16 junho 2008

Extremos # 3 - Swans - “Filth” (1983 Labour)

Inicialmente os Swans criaram uma das sonoridades mais brutais que ainda podem ser consideradas como música.
Oriundos de Nova Iorque, e liderados por Michael Gira, foram um dos expoentes do movimento “no wave”, ao lado de grupos como Sonic Youth ou visionários como Glenn Branca.
A sua mistura de “noise rock” e música industrial (claras influências dos Throbbing Gristle), resultou numa música mental, física, baseada na exaustiva repetição de “riffs” e locuções vocais, e no abrandamento total do ritmo (virtualmente rastejando), de forma a criar um efeito hipnótico.
O título do seu primeiro álbum “Filth” já sugere o que devemos esperar, e poucos discos poderão igualar a brutalidade oferecida, que nos deixa paralisados.
Dois bateristas (Roli Mosimann e Jonathan Kane), com um martelar ritual e abrasivo, criavam uma sensação de agressão, de violência directa, de impiedosa brutalidade. O rosnar de Michael Gira, constantemente abalado, é meio berrado, meio gemido, e funciona como uma arma atroz e formosamente injuriosa, resultado de uma certa ambiguidade das mórbidas letras. Este disco marca também a primeira participação do guitarrista Norman Westberg, cujas guitarras triturantes, seriam um das imagens de marca da banda.
Os discos seguintes “Cop”, “Greed”, Holy Money”, seguem o mesmo padrão sonoro. E seria já com a presença de Jarboe na banda, que os primeiros sinais de mudança acontecem, em 1987 com “Children of God”, e que iriam se concretizar na década seguinte, onde a sua sonoridade se transformou radicalmente.

13 junho 2008

Robert Forster - “The Evangelist” (2008 Yep Roc)

A segunda vida dos The Go-Betweens, estava definitivamente em alta após a edição em 2005 de “Oceans Apart”, um clássico ao nível de “16 Lovers Lane”. A morte de Grant McLennan, em 2006, ditou o fim de uma ligação de duas pessoas com personalidades opostas, mas que se influenciaram uma à outra ao longo de 30 anos, resultando numa das melhores associações criativas da história da “pop”.
Robert Forster editou este disco a solo, que, apesar de não ser um disco dos Go-Betweens (mas foi assim iniciado), conta com a presença de antigos colaboradores dos tempos de “Liberty Belle…” e “16 Lovers…”, como o produtor Mark Wallis e Audrey Riley, responsável pelos arranjos, inclui a ultima secção rítmica do grupo, e está centrado na memória de Grant McLennan, não deve ser considerado como uma elegia, mas sim como um testemunho da influência e camaradagem vivida com McLennan.
E o resultado mais visível, é que neste disco existe uma maior coesão do que em anteriores trabalhos a solo de Forster. Pois, e ao contrário das suas composições a solo ou nos The Go-Betweens, onde sempre foi o mais poético, o mais literário, onde as suas metáforas e alusões, sempre foram complementadas e balançadas pelas composições mais directas e terrenas de McLennan, aqui surge muito mais directo, puro, honesto e vulnerável.
É um disco predominantemente acústico, com momentos notáveis, desde o elegíaco “If It Rains”, passando pelo misterioso “Did She Overtake”, seja nas canções escritas a meias com Grant – “It Ain’t Easy” um franco tributo a um amigo desaparecido, “Demon Days” a alegre tristeza de uma fatal lembrança - ou acerca dele – a elegante e brilhante “Pandanus”. E que melhor forma de fechar melancolicamente um disco com “From Ghost Town”, a arrebatadora e devastadora meditação sobre a perda.
Em “The Evangelist”, Forster, libertou-se e inspirado pelo seu eterno colaborador, criou um disco impressionante e incisivamente emocional.
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11 junho 2008

Electronic # 3 - Jimi Tenor – “Intervision” (1997 Warp)

Se não conhecem o trabalho de Jimi Tenor, não estejam à espera do perverso “techno” muito usual nos discos da Warp.
De uma forma notável Tenor rouba maldosamente de todos os quadrantes da música “pop”, “funk” e “jazz” anglo-saxónica. E as suas influências são bem visíveis, de Stan Getz a Gary Numan, passando por Gary Glitter ou Barry White. Se juntarmos a tudo isto uma confessa fascinação pelas bandas sonoras dos “film noir” dos anos 60 e 70, e graças a uma virtuosidade de camaleão, este finlandês, conseguiu um conjunto de linguagens musicais originalmente diferentes e múltiplas.
Estamos perante uma verdadeira, ecléctica e divertida aventura. Temos a ritmada “Wiping Out” como as suas vocalizações “vocoded” e ritmos “jazzy”, a cativante “Sugardaddy” com as suas impuras e ásperas matrizes rítmicas, a personificação de Barry White em “Downtown” ou “”Can´t Stay With You Baby”. Em “Outta Space” somos rapidamente transportados para um mundo de “esmagadores” baixos, e melodias penosas. E somos surpreendidos pela forma como conduz o clássico de Duke Ellington, “Caravan”, para o século XXI.
O melhor deste disco é o facto que melhora a cada audição, e é o melhor lugar para se começar a acompanhar a obra de Tenor.
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07 junho 2008

Two Banks of Four - “Junkyard Gods” (2008 Sonar Kollektiv)

Já tardava o regresso dos veteranos Robert Gallagher e “Demus” Harris, ilustres membros e colaboradores de projectos como Galliano ou Young Disciples.
Depois dos superlativos “City Watching” e “Three Street World”, regressam agora na Sonar Kollektiv, para mais uma intrigante viagem através de um elegantemente retorcido labirinto de géneros musicais - desde “soul” ao “funk”, passando pelo “jazz”, “house” e “broken beat”. Mas agora a ênfase reside muito mais na interacção e na improvisação entre todos os músicos envolvidos.
Assim através da combinação entre as subtis e complexas experimentações electrónicas, e instrumentos clássicos como flautas, saxofone, trompete e piano, criam fantásticas harmonias estranhamente caóticas.
Desta deliciosa colecção, destaca-se “Queen of Crows”, com uma jovial performance vocal de Valerie Etienne (cuja presença sobressai ao longo do disco), e o contagioso revolver do piano de “Shadowlands”. Depois temos temas mais acessíveis como “Dead Afternoons” ou mais experimentais como “Wake Me 5.30”, e uma re-interpretação “electro” de um tema de Wayne Shorter, “Go”.
Rico e complexo na estrutura, é um disco para ouvidos exigentes, que nos trás uma nova perspectiva para uma fórmula de sucesso.

06 junho 2008

Covers # 3

É universalmente conhecido que durante o ano de 1992 os The Wedding Present decidiram editar um single por mês, e que inclua em cada respectivo lado B, uma versão de gente tão diversa como The Go-Betweens, Neil Young, Altered Images, David Bowie ou Elton John.
A que mais me surpreendeu nessa época foi esta versão do clássico da "blaxploitation":


Mas essa propensão por versões já era anterior, pois já antes no lado B do single "Kennedy" de 1989, tinham realizado esta:


E depois de no último post ter colocado uma versão realizada pelos Cud numa Peel Session, também os Sisters of Mercy tinham gravado um versão de um tema dos Hot Chocolate:
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Finalmente, e já que estamos numa de 7", lembram-se desta anedota no ínicio dos anos 90.
Mais um lado B, do single "Rubbish" de 1990:

04 junho 2008

My Favorites # 9 - Soul Coughing - “Ruby Vroom” (1994 Slash)

“Ruby Vroom” é a vertiginosa investida de uma ruidosa civilização indecisamente, contudo irrevocavelmente em direcção a um novo milénio. O que faz com este disco seja a banda-sonora ideal dos anos 90, uma década onde os géneros musicais confluíam sem aviso e a história era uma coisa do passado.
Uma década onde a maioria das bandas passeou sem objectivos, procurando o abrigo na elusiva sonoridade pós-Nirvana, M. Doughty e companhia, criaram um som único - onde batidas “avant-noise” e melodias fracturadas colidem conscientemente - ao combinaram a poesia com “rock”, “hip-hop”, “blues”, “folk”, “techno” e muito mais, numa magnificamente subtil e agradavelmente eclética “mix” (excelentes músicos, destaca-se o impecável trabalho de Yuval Gabay na bateria).
Juntaram um inteligente, elegante e gracioso, mas cortante vocabulário, e os resultados estão excepcionalmente expressos seja na melancólica canção de amor na América rural em “True Dreams of Wichita”, seja no épico e despropositado sobrecarregado “jam” “Uh Zoom Zip”, seja na história do vendedor ambulante que more de “overdose” num quarto de banho de um hotel em “BlueEyed Devil. “City of Motors” conta a sinistra história de um roubo e da testemunha que o presencia, e “Screenwriters Blues” é um fantástico instantâneo de Doughty numa imaginária vida como argumentista em Los Angeles, cheia de contrastes entre os aspectos negativos de Hollywood e L.A., e a beleza que a cidade exibe.
E ainda falta referir “Mr. Bitterness”, “Is Chicago, Is Not Chicago”, “Casiotone Nation”, “Down To This”, “Bus To Beelzebud”, todas elas geniais.
Uma das bandas mais criativas, inovadoras e interessantes dos anos 90, e também uma das mais inclassificáveis, foram um verdadeiro oásis.
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03 junho 2008

Ebay # 3

O último mês, para além dos mais recentes dos Why? e Foals a menos de $5, permitiu encontrar algumas pechinchas:

Dan Boadi & The African Internationals – “Money Is The Root of Evil” CD (1978 Aestuarium)
- uma reedição de um disco perdido, originalmente só existiam 500 cópias em vinil. Afro-Beat do Gana gravado em Chicago. Preço em conta, £3.99

Half Cousin – “The Function Room” CD (2004 Gronland)
- Folk-Pop experimental, combinando electrónica e funk,
reminiscente dos The Beta Band, oriundos de Orkney na Escócia – Só £0.99

Model 500 – “Be Brave/ Psychosomatic” 12” (1998 R&S) - o tema principal é evitável, já o lado B “Psychosomatic” é indispensável, é o tipo de “electro-funk” obliquo que Juan Atkins é especialista – como é um Promo só $1.50

Beaumont Hannant – “Sculptured” CD (1994 GPR)
- disco a solo de um dos Outcast, ambient- techno ,
participação de Lida Husik nas vocalizações – só £0.49 _

Dan Boadi and The African Internationals - Money Is The Root Of Evil

30 maio 2008

Evangelista - “Hello, Voyager” (2008 Constellation)

Quantos artistas se tornaram ferozmente genuínos com o passar dos anos?
Quantos tentam codificar o que fizeram anteriormente, cuidadosamente, num fácil formato sonoro?
Carla Bozulich não. Já sendo uma semi-veterana com passagens por várias bandas (investiguem os excitante Geraldine Fibbers), regressa com uma banda (Evangelista) que era o título do seu último disco a solo. E aqui, num disco sincero, mas ferido, Bozulich, vai ainda mais longe na exploração das opressões íntimas, ao expor sofrimento e dor.
Acompanhada por alguns elementos dos A Silver Mt. Zion, e através de desarticuladas orquestrações, melodias formaldeídas, ásperos arranjos de cordas, e uma prosa perniciosa, Bozulich surge elegante e astuta, mas angustiada, criando uma sonoridade subtil e ríspido. Os cenários variam: a sabedoria negra e anciã em ” Mystical Prankster”, a provocação inabalável em “Truth Is Dark Like Outer Space”, a crueldade e o perigo em “Lucky Luck Luck”, culminando no claustrofóbico épico hino de “Paper Kitten Claw”. E não há palavras para descrever a grandiosa e delicada “The Blue Room”
Bem-vindos a um mundo invulgar e maravilhoso.
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27 maio 2008

Electronic # 2 - Autechre – “Tri Repetae” (1995 Warp)

O duo britânico Sean Booth e Rob Brown, atingiu o seu pico de inovação estrutural e tonal no seu terceiro disco. (“Tri Repetae ++” é a edição que junta os EP’s “Anvil Vapre” e “Garbage” ao álbum “Tri Repetae”)
“Tri Repetae” é um salto evolucionário das relativamente frias e abafadas melodias modulares de “Incunabula” e “Amber”, para um tortuoso e cibernético “funk”.
Refringentes da sua adoração do “electro” e do “hip-hop” dos anos 80, pelo meio de uma aproximação de ruídos originais e libertos de regras, criaram um dos discos mais importantes do que se tornou a “IDM - intelligent dance music”.
Em “Tri Repetae” fantásticas e estranhas melodias flutuam sobre ritmos tão complexos que só um contorcionista as poderia dançar. Temas como “Leterel”, “Clipper” e “Rotar” dão origem a atmosferas únicas, robustas e completamente desenvolvidas. O mais extraordinário é que mesmo com esta mudança, os Autechre nunca perderam a sua predilecção por uma música fascinante e excepcionalmente agradável.
Os discos subsequentes, “Chiastic Slide” ou “LP5” (anexo um dos meus temas preferidos), contém também muita música igualmente fascinante, mas na altura da sua edição, “Tri Repetae” representou um apogeu.
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26 maio 2008

Pop # 2 - Mazzy Star - “She Hangs Brightly” (1990 Capitol)

“So Tonight That I Might See” ou “Among My Swan” podem ser mais consistentes, mas é “She Hangs Brightly”- provavelmente por ser o primeiro - que melhores recordações me trás dos Mazzy Star.
Criaram um som “blues” desejoso e frágil, com uma atenção especial nos detalhes, que muitos classificam como “pop-psicadelico”.
A guitarra eléctrica ou acústica de David Roback (ex-Rain Parade, Opal), está sempre presente, sinistra e escondida atrás da voz de Hope Sandoval, em espiral e a rugir constantemente, ou alternativamente adicionando um som mais orgânico.
Já a prestação de Hope com a sua suave, transparente e infantil voz, é arrebatadora. É serena e emocionalmente incómoda ao mesmo tempo.
Seja na assombrosa “She Hangs Brightly”, é que uma experiência de meandros psicadélicos. Seja em canções como “Halah”, “Give You My Lovin’” e “Be My Angel”, que são excelentes momentos de “amor e desespero”, capturando o estado de espírito de desejo, ânsia e desespero. Seja no distante e misterioso “Taste of Blood”, ou no arrepiante “Ghost Highway”, que tal como no exuberante “riff” de guitarra de “Blue Flower, já demonstram uma inclinação mais “rock”.
Sempre uma agradável lembrança.

16 maio 2008

Kelley Polar – “I Need You to Hold On While The Sky Is Falling” (2008 Environ)

Em 2005, com “Love Songs of The Hanging Garden”, foi comparado com o malogrado Arthur Russell. Ambos eram músicos com formação clássica na prestigiada Julliard School de Nova Iorque. E tal como Russell, duas décadas antes, também Polar travou conhecimento com músicos de dança que o introduziram a novos universos musicais. Russell com o pioneiro do “disco” Larry Levan, Polar com Morgan Geist dos Metro Area, um dos melhores na utilização das penetrantes linhas orquestrais do “disco” na “house”.
No disco de estreia tentou provar que era possível criar uma música profundamente pessoal, ao desenvolver cenários melancólicos, assentes em soluções rítmicas compactas e evolutivas.
Este novo disco, é um passo em frente, e cimenta essa capacidade ao reunir uma colecção de estranhamente exuberantes e belas canções, mas que permanecem totalmente acessíveis.
O disco abrange uma diversidade de ideias, infiltrando elementos de “pop”, “disco”, “house”, “minimal techno”, e até “r&b”, para criar uma banda-sonora de um universo alternativo, que nos ocupa e estimula a mente e o espírito.
Mais uma vez a produção de Morgan Geist dá uma atenção especial aos detalhes. E como destaques selecciono: a sinfonia “electro” de “A Feeling of the All-Thing”, “Chrysanthemum”, o sumptuoso dueto de “Entropy Reigns (In the Celestial City)”, “Satellites” e “Thurston & Grisha”.
Um disco, que pelas suas concebíveis contrariedades, não soa como nada que foi antes produzido. E por isso mesmo muitas pessoas não gostarão deste disco.

15 maio 2008

Novidades - Wedding Present

Já está disponivel o novo single que antecipa o regresso da veterana banda de David Gedge. Não existirão edições em CD ou vinil, só estará disponivel via "download" em sites como iTunes ou Emusic.
Gravado com Steve Albini, o single estará incluido no próximo album de originais - "El Rey", que será editado nos Estados Unidos dia 20 de Maio, e na Europa dia 26 de Maio.
O titulo do single recordou-me de um tema dos Specials (já na fase Special AKA) - "What I Like Most About You Is Your Girlfriend" - mas duvido que Gedge terá tido aí a sua inspiração.

The Wedding Present - The Thing I Like Best About Him Is His Girlfriend

13 maio 2008

Do fundo da prateleira # 9 - Superchunk - “No Pocky For Kitty” (1991 Merge/Matador)

Originários de Chapel Hill na Carolina do Norte, os Superchunk inicialmente tocavam um “punk” puro para ouvidos “pop”. Ao misturarem o tom áspero dos The Replacements com o sentido melódico dos Buzzcocks, o quarteto trouxe algo único e ajudou a lançar o espírito “DIY” do “rock underground” que se desenvolveu como contraste ao movimento de rock alternativo pós-Nirvana.
E ao contrário de outras bandas os Superchunk transformaram essa estética numa carreira e num movimento, e ao repelirem as grandes editoras multinacionais, a favor da sua própria editora, a Merge, tornaram-se nuns Fugazi da “pop-punk”.
Os seus melhores momentos acabaram por surgir na forma de três minutos explosivos. Muitos deles presentes em “No Pocky For Kitty”. Será menos um grande álbum, mas será certamente uma colecção de grandes “singles”, pois inclui canções furiosamente tímidas e loucamente contagiantes como “Seed Toss” e “Tie A Rope To The Back of The Bus”, todas cantadas pela voz de hélio de Mac McCaughan.
Desde a edição deste disco, os Superchunk transformaram-se em algo raro: “punk-popers” que melhoraram musicalmente com o passar dos anos, sem nunca perderem a sua alma.

Superchunk - Seed Toss

12 maio 2008

Electronic # 1 - Aphex Twin – “Selected Ambient Works Vol. II (1994 Warp)

Nascido em 1970, em Cornwall, Richard D James desde muito novo se começou a entreter com aparelhos eléctricos (futuramente iria estudar electrónica na Universidade). Tornou-se um prodígio nos teclados, pelo facto de modificar e customizar os seus sintetizadores analógicos de forma a satisfazer as suas peculiares especificações. Essas transformações fariam com que a música criada por James tivesse um carácter único, que iria influenciar muitos outros músicos electrónicos.
Este disco de hipnotizante e transcendental música ambiental empurrou Richard D James /Aphex Twin para o mais elevado patamar dos compositores minimalistas.
Profundamente medianeiro, os 23 temas de “Selected Ambient Works Vol. II” entram pelo nosso subconsciente com hologramas vocais, assombrosamente tranquilos sintetizadores e ocasionalmente, batidas hipnóticas. “Vol. II” parece emanar de um sistema solar distante.
Paralelamente James remisturaria os Meat Beat Manifesto, Saint Etienne, Curve, e Jesus Jones, mas recusaria os U2. A seguir a este trabalho James explorou estilos musicais mais próximos do “breakbeat” com o mesmo brilhante carácter caprichoso.

09 maio 2008

DeVotchka - “A Mad & Faithful Telling” (2008 Anti)

Já não é de agora (David Byrne ou Peter Gabriel, entre outros, já por lá passaram), mas a globalização tem uma participação cada vez mais acentuada na música “pop”/“rock”. Existem cada vez mais bandas a buscar inspiração em temas globais (podemos referir Beirut, A Hawk and a Hacksaw, Gogol Bordello, M.I.A., Vampire Weekend, como os mais recentes).
No entanto ninguém cultivou o seu multiculturalismo como os intrigantes DeVotchka.
Originários de Denver, é certo que os DeVotchka nunca foram estritamente uma banda “indie-rock”, sempre navegaram por outros territórios, onde as influências ciganas, eslavas ou gregas, ajudaram a criar este “global gypsy folk” caracteristicamente único. Mas é certo que o seu ecletismo instrumental sempre criou canções épicas e emocionais, que oscilam entre um tipo de “cabaret” teatral e as confissões pessoais.
A fantástica vibração produzida pelo violino, pelo acordeão, pelo “bouzouki”, pelos trompetes, ou pelo “sousaphone”, desembainha uma esfera musical sem limites, desde a introdução com “Basso Profundo”, que mistura “folk” da Europa de Leste com influências Morricone, ou no subtil e luxuriante “Along The Way”, com a impetuosa secção de cordas e as cornetas “mariachi”. E assim como “Head Honcho” se diverte com a “polka”, o bolero está presente em “Undone”e a música cigana em “Comrade Z”. Se a todo isto juntarmos o trautear de Nick Urata, temos o som de um novo mundo global.

08 maio 2008

DVD # 2 “Warp Vision 1989-2004” (2004 Warp)

Uma compilação para os fanáticos da editora Warp, que ao completar quinze anos de actividade, resolveu editar os vídeos que acompanhavam a promoção dos seus artistas.
A editora ficou conhecida por tentar incorporar a sua inovativa sonoridade também na imagem gráfica dos seus discos e vídeos.
Aqui encontramos desde os pioneiros da electrónica experimental como Sweet Exorcist, L.F.O. ou Nightmares on Wax, passando pelos seguidores como Autechre, Plaid ou Squarepusher, mas também todos os outros artistas que foram passando pela eclética editora como Jimi Tenor, Broadcast, Luke Vibert ou Prefuse 73.
E é interessante assistirmos à evolução da qualidade dos vídeo, desde o primeiro, absolutamente básico que é “Testone” dos Sweet Exorcist (curiosamente realizado por Jarvis Cocker) em 1990, até aos notáveis trabalhos dos Autechre que complementam visualmente a música, como “Gantz Graf” de 2002.
Nestes 32 vídeos o destaque obvio vai para os realizados por Chris Cunningham para Aphex Twin, Squarepusher e Autechre, onde o universo bizarro do primeiro encaixa perfeitamente na electrónica disfuncional dos segundos. Em especial essa deliciosa parodia aos vídeos de hip-hop que é “Windowlicker”.
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06 maio 2008

Anjos Caídos

Comsat Angels – “Waiting for A Miracle” (1980 Polydor)
Comsat Angels – “Sleep No More” (1981 Polydor)


Este quarteto, apesar de ter editado discos em multinacionais, nunca teve o reconhecimento que merecia, e sempre viveu na sombra de contemporâneos como os Joy Division, os Wire, os Magazine ou os Echo & The Bunnymen.
Felizmente há alguns anos atrás a Renascent lembrou-se de reeditar os seus discos e tentar promove-los da mesma forma que tentaram anteriormente com os The Sound (a origem deste post foi aqui inspirada). Assim gerações mais novas podem descobrir canções brilhantes como “Independence Day” ou “Dark Parade”.
Originários de Sheffield, os seus dois primeiros álbuns “Waiting for A Miracle” (1980 Polydor) e “Sleep No More” (1981 Polydor), têm uma sonoridade única, caracterizada pelo estilo minimalista, mas harmonioso, de tocar guitarra de Stephen Fellows.
Cedo perceberam que podiam ter pretensões artísticas e serem simples ao mesmo tempo, dando mais ênfase à bem imaginada energia e domínio do que á complexidade musical.
Utilizando os Television e os Talking Heads como principal inspiração, desenvolveram uma sonoridade frugal, límpida, mas que atinge fortemente.
Do primeiro para o segundo disco nota-se que amadureceram, e aparecem mais confidentes, rigorosos, mas também mais frios (apesar do som ser mais pesado), nomeadamente na capacidade lírica. E se as letras continuam a abordar a decadência romântica, a resultante paranóia está muito mais forte e evidente. Como resultado “Sleep No More” poderá não ser tão acessível como o primeiro, mas não será menos intenso e brilhante.
Com “Friction” de 1982 tentaram aligeirar o som, e apresentaram um disco muito produzido. Apesar do “pop” sofisticado que predomina ao longo do disco, este não teria os momentos inspirados dos dois anteriores. Esses, sim, iriam assegurar-lhes um lugar cativo no quadro de honra dos melhores discos do pós-punk britânico.

05 maio 2008

Covers # 2

Aproveitei o fraco dia de Domingo para organizar e ordenar alguns discos, e entre eles estava a discografia que possuo das The Breeders.
Verifiquei que os seus discos não tem muitas versões, a excepção nos álbums é este clássico:

The Breeders - Hapinnes Is A Warm Gun (Beatles)

Mas nos vários EP's, existem algumas interessantes, de gente tão diferente como Sebadoh ou Aerosmith.
Do EP "Safari" anexo uma versão dos The Who:

The Breeders - So Sad About Us (The Who)

Por falar nos The Who, esta senhora fez um disco só com versões do disco "The Who Sell Out", uma experiência que sempre me fez confusão:

Petra Haden - Armenia City In the Sky (The Who)

E será que alguém ainda se lembra dos Cud, que no início dos anos 90 editaram
discos "indie-pop" como "Leggy Mambo" ou "Asquarius".
Numa das suas "Peel Sessions", gravaram esta gravação
do conhecido tema dos Hot Chocolate.

Cud - You Sexy Thing (Hot Chocolate)

02 maio 2008

Fuck Buttons - “Street Horrrsing” (2008 ATP)

Numa primeira impressão, este duo não está a fazer nada de novo. Mas se prestarmos alguma atenção eles estão a pegar em barulhos estranhos e a misturá-los energicamente com um punhado de esplendorosos padrões sonoros, para criar algo verdadeiramente novo, e que se torna mais cativante a cada audição.
Podíamos efectuar comparações com os Black Dice, por exemplo, mas existe aqui um equilíbrio cirúrgico que mais ninguém conseguir realizar. É “noise”, mas virtuoso, intenso, inteligente e apocalíptico.
O facto de terem gente como Bob Weston (Shellac) ou John Cummings (Mogwai) na masterização e produção, certamente ajudou. São seis temas que se estendem em cerca de cinquenta minutos, e apesar de repetirem alguns artifícios, continuam a ser cativantes, nunca atingindo a redundância.
A resplandecente “Sweet Love for Planet Earth” dá o mote, e prepara-nos a mente, com a longa introdução de harmoniosos sons refractores, antes do massivo e deformado baixo e as vozes lutarem entre si, ao longo de nove claustrofóbicos minutos. Seguem-se momentos brilhantes como o tribal “Ribs Out”, construído a partir de uma divertida percussão, ou o sónico “Okay, Let’s Talk About Magic”. Até encontrarmos “Bright Tomorrow” que derrama uma batida “house” directa sobre melodiosas texturas criadas por um indistinto órgão e outros efeitos, até culminar num clímax que é simultaneamente brutal e arrepiantemente belo.
Para os interessados em música verdadeiramente inovadora.

29 abril 2008

Compilação # 1 “Artificial Intelligence” (1992 Warp)

Apesar de John Cale ter popularizado o termo “Artificial Intelligence” no seu álbum de 1985, seria esta compilação da editora Warp a responsável (pelo menos para mim) pelo ressurgimento da música electrónica como uma experiência musical audível, ou se preferirem música de dança para se “escutar”. Iriam rotula-la de IDM – Intelligent Dance Music).
Rob Mitchell e Steve Beckett, fundadores da Warp, andavam atentos e descobriram que existiam muitos projectos musicais de dimensão similares, e decidiram criar um espaço onde pudessem conviver.
É certo que já tinham existido as experiências anteriores dos KLF ou The Orb que criaram um primeiro género de “ambiente house”, e que os artistas aqui presentes foram sem dúvida influenciados pelos Tangerine Dream ou Kraftwerk, mas souberam pegar em todas essas influências e expandiram-nas para criar algo verdadeiramente único.
Apesar das contribuições de muitos dos projectos aqui presentes (maioritariamente sobre a forma de pseudónimos), não serem tão interessantes como os seus trabalhos posteriores, seria desta forma que muitas pessoas iriam contactar pela primeira vez com nomes como Aphex Twin (como Dice Man), B12 (como Musicology), Black Dog (como I.A.O.) ou Autechre. E felizmente todos rapidamente iriam aprender a explorar e potenciar este novo espaço musical através de álbuns notáveis para a Warp.
Independentemente disso, muita da música aqui contida ainda hoje soa moderna e inovadora, especialmente os temas dos Autechre (“Crystal” e “The Egg”), dos I.A.O. (“The Clan”), e o esquecido “Spiritual High” dos UP! (mais uma maravilha criado pelo génio de Richie Hawtin).
Um pedaço de história.

28 abril 2008

Warp Records - Três “bleeps” com coragem

LFO - "LFO" - 12" (1990 Warp)

O som do “techno” britânico atingindo o estrelato, após os primeiros movimentos dos Unique 3 ou Nexus 21. Um estrondo minimal amontoa as “Low Frequency Oscillation” arrepiantes linhas de baixo em direcção a um importuno e falso motivo do sintetizador, e uma “ciber-voz” verdadeiramente atirada.


Nightmares on Wax - “Aftermath” 12” (1990 Warp)

Desorganização sensorial da maior grandeza para este duo, que inventou um novo género e que o matou no espaço de um “single”.
O que parece como um resultado de uma explosão nuclear fechada dentro de um ritmo, e polido com o perturbador refrão: “There’s something going round inside my head…”

Polygon Window - “Quoth” 12” (1993 Warp)

Retirado do álbum “Surfing On Sine Waves”, isto é “techno” tribal agressivo tocado por uma orquestra de flautas de metal e barris de plástico, progredindo num frenesim rítmico.
A experimentação com “samplers” no seu limite. Ou se preferirmos a aplicação da presciência.

24 abril 2008

Editoras # 1 – Warp Records

Na ressaca da explosão da música electrónica, nos fins dos anos 80, proliferavam pequenas editoras, que proporcionavam a divulgação de inúmeros tecnocratas “caseiros”.
As tabelas de vendas “indie”, no final dos anos 80/ princípios dos anos 90, eram regularmente animadas por discos de música electrónica, editados em obscuras editoras, que muitas vezes nem se aguentavam o suficiente para editar os seguintes.
Em Londres muitas pequenas editoras sobreviveram como servientes dos DJ’s da moda. Mas seria em Sheffield que iria acontecer uma verdadeira lição de sucesso na história das editoras britânicas independentes.
Steve Beckett e Rob Mitchell, já se conheciam e quando a loja de discos onde Beckett trabalhava fechou, decidiram abrir no mesmo espaço, uma distribuidora de música electrónica e música “indie” baptizada Warp Records.
Ao serem inundados com inúmeras cassetes e “white labels” de músicos locais, decidiram juntar algum dinheiro e criar uma editora com o mesmo nome.
A estreia aconteceu com “Track With No Name” dos The Forgemasters, numa edição de 500 exemplares. Esse disco, uma aventura do produtor Rob Gordon, e a segunda edição da Warp, Nightmares on Wax – “Dextrous”, tiveram algum sucesso. Como iriam ter LFO – “LFO”, Tricky Disco – “Tricky Disco” e Nightmares on Wax – “Aftermath”, que entraram no Top 20.
Nessa altura, a música da Warp diferenciava-se de tendências da altura como o “Balearic” ou a “Italian House”, e excepto caso se tivessem acesso aos intrujantes trabalhos do mestre Derrick May, os primeiros discos da Warp soavam como se estivéssemos a digitar um telefone por cima de um disco “dub”. No entanto esses sons puros e o aterrorizador baixo acabaram por ser um grande sucesso.
O facto de terem aparecido tantos músicos influenciados pela música electrónica em Sheffield, não foi nenhuma feliz coincidência. Pois precursores como os Cabaret Voltaire (cujo membro Richard H. Kirk era metade dos Sweet Exorcist) e os The Human League, eram ambos originários de Sheffield.
Provavelmente o fracasso do primeiro álbum, o conceptual “Clonk’s Coming” dos Sweet Exorcist, fez com que se afastassem dos caprichos da pista de dança, para abordarem projectos mais propícios aos discos de longa-duração.
Assim surgiram o magnífico e assustador “Frequencies” dos LFO vendeu muito bem quer em Inglaterra quer nos Estados Unidos. Os Nightmares on Wax editaram o alucinatório e futurista som “funk-rap” no disco de estreia “A Word Of Science”. E ainda editaram compilações de qualidade como “Pioneers Of The Hypnotic Groove” e “Artificial Intelligence”, esta última tornando-se num disco importantíssimo. Porque aparte o seu valor como um conjunto de delicadíssimas e relaxantes paisagens sonoras, “AI” foi um daqueles discos que sinalizou para onde penderia o futuro da musica electrónica.
O caminho seguiu com o que se designou de IDM – Intelligent Dance Music, ou “electronic listening music”, como prefiro, com os trabalhos de Polygon Window (ou Richard James/Aphex Twin), Black Dog, B12, FUSE (de Richie Hawtin), Wild Planet entre outros.
Como forma de evitar problemas com a indolente imprensa musical, decidiram fundar uma editora “indie guitar” ao criar a Gift, cujos primeiros artistas seriam os Newspeak, Various Vegetables, e como porta-estandartes, os gloriosos Pulp.
Passadas quase duas décadas, conseguiram provar, como a 4AD ou a Creation nos seus respectivos campos de acção, que ganharam a luta pela busca de música inventiva e de qualidade.
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Nightmares on Wax - Aftermath

21 abril 2008

American Music Club - “The Golden Age” (2008 Cooking Vinyl/Merge)

Na segunda vida dos AMC, e ao nono disco, Mark Eitzel continua a criar grandes canções.
Em “The Golden Age”a musica surge fácil e leve, flutuando ao longo de acordes com inclinações “jazz”, às vezes tensos, mas completamente espontâneos.
As canções podem parecer agradáveis e encantadoras à superfície, mas existe sempre alguma raiva escondida por debaixo.
A sua melancolia ainda é predominante, e a sua habilidade de flectir acordes glaciares a volta de pura poesia permanece vital. De facto está mais forte do que nunca.
Para cada tempestade como “The Decibels And The Little Pills”, temos uma desvirtuada, mas imaculadamente criada canção “pop” como “All The Lost Souls Welcome You To San Francisco”.
E apesar de agora residir em Los Angeles, as referências a San Francisco continuam presentes. Mas as canções que mais chamam a nossa atenção, atingem uma rede mais vasta. E se Eitzel, que tinha como sua marca, as canções autobiográficas, como “Fearless”, aqui surge mais forte ao adaptar histórias narradas pelo ponto de vista de outras pessoas, como em “The Decibels And The Little Pills”, “The Grand Duchess of San Francisco”, e mais impressionantemente em “The Dance” e “The Windows on The World”, que relembra o 11 de Setembro pelos olhos de um turista no 107º andar do World Trade Center.
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18 abril 2008

Pop # 1 - Matthew Sweet – “Girlfriend” (1991 Zoo)

Era uma vez um miúdo fanático pelos Big Star e que desde muito novo trocou correspondência com Michael Stipe e Mitch Easter, Sweet mal acabou o liceu mudou-se para Athens, na Geórgia, onde se juntou à irmã de Stipe nos Oh-OK. Cedo assinou como artista a solo por uma editora, mas os seus dois primeiros discos soavam extremamente datados.
Mas com “Girlfriend”, Sweet, deu o passo, que anteriormente faltou. Dois factores foram fundamentais para que isso se concretizasse. O primeiro resulta da inspiração proveniente do seu tumultuoso casamento e também por uma recente inundação que lhe destruiu a casa. A segunda é o sublime contributo prestado por dois veteranos guitarristas - Richard Lloyd (dos Television) e especialmente Robert Quine (dos Richard Hell & The Voidoids, e colaborador de Lou Reed ou Tom Waits, entre outros) - que aqui estão super-inspirados, verdadeiramente em “chamas” durante todas as melodiosas e harmoniosas canções
O disco está recheado de brilhantes momentos de habilidade “pop”. Canções alegres como “I’ve Been Waiting” e “Evangeline”, assim como a lamentosa “Winona” e a sombria “Divine Inspiration” soam tão emotivas, arrebatadoras e genuínas como os discos dos R.E.M. e dos Game Theory que originalmente inspiraram Sweet.
Foi um dos melhores discos de “powerpop” dos anos 90 (juntar Teenage Fanclub e Posies), e que ainda hoje permanece vibrante e estimulante.

16 abril 2008

Singles # 14 - Grandmaster Flash & The Furious Five - “The Adventures Of Grandmaster Flash On The Wheels Of Steel” (1981 Sugarhill)

Os primeiros discos verdadeiramente identificados como “hip-hop” (The Fatback Band – “King Tim III” e Sugarhill Gang – “Rapper’s Delight”) tinham sido editados dois anos antes, mas seria Grandmaster Flash que iria com este disco massificar o movimento.
Flash trouxe a arte de “djing” para outro nível de sofisticação ao introduzir técnicas como o “backspinning” e o “cutting”. Foi pioneiro no uso do “cross-fader”, ou na forma como sobrecarregava os canais do misturador com ruído.
E se por um lado, “…Wheel Of Steel” era uma colagem de discos diversos como Sugarhill Gang – “8th Wonder”, Queen – “Another One Bites The Dust”, Blondie – “Rapture”, Chic – “Good Times”, The Incredible Bongo Band – “Apache”, a banda sonora de “Flash Gordon” e até extractos de uma história infantil, que Flash gravou dos gira-discos de uma forma directa, até conseguir o som pretendido (consta que conseguiu à quinta tentativa), por outro lado, era mais do que uma colagem, era uma “cut-up” que servia de “batida” ao longo dos sete minutos do disco. Flash demonstrou que o gira-discos, poderia ser um instrumento de percussão com um alcance e uma aptidão expressiva superior à da bateria e outros instrumentos similares.
Audacioso, assertivo e agressivo como quase tudo o que surgia da orla “art-punk” de Nova Iorque, e que se mantém como a maior proeza de temeridade.
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10 abril 2008

The Ruby Suns – “Sea Lion” (2008 Sub Pop)

O segundo disco do projecto liderado por Ryan McPhun (um californiano a residir na Nova Zelândia), é provavelmente um dos mais singulares editados pela Sub Pop nos últimos anos, mas também será um dos mais fascinantes.
Difícil de categorizar, apesar de ser essencialmente um disco “pop”, a engenhosa mistura de psicadelismo, “world music” e “rock”, dão-lhe um som globalizante e policromático.
As guitarras são a base das composições, mas a presença de instrumentos menos usuais como “ukulele” e “djembe”, e a utilização de outros sons pouco familiares (como acessórios domésticos e gravações de animais no seu habitat natural), conferem-lhe um charme distinto. Sendo tão reminiscente do “sunshine pop” dos The Beach Boys, como das variações dos Animal Collective.
Os sons quentes, apoiados numa delicada percussão, e com as letras a abordarem o meio ambiente e as culturas indígenas, “Sea Lion” é a evocação de um mundo de delicada beleza.
Uma das canções do disco parece dar o mote - “Adventure Tour” – pois é um percurso através de Africa, Polinésia, América Latina, e pelas diversas regiões da Nova Zelândia.
Destaco “Oh, Mojave”, “These Are Birds”, “Kenya Dig It?” e “Tane Mahuta” (totalmente cantada em Maori).
Arrebatador, evocativo e extraordinariamente belo, é ideal para se ouvir ao pôr do sol, agora que o verão se aproxima.

08 abril 2008

Classic # 14 - The Stone Roses – “The Stone Roses” (1989 Silvertone)

“Sgt. Pepper…”, “Dark Side of The Moon” “Never Mind the Bollocks”, cada geração tem os seus álbuns de culto, que muitas vezes determinam modas e comportamentos. Para quem tinha entre 15 e 25 anos em 1989, “The Stone Roses” foi um deles.
Curiosamente e ao contrário, dos referidos discos, no inicio teve pouca ressonância cultural, politica e comercial. Apareceu do nada, indiferente, e foi através da sua divulgação pela rádio, que vincou a sua magnifica mistura de “indie-pop” e psicadelismo que grupos como os Primal Scream já andavam a tentar produzir sem sucesso.
O disco não é particularmente revolucionário, só que continha um inesperado conjunto de superlativas canções “pop”, brilhantemente tocadas por quatro desinteressantes rapazes oriundos de Manchester.
Sempre que regresso a este disco é admirável como quer as canções, a performance e a produção (cortesia do veterano John Leckie), resistiram ao passar dos anos. E que a atmosfera de mistério e melancolia inicial ainda permanece sem diminuição.
Desde os primeiros acordes de “I Wanna Be Adored”, onde o crescente baixo de Mani, é adicionado ao brilhante, extremamente retardado e descendente “riff” de John Squire, existe uma sensação totalmente do outro mundo.
No “riff” circular de “Waterfall” – e no seu reflexo retrógrado “Dont’ Stop” – o convite para desligarmos a mente e relaxar, é descaradamente reminiscente dos Beatles. A “pop” firmemente “ferida” de “She Bangs The Drums”, “Made Of Stone” e “(Song For My) Sugar Spun Sister” relembra a “pop” psicadélico dos Byrds.
Ian Brown não é um grande cantor, mas a sua ansiosa e melancólica voz tem um efeito monotonamente volátil. A guitarra de John Squire é inspiradora e sincopada, e cria a alquimia perfeita com a leve e fluida bateria de Reni, e o ágil e vivo baixo de Mani. É uma terapia musical que culmina no extenso e sibilante “I Am the Resurrection” – o tema que encerra o disco e completa o consciencioso ciclo iniciado em “I Wanna Be Adored”.
“The Stone Roses” deu o tom para a música rock dos anos 90.

04 abril 2008

Erykah Badu – “New Amerykah Part One (4th World War)” (2008 Motown)

O título do quarto disco de Erykah Badu já indiciava o que deveríamos esperar.
Ambicioso e alienado, é um regresso em força, que ultrapassará todas as ideias e convenções que no passado definiram o chamado “neo-soul”. Pois é um regresso ao genuíno e corajoso “soul” que associamos a artistas como Marvin Gaye, Curtis Mayfield ou Stevie Wonder. Apenas posso acrescentar na actualidade a música realizada por pessoas como Common, Bilal e The Roots.
As suas mensagens surgem quer através de poesia dissimulada, quer através de directos e objectivos comentários, com apimentadas referências sobre política, a sua vida privada, e o estado actual da música “soul” e “hip-hop”, excelentemente difundidos através dos espectaculares acompanhamentos musicais.
Apesar da multiplicidade de produtores que colaboram no disco, este é sempre muito consistente.
Desse grupo de colaboradores que participam no disco, destaca-se a presença do veterano Roy Ayers e do mágico Madlib. Ayers colabora no maravilhosamente bizarro “Amerykahn Promise”, um tributo ao movimento “blaxploitation” dos anos 70. Já Madlib introduz uma ondulação ameaçadora ao atmosférico hino “The Healer (Hip Hop)”, uma tentativa de autobiografia pessoal, onde Badu canta com uma graciosidade e entrega única, mas sempre com um agradável humor. Madlib ainda contribui no jovial “My People”.
Curiosamente a faixa bónus do disco - “Honey” – é também o primeiro single retirado do mesmo. E a sua inclusão como bónus até parece lógica, pois apesar de ser uma excelente canção, não encaixa no contexto do disco.
É certamente o disco menos acessível que Badu já realizou, mas a sua considerável profundidade e solidez, convida-nos a investirmos tempos na sua exploração, e a densa produção assegura que o disco nós trará novas recompensas a cada audição.

Erykah Badu - Honey (Captain Planet Remix)

02 abril 2008

Rock # 3 - The Monks – “Black Monk Time” (1966 Polydor)

Reza a história que cinco militares americanos foram para a base de Gelnhausen na antiga Republica Federal Alemã em 1963. Após terem sido exonerados, aventuraram-se na emergente cena “beat” alemã.
Chamaram a atenção porque se vestiam como monges, sempre de negro, com o cabelo a condizer. E com o seu disco de estreia, editado na Alemanha pela Polydor, criaram um dos discos mais estranhos de sempre.
“Black Monk Time” foi o ano zero para a “selvajaria” rock. Era música “punk” repetitiva e brutal, com referências ao ódio e à guerra - letras completamente alienadas, de como odiavam as namoradas e o Vietname, quando a onda “peace and love” estava no seu auge, e as polémicas posições anti-guerra ainda estavam a dois anos de distância.
Adicionalmente ao tradicional conjunto de instrumentos das formações clássicas (guitarra, baixo, bateria), adicionaram o órgão e o banjo. E o banjo agita toda a ferocidade musical, acompanhando o pulsante órgão, a bateria tribal, as guitarras frenéticas, e as letras venenosas que gritavam.
Aqui não há momentos de descanso, desde o explosivo “Monk Time” (onde acidentalmente descobriram o “feedback”), passando pelo constantemente contraditório “Drunken Maria”, pelo irreal “Higgle-Dy Piggle-Dy”, ou pelo repetitivo “Oh How To Do Now”.
Apesar de terem sido creditados diversas vezes como percursores da rebeldia do “punk” (a sugestão de que os The Monks estavam dez anos à frente dos Sex Pistols e dos The Clash, sugere que a sua musica é similar ao “punk-rock” dos ano 70, o que não é o caso, apesar de terem a mesma intensidade, o som diverge imenso) e das batidas hipnóticas do “krautrock”, com a edição em CD, já na década de 90, deste disco, e com o apoio dado por bandas como The Fall, Henry Rollins Band e Jon Spencer Blues Explosion, chamaram a atenção de um público mais novo, para o seu perfurante e primitivo “rock’n’roll”.
Um disco bizarro, mas essencial para quem aprecia ou pretende descobrir mais sobre o “garage-rock”/”punk-rock” dos anos 60.

01 abril 2008

Covers # 1

Comecei a compilar uma lista de "covers" que gostava, ou por serem realmente boas versões dos originais, ou por serem divertidas e curiosas transformações dos mesmo.
Primeiro comecei com os albuns e singles originais, depois persegui as compilações e os discos de tributos, e ainda me aventurei pelos vários Mp3's que circulam na Net.
Desisti pois já ia em mais de 1000, e não estava a chegar a lado nenhum.

Como achei o dia apropriado, decidi começar a partilhar algumas, sem ordem definida (será por sorteio), para agradar a gregos e troianos...

Esta por estar no disco dos 25 anos da Rough Trade, serve de tributo a editora e aos Young Marble Giants:

Belle And Sebastain - Final Day (Young Marble Giants)

O culto dos Talking Heads:

Beulah - PsychoKiller (Talking Heads)

Finalmente esta maravilhosa versão de "There Is a Light That Never Goes Out" dos Smith, uma canção notável teve uma re-interpretação à altura. Uma das minhas favoritas.

A versão aqui presente é a que aparece no EP "6 Peace" e não a que consta do EP "Binokular," e conta com a participação de Kpt.Michigan.

31 março 2008

My Favorites # 8 - Moondog Jr. - “Everyday I Wear A Greasy Black Feather On My Hat” (1995 Island)

Apesar de ainda pertencer aos dEUS na altura da edição deste disco, Stef Kamil Carlens já tinha tido as suas experiências nos Kiss My Jazz, e parecia querer definitivamente afastar-se do rumo que Tom Barman pretendia para os dEUS. E essencialmente queria poder gravar as suas composições, e não perder tempo a “lutar” com as composições dos outros membros dos DEUS.
Com a colaboração de vários músicos conhecidos da enérgica cidade de Antuérpia, criou um projecto que iria abordar um som mais “americano”, pois as influências da cultura e música americana são evidentes. O facto do disco ter sido co-produzido pelo competente Michael Blair, conhecido pelo seu trabalho com Tom Waits, e as evidentes semelhanças com o trabalho deste último, aqui presentes, reforçam esse facto (“Cachita” é um excelente exemplo).
O disco é extremamente rico ao nível musical, com variadas fontes: “rock”, “blues”, “country”, “jazz”; que interligadas dão origem a um som original.
As canções como é apanágio em Carlens são extremamente emocionais, intensas, melancólicas.
Destaco algumas das minhas favoritas: “Jintro & The Great Luna”, “Shall I Let This Good Man In” ou “The Ricochet”.
Após a edição do disco teriam problemas legais por causa do nome Moondog, e iriam altera-lo para Zita Swoon. O culto, esse continuaria.

27 março 2008

The Kills – “Midnight Boom” (2008 Domino)

Ao terceiro disco os The Kills continuam a sua visão única de como deve ser o “rock”: tenso, minimal e excitante.
E se pudéssemos pensar que com a contribuição do produtor dos Spank Rock, Armani XXXchange (vulgo Alex Epton), iria existir uma radical mudança sonora, foi puro engano, pois ainda despojaram o seu som para uma forma ainda mais rude e áspera. É certo que existe um ar de modernidade e experimentação, ouçam o alegremente destrutivo “M.E.X.I.C.O.I.C.U.” ou o persistente “Sour Cherry”. E é obvio que também melhoraram os arranjos, mesmo quando só temos bateria, baixo e a disseminada voz, que combinam na perfeição, como no hipnótico “Getting Down”. Ou no delicado momento acústico de “Goodnight Bad Morning”.
Um disco sensual, onde a química e a mística existente entre o duo, não se alterou nem um pouco, e que poderá não alterar a opinião que muitas pessoas têm sobre os mesmos, pois eles não procuram alterar os princípios que firmemente seguem desde o início. Mas certamente poderá ultrapassar os anteriores, pois para quem foi seduzido pelo seu intoxicante charme no passado, é melhor que esteja preparado para se entregarem novamente.

24 março 2008

Drive-By Truckers – “Brighter Than Creation’s Dark” (2008 New West)

Podemos afirmar que “Brighter Than Creation’s Dark”, o seu sétimo disco, inclui algumas das melhores canções dos talentosos Drive-By Truckers.
A saída do guitarrista e compositor Jason Isbell da banda não se notou, pois foi bem compensada pelas composições adicionadas por Shonna Tucker (inclui a impressionante bela “The Purgatory Line”), (e pela integração do veterano Spooner Oldham), que aqui se junta aos principais compositores, Patterson Hood e Mike Cooley, e que mantendo-se em territórios que já nos são familiares, nos relatam histórias únicas como o retrato da desagregação familiar em “Daddy Needs A Drink”, a preocupação da mãe e da mulher que aguarda pelo regresso do seu homem da guerra, em “Goode’s Field Road”. Mas também nos surpreendendo com a divertida crónica de um individuo muito singular em “Bob”.
“Two Daughters and a Beautiful Wife”, “The Righteous Path” e “That Man I Shot”, são absolutamente extraordinários, relatam as negras histórias ocorridas nas pequenas cidades do Sul dos Estados Unidos. E tudo isto transcende para a música, pois tudo aqui soa tão sumptuoso e exuberante.
Um extensivo disco que contem tudo aquilo a que nos habituamos a gostar nos Drive-By Truckers.

13 março 2008

Ebay # 2 - Echospace – “The Coldest Season” (2007 Modern Love)

Este disco é um facilitador, pois reúne quatro 12 polegadas lançados em 2007 por este projecto, que é uma colaboração entre Rod Modell dos Deepchord e Steve Hitchell dos Soultek, que aqui criaram um disco de “ambient dub-techno” reminiscente do som da Basic Channel dos anos 90.
Utilizando uma variedade de equipamentos analógicos, criaram uma atmosfera musical única, um som verdadeiramente autêntico e esplendoroso.
Não sendo um disco muito experimental ou diversificado, pois nunca foge muito do género pretendido, é no entanto extremamente coeso, pois não existe nenhum momento de menor inspiração.
O tema de abertura, “First Point Of Aries”, é um dos melhores do disco, e um perfeito exemplo do som produzido. Começa com um som sibilante contínuo até que uma dissimulada linha de baixo e uma cintilante melodia surgem introduzindo uma enorme e poderosa batida.
Os restantes temas apresentam igualmente magníficas texturas sonoras, que convidam a uma “degustação” contínua desta visionária aventura.
É completamente envolvente, e sem dúvidas um disco indispensável para fãs de música electrónica ambiental.
£1.85

10 março 2008

Classic # 13 - Pavement – “Slanted and Enchanted” (1992 Matador)

O som “lo-fi” impreciso dos Pavement tornou-se numa identidade “indie”, e foi roubado por praticamente todas as bandas que se formaram na sequência de “Slanted and Enchanted”.
Quando este disco surgiu, era inovador e revolucionário, restabeleceu o “indie-rock” numa altura em que grupos como os Nirvana estavam a levar um som mais “limpo” e homogeneizado às massas. Pelo contrário, o som de “Slanted and Enchanted” é “sujo” e “gasto”.
Infalivelmente outras bandas já tinham praticado o “basement rock” antes dos Pavement, mas ninguém antes deles tinha conseguido transformar uma graduação universitária e uma vasta colecção de discos numa estética e mitologia pessoal.
Não seguiam as fórmulas “rock” “standard”, deixavam as guitarras fazer o que queriam, as letras são intencionalmente absurdas e as vocalizações são casuais, muitas vezes desconexas, algumas vezes cantadas outras simplesmente faladas.
A paixão de Stephen Malkmus por trocadilhos (“Zurich Is Stained”, “Fame Throwa”), combinado com um grande sentido de afinação, expressão e melodia, fizeram dele um dos mais interessantes vocalistas do “indie-rock”.
Canções como “Trigger Cut, “Summer Babe”, “Two States” ou “In The Mouth a Desert” são arrebatadoras ao máximo, do tipo de não nos saírem da cabeça o dia todo, e não conseguirmos parar de sussurrar.
No fundo, “Slanted and Enchanted” é um produto do seu tempo – o som de um grupo de miúdos irreverentes que queriam divertir-se e fazer música. Nunca pretendeu ser um clássico.

06 março 2008

Atlas Sound - “Let the Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel” (2008 Kranky)

Um projecto paralelo do prolífero e provocativo Bradford Cox dos Deerhunter, que tenta afasta-se do “noise-rock” claustrofóbico que caracteriza a sua banda. Recolhido em sua casa, criou no seu portátil, uma junção entre electrónica ambiental e melodias”pop”, que resultam numa complexa combinação de sons (na sua maioria inclassificáveis e intrigantes), que tentam retratar os pequenos dramas emocionais da adolescência que carrega.
O disco começa excelentemente com “A Ghost Story” com o “sampler” da criança a narrar uma história assustadora, e se o álbum parece querer continuar nesse território sombrio em faixas como “Cold As Ice” ou “Small Horror”, dando a impressão de se tratar de um disco capaz de assustar e paralisar o ouvinte, não é disso que se trata.
Neste diversificado disco temos composições abstractas como a agitada “On Guard” ou “Winter Vacation” (com a camuflada batida “techno”), e “indie-rock” (mas reinventado) em “Quarantined” ou no exuberante “River Card” (é incrível a percussão). No hipnótico “Recent Bedroom” relembram os My Bloody Valentine, com as suas guitarras “noise”.
O disco inclui ainda “Scraping Past” que contém um inteligente encadeamento da maravilhosamente controlada voz de Cox, com uma saltitante linha de baixo, e que resulta numa bela experiência transversal.
Este disco, que provavelmente suplementa tudo o que Cox criou anteriormente, é sombrio, melancólico e calmante, no entanto completamente reconfortante

Atlas Sound - River Card

05 março 2008

Singles # 13 - Bauhaus - “Bela Lugosi’s Dead” (1979 Small Wonder)

Diz-se que esta canção marcou o início e definiu as elaboradas fantasias cimérias do rock gótico.
Gravado na pequena editora Small Wonder, o primeiro single da banda originária de Northampton, é uma dedicatória ao ícone actor de série B, Bela Lugosi, que se tornaria conhecia pela sua interpretação no filme “Dracula”, realizado em 1931 por Tod Browning, provavelmente ainda hoje o melhor.
Eram dez minutos que criavam uma atmosfera de tensão, resultantes da combinação da voz “cavernosa” de Peter Murphy, apoiada no baixo de David J, na bateria repetitiva de Kevin Haskins e nos sons minimalistas criados pela guitarra de Daniel Ash.
E a canção termina de uma forma magistral com Murphy repetindo “Undead, Undead, Undead…” que parece evocar e reforçar a eternidade dos mitos de Dracula e Lugosi.
Em 1983, a aparição dos Bauhaus no início do filme “The Hunger” de Tony Scott, com David Bowie e Catherine Deneuve, é um prelúdio absolutamente propício para o ambiente soturno que caracteriza a discoteca onde decorre essa primeira cena. E com Murphy a demonstrar porque era (é) um dos melhores “performers” musicais, na forma como interage com a câmara.
A seguir veio “In The Flat Field”.
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Video

03 março 2008

My Favorites # 7 - The Afghan Whigs - “Gentlemen” (1993 Sub Pop/Elektra)

“Gentlemen”, para além de provavelmente ser o ponto mais alto da carreira dos The Afghan Whigs, é portador de uma dúbia distinção: é sem dúvidas o disco mais negro dos anos 90.
Greg Dulli e os seus rapazes, gravaram um disco impecável: um pesaroso, vingativo holocausto romântico, que audaciosamente infunde todas as cruas emoções da música “soul” dos anos 60, com as tumultosas guitarras do rock moderno.
Mas só um testamento assim tão corajoso e verdadeiro, poderia pronunciar com clareza toda a perturbação emocional presente nestas canções, impressionantemente belas como a sublime e penosa “Be Sweet”.
Como outras favoritas temos “Debonair”, e o papel disfuncional que ocupamos nas nossa relações, “What Jail Is Like” uma poderosa descrição do que é estar preso entre culpa e prazer visceral, e esse hino ao desejo e ao vício que é “Fountain and Fairfax”.
“Gentlemen” é um mapa misterioso para os caminhos baldios dos corações despedaçados. – e sangra brilhantemente.