, em Londres.

16 janeiro 2008

Singles # 12 - Ian Dury – “Sex & Drugs & Rock & Roll” (1977 Stiff)

Há trinta anos atrás, quando criou esta terminologia trivial, Ian Dury não era um miúdo punk, mas antes um veterano do “pub-Rock”, pois em 1977 quando assinou pela Stiff já tinha 35 anos.
E curiosamente seria ao adaptar uma nota de uma canção do veterano músico de “jazz”, Ornette Coleman, que iria criar uma das canções universalmente mais conhecidas, e constantemente referenciada como o típico estilo de vida do músico “rock“.
Mas no entanto este hino, não iria celebrar o hedonismo pateta associado ao movimento, antes pelo contrário, pois a canção esconde uma letra de grande sobriedade e perspicácia.
_

14 janeiro 2008

Mouthus – “Saw a Halo” (2007 Load)

Desde a sua formação em 2002, este enérgico duo de Brooklyn já tinha editado dez registos em diversas editoras independentes, o que torna difícil o acompanhamento da sua carreira.
Este “Saw a Halo” é um registo diferente do seu característico som “noise-drone”, pois apesar dos sons eléctricos e abrasivos estarem bem presentes, o aparecimento de guitarras acústicas em três dos sete temas do disco, é uma interessante e imprevista surpresa.
É certo que mantém-se a experimentação sónica que os tornou tão inovadores, mas existiu uma mudança na forma definida que a torna nova e convincente.
Os Mouthus não disfarçam o espírito original da escola experimental nova-iorquina, ao misturar o “noise” com o psicadelismo ambiental (como tão bem fazem os Wolf Eyes). Mas sempre sem esquecer o elemento “rock”, nas longas excursões sonoras até ao infinito, baseadas em estruturadas experiências sónicas, com as suas alterações constantes de ritmo, criadas pela tribal e furiosa bateria, pela explosiva guitarra e pelas gementes vozes.

10 janeiro 2008

Inovadores # 5 - A.R.Kane - “69” (1988 Rough Trade)

Quando os A.R.Kane participaram em “Pump Up the Volume”, a sua contribuição foi mínima, no entanto, no lado B do referido tema, criaram “Anitina”, onde já demostravam o rumo que pretendiam seguir.
Só a forma como o disco começa, com o estranhamente cativante “Crazy Blue”, é um pronuncio do que se segue. Pois estamos perante um exercício ecléctico, alucinogénico e experimental, cujo resultado são canções extraordinárias, com letras alucinantes, do calibre da refrescante “Baby Milk Snatcher” com as suas referências ao sexo oral, ou da cristalina fantasia que é “Spermwhale Trip Over” e os seus delírios obtidos através dos efeitos do LSD. Na balbuciante agregação de sons de “Sulliday” atingem o limite máximo da incompreensível experimentação.
Da combinação da voz única de Rudi Tambala, com os instrumentos de Alex Ayuli, através da utilização de som e texturas que relembram os experimentalismos dos pioneiros do rock psicadélico dos anos 60/70, com elementos adicionais do indie-pop dos anos 80, resulta uma sensual atmosfera imersa em reverberatório feedback, onde muitos temas podem não ser considerados canções, mas “sarrabiscos” sonoros.
Foram comparados com os The Jesus and the Mary Chain, Cocteau Twins (Robin Guthrie co-produziu alguns temas anteriores) ou até com os Pink Floyd (fase Syd Barrett). E posteriormente, também seriam considerados como percursores do “shoegazer”.
Os registos seguintes (“i” e “New Clear Child”), são satisfatórios, mas falta-lhes a profundidade deste disco.
Aqui criaram um disco inventivo e verdadeiramente elíptico.

08 janeiro 2008

Do fundo da prateleira # 7 - The God Machine - “One Last Laugh In A Place of Dying” (1994 Fiction)

Os The God Machine eram um trio de amigos oriundos de San Diego, que se encontrariam ocasionalmente em Inglaterra onde acabariam por formar uma banda.
Aí permaneceriam ilegalmente, tendo habitado em casas abandonadas, trabalhado como lacaios, até conseguirem juntar o dinheiro suficiente para adquirir instrumentos musicais. Posteriormente, e através de “demos” atraíram o interesse da editora Fiction, propriedade dos The Cure.
O seu disco de estreia “Scenes From The Second Storey” era hipnótico e minimalista, mas com um lado melódico que penetrava através das sombrias atmosferas e do lamento “ferido” do vocalista Robin Proper-Sheppard.
Para o segundo disco, ampliaram o som, sem o tornarem macio.
Utilizando como inspiração uma técnica de produção, que podemos classificar como similar à fase final dos Talk Talk, que pretendia suavizar o acesso à sua introspecção e cólera.
Assim através de arranjos pouco densos e da produção “simples”, conseguiram que as estimulantes letras de Proper-Sheppard fossem ainda mais incisivas.
Ele dizia em “Painless”: “You said life could be painless and I’m sorry but that’s not what I’ve found”, e infelizmente, a letra profetizou a morte do baixista Jimmy Hernandez, que iria falecer pouco tempo depois do disco estar concluído com um hemorragia cerebral (e assim a origem do título do disco seja apropriada).
No final, a edição que saiu para a rua, continha as versões rudimentares, ainda sem o polimento pretendido, mas as imponentes canções e a forte química existente foram elevadas pela produção agreste.
Proper-Sheppard trocou a afronta pela resignação, e a electricidade pela acústica, no seu projecto actual Sophia.

05 janeiro 2008

Best of 2007

Custou, mas para não deixar que fiquem com má opinião sobre o blog, anexo uma selecção pessoal dos melhores discos adquiridos no ano de 2007:

Os 15 que mais me fascinaram
Andrew Bird - "Armchairs Apocrypha"(Fat Possum)
Arcade Fire - "Neon Bible"(Merge)
Battles - "Mirrored" (Warp)
Burial - "Untrue" (Hyperdub)
Electrelane - "No Shouts No Calls" (Too Pure/Beggars)
Iron & Wine - "The Shepperd's Dog" (Sub Pop)
LCD Soundsystem - "Sound of Silver" (DFA)
Liars - "Liars" (Mute)
Panda Bear - "Person Pitch"(Paw Tracks)
Robert Wyatt - "Comicopera" (Domino)
Stars of the Lid - "And Their Refinement of the Decline" (Kranky)
The Fiery Furnaces - "Widow City" (Thrill Jockey)
The National - "Boxer" (Beggars Banquet)
The Shins - "Wincing the Night Away" (Sub Pop)
Yesterdays New Quintet - "Yesterdays Universe" (Stones Throw)

Mais 15 que me surpreenderam
Antibalas - "Security" (Anti)
Band of Horses - "Cease To Begin" (Sub Pop)
Beirut - "The Flying Club Cup" (4AD)
Caribou - "Andorra" (Merge)
Field Music - "Tones of Town" (Memphis Industries)
Jens Lekman - "Nights Fall Over Kortedala"(Secretly Canadian)
Jimi Tenor & Kabu Kabu - "Joystone" (Sahko)
Lobster - "Sexually Transmited Electricity" (Borland)
Micro Audio Waves - "Odd Size Baggage" (Magic Music)
Mudd - "Claremont 56" (Rong)
Nina Nastasia & Jim White - "You Follow Me" (Fat Cat)
Pinch - "Underwater Dancehall" (Tectonic)
P J Harvey - "White Chalk" (Island)
Spoon - "Ga Ga Ga Ga Ga" (Merge)
The Field - "From Here We Go Sublime" (Kompakt)

5 Maxis que fizeram o velhinho SL 12000 trabalhar muito
LCD Soundsystem - "Someone Great" (DFA)
Pop Dell'Arte - "Querelle" (Bloop)
Tony Allen - "Kilode" (Carl Craig Remixes) (Honest Jon's)
Faze Action - "In The Trees" (Carl Craig Remixes) (Juno)
!!! - "Must Be The Moon" (Emperor Machine Remix) (Warp)

29 dezembro 2007

My Favorites # 6 - Liz Phair - “Exile In Guyville” (1993 Matador)

Neste disco é possível descortinar o que bem quisermos: desde hinos ao pós-feminismo, passando pela rapariga dos subúrbios a armar-se em “tesa”, ou a pretensa e assumida réplica de “Exile On Main Street”.
Eu ao escutá-lo prefiro pensar em Liz Phair como uma rapariga que pretende encontrar o amor verdadeiro, ou uma que pretende ser uma “blow-job queen”.
O que não se pode é menosprezar a importância deste disco: um registo suave, dramático, que foi editado numa altura em que todos os outros se baseavam em gritos estridentes; o disco que demonstrou o poder das produções caseiras “lo-fi”; o disco que melhor capturou o sofrimento e a ansiedade da confusão pós-adolescência/ pré-idade adulta; o disco cujo sucesso influenciou que muitas multinacionais contratassem uma geração de cantoras-compositoras.
A sua musicalidade é por ventura desnivelada, a sua performance vocal não é revolucionária, mas a sua escrita… uau!!! que canções.
São canções que nos tocam no coração, comprometem a mente e até chegam a estimular sexualmente.
Liz sabe como construir um relato intenso e pessoal.
Apesar de todas serem fantásticas, gosto especialmente de “6’1””, “Help Me, Mary”, “Never Said”, “Mesmerizing”, “Fuck and Run”, “Divorce Song” e “Shatter”.
Ao contrário da maioria das cantoras-compositoras referidas anteriormente, a quem faltava a subtileza elegante” de Liz Phair, esta continuou a demonstrar o seu singular talento em trabalhos posteriores como “Whip-Smart” ou “Whitechocolatespaceegg”.
Com “Exile In Guyville” deixou-nos um registo que é um tributo à qualidade da “canção rock”, e que o torna num dos melhores discos de todos os tempos.

21 dezembro 2007

Canções de Natal I


Big Star – “Jesus Christ” (1978 do album “Third/Sister Lovers”)

Gorky’s Zygotic Mynci – “Christmas Eve” (1999 do album “Spanish Dance Troupe”)

Lou Reed – “Xmas In February” (1993 do album “New York”)

Okkervil River – “Listening To Otis Redding At Home During Christmas” (2002 do album “Don't Fall in Love with Everyone You See”)

Palace Songs – “Christmastime In The Mountains” (1994 do EP “Hope”)

The Fall – “Christmas with Simon” (1990 lado B do single “High Tension Line”)

The Flaming Lips – “Christmas at the Zoo” (1995 do album “Clouds Taste Metallic”)

The Pogues – “Fairytale of New York” (1987 do album “If I Should Fall from Grace with God”)

Tom Waits – “Christmas Card From A Hooker In Minneapolis” (1978 do album “Blue Valentine”)

19 dezembro 2007

The Autumns - “Fake Noise From A Box Of Toys” (2007 Bella Union)

O quarto disco do quarteto americano, mostra-nos uma banda que amadureceu em termos de ambição e na capacidade de produzir brilhantes e detalhadas canções.
É verdade que as influências do “Shoegazer” ainda estão lá (mas já não são tão evidentes), que a voz de Matt Kelly é comparável com o “falsetto” de Jeff Buckley ou Thom Yorke, que o disco pode ser mais acessível que os trabalhos anteriores, e que ao longo do mesmo denotam-se variadas influências, mas que os The Autumns assimilam e transportam para peças musicais originais, alternando constantemente entre momentos mais fortes e rápidos, e outros mais lentos e de delicada beleza, sempre com a secção rítmica a comandar e a conduzir os destinos.
Dos momentos altos do disco destacam-se a triologia: “Night Music” que é um momento verdadeiramente mágico, com uma fantástica prestação vocal de Kelly; “Killer in Drag” e o seu contagiante refrão, e “Only Young” com uma melodia antífona.
Mas ainda temos “Boys”, acessível, mas com uma fantástica melodia, apoiada nas magistrais guitarras, o rock vicioso de “Adelaide”, e as inesperadas alternâncias rítmicas de “Glass Jaw”.
Quando chegamos a fim, estamos emaranhados na música.
A edição/distribuição perto do fim do ano, poderá fazer com que o disco passe despercebido, o que é lamentável, pois estamos perante um grande e resoluto disco.

17 dezembro 2007

Singles # 11 -Sugarhill Gang – “Rapper’s Delight” (1979 Sugarhill)

“Rapper’s Delight” foi o primeiro grande sucesso do hip-hop/ rap, e permitiu ao movimento ganhar uma dimensão mundial.
Reza a história que Sylvia Robinson (veterana cantora, produtora e editora musical, que iria criar a editora Sugarhill) ouviu que na Bronx, em Nova Iorque, estava a surgir uma forma musical que utilizava o rap sobre colagens instrumentais. O rap já existia como forma musical há uma década desde que pioneiros como os Last Poets começaram a utilizá-lo.
Pensando que poderia tirar proveito desta nova forma musical, juntou um trio de desconhecidos, e utilizando uma base rítmica baseada numa parte de “Good Times” dos Chic, criou uma canção que cativou os ouvidos dos habitantes nova-iorquinos que reclamaram por mais.
Eram 15 minutos (só foi editado na versão 12”) que apresentaram uma mensagem positiva, onde encorajavam as pessoas a dançar e a afastar-se das drogas. As suas mensagens sempre foram de carácter social, ao contrário da maioria do hip-hop actual, cujas referências líricas são bem diferentes.
Criariam mais sucessos como “8th Wonder, e serão para sempre recordados como pioneiros da “old school”.
.

11 dezembro 2007

Rock # 2 - The Sonics - “Here Are The Sonics!!!” (1965 Etiquette/Norton)

Se muitas das bandas de “garage-rock” dos anos 60, tendiam a soar similares, o som dos The Sonics era totalmente diferente.
Criaram um som novo, intenso, selvagem, através de composições básicas, e ao combinarem os gritos histéricos de Gerry Roslie, o som forte das enérgicas guitarras de Larry Parypa, da intensa e violenta bateria de Bob Bennett, em conjunto com uma produção intencionalmente tosca, com uma rudimentar qualidade sonora. Era puro e genuíno “rock’n’roll”.
Para a história deixaram-nos clássicos como os originais “Psycho”, “The Witch”, “Boss Hog” ou “Strychnine”, e versões insanas de clássicos de R&B.
A introdução de “The Witch”, com o seu característico órgão, é uma referência do movimento “garage-rock”. E “Psycho” ainda hoje continua brutal e psicótico.
Como eram originários de Tacoma, que geograficamente era próximo de Seattle, e como também era localizado no estado de Washington na zona Noroeste do Pacifico são muitas vezes referenciados como precursores do “grunge”, mas é muito mais evidente a influência que esta banda teve nos movimentos “proto-punk” e “punk”, e que ainda hoje têm em todas as “garage-bands” actuais.
Bandas como The Stooges, Ramones The Cramps, The Gories, Jon Spencer Blues Explosion ou White Stripes, devem ter escutado este disco várias vezes.

Editaram ainda “Boom” (1966 Etiquette), que apesar de ser um disco interessante e de ter tido um inesperado relativo sucesso comercial, já não é tão fascinante e não causa o mesmo impacto. Neste disco, para além de “Shot Down” e “He’s Waitin’, destaco somente uma magnífica versão de “Louie Louie”.

07 dezembro 2007

Classic # 10 - Jane’s Addiction - “Ritual De Lo Habitual” (1990 Warner Bros.)

A combinação singular da estridente e cortante voz de Perry Farrell, dos ritmos tribais de Stephen Perkins, do ressonante e melódico baixo de Eric Avery e dos espantosos atributos técnicos de Dave Navarro, permitiram criar uma música psicadélica, esquizofrénica, repleta de “funk” e com um carácter etéreo.
Em 1988 com o surpreendente “Nothing’s Shocking”, já tinham conseguido abalar a indiferente indústria musical. E para mim, a banda ainda se conseguiu superar, pois considero “Ritual…” musicalmente mais interessante e desafiante que “Nothing’s…”, pois assumiram mais riscos ao criarem uma alucinatória viagem sonora.
Com “Ritual De Lo Habitual” apresentam-nos mais nove exuberantes temas, ao nível do melhor que já tinham feito, mas ainda adicionaram a agradável habilidade da canção “pop”.
O disco pode dividir-se em dois lados distintos.
De um lado estão as canções mais “rock”, as mais enérgicas, que com as suas batidas rítmicas e o irromper das explosivas guitarras tornaram “Stop!” (com a subversiva introdução em Espanhol), “No One’s Leaving”, “Ain’t No Right” e “Been Caught Stealing” (uma gracejante paródia) apropriadas para a rádio e a MTV. Enquanto do outro temos as canções mais “calmas”, as mais experimentais e diversificadas, como a belíssima “Classic Girl”, “Then She Did…” e a épica obra-prima de 12 minutos que é “Three Days”, composta por cinco distintas secções, que contemplam guitarras acústicas, secções de cordas, até aos desenfreados solos de bateria e guitarra que conduzem a canção ao seu grandioso final, e que deram aos fãs algo para devorar e idolatrar.
“Ritual…” é simultaneamente suculento, estimulante e sarcástico, mas também intenso e teatral.
Quem sabe, se não tivesse existido um disco, editado no ano seguinte, de nome “Nevermind”, e este talvez não fosse considerado como o exponente do rock moderno.

29 novembro 2007

Passos para o Futuro

Burial - “Untrue” (2007 Hyperdub)

Pinch - “Underwater Dancehall” (2007 Tectonic)

Em 2007, o “dubstep” é provavelmente um dos géneros que mais destaque está a merecer pela imprensa musical mundial, e em especial a britânica, de onde é originário.
E se nesta fase poderíamos ter atingido um limite criativo, eis que surgem dois registos que os permitem olhar para o futuro com esperança.

De Bristol, chega-nos um disco que enriquece a definição de “dubstep”, ao conseguir conjugar o som mais pesado proveniente de Londres, com o som mais emotivo da escola clássica de Bristol (Wild Bunch/Massive Attack).
É um disco ambicioso, ao introduzir vocalizações num género reconhecivelmente instrumental, mas mantendo a pureza do mesmo. Assim temos dois discos por onde se dividem os temas – um é vocalizado, o outro instrumental.
Desde o tema de abertura, “Brighter Day, que mistura elegantes batidas com vocalizações de base “dancehall”, passando pelas estruturas minimais de “Airlock”, as influências “reggae” em “One Blood, One Source”, até ao futuro clássico que certamente será “Get Up”, com uma maravilhosa voz sobre os difusos ritmos. O disco termina em grande com os complexos ritmos atmosféricos de “Lazarus”.
O disco de Pinch é único e excepcional, sendo um dos melhores álbuns de música electrónica que tive oportunidade de ouvir este ano.

Sobre “Untrue”, o segundo registo de Burial, que está a ser considerado como um dos melhores discos do ano, já muito foi dito. Apenas posso acrescentar que o poder deste disco reside em si mesmo.
E se o disco de estreia foi uma revelação, este é uma confirmação. E parece que existe, em relação a esse primeiro disco, uma regressão controlada que contrasta com uma progressão desorientada.
A influência do “soul” é evidente nas canções, mas o som corrosivo mantém-se, sendo arcaico e decrépito nalguns casos, alienado e sombrio noutros. O resultado final é magnífico. A simetria e a distinção sonora sobressaem num disco que marcará uma época.

26 novembro 2007

Rock # 1 - The Cramps - “Songs The Lord Taught Us” (1980 I.R.S.)

Apesar de existirem desde 1976 (no apogeu do “punk”), quando este disco apareceu em 1980, o universo musical estava em mudança. O “punk” tinha-se fragmentado e espalhado por géneros como o Gótico, o Industrial e a “new-wave”. E surgiu também o movimento que foi designado por “Psychobilly”/”Rockabilly” – uma mistura de surf rock, psicadelismo e garage-rock dos anos 60. Não me recordo de mais nenhuma banda que tenha popularizado da mesma forma este género (ex: os Stray Cats eram muito puros). Apesar de não se poderem considerar uma banda “punk”, tinham mais atitude do que a maioria devido à sua intratável imagem e inclassificável sonoridade.
Eram compostos por Lux Interior que gritava e uivava de uma forma louca, e era uma mistura entre Elvis Presley e Vincent Price, por Ivy Rorschach que tocava guitarra de uma forma ordinária mas eficaz, dentro do espírito do “rockabilly”/“garage-rock”, por Bryan Gregory, que era obcecado pelo oculto, é era um monstro do feedback, e por Nick Knox, impassível atrás dos seus óculos escuros e da sua batida primitiva.
O seu disco de estreia, gravado nos estúdios de Sam Phillips em Memphis e produzido pelo lendário Alex Chilton dos Big Star, estava no seu estado bruto o que o tornava tão excitante.
A combinação da poderosa voz, das guitarras e da pulsante bateria, juntava-se às misteriosas letras (referências à lobisomens, horríveis assassinatos, atmosfera “b-movie”, etc) que perturbavam a conservadora sociedade americana, para criarem canções eternas.
A guitarra minimalista e a voz gorgolejante de Lux Interior na contagiante “Garbageman”, cuja simplicidade lírica dá-lhe uma sensibilidade “pop”, “T.V. Set” que é verdadeiramente doentia e repulsiva, “Zombie Dance” que é perfeita para uma festa de “Halloween”, “I Was A Teenage Werewolf” que representa toda a estética dos Cramps, “Tear It Up” que é a perfeita síntese do “rockabilly” e “garage- punk”, ou a sóbria versão de “Strychnine”, que tal como o original, é uma paródia às festas nas praias durante os anos sessenta.
Outra versão fantástica é a do clássico “Fever”, transformado numa espécie de hino fúnebre, que encerra de uma forma deliciosamente subversiva o álbum.
Um divertido e bizarro espectáculo de aberrações.

22 novembro 2007

Singles # 10 - The Normal - “Warm Leatherette/T.V.O.D.” (1978 Mute)

Não se deixem enganar pelo nome, isto é tudo menos música “normal”.
Reza a história que Daniel Miller, um ex-punk, fã de “krautrock”, adquiriu, em segunda mão, um sintetizador Korg e um gravador de 4 faixas, e começou a experimentar com os sons criados. Compôs e gravou dois temas no seu quarto, que resolveu editar em single, por conta própria ao criar a etiqueta Mute Records, tendo recorredo à distribuição da Rough Trade.
O suposto lado A, “Warm Leatherette” é inspirado na novela de JG Ballard, “Crash” (a mesma que foi posteriormente adaptada ao cinema por David Cronenberg), e aborda os fetiches sexuais relacionados com acidentes de viação. A rígida caixa de ritmos e o som sibilante dos sintetizadores, ajudam ao conteúdo. (Grace Jones iria realizar uma excelente versão).
Mas seria o lado B, que iria ser mais apreciado, “T.V.O.D.” que observa a dependência e saturação dos “media”, e em particular da televisão. Um extraordinário “cocktail” sonoro, que inclui “samples” de excertos de programas de TV, sons electrónicos adulantes e “noise”, reminiscente do que os Cabaret Voltaire faziam na mesma altura.
“I don’t need a TV screen”, diz.
É hoje referenciada como um marco no desenvolvimento do “post-punk” e da “new-wave”.
Miller apenas editou este disco e dedicou-se a promover a Mute, e os seus primeiros artistas, como Fad Gadget ou D.A.F.

19 novembro 2007

Inovadores # 4 - Wire – 1977-1979

“Pink Flag” (1977 Harvest)
“Chairs Missing” (1978 Harvest)
“154” (1979 Harvest)



Ainda em actividade, devido a inúmeras reformações, os Wire são muitas vezes referenciados como um dos grupos mais importantes dos 70 e 80, devido à sua reputação pelas experimentações sonoras.
O período entre 1977 e 1979 será recordado como o mais interessante e criativo.
Nos seus três primeiros discos expandiram as fronteiras sonoras, não só do “punk”, mas do “rock” em geral.
Existiu uma constante evolução sonora, desde o estilo áspero de “Pink Flag” (1977), até ao som mais complexo e estruturado de “Chairs Missing” (1978) e “154” (1979).
Devido ao seu amplamente detalhado e atmosférico som, às letras de cariz político, e a abordagem de temas obscuros, foram catalogados com o “post-punk”.
Superficialmente “Pink Flag”, é um disco “punk”, mas pegou no minimalismo do “punk”, e transportou-o para outro patamar, criando um som puro e concentrado.
Todas as canções são curtas e directas, mas que nos deixam sem alento. “12XU”, “Lowdown”, “Three Girl Rhumba” possuem “riffs” sedutores, enérgicos e monocórdicos.
“Chairs Missing” distancia-se do disco de estreia, ao introduzirem teclados e efeitos sonoros, e por possuir composições mais longas, menos “punk” e musicalmente mais rebuscadas. Destaco “Outdoor Miner”, a hilariante “I Am The Fly”, mas também a épica “Mercy”.
“154” é ainda mais diferente dos anteriores, mais produzido, e ainda mais pensativo. Como se fosse uma versão mais lúcida e elaborada de “Pink Flag”. Nas favoritas incluem-se as contagiantes melodias de “The 15th” “Map Ref. 41N, 93W” e “A Touching Display”.
É notável como ainda hoje estes álbuns se mantém tonificantes e fundamentais.
E tiveram uma enorme influência nas décadas seguintes, ao serem referenciados por bandas tão distintas como R.E.M., Hüsker Dü. ou Minor Threat, entre outros.

16 novembro 2007

Do fundo da prateleira # 6 - Flying Saucer Attack – “Flying Saucer Attack” (1993 VHF Records)

O título alternativo do disco de estreia dos FSA (também conhecido como “Rural Psychedelic”), já diz praticamente tudo.
Claramente inspirados pelos My Bloody Valentine e pelos místicos “krautrockers” Popol Vuh, mas sem possuírem a qualidade de equipamentos e estúdios dos mesmos, os FSA contudo aspiraram ao som denso e envolvente dos MBV.
Iriam ser responsáveis por influenciar inúmeras bandas “shoegazer” a tornarem-se “stargazer” com as suas suaves guitarras e melodias melancólicas. Eram originários de Bristol, de onde surgiram, entre outros, os Third Eye Foundation e Movietone.
O que poderia soar ou parecer a um tipo de engano, é realmente uma elaboradamente estruturada nova expressão musical. Uma combinação singular de melodia e som, cujo objectivo parece ser a exploração de novas regiões e paisagens sonoras.
A produção “lo-fi” realça a aspereza das canções. E nas vocalizações existe um esforço de fazer com que as palavras fluam tranquilamente com a música.
Mas se temas como “My Dreaming Hill” ou “Wish” evocam claramente os MBV, os FSA tentar afastar-se desse território, ao aventurarem-se também no “free-jazz” em “Moonset” ou na pura experimentação ambiental em “Still”.
Ecos dos FSA podem ser descortinados nos trabalhos dos Bardo Pond ou dos Godspeed You Black Emperor.
Um disco fundamental da “dream pop” dos anos 90.

13 novembro 2007

Singles # 9 - New Order – “Blue Monday” (1983 Factory)

Muito se poderia dizer sobre “Blue Monday”, um dos grandes singles da história da música de dança. É provavelmente o mais importante e influente das últimas 3 décadas. O outro disco de dança que se aproxima em termos de originalidade e influência será a colaboração entre Giorgio Moroder e Donna Summer na criação de “I Feel Love”.
Neste caso, como no de Moroder/Summer, esqueçam as inúmeras remixes que apareceram posteriormente, a versão original de sete minutos e meio é que personifica a perfeição sonora alcançada pelos ex-Joy Division. Os sintetizadores juntamente com o baixo poderoso de Peter Hook criam um irresistivel e contagiante ritmo mecânico.
A capa do disco também ficou celebre por não mencionar nem o nome do grupo nem da canção, apenas um conjunto de pequenos quadrados coloridos que representavam um tipo de código criado pelos designers da Factory, e que seria continuado no álbum subsequente “Power, Corruption & Lies”.

Video

09 novembro 2007

White Williams – “Smoke” (2007 Tigerbeat 6)

Quando ouvi o single “New Violence”, apaixonei-me pelo violentamente irresistível baixo “motorik” que caracteriza a canção.
Descobrir tratar-se de um projecto de Joe Williams, que apesar de apenas só ter 23 anos, já é um veterano da música underground de Cleveland.
“Smoke” é o seu primeiro álbum, e o resultado é um disco ambíguo e incómodo de “synth pop” (grande influência dos anos 80), curiosamente editado na Tigerbeat 6, uma editora mais conhecida pelos seus projectos mais hiper-enérgicos, como Kid 606 ou DJ/Rupture.
Estamos perante canções brilhantemente contagiantes, com uma rica e delicada índole, baseadas essencialmente nos sintetizadores retro e na voz graciosa de Williams.
Para além de “New Violence”, destacam-se os refrescantes “Smoke” e “Going Down” (poderosas guitarras), o adorável “Fleetwood Crack!” ou a incoerente versão de “I Want Candy” dos Bow Wow Wow (lembram-se deles…)
Só existe um requisito inicial, ignorem a capa que é horrível, e de seguida deixem-se levar pelos irresistíveis ritmos aos quais não conseguimos ficar indiferentes.

06 novembro 2007

Inovadores # 3 - A Certain Ratio – “Sextet” (1982 Factory)

Felizmente, devido ao esforço da Soul Jazz, em reeditar, a obra dos A Certain Ratio, a banda de Manchester poderá criar novos admiradores.
E se a mesma Soul Jazz, já promoveu os nova-iorquinos Liquid Liquid e ESG, pioneiros do “punk-funk”. Em Inglaterra (para além dos Gang of Four e dos The Pop Group, já aqui referidos anteriormente), ninguém foi tão inovador como os ACR.
O seu terceiro disco “Sextet” é provavelmente o mais conseguido de um conjunto de excelentes registos.
Se no anterior “To Each” (1981), ao misturarem a obscuridade dos Joy Division com o “funk” criaram um disco excelente e extremamente diferente do que se fazia na altura, em “Sextet” (um disco estruturalmente mais forte que o anterior) adoptaram um som mais límpido e uma palete musical mais abrangente, ao recorrerem às extensas experiências rítmicas aqui presentes.
Assim, é brilhante a forma como criaram uma mistura de ritmos étnicos, que acompanha o sincopado baixo, a alternância do trompete de Martin Moscrop, as guitarras ambientais (mas com contundentes “riffs”), e imensas, imensas percussões.
Existe ao longo do disco um sentido de beleza e serenidade, mas também de ameaça. Ouçam a magnífica melodia propulsiva de “Lucinda” (com a espantosa voz de Martha Tilson), a energia contagiante de “Skipscada”, ou os maravilhosos ritmos arrepiantes de “Knife Slits Water”.
É certamente um dos discos mais sofisticados lançados pela Factory.

02 novembro 2007

Singles # 8 - Buzzcocks – “Ever Fallen In Love…” (1978 United Artists)

Já sem Howard Devoto, Pete Shelley criou aqui uma provocativa canção. Fugia das referências sexuais de “Orgasm Addict”, e das anárquicas de “Boredom”.
Um “riff” de guitarra poderoso, e uma história de paixão, com um memorável refrão, que foge ao normais “clichés” do “pop”, cantada na fria e desapaixonada voz de Shelley.
Os Buzzcocks faziam um espécie de pop-“punk”, melódico, contagiante, bastante diferente dos ritmos frenéticos do movimento “punk”, e criaram alguns dos melhores singles da história.
É uma das canções que mais versões deve ter tido, realizada por gente tão diversa como os Fine Young Cannibals ou Pete Yorn.