30 maio 2007

Inovadores # 1 - Defunkt - “Defunkt” (1980 Hannibal)

Este colectivo formado em Nova Iorque em 1978, após os seus membros terem desertado dos projectos Contortions e The Blacks de James Chance, foi pioneiro pela forma como incorporou as influências dos grupos de funk dos anos 70, na corrente estética punk-rock nova-iorquina.
Numa intoxicante mistura de free-jazz, “funk grooves” e a atitude punk-rock, criaram uma música abrasiva, frenética e enérgica, ao combinarem uma linha de baixo intimista, e as dinâmicas dançáveis das guitarras e da secção de sopros.
Ouçam os ritmos “funk” de “Make Them Dance”, onde os mesmos parecem que vão explodir a qualquer momento. O claustrofóbico clássico single “Strangling Me With Your Love” é uma referência, com uma surpreendente amarga história de amor. O brilhante “In the Good Times”, uma paródia ao clássico “Good Times” dos Chic, onde os “bons tempos” são os cínicos retratos da vida nos guetos. E o que disser do tema-titulo, com uma introdução vocal fantástica, e a sua história de rejeição.
Existiram muitas reincarnações do projecto que ainda existe actualmente, sempre liderado por Joseph Bowie, e onde se incluíram nomes conhecidos como Vernon Reid ou Melvin Gibbs, mas o nível criativo foi diminuindo ao longo dos anos. No entanto, os dois primeiros discos (este e “Thermonuclear Sweat” de 1982) são fundamentais.
As actuais tendências, podem tornar este disco comum ou ordinário, mas em 1980, numa era de experimentação e cruzamento entre estilos, a música era revolucionária, e não perdeu nenhum do brilho que continha.

28 maio 2007

Battles – “Mirrored” (2007 Warp)

Finalmente chegou “fisicamente” este primeiro disco para a Warp deste grupo de Nova Iorque, que inclui ex-membros dos Don Caballero, Helmet, Tomahawk e Lynx.
Excitante, deslumbrante, imprevisível, e carregado de ideias novas, “Mirrored” é um disco único. O grupo não tem receio de forçar os limites sonoros independentemente do risco de alienar alguns dos seus antigos fãs.
Com “Mirrored”, criaram um grande disco. E em relação aos trabalhos anteriores, ainda expandiram mais a sua música ao adicionar vozes e refrãos mais “pop”. O tema de abertura “Race:In” é o exemplo perfeito desta mudança no som dos Battles, onde as vocalizações assumem o destaque. Não são as letras, são as vozes, muitas vezes tão desenquadradas que não se percebe o que se pretende dizer.
O grupo pode ser facilmente comparável com os géneros de “math rock” e electrónica, no entanto não se prendem a estas referências, e são capazes de surpreender com canções dançáveis como “Leyendecker”, ou dragar aquele “beat” contínuo e poderoso baixo, nada previsível, como no single “Atlas”.
O futuro do rock passará por aqui.

25 maio 2007

Manuel Göttsching – “E2-E4” (1984 RRK/MG.Art)

Uma chamada de atenção, agora que está disponível em Portugal a edição especial do 25º aniversário deste disco.
Editado originalmente em 1984, foi gravado em 1981 num intervalo de uma sessão com o seu grupo Ash Ra Temple.
Intemporal, é um dos mais influenciais objectos de música electrónica de todos os tempos. A beleza hipnótica dos flutuantes acordes de guitarra, a suavidade melódica do som e a beleza rítmica criados pelos sequenciadores, combinam para formar um disco que é um encanto para os nossos ouvidos.
Foi celebremente “samplado” para criar um dos clássicos do “chill-out” em “Sueno Latino” no ano de 1989. E é constantemente referenciado por vários músicos no topo das suas influências, entre eles os veteranos Carl Craig e Derrick May, e mais recentemente James Murphy ou Prins Thomas.
Um trabalho ainda hoje extraordinário. Se ainda não o possuem ou não o conhecem, aproveitem, pois é essencial.

24 maio 2007

DVD # 1 – “Kill Your Idols” (2004 Palm)

Não estamos perante um documentário típico. “A documentary on thirty years of alternative NYC rock 'n roll” era o objectivo.
Scott Crary compila entrevistas com os pioneiros do movimento no-wave e post-punk, e tenta efectuar a ligação do movimento com bandas contemporâneas. A ponte é efectuada pelo grupo que provavelmente uniu os movimentos – os Sonic Youth.
Gravado nas ruas e em apartamentos de Nova Iorque (para além de incluir filmagens originais de actuações em pequenos clubes), em vez de utilizar os tradicionais estúdios de gravação, leva-nos a meditar/reflectir sobre as noções de nostalgia, tempo, tendências e a história da música.
A primeira parte retrata os fins dos anos 70/ princípios dos 80, com elementos de bandas como Suicide, DNA, Theoretical Girls, Teenage Jesus & The Jerks, Swans, a contarem-nos a forma caótica como levaram o punk até aos extremos, ao contrario de outras bandas nova-iorquinas mais “populares” como os Ramones ou os Dead Boys.
Era “anti-music”, atonal e extrema, mas muito mais de acordo com a ética punk de quebrar a barreira entre o artista e a audiência.
Por várias razões, o post-punk/no-wave está novamente na moda, e na segunda parte, saltamos até ao presente, onde encontramos uma selecção de artistas (Yeah Yeah Yeahs, Liars, Black Dice, Gogol Bordello) que se relacionam com essa estética, mas também com todo o contexto musical e cultural do fim dos anos 70/princípios dos anos 80. Eles falam sobre essas influências e sobre as tendências actuais em Nova Iorque.
Interessantes são os comentários dos veteranos sobre os mais novos. Em particular Lydia Lunch, que afirma que estes últimos nada acrescentam e apenas se aproveitam do “hype” em redor do revivalismo criado. Mas, felizmente, o documentário não incide na perspectiva “nova cena versus velha cena”.
As duas gerações estão em contraste; na primeira, a alienação, os riscos, a originalidade e o zero em reconhecimento. Muito diferente da actual que consegue elevar os Strokes para estatuto de superestrelas mesmo antes de ouvirmos a sua música.
Este documentário não diz o que devemos pensar, mas obriga-nos a pensar.

22 maio 2007

Antibalas - “Security” (2007 Anti)

Após dois discos na Ninja Tune, que eram puros exercícios de tributo a Fela Kuti, o regresso em grande com “Security”, que é um passo em frente para este grupo de Brooklyn.
O grupo começa a querer sair da sombra do mestre do Afro-Beat e a explorar o seu próprio som, com resultados surpreendentes. E se nas canções mais longas como “Fillibuster X” ou “Sanctuary” a influência do som de Fela ainda está fortemente presente, em canções mais pequenas como “Beaten Metal” ou “I.C.E.” é evidente o esforço em expandir a música para sons mais próximos do jazz.
Não será alheia a presença de John McEntire na produção, pois o homem dos Tortoise colocou em relevo a densidade harmónica do som, criando uma preciosa textura melódica que relembra tanto Charles Mingus, Sun Ra ou os Can, como Fela Kuti.
A partir da base rítmica do Afro-Beat, os membros do grupo, introduzem jazz, funk, dub, soul e música latina, misturados num “groove” que é simultaneamente hipnótico e infeccioso.

18 maio 2007

Classic # 4 - Joy Division - “Unknown Pleasures” (1979 Factory)

A arte gráfica minimal, monocromática, os títulos modernistas, o vestuário formal e a postura austera faziam dos Joy Division um grupo diferente. Mas seria com a sua música, que se iriam distinguir.
Este quarteto de Manchester nunca imaginou que o seu encontro com Martin Hannett iria mudar o futuro da música. As suas ambições iam para além da mera produção. A sua visão seria fundamental na definição do som que caracterizou este disco. As diferenças entre os singles anteriores e “Unknown Pleasures” são bem evidente. O espaço, o ruído e os efeitos sonoros (gravações de vidro a partir, portas a fechar, passos, etc.) são tão importantes como a estrutura das canções. Na produção envolveu os instrumentos com um rígido eco metálico, e adicionou à bateria de Stephen Morris caixas de ritmos. As canções desdobram-se atrás de barulhos furtivos de emoção e actividade.
As canções de “Unknown Pleasures” fugiram dos “clichés” das letras do “rock” (amor, drogas, juventude, rebeldia, etc), para incluir reflexões sobre tristeza, ódio, desespero, depressão urbana, existencialismo e pessimismo, cujas letras são baseadas nas fabricas fechadas, nas crises económicas, nas consequentes relações desmanteladas, que caracterizavam a Inglaterra no fim dos anos 70.
As dez músicas que constituem o disco são marcos absolutos, qualquer que seja a canção, desde a nervosa dança da morte de “She’s Lost Control”, a chamada pungente de escape, libertação (com o seu magnifico apogeu final) de “New Dawn Fades”, a alternância rítmica que acompanha o imaginário assassinato de “Shadowplay” (que pode ser sumariada na frase “In the Shadowplay acting your own death”), o caminho para o apocalipse de “Insight”, ou a forma como Curtis parece anunciar o fim do mundo em “Day of The Lords”.
Depois temos a estrutura melódica. A voz de Curtis é áspera, profunda e dramática. O baixo de Peter Hook é tratado como o instrumento principal. A percussão/bateria é metronómica. As guitarras são ambientais mas também atacam.
O nascimento da lenda dos Joy Division e um dos documentos do pós-punk. Inigualável na sua perturbante beleza e energia, que ainda hoje soa provocadoramente invulgar e vagamente inquietante. Intemporal. Perfeito.

15 maio 2007

Mary Timony Band - “The Shapes We Make” (2007 Kill Rock Stars)

Este disco representa uma evolução qualitativa na música desta veterana do movimento “riot-grrrl”, que sempre se manteve de fora das tendências mais “hypes” do indie-rock.
Com uma mistura de clarividência e virtuosidade, a multi-instrumentista Timony e a sua banda, desenham diversas paisagens sonoras das mais variadas texturas.
A utilização de teclados, banjos, sintetizadores analógicos, “mellotrons”, viola de arco, e muitos instrumentos “vintage” como os Casios, tornam a música complexa, mas ao mesmo tempo dão-lhes uma sensibilidade “pop”.
”Pause/Off” com os seus arranjos soltos é post-rock, “já “Rockman” exibe traços do prog-rock” que caracterizou as suas experiências anteriores, em oposição “Sharpshooter” é baseado em secos riffs de guitarra.
A determinação que emprega em cada disco faz com que a ex-Helium seja uma das vozes mais reconhecidas e respeitadas do “underground” americano.

10 maio 2007

Stars of the Lid - “And Their Refinement of the Decline” (2007 Kranky)

Após 5 anos de ausência, o regresso deste eclético e atípico duo.
Editado na sempre credível Kranky, este duplo CD (ou triplo LP), é possivelmente ainda mais elaborado musicalmente do que o disco anterior. Com a integração de novas texturas ambientais e a expansão sonora dos temas, o resultado é uma transformação estrutural do som “ambient-drone” que caracterizava o disco anterior, e que torna este trabalho ainda mais calmo e subtil.
O disco abre com “Dungtitled (In A Major)” onde a secção de sopros, se dissolve na panorâmica secção de cordas, imagem de marca do duo. Violinos, violoncelos, harpas, trompetes, substituem cada vez mais a guitarra. Os instrumentos acústicos que anteriormente serviam como apoio, aparecem aqui como o elemento principal.
As alternâncias de “Articulate Silences”(Pt.1 and 2) e os dez minutos de “The Daughters Of Quiet Minds” são inovadores e refrescantes, mas ao mesmo tempo parecem tão familiares, que a sua audição dá-nos conforto.Este duo conseguiu criar outro conjunto sólido de canções, diferentes da maioria dos restantes artistas que exploram um som similar.

07 maio 2007

Tributo # 3 - Mark Kozelek – Red House Painters

Os Red House Painters eram basicamente um projecto de Mark Kozelek, um compositor que via o mundo de uma forma trágica, melodramática, e cujas canções autobiográficas, eram relatos de dor, desespero e perda. Através de metáforas e alegorias, ele enfrentava os seus demónios na primeira pessoa, tendo criado alguns discos singulares e sem paralelo na sua vulnerabilidade e honestidade.
Kozelek tornou-se dependente de drogas ainda na adolescência, e numa das suas fases de reabilitação, tomou contacto com a música, e começou a tocar com bandas.
Após a sua mudança para Atlanta, na Geórgia, conheceu o baterista Anthony Koutsos, e formou a primeira incarnação dos Red House Painters. Em São Francisco iria completar a banda com o guitarrista Gorden Mack e o baixista Jerry Vessel. Numa actuação, chamaram a atenção de Mark Eitzel dos American Music Club, que enviou gravações do período 1990/91 para a 4AD, que as iria lançar como o primeiro disco dos Red House Painters: “Down Colorful Hill”. Este Mini-LP, era uma colecção que combinava magníficas melodias “folk-rock”, com a voz fantasmagórica de Kozelek. O ano de 1993, com a edição de dois discos homónimos, viria a ser o da consagração de Kozelek como um compositor único, capaz de conceber em canções como “Grace Cathedral Park”, Katy Song”, “Evil” e “Uncle Joe” a palete de emoções, que evidenciam e detalham o seu errático e perturbador passado. É uma “folk” desolada, triste, mas simultaneamente é tão belo. Mais uma vez, a imprensa tinha de rotular o estilo, que ficou conhecido como “slowcore” ou “sadcore”. No ano seguinte edita o EP “Shock Me”, uma versão surreal de um original dos Kiss. Após dois anos de intervalo, regressa aos álbuns com “Ocean Beach”, uma colecção de canções mais coloridas, com belos dedilhados delicados de guitarra, que o mostram mais confidente. Será o último disco para a 4AD, e o último dentro do estilo que caracterizou os três primeiros. “Songs for a Blue Guitar”, aparece em 1996 na Supreme, e apesar de Kozelek ser o único membro presente, o disco é lançado sobre o nome Red House Painters, no entanto este trabalho é de orientação mais “rock”, sinalizando o caminho que iria prosseguir.
Os projectos seguintes, a solo, incluem um disco de tributo a John Denver e o disco de versões radicais de canções dos AC/DC.
Em 2003 lançou sobre a designação Sun Kil Moon, o disco “Ghosts of The Great Highway”, um bom regresso, recheado de histórias com referências a “boxeurs”!

03 maio 2007

Classic # 3 - Ride - “Nowhere” (1990 Creation/Sire)

Considerado por muitos como o melhor disco dos Ride, “Nowhere” é não só um dos grandes momentos do chamado “shoegazing”, mas também um dos discos que poderá estar num Top 20 dos discos da década de 90.
“Nowhere” com a sua capa emblemática, é um disco clássico, do princípio ao fim.
Todas as canções, à sua própria maneira, demonstram a magia da música deste quarteto de Oxford no seu melhor: o caos controlado da bateria de Laurence Colbert, a urgência do baixo de Steve Queralt, o “feedback” monótono da guitarra ritmo de Mark Gardner, superiormente “misturados” com a atmosfera melódica criada pela guitarra de Andy Bell. Todos eram soberbos músicos. Outros instrumentos, como a harmónica e a guitarra acústica, aleatoriamente incluídos, visavam ainda embelezar mais as canções. E a perfeita combinação harmónica das vozes de Bell e Gardner, distinguia-os das restantes bandas.

Na melhor tradição britânica de classificar os géneros musicais, o som dos Ride é o que se definiu como “shoegazing”, (os músicos em palco estavam tão absorvidos com a sua música que ficavam a olhar para baixo, para as guitarras, dando a impressão que estavam a olhar permanentemente para os sapatos) mas comparando-o com o dos reis do movimento – My Bloody Valentine – é mais melódico e directo. Provavelmente é o resultado da presença da Rickenbacker de Andy Bell, e os seus efeitos e distorção.
O disco começa em clímax, com ondas de distorção e guitarras que parecem estar a chorar em “Seagull”, e contém canções imensas como “Dreams Burn Down”, e profundas como “Paralysed”. O resultado final é que não encontramos ao longo destas onze canções nenhum momento de fracasso.
O legado de “Nowhere” é um disco clássico, que ao procurar atingir as estrelas, consegue alcançar a lua.

30 abril 2007

Panthers - “The Trick” (2007 Vice)

Este quarteto de Brooklyn, regressa com um disco intenso, que merece atenção de todas as áreas musicais. Uma combinação das origens hardcore e punk dos seus membros com intervenção politica. Gravado com Steve Revitte, que anteriormente trabalhou com Liars ou Beastie Boys, estamos perante canções guitar-rock hipnótico de três minutos. Ruidosas, pesadas e rápidas, mas ao mesmo tempo super-melódicas.
Elementos dos The Jesus Lizard e Stooges, são evidentes nestes hinos rock totalmente cativantes nos seus escassos 32 minutos.
Um som que seria perfeito, se nos encontrassemos num bar nos anos 70 em Detroit ou Cleveland.

26 abril 2007

Explosions In The Sky - “All of a Sudden I Miss Everyone” (2007 Bella Union/ Temporary Residence Limited)

Aos primeiros acordes de “The Birth and Death of the Day” (a faixa que abre o disco), constatamos que estamos perante um disco brilhante.
Este disco, o quarto do grupo texano, é passo em frente em relação aos anteriores trabalhos da banda. Musicalmente as canções estão muito mais eficientes e a variedade instrumental utilizada foi muito mais ampla.
Comparações com bandas classificadas de “post-rock” como Godspeed You Black Emperor! ou Mogwai, podem entender-se devido à música encaixar no mesmo quadrante contemplativo. O que diferencia e ao mesmo tempo ainda mantém a atracção deste formato musical, é resultado da arte dos Explosion In The Sky.
Ao longo do disco, as guitarras contorcem-se ao longo de etapas sombrias, as quais tentam transmitir relações sonoras como: tensão e escape, conflito e resolução, emoção e conforto.
Estamos perante canções “indie-rock” transformadas em longos instrumentais, centradas em melodias simples, mas no entanto obscuras.

Existe uma edição especial de dois CD’s, que contém remisturas dos temas pelos Four Tet ou Adem, entre outros.

16 abril 2007

My Favorites # 3 - Magazine – “The Correct Use of Soap” (1980 Virgin)

Não é fácil escolher o melhor disco dos Magazine. As opiniões sempre se dividiram entre os três primeiros discos desta banda simultaneamente clássica e extremista: “Real Life”(1978), “Secondhand Daylight”(1979) e “The Correct Use of Soap”(1980).
Para mim, sempre me fascinou “The Correct Use of Soup”, que conta com a presença de Martin Hannett na produção, porque é o resultado da evolução sonora começada com “Real Life”, e apesar de poder ser considerado mais comercial do que os anteriores, é neste disco que os cenários de paranóia existencial criados por Howard Devoto atingem o seu limite.
O disco abre em alta com “Because You're Frightened”, com o chocalhar de guitarra que era a marca registada de John McGeoch,, e com Devoto a emitir poesia numa psicose delirante. Em “You Never Knew Me” e “I Want To Burn Again”, estão as anti-canções de amor, da depressão resultante do rompimento da relação
A forma irónica de abordar a auto-estima e o ódio em canções como “I’m A Party” e em “A Song From Under The Floorboards, esta última provavelmente a melhor canção dos Magazine, onde a letra define na perfeição o carácter individualista de Devoto.
E o que dizer da inquietante versão de Sly Stone, “Thank You (Falettinme Be Mice Elf Agin)”, que é seguida pela oblíqua “Sweetheart Contract”, com o baixo de Barry Adamson destoante dos sintetizadores de Dave Formula.
Um trabalho surpreendentemente durável dado o nível de experimentação presente.

11 abril 2007

Andrew Bird - “Armchair Apocrypha” (2007 Fat Possum)


Se “The Mysterious Production of Eggs” (2005) era uma pérola de experimentalismo pop, em “Armchair Apocrypha” o compositor de Chicago expandiu o som desse disco, enriquecendo-o com uma nova densidade rítmica. Agora a guitarra é mais predominante, mas a textura sonora criada pela presença de instrumentos como o violino, aumenta a esfera de acção musical.
Outra detalhada colecção de canções, este disco tem de tudo: melodias cantáveis, letras fáceis de interpretar, alegria, tristeza, emoção, discernimento.
Um dos factores que me fascinam na música de Bird é a forma como nunca leva a melodia no ritmo que esperamos que ela tome. Ouçam “Plasticities” como exemplo.
Dentro de um género, onde abundam cantores/autores medíocres, Bird desenvolveu um estilo singular, que independentemente das surpresas que nos possa reservar, a sua música será distinta dos restantes.
Em última análise, “Armchair Apocrypha é outro objecto de uma beleza única, deste inventivo compositor.

05 abril 2007

Classic # 2 - Gang of Four - “Entertainment!” (1979 EMI)

Este quarteto de Leeds, composto por estudantes de Ciências Sociais (o seu nome é uma referência retirada da China comunista), foi responsável pela produção de alguma da mais excitante música proveniente de Inglaterra no período pós-punk.
Associações aos ensinamentos dos situacionistas, caracterizaram a curta carreira da banda. Curiosamente os membros da banda eram sempre listados alfabeticamente, dando conformidade ao seu espírito equitativo.
“Entertainment!” é a ponte de inspiração entre a primeira onda punk e o pós-punk, que inclui outros percursores como Birthday Party ou 23 Skidoo.
O seu som experimental era punk-funk, ritmos funk de James Brown alimentado pela dinâmica “raw punk” característica da época. Também as letras politizadas baseadas na vida quotidiana e monólogos existenciais, não eram paralelas às do movimento punk.
As canções de “Entertainment!” são verdadeiros tesouros. “Damaged Goods” é tenso, muscular, com as guitarras distorcidas, e com a voz seca Jon King, é a canção que melhor simboliza a obra dos Gang of Four. Em “Anthrax”, após o feedback inicial, o ritmo funky da secção rítmica acompanha 2 vozes em simultâneo, uma que canta outra que fala, e se é desorientador, ao mesmo tempo torna-se única. E “Not Great Men”, para além de ser também uma das melhores canções do pós-punk, é a base dos primeiros discos dos Red Hot Chili Peppers, segundo os próprios.
Curiosamente sempre influenciaram muito mais a música underground americana, desde The Jesus Lizard, Nirvana ou Jon Spencer, até aos representantes da nova onda pós-punk, como Interpol, Radio 4 ou Liars.

30 março 2007

Do fundo da prateleira # 2 - Papas Fritas – “Helioself” (1997 Minty Fresh)

O segundo disco deste trio de Massachusetts, é um lição pop.
Canções pop “lo-fi” de 3 minutos ridiculamente contagiantes.
O piano e órgão relembram o soft-rock dos 70, enquanto as alternâncias vocais levam-nos para o power-pop dos 60. E se estas influências normalmente dão-nos vontade de fugir antes de admitirmos que gostamos delas, aqui conseguem seduzir-nos.
Instrumentalmente este segundo disco foi também uma evolução, em relação ao primeiro, que era muito rudimentar. Especialmente a coordenação entre a secção rítmica, e a prestação de Tony Goddess no piano e órgão.
O disco abre com “Hey Hey You Say”, exercício psicadélico recheado com harmonias vocais exuberantes, e um sintetizador que parece zumbir constantemente.
Enquanto “We´ve Got All Night” e “Live By the Water” com os “falsetos” vocais e as guitarras “surf”, demonstram as influências “Pet Sounds”, já “Sing about Me” é “girl-group” pop puro. “Say Goodbye” apesar de melancólica, é equilibrada com o positivismo da descoberta de algo ou alguém novo.
“Small Rooms” com as suas guitarras e aquele refrão “la la la”, é um hino aos quartos pequenos (ironia ou eternos adolescentes).
“Helioself” é um disco de verão, onde se desejam discos pequenos para dias maiores, e assim sempre o poderemos ouvir duas vezes.

20 março 2007

Malcolm Middleton – "A Brighter Beat" (2007 Full Time Hobby)

Ao longo dos seus três discos, o ex-Arab Strap está a transformar-se. As suas canções estão a perder o fatalismo que as caracterizavam, estão mais agradáveis, revelando que Middleton estará mais optimista em relação à vida.
Este último disco, é um exercício de reflexão, recheado de canções melódicas que evocam simultaneamente serenidade e desespero, complementadas com excelentes arranjos orquestrais, que comprovam a qualidade de composição de Middleton.
Sonoramente distinto do trabalho realizado com Aidan Moffat nos Arab Strap, canções como “We’re All Going to Die”, “Stay Close, Sit Tight” ou “A Brighter Beat”, são mais ritmadas e parecem destinadas a alegrar a rotina diária.
“Superhero Songwriter” encerra o disco, e é um épico de humor negro, onde Middleton aborda com cinismo os seus temas predilectos (solidão, insignificância, etc) até atingir o clímax com um solo de piano, onde afirma: “Superhero songwriter, fixing to change the world from my room, maybe i should stick to writing wills, cos i’m no good at finding ways”.

16 março 2007

Classic #1 - The Modern Lovers – "The Modern Lovers" (1976 Beserkley)

Formados em Boston no início dos nos 70, são por muitos considerados como percursores do punk. Eram diferentes da maioria das bandas do início dos anos 70 (onde a decadência era o mote), pela sua forma de estar e de vestir. Com as suas actuações ao vivo, os Modern Lovers, chamaram a atenção da Warners, que os convidou a gravar uma demos em 1972/73, metade das quais seriam produzidas por John Cale. Mas quando Jonathan Richman disse que não pretendia tocar as canções ao vivo, a Warners anulou o contrato e não lançou o disco. Em 1976, Matthew Kaufman deixou a Warners para formar a Besrkley, e editou o disco com as demos gravadas em 1972/73. E apesar de não ser um álbum no verdadeiro sentido da palavra, este disco é o seu manifesto. É o disco que marca uma fase do som americano da época com a passagem das experiências psicadélicas (expoente máximo Velvet Underground ) para um rock cru e rudimentar. Canções de angústia, neuróticas, recheadas de comentários sociais introspectivos, e com letras adolescentes e bizarras (o que pretende com “Hospital”).
As canções não negam as influências de Lou Reed, em especial na forma como Richman canta e toca guitarra, ouçam “Astral Plane”, “Pablo Picasso” e “Someone I Care About”. O som é reforçado com o complemento musical providenciado pelo orgão Farfisa de Jerry Harrison.
E claro, contém esse clássico rock “on-the-road” que é “Roadrunner”.
Para mim, é esse som primitivo, em combinação com a voz nasal de Richman que faz com que este disco seja tão especial.

08 março 2007

Paul Murphy – “The Trip” (2006 AfroArt)

Este é um projecto pessoal do veterano Paul Murphy, mentor do projecto Soul Drummers, e companheiro de luta de Ashley Beedle. Segundo a informação que consta do interior deste álbum, o mesmo foi imaginado após uma viagem pela Índia. Mas as influências presentes neste disco são universais, já que são vários os estilos musicais aqui representados, concretizados nas sessões gravadas em Londres, com músicos experientes como Roger Beaujolais, David Mantovani ou Ashley Slater, e permitem através da perspectiva “live”, que o disco transmite, atingir um misto de modernidade e tradição, reminiscente das experiências musicais realizadas no princípio dos anos 90 por editoras como a Talkin’Loud ou a Mo’Wax.
A maioria dos temas são excelentes exercícios instrumentais (a viagem psicadélica de “The Trip”, é notável), excepção feita a um dos melhores momentos do disco: “Budapeste Chachacha”, que conta com a participação vocal do duo húngaro Secta Chameleon, é um épico “gypsy-jazz” que hipnotiza o ouvinte.
Só temos que esperar que realize mais viagens idênticas.

05 março 2007

Chin Up Chin Up – “This Harness Can´t Ride Anything” (2006 Suicide Squeeze)

Se “We Should Have Never Lived Like We Were Skyscrapers” (2004) foi uma excelente surpresa, “This Harness Can´t Ride Anything” é um disco que confirma a qualidade deste quinteto de Chicago. 10 canções pop meticulosamente estruturadas, um som envolvente de guitarras e sintetizadores, que chama a atenção para a qualidade musical dos intervenientes. Se o disco de estreia provocou admiração por esse mesmo facto, este disco surpreende pela consistência e qualidade das canções. Estas interligam-se entre si, e quando concluímos a sua audição, ficam-nos na cabeça. Temas como "Mansioned", "I Need a Friend With a Boat", ou "Trophies for Hire" destacam-se pela sua beleza.
A música é difícil de catalogar (o seu território andará próximo de American Analog Set, Modest Mouse, Broken Social Scene). Mas são excelentes canções pop, que lembram a nossa adolescência, cheia de esperança e optimismo.

02 março 2007

Little Annie @ Serralves 02-03-2007

Little Annie ou Annie Anxiety ou Annie Bandez, é uma eclética artista multimédia, cuja música não pode ser categorizada de forma convencional. Ao longo da sua carreira a solo ou nas inúmeras colaborações trabalhou com artistas tão díspares como Wolfgang Press, Current 93, Coil, Fini Tribe, ou mais recentemente com Antony e Khan.
O seu último disco “Songs from the Coalmine Canary” (2006) conta com a participação de Antony, que toca piano. E a grande beleza deste disco, é essa combinação do piano de Antony com a voz crua de Annie, que cria um ambiente jazz negro, retrato cruel da nossa sociedade actual.
Se a sua actuação incidir somente sobre este disco, não iremos ter oportunidade de assistir a outros momentos da sua carreira, como “Little Annie & The Legally Jammin’” (2003), a sua colaboração com Khan (Air Liquide) e Jendreiko, que é um disco excelente. É um projecto baseado no discurso “Spoken-word” de Annie, sobre estruturas rítmicas electrónicas, que poderá ser qualificado como “No Wave Disco”.
Também seria excelente recordar temas dos seus discos mais antigos como "Short and Sweet" (1992), que me revelou esta ex-punk.


Recomendado.

16 fevereiro 2007

New Rave – A cultura rave de regresso – Don’t Believe the Hype?

1. Segundo vários jornalistas ingleses, a cultura rave está de regresso.
Como é normal nestes tempos de nostalgia, as tendências culturas tem um ciclo de 20 anos, senão vejamos: o psicadelismo nos anos 80, o grunge nos anos 90, o electroclash e o pós-punk já nesta década. A cultura rave está de regresso, mesmo na altura em que se prepara a comemoração dos 20 anos do “Second Summer of Love”, que decorreu em Inglaterra no ano de 1988.
Tudo terá começado no último trimestre do ano passado, com o aparecimento dos Klaxons, que auto-intitularam a sua música de “new rave”. O facto de efectuarem uma versão de um clássico rave hardcore (“The Bouncer”dos Kick like a Mule) desse período reforçou essa ideia, e ao juntarem sintetizadores e caixa de ritmos, ao tradicional som rock’n’roll (guitarra, bateria, gritaria, muita gritaria) ajudaram a imprensa a catalogar esta nova tendência. Os singles que editaram, “Atlantis to Interzone”, “Gravity’s Rainbow”, e “Magick”, foram todos sucessos.
O “indie-rock” nunca se deixou ir em modas, a pureza do conceito “indie” é a principal razão para o conceito ainda se manter. Mas o facto é que muitos “indies”, nestes últimos meses, estão a ouvir cada vez mais música de dança, devido a bandas “electro-rockers” como os Justice, Soulwax, MSTRKRFT, Digitalism ou Errol Alkan, principalmente pelas remisturas efectuadas para bandas “indie”, mais do que pelas suas próprias composições.
Se a “new rave” é mais uma reincarnação da chamada “indie-dance”, teremos que aguardar. Mas a mudança visual já acontece, como é norma, basta observar os Klaxons como porta-estandartes.
Mas para mim, como sempre nas modas, o mais interessante será sempre a maneira como, neste caso, a cultura rave será reexaminada, por uma geração muito nova para a ter vivido da primeira vez.

2. Também na Alemanha, a cultura rave está novamente na mó de cima, como consequência nostálgica da relação do país com a música “techno”, “trance”, e as famosas festas “raves” que marcaram a viragem dos anos 80 para os 90.
Mas ao contrário de Inglaterra, o fenómeno é diferente e curioso. Os alemães nunca afastaram definitivamente a cultura “rave”, pois sempre esteve omnipresente. Como exemplo temos o que está a acontecer com o colectivo “Rave Strikes Back”, que inclui DJ´s como Michael Mayer ou Miss Kittin, que ao elaborar o seu Top de temas “rave”, inclui os nomes clássicos como Prodigy, Joey Beltram, Speedy J, Energy 52, entre outros. Mas não deixa de ser curioso e fascinante constatar que também estão incluídos temas dos Kraftwerk, The Human League, Grace Jones, Depeche Mode, Joy Division e até os Sonic Youth. Isto vem constatar a máxima de que para uma festa correr bem, o que o público quer ouvir é que interessa. Um objectivo idealístico deste colectivo é redistribuir a atenção desde o DJ para a festa.
http://www.rave-strikes-back.de/

14 fevereiro 2007

My Favorites # 2 - Spacemen 3 – “Recurring” (1991 Fire)

A união de duas almas gémeas nascidas no mesmo dia do mesmo ano (Pete "Sonic Boom" Kember e Jason Pierce) criou uma das bandas mais incompreendidas pela crítica, quer pelo facto de nunca terem compreendido a sua música, quer pelo facto da banda nunca ter escondido o seu excessivo consumo de drogas duras. Apesar disso os Spacemen 3 rapidamente ganharam uma legião de fãs.
Os Spacemen 3 caracterizavam-se por um som psicadélico, minimal, harmonias distorcidas ao limite, baseadas em guitarras e sintetizadores.
Claramente “Playing with Fire” (1989 Fire) é o grande disco dos Spacemen 3, mas “Recurring” sempre me fascinou pelo cocktail de influências que a sua audição me proporciona.
“Recurring foi gravado numa altura em que os 2 "génios" não se falavam, ficando o lado 1 com as gravações de Boom, e o lado 2 com as de Pierce. Mas o facto é que o disco funciona perfeitamente desta forma.
As composições de Boom são mais horizontais, com um ritmo hipnótico constante do princípio ao fim dos temas. “Big City” é um hino à cultura rave, com o seu ritmo “electro”, só que não dançamos, flutuamos.
“Set me Free”/”I´ve got the Key” é psicadelismo puro, os efeitos sonoros envolvem-nos como uma nuvem.
O som de Pierce é mais lírico, construindo as canções em clímaxes. “Sometimes” é um exemplo típico.
“Feel So Sad” é a pérola deste disco, um “blues” melancólico, com um a voz fantasmagórica. “Feelin’ Just Fine (Head Full of Shit)” não podia ser mais explícita, a nossa cabeça é submetida ao acumular de efeitos sonoros.

O resultado final é um disco envolvente, sem um elevado grau de sofisticação, mas surpreendente comovente.

09 fevereiro 2007

4 Hero - Play With The Changes (2007 Raw Canvas)

Este disco não pode passar a lado…
Não é tão inovador como trabalhos anteriores (já não será necessário), mas mantém os mesmos padrões de qualidade, que os 4 Hero nos habituaram, seguindo a sofisticada trajectória musical que caracteriza o seu som.
É mais um disco onde a dualidade das influências entre o tecno underground e a soul clássica, faz da música uma experiência única, uma síntese do passado e futuro.
Estamos perante um disco complexo, mas rico em texturas musicais. Os frágeis “beats” fundem-se com divagações orquestrais. Os arranjos de cordas misturam-se com uma electrónica desajustada. Conta com um lote de vocalistas de superior qualidade, como seria de esperar, incluindo Carina Anderson (que tinha participado no fantástico “Les Fleur”), a poetisa Ursula Rucker, a lendária Jody Watley (ex-Shalamar), e a participação especial dessa lenda do “jazz-funk” que é Larry Mizell (trabalhou com os Jackson 5 e Marvin Gaye, entre outros).
O amor pela música negra e pela inovação tecnológica, resulta nesta alquimia que nos trouxe discos que são marcos na história da música de dança. Desde o lançamento do clássico “rave” “Mr Kirk´s Nightmare”, passando pela criação da Reinforced Records, pioneira do “drum& bass” , responsável pelo lançamento de Goldie, Doc Scott, Photek, e pelos trabalhos de remistura realizados (recomenda-se a remistura para “Black Gold Of the Sun” dos Nu Yorican Soul). Isto para nem referir o seus álbuns “Parallel Universe” (94), “Two Pages” (98) e “Creating Patterns" (2001).
A sua música sempre teve um significado muito mais importante do que a pista de dança.
No conjunto um grande disco, refrescante e positivo.

07 fevereiro 2007

Field Music - "Tones of Town" (2007 Memphis Industries)

Segundo disco deste trio de Sunderland, composto por David Brewis, Peter Brewis e Andrew Moore, compatriotas e amigos dos Futureheads. Ainda menos convencional do que o seu disco de estreia, estamos perante um cenário onde melodias encantadoras, inundadas de excelentes harmonias vocais, constituem estruturas pop experimentais que ao longo do disco procuram novos rumos, surpreendendo e ao mesmo tempo, apreendendo a atenção do ouvinte, com a abrangência de influências.
Temas como o elaborado “Give It Lose It Take It”, “Sit Tight”, com aquele baixo distorcido, “A Gap Has Appeared”, ou o “drum loop” que abre “In Context”, provam que os Field Music não se limitam ao mero “pop” convencional.
Música complexa, mas encantadora.

01 fevereiro 2007

Howe Gelb – “’Sno Angel…Like You” (2006 Thrill Jockey)

Vamos esquecer Giant Sand, Band Of Blacky Ranchette, Friends Of Dean Martinez, OP8, etc.
O concerto que trouxe Gelb a Portugal serve para promover o seu último disco “’Sno Angel…Like You”.
E neste trabalho, o músico do Arizona juntou-se ao grupo Canadiano Praise Gospel Choir, segundo o mesmo para misturar a elegia do gospel com à sujidade das guitarras eléctricas.
O mais curioso é como esta combinação improvável, resulta na perfeição. A voz monocórdica de Gelb encaixa perfeitamente nas doces harmonias do coro, parece óbvio que só poderia ser assim.
São 14 canções – versões dos Giant Sand e Rainer Ptacek e oito originais – que misturam soul, blues, rock e folk. Desde as mais “rockeiras” “Howlin’ A Gale” ou “The Farm, à introspectiva “Hey Man”, canções ideais para ouvir num dia menos bom.
Nunca a música de Gelb esteve tão madura e tão alegre.

31 janeiro 2007

Tributo # 2 David Eugene Edwards - 16 Horsepower - Woven Hand

As belas canções de David Eugene Edwards estão cheias de referências ao Antigo Testamento, e às suas histórias de pecado e redenção. O facto de ser neto de um pregador e um convicto Cristão, talvez ajudam a explicar o fascínio por esses demónios religiosos e o facto de ter criado, em 1992, os 16 Horsepower.
Originário de Denver, as suas canções são reminiscentes do tons góticos de Nick Cave e dos Gun Club, poemas do estirpe de Townes Van Zandt, baseadas num poderoso acompanhamento acústico, e aparições de banjos, bandolins e acordeões, que reforçam a natureza arcaica das letras de Edwards.
Gravaram o primeiro EP em 1995. E na sua obra destacam-se os discos “Low Estate” (1997) produzido por John Parish (colaborador de PJ Harvey), onde temas como “Brimstone Rock” e “For Heaven’s Sake” realçam a visão religiosa e litúrgica de Edwards, e “Folklore” (2002), que inclui grandes versões de “Single Girl” dos Carter Family e “Alone and Forsaken” de Hank Williams.
“Hoarse” de 2001 é um registo ao vivo de um concerto de 1998, que permite comprovar a intensidade que as canções de Edwards atingem em palco, e também interpretações surpreendentes como a versão de “Day of the Lords” dos Joy Division.
As últimas edições dos 16 Horsepower são a compilação de sessões e faixas ao vivo de 1993/94, que compõem “Olden” (2003), e os 2 DVD “16HP” (2005) e “Live” (2005), que incluem registos de actuações ao vivo (Bélgica, Alemanha, EUA) e documentários sobre a banda.
Desde 2002 activou o alter-ego Woven Hand, que ainda se aproxima mais da introspecção que caracteriza a acalmia sonora dos últimos anos de Nick Cave.
Mais ambiental e experimental que nos 16HP, o projecto não deixa de ser poderoso. Trabalhos como “Woden Hand” (2002), que inclui as belíssimas “The Good Hand” e “My Rússia”; “Consider the Birds (2004), o álbum mais negro que criou, ouçam o violino de “To Make a Ring” ou “Bleary Eyed Duty”; e “Mosaic” (2006), onde Edwards afastou-se das suas raízes americanas, e aproximou-se do som folk apocalíptico de bandas como os Current 93 e Death In June, inclui canções como “Breathing Bull”, “Whistling Girl” e “Alleluia que marcam o tom do disco.
“Mosaic” contém algumas das melhores composições de Edwards até à data (“Winter Shaker” com linha de baixo dos Joy Division é irresistível), e parece difícil imaginar qual será o seu próximo passo, sem voltar a pisar os mesmos caminhos, para um homem que já se reinventou tantas vezes.

29 janeiro 2007

Do fundo da prateleira # 1 - Pilote - "Do It Now Man" (2001 Certificate 18/Domino)

As novas tendências da música electrónica parecem estar a esquecer a pista de dança e a concentrarem-se no seu processo criativo.
O segundo disco de Pilote (Stuart Cullen, um DJ de Brighton) é um bom exemplo dessa tendência. Apesar de não ser o mais original dos discos, demonstra uma habilidade do artista em explorar novas áreas, apesar do suposto objectivo ser a pista de dança. O medo que Pilote diz ter das tecnologias, ajuda a explicar o processo simplicista da produção, que resulta num som retro. De facto, a primeira metade do disco, assente num ritmo "breakbeat" lento, apoiado em batidas pesadas dos sintetizadores e vozes fragementadas., dão um ar pesado e assustador ao disco. O melhor exemplo desta formula esta na faixa "The Dialogue" que "sampla" uma estranha conversa do filme "Trust" de Hal Hartley. A segunda parte do disco abandona o "breakbeat" a favor de um som de guitarrra na faixa "Beaulieu Road" (faz lembrar os Mum) ou um som mais funky em "Champion Waltz".
Assim quem pretender algo mais aventureiro, inovador, Pilote é um bom exemplo para começar.

26 janeiro 2007

Micah P. Hinson and the Opera Circuit (2006 Sketchbook)

Aproveitando a sua vinda a Portugal, e para quem ainda não conhece a sua obra, Micah canta histórias de tristeza, desespero e agonia, resultantes, no primeiro caso das suas próprias experiências; no segundo, devido a uma dependência de medicamentos, agravada nos últimos anos pela necessidade de aliviar as dores resultantes de um acidente que o deixou impossibilitado de andar.
“Micah P. Hinson and the Opera Circuit” de 2006 é o seu segundo disco, depois de “Micah P. Hinson and the Gospel of Progress” editado em 2004.
Enquanto que “…Gospel of Progress” é o resultado da sua vivência em Abilene, no Texas, e dos seus problemas com as drogas, que o levariam à prisão com apenas 19 anos. Erradamente este trabalho foi catalogado de “free-folk”, talvez pelo facto de ter partilhado os mesmos palcos com Devendra Banhart, que teve em 2005 o seu ano de consagração.
Já “…Opera Circuit” é um disco diferente, um reflexo da alegria e da esperança pelo facto de ter sobrevivido a tudo.
Poderosos arranjos de cordas fornecidos por Eric Bachmann, banjos e bandolins ruidosos, espirais de guitarras panorâmicas, acompanham a voz de Micah, triste e fatigada. Comparações com os Lambchop ou Josh Ritter, são evidentes, mas a combinação das suas histórias com o seu tom de voz faz-me lembrar os primeiros trabalhos de Tom Waits.
O lamento no seu melhor.

25 janeiro 2007

Tributo # 1 Anne Clark - ...Awaken in Metropolis

Na altura em que o punk surgiu, e que conduziu a uma nova aproximação na forma de encarar a música, as artes e a própria sociedade, Anne Clark trabalhava numa loja de discos, numa editora e organizava concertos com bandas que davam os primeiros passos como os Durutti Column.
Ao mesmo tempo, Clark, fazia as suas próprias experiências de composição que conduziram à estreia em disco no ano de 1982 com o album Sitting Room ". Mas foram as colaborações com David Harrow (James Hardway) e John Foxx (Ultravox), que marcariam o som que caracterizou Clark . As experiências com sintetizadores, sequenciadores e samples, permitiriam a criação de canções e texturas musicais que iriam providenciar muitas das pistas para a musica electrónica dos anos 80/90.
Discos com "Changing Places" (83), "Joined Up Writing" (84) e "Hopeless Cases" (87) com Harrow, e "Pressure Points" (85) com Foxx, representam o seu pico criativo, onde Clark , nunca colocou limites à sua expressão musical, explorando todos os estilos.
Nesse período surgiram clássicos como "Sleeper in Metropolis", "Our Darkness", "Heaven", "The Power Game" e "Wallies".
Essencial tornou-se o disco ao vivo "RSVP" gravado na Holanda, em 1987, que é uma celebração dessa fase e que inclui as melhores canções de Clark, que ainda se tornam mais belas no ambiente intimista que a sala de espectáculos proporciona.
A partir desta data, Clark mudou-se para a Noruega, e os seus trabalhos tornaram-se ainda mais experimentais, incorporando cada vez mais instrumentos acústicos. "To Be And To Be Love " (95) com a colaboração de Martyn Bates e Paul Downing, entre outros, é um bom exemplo desta ultima fase.
Neste últimos anos, muitos músicos e DJ's , criaram "remixes" das suas canções mais emblemáticas, como forma de tributo pela sua influência.

23 janeiro 2007

My Favorites # 1 - Big Audio Dynamite - No.10 Upping Street (CBS 1986)

Quando Mick Jones saiu dos The Clash, juntou-se ao famoso DJ e realizador Don Letts e formou os Big Audio Dynamite. O 1º disco “This Is Big Audio Dynamite” (85) foi uma progressão natural de temas dos Clash como “Inoculated City” de Combat Rock (o ultimo álbum em que participou Jones), que utilizou vários sons “samplados”. Mas com o seu 2º disco “No.10 Upping Street” de 1986, os B.A.D. criaram um dos discos mais brilhantes dessa época. Muitas faixas contam com a colaboração de Joe Strummer, que recriava a dupla que com Jones, foi responsável pelos grandes clássicos dos Clash. Desde os ritmados beats de “C’Mon Every Beatbox” e “Sightsee M.C.”, passando pelos mais melódicos “V. Thirteen” e “Hollywood Boulevard”, e os curiosos exercícios experimentais de “Sambadrome” (com samplers de um jogo da selecção Brasileira de futebol) e “Dial a Hitman” (que “sampla” um excerto do filme “Lafayette Zero Six”), o disco é uma boa amostra como um “punk-rocker” evoluiu de forma a integrar novas tendências e novas tecnologias.
Os discos seguintes “Tighten Up” (88) e “Megatop Phoenix” (89), sem serem brilhantes, ainda são curiosos. Mas as reincarnações primeiro como B.A.D. II e posteriormente como Big Áudio são pouco recomendáveis.

The Young Knives - "Voices Of Animals And Men" (2006 Transgressive)

O disco de estreia deste trio de Oxford é mais um produto que reflecte a admiração que a geração actual mantém sobre o período pós-punk (facto reforçado com a presença de Andy Gill dos Gang Of Four no papel de Produtor), só que o mesmo é realizado de uma forma muito inteligente. Neste caso, o melhor é mesmo ouvir. A ironia constante que caracteriza o disco (principalmente nas referências aos conflitos laborais e familiares), é bem diluída na delicadeza melódica que percorre as canções. Desde as influências folk de "The Decision" e "In the Pink", até à brutalmente repetitiva "She's Attracted To" e ao desesperado lamento cultural que "Weekends and Bleak Days Hot Summer" transmite.
Definitivamente canções fora da norma.

19 janeiro 2007

Camera Obscura - "Let's Get Out Of This Country" (2006 Merge)

"Are You Ready To Be Heartbroken?", perguntava Lloyd Cole em 1984. A resposta chega 22 anos depois, "Lloyd, I'm Ready To Be Heartbroken", canção de apresentação dos escoceses Camera Obscura, presente no seu terceiro disco "Let´s Get Out Of This Country", gravado na Suécia com o produtor Jari Haapalainen (já trabalhou com Ed Harcourt).
E a ligação pode ser encontrada na pop melódica, de cariz romântica. Estamos presente 10 canções com uma beleza orquestral notavel, apoiada nos excelentes arranjos da secção de cordas, e no clássico som do orgão sempre presentes. Canções como "Come Back Margaret", "If Looks Could Kill", ou "Dory Previn" (dedicado à cantora americana dos anos 70, que parece servir de inspiração para a vocalista Tracyanne Campbell). Outras influências que podem servir para entender o charme desta banda de Glasgow, que apesar de se ter formado em 1993, só editou o primeiro album em 2001, são as girls-band da Motown dos anos 60 (Supremes, etc), os Velvet Underground, e os The Pastels.
Recomendado aos fãs dos antigos Belle & Sebastian (expecialmente os que ficaram desiludidos com "The Life Pursuit".