29 abril 2008

Compilação # 1 “Artificial Intelligence” (1992 Warp)

Apesar de John Cale ter popularizado o termo “Artificial Intelligence” no seu álbum de 1985, seria esta compilação da editora Warp a responsável (pelo menos para mim) pelo ressurgimento da música electrónica como uma experiência musical audível, ou se preferirem música de dança para se “escutar”. Iriam rotula-la de IDM – Intelligent Dance Music).
Rob Mitchell e Steve Beckett, fundadores da Warp, andavam atentos e descobriram que existiam muitos projectos musicais de dimensão similares, e decidiram criar um espaço onde pudessem conviver.
É certo que já tinham existido as experiências anteriores dos KLF ou The Orb que criaram um primeiro género de “ambiente house”, e que os artistas aqui presentes foram sem dúvida influenciados pelos Tangerine Dream ou Kraftwerk, mas souberam pegar em todas essas influências e expandiram-nas para criar algo verdadeiramente único.
Apesar das contribuições de muitos dos projectos aqui presentes (maioritariamente sobre a forma de pseudónimos), não serem tão interessantes como os seus trabalhos posteriores, seria desta forma que muitas pessoas iriam contactar pela primeira vez com nomes como Aphex Twin (como Dice Man), B12 (como Musicology), Black Dog (como I.A.O.) ou Autechre. E felizmente todos rapidamente iriam aprender a explorar e potenciar este novo espaço musical através de álbuns notáveis para a Warp.
Independentemente disso, muita da música aqui contida ainda hoje soa moderna e inovadora, especialmente os temas dos Autechre (“Crystal” e “The Egg”), dos I.A.O. (“The Clan”), e o esquecido “Spiritual High” dos UP! (mais uma maravilha criado pelo génio de Richie Hawtin).
Um pedaço de história.

28 abril 2008

Warp Records - Três “bleeps” com coragem

LFO - "LFO" - 12" (1990 Warp)

O som do “techno” britânico atingindo o estrelato, após os primeiros movimentos dos Unique 3 ou Nexus 21. Um estrondo minimal amontoa as “Low Frequency Oscillation” arrepiantes linhas de baixo em direcção a um importuno e falso motivo do sintetizador, e uma “ciber-voz” verdadeiramente atirada.


Nightmares on Wax - “Aftermath” 12” (1990 Warp)

Desorganização sensorial da maior grandeza para este duo, que inventou um novo género e que o matou no espaço de um “single”.
O que parece como um resultado de uma explosão nuclear fechada dentro de um ritmo, e polido com o perturbador refrão: “There’s something going round inside my head…”

Polygon Window - “Quoth” 12” (1993 Warp)

Retirado do álbum “Surfing On Sine Waves”, isto é “techno” tribal agressivo tocado por uma orquestra de flautas de metal e barris de plástico, progredindo num frenesim rítmico.
A experimentação com “samplers” no seu limite. Ou se preferirmos a aplicação da presciência.

24 abril 2008

Editoras # 1 – Warp Records

Na ressaca da explosão da música electrónica, nos fins dos anos 80, proliferavam pequenas editoras, que proporcionavam a divulgação de inúmeros tecnocratas “caseiros”.
As tabelas de vendas “indie”, no final dos anos 80/ princípios dos anos 90, eram regularmente animadas por discos de música electrónica, editados em obscuras editoras, que muitas vezes nem se aguentavam o suficiente para editar os seguintes.
Em Londres muitas pequenas editoras sobreviveram como servientes dos DJ’s da moda. Mas seria em Sheffield que iria acontecer uma verdadeira lição de sucesso na história das editoras britânicas independentes.
Steve Beckett e Rob Mitchell, já se conheciam e quando a loja de discos onde Beckett trabalhava fechou, decidiram abrir no mesmo espaço, uma distribuidora de música electrónica e música “indie” baptizada Warp Records.
Ao serem inundados com inúmeras cassetes e “white labels” de músicos locais, decidiram juntar algum dinheiro e criar uma editora com o mesmo nome.
A estreia aconteceu com “Track With No Name” dos The Forgemasters, numa edição de 500 exemplares. Esse disco, uma aventura do produtor Rob Gordon, e a segunda edição da Warp, Nightmares on Wax – “Dextrous”, tiveram algum sucesso. Como iriam ter LFO – “LFO”, Tricky Disco – “Tricky Disco” e Nightmares on Wax – “Aftermath”, que entraram no Top 20.
Nessa altura, a música da Warp diferenciava-se de tendências da altura como o “Balearic” ou a “Italian House”, e excepto caso se tivessem acesso aos intrujantes trabalhos do mestre Derrick May, os primeiros discos da Warp soavam como se estivéssemos a digitar um telefone por cima de um disco “dub”. No entanto esses sons puros e o aterrorizador baixo acabaram por ser um grande sucesso.
O facto de terem aparecido tantos músicos influenciados pela música electrónica em Sheffield, não foi nenhuma feliz coincidência. Pois precursores como os Cabaret Voltaire (cujo membro Richard H. Kirk era metade dos Sweet Exorcist) e os The Human League, eram ambos originários de Sheffield.
Provavelmente o fracasso do primeiro álbum, o conceptual “Clonk’s Coming” dos Sweet Exorcist, fez com que se afastassem dos caprichos da pista de dança, para abordarem projectos mais propícios aos discos de longa-duração.
Assim surgiram o magnífico e assustador “Frequencies” dos LFO vendeu muito bem quer em Inglaterra quer nos Estados Unidos. Os Nightmares on Wax editaram o alucinatório e futurista som “funk-rap” no disco de estreia “A Word Of Science”. E ainda editaram compilações de qualidade como “Pioneers Of The Hypnotic Groove” e “Artificial Intelligence”, esta última tornando-se num disco importantíssimo. Porque aparte o seu valor como um conjunto de delicadíssimas e relaxantes paisagens sonoras, “AI” foi um daqueles discos que sinalizou para onde penderia o futuro da musica electrónica.
O caminho seguiu com o que se designou de IDM – Intelligent Dance Music, ou “electronic listening music”, como prefiro, com os trabalhos de Polygon Window (ou Richard James/Aphex Twin), Black Dog, B12, FUSE (de Richie Hawtin), Wild Planet entre outros.
Como forma de evitar problemas com a indolente imprensa musical, decidiram fundar uma editora “indie guitar” ao criar a Gift, cujos primeiros artistas seriam os Newspeak, Various Vegetables, e como porta-estandartes, os gloriosos Pulp.
Passadas quase duas décadas, conseguiram provar, como a 4AD ou a Creation nos seus respectivos campos de acção, que ganharam a luta pela busca de música inventiva e de qualidade.
_
Nightmares on Wax - Aftermath

21 abril 2008

American Music Club - “The Golden Age” (2008 Cooking Vinyl/Merge)

Na segunda vida dos AMC, e ao nono disco, Mark Eitzel continua a criar grandes canções.
Em “The Golden Age”a musica surge fácil e leve, flutuando ao longo de acordes com inclinações “jazz”, às vezes tensos, mas completamente espontâneos.
As canções podem parecer agradáveis e encantadoras à superfície, mas existe sempre alguma raiva escondida por debaixo.
A sua melancolia ainda é predominante, e a sua habilidade de flectir acordes glaciares a volta de pura poesia permanece vital. De facto está mais forte do que nunca.
Para cada tempestade como “The Decibels And The Little Pills”, temos uma desvirtuada, mas imaculadamente criada canção “pop” como “All The Lost Souls Welcome You To San Francisco”.
E apesar de agora residir em Los Angeles, as referências a San Francisco continuam presentes. Mas as canções que mais chamam a nossa atenção, atingem uma rede mais vasta. E se Eitzel, que tinha como sua marca, as canções autobiográficas, como “Fearless”, aqui surge mais forte ao adaptar histórias narradas pelo ponto de vista de outras pessoas, como em “The Decibels And The Little Pills”, “The Grand Duchess of San Francisco”, e mais impressionantemente em “The Dance” e “The Windows on The World”, que relembra o 11 de Setembro pelos olhos de um turista no 107º andar do World Trade Center.
_

18 abril 2008

Pop # 1 - Matthew Sweet – “Girlfriend” (1991 Zoo)

Era uma vez um miúdo fanático pelos Big Star e que desde muito novo trocou correspondência com Michael Stipe e Mitch Easter, Sweet mal acabou o liceu mudou-se para Athens, na Geórgia, onde se juntou à irmã de Stipe nos Oh-OK. Cedo assinou como artista a solo por uma editora, mas os seus dois primeiros discos soavam extremamente datados.
Mas com “Girlfriend”, Sweet, deu o passo, que anteriormente faltou. Dois factores foram fundamentais para que isso se concretizasse. O primeiro resulta da inspiração proveniente do seu tumultuoso casamento e também por uma recente inundação que lhe destruiu a casa. A segunda é o sublime contributo prestado por dois veteranos guitarristas - Richard Lloyd (dos Television) e especialmente Robert Quine (dos Richard Hell & The Voidoids, e colaborador de Lou Reed ou Tom Waits, entre outros) - que aqui estão super-inspirados, verdadeiramente em “chamas” durante todas as melodiosas e harmoniosas canções
O disco está recheado de brilhantes momentos de habilidade “pop”. Canções alegres como “I’ve Been Waiting” e “Evangeline”, assim como a lamentosa “Winona” e a sombria “Divine Inspiration” soam tão emotivas, arrebatadoras e genuínas como os discos dos R.E.M. e dos Game Theory que originalmente inspiraram Sweet.
Foi um dos melhores discos de “powerpop” dos anos 90 (juntar Teenage Fanclub e Posies), e que ainda hoje permanece vibrante e estimulante.

16 abril 2008

Singles # 14 - Grandmaster Flash & The Furious Five - “The Adventures Of Grandmaster Flash On The Wheels Of Steel” (1981 Sugarhill)

Os primeiros discos verdadeiramente identificados como “hip-hop” (The Fatback Band – “King Tim III” e Sugarhill Gang – “Rapper’s Delight”) tinham sido editados dois anos antes, mas seria Grandmaster Flash que iria com este disco massificar o movimento.
Flash trouxe a arte de “djing” para outro nível de sofisticação ao introduzir técnicas como o “backspinning” e o “cutting”. Foi pioneiro no uso do “cross-fader”, ou na forma como sobrecarregava os canais do misturador com ruído.
E se por um lado, “…Wheel Of Steel” era uma colagem de discos diversos como Sugarhill Gang – “8th Wonder”, Queen – “Another One Bites The Dust”, Blondie – “Rapture”, Chic – “Good Times”, The Incredible Bongo Band – “Apache”, a banda sonora de “Flash Gordon” e até extractos de uma história infantil, que Flash gravou dos gira-discos de uma forma directa, até conseguir o som pretendido (consta que conseguiu à quinta tentativa), por outro lado, era mais do que uma colagem, era uma “cut-up” que servia de “batida” ao longo dos sete minutos do disco. Flash demonstrou que o gira-discos, poderia ser um instrumento de percussão com um alcance e uma aptidão expressiva superior à da bateria e outros instrumentos similares.
Audacioso, assertivo e agressivo como quase tudo o que surgia da orla “art-punk” de Nova Iorque, e que se mantém como a maior proeza de temeridade.
_

10 abril 2008

The Ruby Suns – “Sea Lion” (2008 Sub Pop)

O segundo disco do projecto liderado por Ryan McPhun (um californiano a residir na Nova Zelândia), é provavelmente um dos mais singulares editados pela Sub Pop nos últimos anos, mas também será um dos mais fascinantes.
Difícil de categorizar, apesar de ser essencialmente um disco “pop”, a engenhosa mistura de psicadelismo, “world music” e “rock”, dão-lhe um som globalizante e policromático.
As guitarras são a base das composições, mas a presença de instrumentos menos usuais como “ukulele” e “djembe”, e a utilização de outros sons pouco familiares (como acessórios domésticos e gravações de animais no seu habitat natural), conferem-lhe um charme distinto. Sendo tão reminiscente do “sunshine pop” dos The Beach Boys, como das variações dos Animal Collective.
Os sons quentes, apoiados numa delicada percussão, e com as letras a abordarem o meio ambiente e as culturas indígenas, “Sea Lion” é a evocação de um mundo de delicada beleza.
Uma das canções do disco parece dar o mote - “Adventure Tour” – pois é um percurso através de Africa, Polinésia, América Latina, e pelas diversas regiões da Nova Zelândia.
Destaco “Oh, Mojave”, “These Are Birds”, “Kenya Dig It?” e “Tane Mahuta” (totalmente cantada em Maori).
Arrebatador, evocativo e extraordinariamente belo, é ideal para se ouvir ao pôr do sol, agora que o verão se aproxima.

08 abril 2008

Classic # 14 - The Stone Roses – “The Stone Roses” (1989 Silvertone)

“Sgt. Pepper…”, “Dark Side of The Moon” “Never Mind the Bollocks”, cada geração tem os seus álbuns de culto, que muitas vezes determinam modas e comportamentos. Para quem tinha entre 15 e 25 anos em 1989, “The Stone Roses” foi um deles.
Curiosamente e ao contrário, dos referidos discos, no inicio teve pouca ressonância cultural, politica e comercial. Apareceu do nada, indiferente, e foi através da sua divulgação pela rádio, que vincou a sua magnifica mistura de “indie-pop” e psicadelismo que grupos como os Primal Scream já andavam a tentar produzir sem sucesso.
O disco não é particularmente revolucionário, só que continha um inesperado conjunto de superlativas canções “pop”, brilhantemente tocadas por quatro desinteressantes rapazes oriundos de Manchester.
Sempre que regresso a este disco é admirável como quer as canções, a performance e a produção (cortesia do veterano John Leckie), resistiram ao passar dos anos. E que a atmosfera de mistério e melancolia inicial ainda permanece sem diminuição.
Desde os primeiros acordes de “I Wanna Be Adored”, onde o crescente baixo de Mani, é adicionado ao brilhante, extremamente retardado e descendente “riff” de John Squire, existe uma sensação totalmente do outro mundo.
No “riff” circular de “Waterfall” – e no seu reflexo retrógrado “Dont’ Stop” – o convite para desligarmos a mente e relaxar, é descaradamente reminiscente dos Beatles. A “pop” firmemente “ferida” de “She Bangs The Drums”, “Made Of Stone” e “(Song For My) Sugar Spun Sister” relembra a “pop” psicadélico dos Byrds.
Ian Brown não é um grande cantor, mas a sua ansiosa e melancólica voz tem um efeito monotonamente volátil. A guitarra de John Squire é inspiradora e sincopada, e cria a alquimia perfeita com a leve e fluida bateria de Reni, e o ágil e vivo baixo de Mani. É uma terapia musical que culmina no extenso e sibilante “I Am the Resurrection” – o tema que encerra o disco e completa o consciencioso ciclo iniciado em “I Wanna Be Adored”.
“The Stone Roses” deu o tom para a música rock dos anos 90.

04 abril 2008

Erykah Badu – “New Amerykah Part One (4th World War)” (2008 Motown)

O título do quarto disco de Erykah Badu já indiciava o que deveríamos esperar.
Ambicioso e alienado, é um regresso em força, que ultrapassará todas as ideias e convenções que no passado definiram o chamado “neo-soul”. Pois é um regresso ao genuíno e corajoso “soul” que associamos a artistas como Marvin Gaye, Curtis Mayfield ou Stevie Wonder. Apenas posso acrescentar na actualidade a música realizada por pessoas como Common, Bilal e The Roots.
As suas mensagens surgem quer através de poesia dissimulada, quer através de directos e objectivos comentários, com apimentadas referências sobre política, a sua vida privada, e o estado actual da música “soul” e “hip-hop”, excelentemente difundidos através dos espectaculares acompanhamentos musicais.
Apesar da multiplicidade de produtores que colaboram no disco, este é sempre muito consistente.
Desse grupo de colaboradores que participam no disco, destaca-se a presença do veterano Roy Ayers e do mágico Madlib. Ayers colabora no maravilhosamente bizarro “Amerykahn Promise”, um tributo ao movimento “blaxploitation” dos anos 70. Já Madlib introduz uma ondulação ameaçadora ao atmosférico hino “The Healer (Hip Hop)”, uma tentativa de autobiografia pessoal, onde Badu canta com uma graciosidade e entrega única, mas sempre com um agradável humor. Madlib ainda contribui no jovial “My People”.
Curiosamente a faixa bónus do disco - “Honey” – é também o primeiro single retirado do mesmo. E a sua inclusão como bónus até parece lógica, pois apesar de ser uma excelente canção, não encaixa no contexto do disco.
É certamente o disco menos acessível que Badu já realizou, mas a sua considerável profundidade e solidez, convida-nos a investirmos tempos na sua exploração, e a densa produção assegura que o disco nós trará novas recompensas a cada audição.

Erykah Badu - Honey (Captain Planet Remix)

02 abril 2008

Rock # 3 - The Monks – “Black Monk Time” (1966 Polydor)

Reza a história que cinco militares americanos foram para a base de Gelnhausen na antiga Republica Federal Alemã em 1963. Após terem sido exonerados, aventuraram-se na emergente cena “beat” alemã.
Chamaram a atenção porque se vestiam como monges, sempre de negro, com o cabelo a condizer. E com o seu disco de estreia, editado na Alemanha pela Polydor, criaram um dos discos mais estranhos de sempre.
“Black Monk Time” foi o ano zero para a “selvajaria” rock. Era música “punk” repetitiva e brutal, com referências ao ódio e à guerra - letras completamente alienadas, de como odiavam as namoradas e o Vietname, quando a onda “peace and love” estava no seu auge, e as polémicas posições anti-guerra ainda estavam a dois anos de distância.
Adicionalmente ao tradicional conjunto de instrumentos das formações clássicas (guitarra, baixo, bateria), adicionaram o órgão e o banjo. E o banjo agita toda a ferocidade musical, acompanhando o pulsante órgão, a bateria tribal, as guitarras frenéticas, e as letras venenosas que gritavam.
Aqui não há momentos de descanso, desde o explosivo “Monk Time” (onde acidentalmente descobriram o “feedback”), passando pelo constantemente contraditório “Drunken Maria”, pelo irreal “Higgle-Dy Piggle-Dy”, ou pelo repetitivo “Oh How To Do Now”.
Apesar de terem sido creditados diversas vezes como percursores da rebeldia do “punk” (a sugestão de que os The Monks estavam dez anos à frente dos Sex Pistols e dos The Clash, sugere que a sua musica é similar ao “punk-rock” dos ano 70, o que não é o caso, apesar de terem a mesma intensidade, o som diverge imenso) e das batidas hipnóticas do “krautrock”, com a edição em CD, já na década de 90, deste disco, e com o apoio dado por bandas como The Fall, Henry Rollins Band e Jon Spencer Blues Explosion, chamaram a atenção de um público mais novo, para o seu perfurante e primitivo “rock’n’roll”.
Um disco bizarro, mas essencial para quem aprecia ou pretende descobrir mais sobre o “garage-rock”/”punk-rock” dos anos 60.

01 abril 2008

Covers # 1

Comecei a compilar uma lista de "covers" que gostava, ou por serem realmente boas versões dos originais, ou por serem divertidas e curiosas transformações dos mesmo.
Primeiro comecei com os albuns e singles originais, depois persegui as compilações e os discos de tributos, e ainda me aventurei pelos vários Mp3's que circulam na Net.
Desisti pois já ia em mais de 1000, e não estava a chegar a lado nenhum.

Como achei o dia apropriado, decidi começar a partilhar algumas, sem ordem definida (será por sorteio), para agradar a gregos e troianos...

Esta por estar no disco dos 25 anos da Rough Trade, serve de tributo a editora e aos Young Marble Giants:

Belle And Sebastain - Final Day (Young Marble Giants)

O culto dos Talking Heads:

Beulah - PsychoKiller (Talking Heads)

Finalmente esta maravilhosa versão de "There Is a Light That Never Goes Out" dos Smith, uma canção notável teve uma re-interpretação à altura. Uma das minhas favoritas.

A versão aqui presente é a que aparece no EP "6 Peace" e não a que consta do EP "Binokular," e conta com a participação de Kpt.Michigan.

31 março 2008

My Favorites # 8 - Moondog Jr. - “Everyday I Wear A Greasy Black Feather On My Hat” (1995 Island)

Apesar de ainda pertencer aos dEUS na altura da edição deste disco, Stef Kamil Carlens já tinha tido as suas experiências nos Kiss My Jazz, e parecia querer definitivamente afastar-se do rumo que Tom Barman pretendia para os dEUS. E essencialmente queria poder gravar as suas composições, e não perder tempo a “lutar” com as composições dos outros membros dos DEUS.
Com a colaboração de vários músicos conhecidos da enérgica cidade de Antuérpia, criou um projecto que iria abordar um som mais “americano”, pois as influências da cultura e música americana são evidentes. O facto do disco ter sido co-produzido pelo competente Michael Blair, conhecido pelo seu trabalho com Tom Waits, e as evidentes semelhanças com o trabalho deste último, aqui presentes, reforçam esse facto (“Cachita” é um excelente exemplo).
O disco é extremamente rico ao nível musical, com variadas fontes: “rock”, “blues”, “country”, “jazz”; que interligadas dão origem a um som original.
As canções como é apanágio em Carlens são extremamente emocionais, intensas, melancólicas.
Destaco algumas das minhas favoritas: “Jintro & The Great Luna”, “Shall I Let This Good Man In” ou “The Ricochet”.
Após a edição do disco teriam problemas legais por causa do nome Moondog, e iriam altera-lo para Zita Swoon. O culto, esse continuaria.

27 março 2008

The Kills – “Midnight Boom” (2008 Domino)

Ao terceiro disco os The Kills continuam a sua visão única de como deve ser o “rock”: tenso, minimal e excitante.
E se pudéssemos pensar que com a contribuição do produtor dos Spank Rock, Armani XXXchange (vulgo Alex Epton), iria existir uma radical mudança sonora, foi puro engano, pois ainda despojaram o seu som para uma forma ainda mais rude e áspera. É certo que existe um ar de modernidade e experimentação, ouçam o alegremente destrutivo “M.E.X.I.C.O.I.C.U.” ou o persistente “Sour Cherry”. E é obvio que também melhoraram os arranjos, mesmo quando só temos bateria, baixo e a disseminada voz, que combinam na perfeição, como no hipnótico “Getting Down”. Ou no delicado momento acústico de “Goodnight Bad Morning”.
Um disco sensual, onde a química e a mística existente entre o duo, não se alterou nem um pouco, e que poderá não alterar a opinião que muitas pessoas têm sobre os mesmos, pois eles não procuram alterar os princípios que firmemente seguem desde o início. Mas certamente poderá ultrapassar os anteriores, pois para quem foi seduzido pelo seu intoxicante charme no passado, é melhor que esteja preparado para se entregarem novamente.

24 março 2008

Drive-By Truckers – “Brighter Than Creation’s Dark” (2008 New West)

Podemos afirmar que “Brighter Than Creation’s Dark”, o seu sétimo disco, inclui algumas das melhores canções dos talentosos Drive-By Truckers.
A saída do guitarrista e compositor Jason Isbell da banda não se notou, pois foi bem compensada pelas composições adicionadas por Shonna Tucker (inclui a impressionante bela “The Purgatory Line”), (e pela integração do veterano Spooner Oldham), que aqui se junta aos principais compositores, Patterson Hood e Mike Cooley, e que mantendo-se em territórios que já nos são familiares, nos relatam histórias únicas como o retrato da desagregação familiar em “Daddy Needs A Drink”, a preocupação da mãe e da mulher que aguarda pelo regresso do seu homem da guerra, em “Goode’s Field Road”. Mas também nos surpreendendo com a divertida crónica de um individuo muito singular em “Bob”.
“Two Daughters and a Beautiful Wife”, “The Righteous Path” e “That Man I Shot”, são absolutamente extraordinários, relatam as negras histórias ocorridas nas pequenas cidades do Sul dos Estados Unidos. E tudo isto transcende para a música, pois tudo aqui soa tão sumptuoso e exuberante.
Um extensivo disco que contem tudo aquilo a que nos habituamos a gostar nos Drive-By Truckers.

13 março 2008

Ebay # 2 - Echospace – “The Coldest Season” (2007 Modern Love)

Este disco é um facilitador, pois reúne quatro 12 polegadas lançados em 2007 por este projecto, que é uma colaboração entre Rod Modell dos Deepchord e Steve Hitchell dos Soultek, que aqui criaram um disco de “ambient dub-techno” reminiscente do som da Basic Channel dos anos 90.
Utilizando uma variedade de equipamentos analógicos, criaram uma atmosfera musical única, um som verdadeiramente autêntico e esplendoroso.
Não sendo um disco muito experimental ou diversificado, pois nunca foge muito do género pretendido, é no entanto extremamente coeso, pois não existe nenhum momento de menor inspiração.
O tema de abertura, “First Point Of Aries”, é um dos melhores do disco, e um perfeito exemplo do som produzido. Começa com um som sibilante contínuo até que uma dissimulada linha de baixo e uma cintilante melodia surgem introduzindo uma enorme e poderosa batida.
Os restantes temas apresentam igualmente magníficas texturas sonoras, que convidam a uma “degustação” contínua desta visionária aventura.
É completamente envolvente, e sem dúvidas um disco indispensável para fãs de música electrónica ambiental.
£1.85

10 março 2008

Classic # 13 - Pavement – “Slanted and Enchanted” (1992 Matador)

O som “lo-fi” impreciso dos Pavement tornou-se numa identidade “indie”, e foi roubado por praticamente todas as bandas que se formaram na sequência de “Slanted and Enchanted”.
Quando este disco surgiu, era inovador e revolucionário, restabeleceu o “indie-rock” numa altura em que grupos como os Nirvana estavam a levar um som mais “limpo” e homogeneizado às massas. Pelo contrário, o som de “Slanted and Enchanted” é “sujo” e “gasto”.
Infalivelmente outras bandas já tinham praticado o “basement rock” antes dos Pavement, mas ninguém antes deles tinha conseguido transformar uma graduação universitária e uma vasta colecção de discos numa estética e mitologia pessoal.
Não seguiam as fórmulas “rock” “standard”, deixavam as guitarras fazer o que queriam, as letras são intencionalmente absurdas e as vocalizações são casuais, muitas vezes desconexas, algumas vezes cantadas outras simplesmente faladas.
A paixão de Stephen Malkmus por trocadilhos (“Zurich Is Stained”, “Fame Throwa”), combinado com um grande sentido de afinação, expressão e melodia, fizeram dele um dos mais interessantes vocalistas do “indie-rock”.
Canções como “Trigger Cut, “Summer Babe”, “Two States” ou “In The Mouth a Desert” são arrebatadoras ao máximo, do tipo de não nos saírem da cabeça o dia todo, e não conseguirmos parar de sussurrar.
No fundo, “Slanted and Enchanted” é um produto do seu tempo – o som de um grupo de miúdos irreverentes que queriam divertir-se e fazer música. Nunca pretendeu ser um clássico.

06 março 2008

Atlas Sound - “Let the Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel” (2008 Kranky)

Um projecto paralelo do prolífero e provocativo Bradford Cox dos Deerhunter, que tenta afasta-se do “noise-rock” claustrofóbico que caracteriza a sua banda. Recolhido em sua casa, criou no seu portátil, uma junção entre electrónica ambiental e melodias”pop”, que resultam numa complexa combinação de sons (na sua maioria inclassificáveis e intrigantes), que tentam retratar os pequenos dramas emocionais da adolescência que carrega.
O disco começa excelentemente com “A Ghost Story” com o “sampler” da criança a narrar uma história assustadora, e se o álbum parece querer continuar nesse território sombrio em faixas como “Cold As Ice” ou “Small Horror”, dando a impressão de se tratar de um disco capaz de assustar e paralisar o ouvinte, não é disso que se trata.
Neste diversificado disco temos composições abstractas como a agitada “On Guard” ou “Winter Vacation” (com a camuflada batida “techno”), e “indie-rock” (mas reinventado) em “Quarantined” ou no exuberante “River Card” (é incrível a percussão). No hipnótico “Recent Bedroom” relembram os My Bloody Valentine, com as suas guitarras “noise”.
O disco inclui ainda “Scraping Past” que contém um inteligente encadeamento da maravilhosamente controlada voz de Cox, com uma saltitante linha de baixo, e que resulta numa bela experiência transversal.
Este disco, que provavelmente suplementa tudo o que Cox criou anteriormente, é sombrio, melancólico e calmante, no entanto completamente reconfortante

Atlas Sound - River Card

05 março 2008

Singles # 13 - Bauhaus - “Bela Lugosi’s Dead” (1979 Small Wonder)

Diz-se que esta canção marcou o início e definiu as elaboradas fantasias cimérias do rock gótico.
Gravado na pequena editora Small Wonder, o primeiro single da banda originária de Northampton, é uma dedicatória ao ícone actor de série B, Bela Lugosi, que se tornaria conhecia pela sua interpretação no filme “Dracula”, realizado em 1931 por Tod Browning, provavelmente ainda hoje o melhor.
Eram dez minutos que criavam uma atmosfera de tensão, resultantes da combinação da voz “cavernosa” de Peter Murphy, apoiada no baixo de David J, na bateria repetitiva de Kevin Haskins e nos sons minimalistas criados pela guitarra de Daniel Ash.
E a canção termina de uma forma magistral com Murphy repetindo “Undead, Undead, Undead…” que parece evocar e reforçar a eternidade dos mitos de Dracula e Lugosi.
Em 1983, a aparição dos Bauhaus no início do filme “The Hunger” de Tony Scott, com David Bowie e Catherine Deneuve, é um prelúdio absolutamente propício para o ambiente soturno que caracteriza a discoteca onde decorre essa primeira cena. E com Murphy a demonstrar porque era (é) um dos melhores “performers” musicais, na forma como interage com a câmara.
A seguir veio “In The Flat Field”.
_
Video

03 março 2008

My Favorites # 7 - The Afghan Whigs - “Gentlemen” (1993 Sub Pop/Elektra)

“Gentlemen”, para além de provavelmente ser o ponto mais alto da carreira dos The Afghan Whigs, é portador de uma dúbia distinção: é sem dúvidas o disco mais negro dos anos 90.
Greg Dulli e os seus rapazes, gravaram um disco impecável: um pesaroso, vingativo holocausto romântico, que audaciosamente infunde todas as cruas emoções da música “soul” dos anos 60, com as tumultosas guitarras do rock moderno.
Mas só um testamento assim tão corajoso e verdadeiro, poderia pronunciar com clareza toda a perturbação emocional presente nestas canções, impressionantemente belas como a sublime e penosa “Be Sweet”.
Como outras favoritas temos “Debonair”, e o papel disfuncional que ocupamos nas nossa relações, “What Jail Is Like” uma poderosa descrição do que é estar preso entre culpa e prazer visceral, e esse hino ao desejo e ao vício que é “Fountain and Fairfax”.
“Gentlemen” é um mapa misterioso para os caminhos baldios dos corações despedaçados. – e sangra brilhantemente.

28 fevereiro 2008

Ebay # 1 - Vários - “After Dark” (2007 Italians Do It Better)

Foi uma das revelações do ano transacto, mas o que é certo é que este disco, numa primeira abordagem parecia não prometer muito. Pois o que no papel poderia soar como algo de verdadeiramente intragável acabaria por se tornar num disco que é equivalente a um magnífico DJ set, pois é extremamente coesivo.
Inicialmente, o disco seria uma amostra com o objectivo de promover a editora americana Italians Do It Better e que colectava faixas soltas, demos, “remixes” e “covers”.
Estes artistas pegaram no som retro do “Italo-disco”, com os seus sintetizadores analógicos e as mais básicas caixa de ritmos, e conseguiram transporta-lo para o futuro.
Estamos perante um tipo de “slow-techno”, seria “synth-pop” se os ritmos não parecessem “desinteressados” em acompanhar a música.
Dos originais destacam-se temas que agora são bem conhecidos como: Chromatics - “In the City”; Professor Genius - “Pegaso”; Farah - “Law of Life”, mas ouçam o que os Glass Candy fazem de “Computer Love” dos Kraftwerk, ou a florescente “remix” que Mirage faz ao clássico “Last Night a Dj Saved My Life” dos Indeep.
Música de dança voluptuosa bem ao gosto de Giorgio Moroder.
£1.99

26 fevereiro 2008

Xiu Xiu - “Women as Lovers” (2008 Kill Rock Stars)

Um regresso excelente do prolífero grupo de Jamie Stewart, após o conceptual “Air Force”. Parece que a expansão dos elementos que o acompanham resultou em seu favor, pois se em discos anteriores o som padecia um pouco por confiarem em demasia nos sequenciadores MIDI, em “Women as Lovers” produzem um som mais rico e mais variado (apesar de continuar agreste), pois as canções diferem bastante umas das outras. Continuam a revelar uma surpreendente criatividade, e a encontrar maneiras de escapar a qualquer catalogação. Mas também nos presenteiam com alguns temas dos mais acessíveis que já criaram, como a claustrofóbica “I Do What I Want, When I Want”, uma canção francamente “pop” ou “In Lust You Can Hear The Axe Fall”.
Como de costume as letras são directas e muitas vezes chocantes, continuando com a abordagem de temas insólitos e dispares como o terrorismo, a transsexualidade, a violência doméstica ou o recrutamento de crianças para a guerra.
A colaboração de Michael Gira, numa surpreendentemente e eficaz versão de “Under Pressure”, originalmente gravada por David Bowie e os Queen, é uma escolha apropriada e um dos destaques do disco. Curiosamente a partir desta faixa, parece que o disco toma outro rumo, pois os temas são mais obscuros e experimentais, como que revisitando terrenos musicais já explorados em discos anteriores.
“Women as Lovers” é uma consolidação das diferentes matérias musicais e líricas que tem obcecado Stewart.
_

22 fevereiro 2008

Arca de Tesouros: ebay

Há medida que os anos passam, a descoberta musical aumenta, e o orçamento para a aquisição das peças que sustentam esse enriquecimento não estica o suficiente.
Antigamente, e durante muito anos era na feira da vandoma que conseguíamos encontrar alguns discos a preços acessíveis que permitiam contrabalançar as aquisições mais recentes em lojas como as já extintas Tubitek e Bimotor, ou na Carbono e Piranha. E agora, é verdade que ainda temos a Louie Louie ou a Lost Underground, mas o Ebay é cada vez mais uma fonte de pesquisa e descoberta.
Foi há cerca de 5 anos que comecei a procurar discos no Ebay e posso dizer que já realizei mais de 400 transacções, de todo um pouco, desde os CD’s mais recentes, até aos 7” mais antigos, mas sempre nunca gastando mais de 2/3 euros por artigo. Pois o gozo é esse mesmo, descobrir pequenos tesouros perdidos, colocados à venda por pessoas que também estão a vender bonecos, roupa, revistas antigas ou chupetas, pois lojas virtuais a vender raridades e edições especiais a preços impeditivos é o que mais existe na Net.

Vou partilhar aqui algumas dessas aquisições.

18 fevereiro 2008

Inovadores # 8 - Melvins – “Bullhead” (1991 Boner)

Os Melvins sempre gostaram de baralhar a indústria musical, e ao longo dos anos, variaram entre estilos como noise, punk, metal ou stoner rock.
Será difícil ficarem na história do “rock”, mas podem ficar com uma nota de rodapé no capítulo dedicado aos Nirvana, por dois motivos: a passagem do baterista Dale Crover pela banda de Kurt Cobain, e pelo facto de terem criado uma versão descarnada, arrastada e psicótica do metal original dos Black Sabbath, ajudando a conceber o que mais tarde viria a ser apelidado de grunge.
O terceiro disco dos Melvins, “Bullhead”, é maravilhosamente grotesco, onde o grupo criou uma completa desordem naquilo que o “rock’n’roll” é suposto ser.
Aqui criaram uma densa superfície de fúria metálica forjada numa orgia de “feedback” em conjunto com uma pura e absoluta demência.
O disco começa abrasivamente com “Boris”, nove minutos de “riffs” de guitarra maciçamente repetitivos, e o magnifico trabalho realizado na bateria por Dale Crover, que torna impossível conseguimos acompanhar o ritmo.
“Anaconda” e “Ligature”, “Zodiac” seguem o mesmo brilhante caminho. Os ritmos são diminuídos até ao excruciar da morosidade.
O disco fecha com “Cow”, um dos melhores solos de bateria que já ouvi. Apesar de Dale Crover não ser um tecnicista, ele parece estar em lamúria sobre a bateria.
“Bullhead” é um exercício de resistência, completamente implacável na sua existência com a acessibilidade.

15 fevereiro 2008

Tributo # 4 - Roky Erickson/ 13th Floor Elevators

Felizmente o êxito do filme “Alta Fidelidade”, despertou o interesse para uma das bandas mais incrivelmente infelizes da história do “rock”, e em especial o seu co-líder, o genial visionário Roky Erickson.
São hoje considerados pioneiros, por terem sido uma das primeiras bandas a ter um som “psicadélico” e também percursores do garage-rock.
Originário de Austin, no Texas, Roky foi desde muito novo, fortemente influenciado para a música pela sua mãe, que era cantora. E cedo demonstrou um grande talento. Mal atingiu os 18 anos decidiu que iria formar uma banda. Após uma primeira experiência sem grande continuidade, conheceu Tommy Hall, um viciado em acídos que era bastante mais velho do que Roky, e que iria exercer uma influência muito forte sobre si, e assim decidiram criar uma banda (existe a história de que uma Janis Joplin iria ser a vocalista, mas receando que o seu envolvimento no grupo pudesse criar uma relação com drogas mais duras, preferiu recusar e ingressar no Big Brother and the Holding Company, e o resto da história já é conhecida, o que não deixa de ser irónico, se considerar-mos o percurso de drogas e a consequente morte daí originada de Joplin).
Adoptaram a designação 13th Floor Elevators, e lançaram em 1966 o primeiro single, “You’re Gonna Miss Me” (composto por Erickson), que obteve um sucesso razoável, e atraíram o interesse da Internacional Artists que iria editar o seu disco de estreia, “The Psychedelic Sounds of The13th Floor Elevators”. Este disco é hoje considerado um clássico, e contém “RollerCoaster” ou “Fire Engine”. O som “garage- psicadélico” que criaram assenta numa produção rudimentar que contrastava com o que era usual na altura, com vocalizações primárias, e imensas referências a experiências místicas e alucinações de drogas.
Problemas com a policia derivados pela divulgação e suporte do consumo de LSD e marijuana, que a banda propagava, fizeram com que os elementos que componham a secção rítmica saíssem da banda e já com uma nova formação iriam gravar o disco seguinte “Easter Everywhere”, editado em 1967, que apesar de manter o som hipnótico da banda, era mais elaborado. Contém grandes temas como “Earthquake” ou “I Had to Tell You”, para além de uma versão de “It´s All Over Now, Baby Blue” de Bob Dylan, e de “Slip Inside This House” popularizado na década de 90 pelos Primal Scream.
Novamente problemas relacionados com a droga, colocaram a polícia na rota da banda. E Roky acabou preso em 1969 por encontrarem na sua posse um cigarro de marijuana. Para evitar ir para a prisão, declarou insanidade mental. Como resultado passou três anos num hospital psiquiátrico, diagnosticado como esquizofrénico, e cujo ortodoxo tratamento era baseado em choques eléctricos e numa forte medicação.
Durante esses anos a editora lançaria dois discos (um ao vivo e outro com sobras de estúdio) mas que nada acrescentariam, e a banda acabou por se desfazer.
Quando Roky saiu do hospital, estava num estado mental lastimável. Ainda continuou a compor e chegou a editar alguns discos. Alguns nem interessa mencionar, outros apesar de serem bizarros exercícios, são brilhantes como o seu disco de 1980, “Roky Erickson & The Aliens”.
Em 1982, desapareceu sem rasto, tendo sido reencontrado na década de 90 a mendigar pelas ruas.
E partir daí alguns fãs célebres como os ZZ Top (também Texanos), R.E.M. ou Henry Rollins, começaram a citar o seu nome como uma influência. Muitos desses fãs reuniram-se e editaram um disco de tributo com versões de canções suas. E outros como King Coffey, convidaram Erickson a gravar novamente discos de originais.
Roky recuperou a alegria da vida, e hoje está a viver confortavelmente e com saúde, continuando a tocar esporadicamente.
Por tudo isto, é hoje uma figura de culto, um sobrevivente, que se tornou uma verdadeira lenda.

13 fevereiro 2008

Silje Nes - “Ames Room” (2007 Fat Cat)

A Fat Cat descobriu mais uma sublime e cativante artista.
Esta multi-instrumentista norueguesa decididamente vai buscar a sua inspiração criativa à dramática vastidão natural do seu país. As letras sugerem uma artista imersa no ambiente que a rodeia.
Ouçam as referências a lagos, sapos, e abelhas presentes no tema de abertura, “Over All”, que apesar de poderem sugerir um ambiente infantil, são complementadas por um instinto poético e um arrojado engenho musical.
A música de Silje combina um mundo de uma frágil beleza e intriga caleidoscópica. Existe uma apaixonante nostalgia presente neste “electro-folk”, que sustenta o espírito da experimentação.
Num momento ouvimos xilofones e guitarras acústicas, noutro temos resplandecente electrónica e manipulações de voz. Talvez pelo facto de ter demorado três anos a gravar este disco, seja evidente a presença de tantas influências diversas.
A esplêndida “Drown”, com uma guitarra assombrosa, desolada, o único acompanhamento de uma bela voz, melódica e dolorosamente frágil. “Bright Night Morning” é uma balada rústica, com Silje a aparentemente num estado de exaustão. “Ames Room” é uma canção de embalar “pop”, numa melodia delicadamente silenciosa (relembrou-me Stina Nordenstam), já “Giant Disguise” é um crescendo hipnótico.
Em “Ames Room”, Silje amplifica sons que são miniaturas, de uma forma que as canções parecem estoirar como meteoritos ao atingir o solo.

Silje Nes - Drown

11 fevereiro 2008

Kanye West and Daft Punk - Stronger (live @ Grammys 08)

Party time...

Classic # 12 - Portishead - “Dummy” (1994 Go! Discs)

Se Beth Gibbons e Geoff Barrow andavam a planear o que seria “Dummy” há mais de um ano, o guitarrista Adrian Utley andava a compor banda-sonoras privadas há muito mais tempo. E seriam as bandas-sonoras que os iria juntar, pois Barrow adorava “samplar” velhas bandas-sonoras para os seus sets de “dj”. E numa dessas sessões conheceu Utley, tendo-o convidado a partilhar e reforçar sonoramente o projecto que inicialmente resultava na partilha de outra das suas paixões – o “hip-hop” - que Barrow estendia sobre as paisagens sonoras criadas, com uma sedutora cadência, esmigalhadas pela delicadamente sombria voz de Gibbons.
“Dummy” é um disco intemporal, que alterna de tom, de dilacerantemente sombrio, até lamentável, até levemente optimista. Está encharcado em melancolia e depressão, ajustada à música. As canções são simples e evocativas, mas substanciais.
A tensa delicadeza de “Sour Times” (“nobody loves me, it’s true” - tornou-se numa das expressões da década), ainda hoje é relevante. E juntamente com “Numb”, “It Could Be Sweet” e “Glory Box”, foram declarados como fundadores de uma nova revolução sonora, denominada trip-hop.
O disco inclui outros destaques, como o espectral e relaxante “Mysterons”, o delicado “Roads” ou o agressivo “Wandering Star”. O disco arrasta o ouvinte para um abismo aveludado.
Os teclados Rhodes e o órgão Hammond são o núcleo do insinuantemente sublime som, adicionando um sentido épico à maioria das canções. Simultaneamente, os flexíveis acordes de guitarra e a percussão “jazzy” dão-lhe um ar terreno.
Muitos estilos musicais estão implícitos no disco (rock, soul, hip-hop, jazz, electrónica, música clássica), no entanto mantendo-o consistente e agonizantemente belo, e por isso mesmo, hoje a sua influência é tão notória e relevante.

08 fevereiro 2008

Extremos # 2 - The Ex – “Starters Alternators” (1998 Touch And Go)

Ao longo de mais de 25 anos de carreira, os The Ex raramente não foram exemplares na forma anárquica e explosiva que abordaram a música. Sempre procuraram novas formas de atormentar a música através das ferramentas base do “rock”: guitarras, baixo, bateria e vozes; com uma elasticidade suficiente para conter a fonte de vida que é o seu “noise”.
Eles praticam as suas autónomas crenças através de canções que colocam em primeiro plano todas as parcelas constituintes.
Aqui Steve Albini coreografa o caos de “Starters-Alternators” permitindo que o ruído não degenere em incoerência. Porque é um princípio e uma forma de orgulho para os The Ex desnaturar as vozes e desafinar os seus instrumentos, de forma que nenhum som brilhe ou seja ofuscada pelos outros. No mesmo espírito, as canções normalmente renunciam a lógica - versos, refrão, versos - por palavras lançadas de uma forma impetuosa e deturpada.
Estamos na presença de um som verdadeiramente glorioso quando se atinge o momento em todos os membros da banda colidem as suas ruidosas trajectórias de guitarras e percussão, e arremessam uma energia de cada um. Durante esses momentos culminantes eles conseguem ser tão excitantes como o foram os Sonic Youth nos anos 80.

06 fevereiro 2008

Bonnie “Prince” Billy - “Ask Forgiveness” (2007 Domino)

Quando não está empenhado em editar, sobre os seus vários pseudónimos, os magníficos álbuns que concebe, Will Oldham, ocupa os intervalos aventurando-se noutros projectos como o foram a colaboração com Matt Sweeney e o anterior disco de versões realizado a meias com os Tortoise.
Regressa agora com um mini-lp de versões, que poderá não ser tão diversificado como o realizado com os Tortoise, pois pode ser mais acessível, mas que não deixa de ter momentos sublimes, pois Oldham tem a habilidade de transformar praticamente tudo o que toca em pungentes canções “folk”, independentemente de as letras originais perderem toda a sua intenção inicial.
Com a ajuda de Meg Baird nas vozes e guitarra acústica, Greg Weeks na guitarra eléctrica (ambos são membros dos Espers) e ainda ocasionalmente por Maggie Wienk no violoncelo, cria uma cintilante combinação entre vozes e guitarras que circulam de um lado para o outro em perfeita harmonia, e que, no fim, fazem com que cada canção se torna sua.
Algumas interpretações são arrebatadoras, nomeadamente as menos improváveis e mais esperadas, como “World’s Greatest” de R. Kelly, ou “Am I Demon?” de Danzig, onde Oldham inverte a impudência ao fazer que a suposta “greatness” esteja ao alcance de qualquer um, na primeira, ou na forma como adopta o tom sombrio na segunda. Mas também o é a tocante e incrivelmente triste “I’ve Seen It All” de Björk, onde Oldham nunca tentar copiar ou imitar a mesma, sendo provavelmente por isso que esta e as restantes canções resultam tão bem. Ouçam como “My Life” de Phil Ochs ganha uma nova vida na melódica versão de Oldham.
Para além das versões inclui um grande original – “Loving The Street”.
São estes grandes momentos que tornam este disco merecedor de atenção.
_
Ask Forgiveness

01 fevereiro 2008

Inovadores # 7 - Yellow Magic Orchestra

“Yellow Magic Orchestra” (1978 Alfa)
“Solid State Survivor” (1979 Alfa)
“Technodelic” (1981 Alfa)



Formados em 1978 pelo talentoso Ryuichi Sakamoto, pelo veterano Haruomi Hosono, e pelo percussionista Yukihiro Takahashi produziram onze discos, até ao seu término em 1984. Para mim, estes três são aqueles que melhor os representam.
Surgiram na altura da ascensão do Japão como inovador tecnológico, utilizaram sequenciadores, sintetizadores, samplers e caixas de ritmos, quando ainda eram regularmente a excepção
São frequentemente esquecidos quando se faz referência aos artistas que desbravaram caminho na evolução da música electrónica.
Criavam um divertido “techno-pop”, ou “twisted pop”, se preferirmos, mas onde nunca esconderam a sua paixão pelos Beatles (daí as versões).
Estes músicos já tinham assimilado todas as experiências primárias realizadas anteriormente com música electrónica, e deram um salto qualitativo para uma fase mais avançada, só que ainda não tinha sido inventado um tipo música para classifica-los. Pois ao contrário de uns frios Kraftwerk ou dos seus aprendizes britânicos como Gary Numan ou John Foxx, que tendiam perseverantemente para a ficção científica, os YMO ofereciam divertidas delicias “pop” totalmente descaradas.
Quando surgiu o disco homónimo de estreia, foram ignorados pela imprensa ocidental, que não se conseguir afastar da cacofonia criada pelos fortuitos ruídos electrónicos que abrem o disco. E assim não descobriu as esquadrilhas melódicas do psicadélico “Simoon” ou do irreflectido “disco-feel” de “La Femme Chinoise”.
Com “Solid State Survivor”, tentaram fugir do ecletismo presente no disco de estreia, e abordaram um som mais “mainstream”, mas nem por isso menos arrebatador. Desde o balouçante instrumental “Technopolis”, passando pelo belíssimo “Absolute Ego Dance”, ou pela sinuosa e pungente melodia de “Insomnia”, este disco está repleto de excelentes momentos.
Em “Technodelic” acontece mais uma reviravolta, criam um disco mais negro, cheio de vozes sinistras, ritmos incomodativos, percussões industriais destruidoras. “Epilogue” de Sakamoto, dá o mote, com uma melodia dilacerante.

30 janeiro 2008

School of Language - “Sea From Shore” (2008 Thrill Jockey)

A música unicamente comovente e sofredora dos Field Music, foi para mim uma das melhores revelações de 2007. Parece que infelizmente se separaram, tendo David Brewis criado este projecto, para o qual gravou maioritariamente sozinho os temas que constituem este disco (ocasionalmente surgem os elementos dos Futureheads, seus amigos pessoais, e também eles originários de Sunderland).
Aqui encontramos essencialmente sons vocálicos, mas expansivos, e intrigantes ao mesmo tempo, pela forma notável como Brewis utiliza o seu computador para os criar. Outro aspecto fundamental é o excelente trabalho de produção realizado, especialmente nas percussões.
O disco abre excelentemente com o desarticulado “Rockist Part 1”, continua em alta através da estruturadamente distorcida “Disappointment 99”, da emocionante fluência de “Poor Boy’s”, até chegar a esse exercício interior que é “Rockist Part 3 (Aposiopesis)”, onde Brewis retoma “Rockist Part 1” de uma forma mais tradicional.
Ecos da “pop” seca dos XTC continuam presentes, mas também estão reminiscências dos Broken Social Scene e de toda a escola “pós-rock” de Chicago.

28 janeiro 2008

Do fundo da prateleira # 8 - Helmet – “Strap It On” (1990 Amphetamine Reptile)

Provavelmente sejam mais (re)conhecidos pelo seu trabalho de 1992, “Meantime”, editado já na Interscope, que acabou por ser um disco bastante apreciado pela crítica, e que até podemos considerá-lo como quase perfeito. Mas “Meantime”, não seria a primeira grande produção deste quarteto oriundo de Nova Iorque. Com “Strap It On”, o seu disco de estreia, os Helmet ampliaram o triturar ruidoso que caracterizava os seus primeiros registos ao extrair a sua essência.
Consta que o vocalista, compositor e guitarrista principal do grupo, Page Hamilton, tinha rigorosos processos na composição da canções, mas temas como “Repetition” e “Distracted” foram construídas a partir de pouco mais do que letras simplesmente berradas, alguns “riffs” verdadeiramente defraudantes e um solo de guitarra totalmente discordante. Mas a sua simplicidade era única, e que o baixista Henry Bogdan e o baterista John Stanier (actualmente nos Battles) ajudaram a intensificar com uma combinação de frugalidade e força bruta.
Apesar de a banda posteriormente se ter tornado mais “funky” no álbum “Betty” de 1994 e de ter assimilado os benefícios de uma melhor produção, nunca mais se aproximaram da fórmula aqui aperfeiçoada.

24 janeiro 2008

Inovadores # 6 - Steve Hillage - “Rainbow Dome Musick” (1979 Virgin)

Esqueçam todos os discos de rock progressivo que Steve Hillage editou ao longo da sua carreira, e foquem-se neste “Rainbow Dome Musick”, que é actualmente considerado como um percursor (juntamente com o trabalho de Brian Eno) no que seria denominado de “ambient music”.
Originalmente concebido para um festival intitulado “Mind, Body and Spirit”, o objectivo de Hillage era criar um oásis de harmonia atmosférica.
Juntamente com a sua mulher Miquette Giraudy, Hillage (que nos anos 90 teve algum êxito com o seu projecto System 7), criou um disco onde abundam texturas e cores ambientais, e que é simultaneamente suave e intenso.
Constituem o disco dois belíssimos temas, o primeiro, o relaxante “Garden of Paradise” é baseado em matrizes ressonantes de sequenciadores e umas crescentes texturas sonoras de piano e guitarra eléctrica.
O segundo, o hipnótico “Four Ever Rainbow” começa com o som de um órgão que se desloca ao encontro de ondas deslizantes de guitarra e sintetizador.
Na data da sua edição, em 1979, numa altura em que “punk”, “disco” e “new wave” preenchiam os “tops”, estavam aqui definidas as raízes do que iriam posteriormente denominar como “trance” e “chill-out”.

21 janeiro 2008

Classic # 11 - David Sylvian - “Secrets of the Beehive” (1987 Virgin)

O que mais me fascina neste disco produzido por Steve Nye é a sua simplicidade, que assenta em três características essenciais: a primeira, a instrumentalização simples, num estilo experimental, com elementos de “jazz” em algumas faixas, e nos ordenados arranjos: obsidiantes, orgânicos e apaticamente terrenos; a segunda é a voz quente de David Sylvian que tem o poder de nós embalar num estado de tranquilidade; e a terceira, as canções: as requintadas letras demonstram uma profundidade fora do alcance das casuais contemplações relativas ao amor e à vida, esperança e desespero, fundidas com mitos e mistérios e são recheadas em metáforas e magia. São pequenas histórias elípticas, todas elas lacónicas, mas no entanto sedutoras. Assombrosas, mas não depressivas.
O disco abre de uma forma minimal com “September”, piano, arranjo de cordas, e voz, que fala sobre a dualidade do Outono que traz beleza no amontoar da queda das folhas.
E inclui duas das minhas canções favoritas: “The Devil’s Own” com uma sofisticada melodia que parece que flutua no ar, este tema tem uma qualidade etérea que torna difícil de descrever ou replicar, e a toxicamente bela “When Poets Dreamed of Angels” com uma poderosa qualidade rítmica e emotiva.
Mas ainda temos canções do calibre de “Orpheus”, “The Boy with The Gun” ou “Let the Happiness In”, que tornam o disco verdadeiramente arrebatador.
Como bónus a edição em CD contém ainda uma versão da magnífica colaboração com Ryuichi Sakamoto para a banda-sonora de “Merry Christmas Mr.Lawrence”: “Forbidden Colours”. Mais uma pérola.

18 janeiro 2008

Um blog

1 ano...
Primeiro objectivo conseguido...
Não foi fácil, mas tentei colocar 2/3 post por semana - e tentei não falar só dos meus artistas favoritos, alguns deles nem um post tiveram.
Falei sobre os meus discos favoritos, os meus clássicos, alguns discos perdidos, discos que na minha opinião mais impacto tiveram na história e evolução da musica rock. Digo rock, pois é mais fácil, pois generos musicais é que não é comigo, como já devem ter constatado, pois uma dificuldade acrescida é o facto de existirem ainda muitos grupos e discos de quadrantes musicais totalmente opostos que gostaria de partilhar, porque os meus gostos musicais são extremamente variados (como diz a minha mulher: "isso é muito calmo" ou "isso é muito barulho"), e o tempo livre disponivel não permite a dedicação ao "bichinho" que eu bem gostaria (ah...nunca mais sai o Euromilhões).
E como existem vários blogs muito interessantes que divulgam as notícias relevantes e promovem as novidades musicais, tentei falar de alguns projectos que não tiveram o mesmo destaque, mas que na minha opinião o mereciam.
Próximo objectivo: continuar com o blog por mais um ano
Vamos tentar introduzir algumas alterações. Ideias não faltam, é só uma questão de se concretizarem.


Agradeço a todos os visitantes os seus reconfortantes comentários

Novidades - The Jesus and Mary Chain

Na sua página no MySpace, os The Jesus and Mary Chain colocaram versões demo de três músicas novas. "War On Peace", "Cookies" e "Boiling Over" são o primeiro material apresentado pela banda desde o lançamento de "Munki".

Está ainda previsto para o mês de Março, um regresso aos palcos, com 2 datas previstas para o Roundhouse, em Londres.

16 janeiro 2008

Singles # 12 - Ian Dury – “Sex & Drugs & Rock & Roll” (1977 Stiff)

Há trinta anos atrás, quando criou esta terminologia trivial, Ian Dury não era um miúdo punk, mas antes um veterano do “pub-Rock”, pois em 1977 quando assinou pela Stiff já tinha 35 anos.
E curiosamente seria ao adaptar uma nota de uma canção do veterano músico de “jazz”, Ornette Coleman, que iria criar uma das canções universalmente mais conhecidas, e constantemente referenciada como o típico estilo de vida do músico “rock“.
Mas no entanto este hino, não iria celebrar o hedonismo pateta associado ao movimento, antes pelo contrário, pois a canção esconde uma letra de grande sobriedade e perspicácia.
_

14 janeiro 2008

Mouthus – “Saw a Halo” (2007 Load)

Desde a sua formação em 2002, este enérgico duo de Brooklyn já tinha editado dez registos em diversas editoras independentes, o que torna difícil o acompanhamento da sua carreira.
Este “Saw a Halo” é um registo diferente do seu característico som “noise-drone”, pois apesar dos sons eléctricos e abrasivos estarem bem presentes, o aparecimento de guitarras acústicas em três dos sete temas do disco, é uma interessante e imprevista surpresa.
É certo que mantém-se a experimentação sónica que os tornou tão inovadores, mas existiu uma mudança na forma definida que a torna nova e convincente.
Os Mouthus não disfarçam o espírito original da escola experimental nova-iorquina, ao misturar o “noise” com o psicadelismo ambiental (como tão bem fazem os Wolf Eyes). Mas sempre sem esquecer o elemento “rock”, nas longas excursões sonoras até ao infinito, baseadas em estruturadas experiências sónicas, com as suas alterações constantes de ritmo, criadas pela tribal e furiosa bateria, pela explosiva guitarra e pelas gementes vozes.

10 janeiro 2008

Inovadores # 5 - A.R.Kane - “69” (1988 Rough Trade)

Quando os A.R.Kane participaram em “Pump Up the Volume”, a sua contribuição foi mínima, no entanto, no lado B do referido tema, criaram “Anitina”, onde já demostravam o rumo que pretendiam seguir.
Só a forma como o disco começa, com o estranhamente cativante “Crazy Blue”, é um pronuncio do que se segue. Pois estamos perante um exercício ecléctico, alucinogénico e experimental, cujo resultado são canções extraordinárias, com letras alucinantes, do calibre da refrescante “Baby Milk Snatcher” com as suas referências ao sexo oral, ou da cristalina fantasia que é “Spermwhale Trip Over” e os seus delírios obtidos através dos efeitos do LSD. Na balbuciante agregação de sons de “Sulliday” atingem o limite máximo da incompreensível experimentação.
Da combinação da voz única de Rudi Tambala, com os instrumentos de Alex Ayuli, através da utilização de som e texturas que relembram os experimentalismos dos pioneiros do rock psicadélico dos anos 60/70, com elementos adicionais do indie-pop dos anos 80, resulta uma sensual atmosfera imersa em reverberatório feedback, onde muitos temas podem não ser considerados canções, mas “sarrabiscos” sonoros.
Foram comparados com os The Jesus and the Mary Chain, Cocteau Twins (Robin Guthrie co-produziu alguns temas anteriores) ou até com os Pink Floyd (fase Syd Barrett). E posteriormente, também seriam considerados como percursores do “shoegazer”.
Os registos seguintes (“i” e “New Clear Child”), são satisfatórios, mas falta-lhes a profundidade deste disco.
Aqui criaram um disco inventivo e verdadeiramente elíptico.

08 janeiro 2008

Do fundo da prateleira # 7 - The God Machine - “One Last Laugh In A Place of Dying” (1994 Fiction)

Os The God Machine eram um trio de amigos oriundos de San Diego, que se encontrariam ocasionalmente em Inglaterra onde acabariam por formar uma banda.
Aí permaneceriam ilegalmente, tendo habitado em casas abandonadas, trabalhado como lacaios, até conseguirem juntar o dinheiro suficiente para adquirir instrumentos musicais. Posteriormente, e através de “demos” atraíram o interesse da editora Fiction, propriedade dos The Cure.
O seu disco de estreia “Scenes From The Second Storey” era hipnótico e minimalista, mas com um lado melódico que penetrava através das sombrias atmosferas e do lamento “ferido” do vocalista Robin Proper-Sheppard.
Para o segundo disco, ampliaram o som, sem o tornarem macio.
Utilizando como inspiração uma técnica de produção, que podemos classificar como similar à fase final dos Talk Talk, que pretendia suavizar o acesso à sua introspecção e cólera.
Assim através de arranjos pouco densos e da produção “simples”, conseguiram que as estimulantes letras de Proper-Sheppard fossem ainda mais incisivas.
Ele dizia em “Painless”: “You said life could be painless and I’m sorry but that’s not what I’ve found”, e infelizmente, a letra profetizou a morte do baixista Jimmy Hernandez, que iria falecer pouco tempo depois do disco estar concluído com um hemorragia cerebral (e assim a origem do título do disco seja apropriada).
No final, a edição que saiu para a rua, continha as versões rudimentares, ainda sem o polimento pretendido, mas as imponentes canções e a forte química existente foram elevadas pela produção agreste.
Proper-Sheppard trocou a afronta pela resignação, e a electricidade pela acústica, no seu projecto actual Sophia.

05 janeiro 2008

Best of 2007

Custou, mas para não deixar que fiquem com má opinião sobre o blog, anexo uma selecção pessoal dos melhores discos adquiridos no ano de 2007:

Os 15 que mais me fascinaram
Andrew Bird - "Armchairs Apocrypha"(Fat Possum)
Arcade Fire - "Neon Bible"(Merge)
Battles - "Mirrored" (Warp)
Burial - "Untrue" (Hyperdub)
Electrelane - "No Shouts No Calls" (Too Pure/Beggars)
Iron & Wine - "The Shepperd's Dog" (Sub Pop)
LCD Soundsystem - "Sound of Silver" (DFA)
Liars - "Liars" (Mute)
Panda Bear - "Person Pitch"(Paw Tracks)
Robert Wyatt - "Comicopera" (Domino)
Stars of the Lid - "And Their Refinement of the Decline" (Kranky)
The Fiery Furnaces - "Widow City" (Thrill Jockey)
The National - "Boxer" (Beggars Banquet)
The Shins - "Wincing the Night Away" (Sub Pop)
Yesterdays New Quintet - "Yesterdays Universe" (Stones Throw)

Mais 15 que me surpreenderam
Antibalas - "Security" (Anti)
Band of Horses - "Cease To Begin" (Sub Pop)
Beirut - "The Flying Club Cup" (4AD)
Caribou - "Andorra" (Merge)
Field Music - "Tones of Town" (Memphis Industries)
Jens Lekman - "Nights Fall Over Kortedala"(Secretly Canadian)
Jimi Tenor & Kabu Kabu - "Joystone" (Sahko)
Lobster - "Sexually Transmited Electricity" (Borland)
Micro Audio Waves - "Odd Size Baggage" (Magic Music)
Mudd - "Claremont 56" (Rong)
Nina Nastasia & Jim White - "You Follow Me" (Fat Cat)
Pinch - "Underwater Dancehall" (Tectonic)
P J Harvey - "White Chalk" (Island)
Spoon - "Ga Ga Ga Ga Ga" (Merge)
The Field - "From Here We Go Sublime" (Kompakt)

5 Maxis que fizeram o velhinho SL 12000 trabalhar muito
LCD Soundsystem - "Someone Great" (DFA)
Pop Dell'Arte - "Querelle" (Bloop)
Tony Allen - "Kilode" (Carl Craig Remixes) (Honest Jon's)
Faze Action - "In The Trees" (Carl Craig Remixes) (Juno)
!!! - "Must Be The Moon" (Emperor Machine Remix) (Warp)

29 dezembro 2007

My Favorites # 6 - Liz Phair - “Exile In Guyville” (1993 Matador)

Neste disco é possível descortinar o que bem quisermos: desde hinos ao pós-feminismo, passando pela rapariga dos subúrbios a armar-se em “tesa”, ou a pretensa e assumida réplica de “Exile On Main Street”.
Eu ao escutá-lo prefiro pensar em Liz Phair como uma rapariga que pretende encontrar o amor verdadeiro, ou uma que pretende ser uma “blow-job queen”.
O que não se pode é menosprezar a importância deste disco: um registo suave, dramático, que foi editado numa altura em que todos os outros se baseavam em gritos estridentes; o disco que demonstrou o poder das produções caseiras “lo-fi”; o disco que melhor capturou o sofrimento e a ansiedade da confusão pós-adolescência/ pré-idade adulta; o disco cujo sucesso influenciou que muitas multinacionais contratassem uma geração de cantoras-compositoras.
A sua musicalidade é por ventura desnivelada, a sua performance vocal não é revolucionária, mas a sua escrita… uau!!! que canções.
São canções que nos tocam no coração, comprometem a mente e até chegam a estimular sexualmente.
Liz sabe como construir um relato intenso e pessoal.
Apesar de todas serem fantásticas, gosto especialmente de “6’1””, “Help Me, Mary”, “Never Said”, “Mesmerizing”, “Fuck and Run”, “Divorce Song” e “Shatter”.
Ao contrário da maioria das cantoras-compositoras referidas anteriormente, a quem faltava a subtileza elegante” de Liz Phair, esta continuou a demonstrar o seu singular talento em trabalhos posteriores como “Whip-Smart” ou “Whitechocolatespaceegg”.
Com “Exile In Guyville” deixou-nos um registo que é um tributo à qualidade da “canção rock”, e que o torna num dos melhores discos de todos os tempos.