26 setembro 2008

Covers # 6

Os Ash foram uma banda que nunca conseguiu convencer completamente cá na casa, no entanto tenho alguns dos singles que editaram basicamente pelas numerosas versões que realizaram, algumas delas verdadeiramente surreais, como esta:


ou esta, aproveitando o facto de eles estarem na moda, outra vez:



Nas Peel Sessions, muitas bandas realizam versões como forma de tributo a outras que de alguma forma as marcaram, sonoramente ou inspiracionalmente. Nesta realizada em 2002, parece-me que será o segundo caso.



E a proposito do recente post sobre o Josef K, os autores de "Duel" (ainda alguém se lembra), demonstraram aqui muito bom gosto:

Propaganda - Sorry For Laughing (Josef K)

23 setembro 2008

Leila – “Blood, Looms and Blooms” (2008 Warp)

Após oito anos sem editar, a misteriosa Leila Arab, está de regresso agora na Warp, depois dos excelentes “Like Weather” (1998 Rephlex) e “Courtesy of Choice” (2000 XL), que com o passar dos anos continuam a revelar qualidades escondidas. O facto de neste período ter perdido os seus pais (que indiscutivelmente deixa a sua marca no disco) servirá como uma possível explicação.
Mas volta com a mesma qualidade arrebatadora, disposta a mexer com os velhos pressupostos do que a música electrónica deveria supostamente ser. Pois presenteia-nos com aprazíveis e invulgares estruturas musicais, agradavelmente variadas, recheadas de sons electrónicos nauseabundos e desprovidos de quaisquer pontos de referência ou distantes de fórmulas estabelecidas.
Assim produz um disco singular e incomparável, com um mostruário sublime, como os momentos “electro” presentes em “Molie” e nesse conto de fadas subaquático que é “Lush Dolphins”. Na excêntrica melodia “pop” de “Little Acorns”, ou em “Mettle”, com as suas borbulhantes correntes divergentes e a estrondosa guitarra.
São várias as contribuições vocais, mas destacam-se a sublime prestação de Roya na sedutora “Daisies, Cats and Spacemen” e Zan Lyons em “Young Ones”. E a colaboração dos dois nomes mais “mainstream” presentes no disco, Terry Hall em “Time To Blow” e Martina Topley-Bird em “Deflect”, ou o alterado dueto em que ambos participam, “Why Should I’”.
“Blood, Looms and Blooms” é perturbador e intrigante, mas será uma das melhores experiências traumáticas do ano.
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19 setembro 2008

Tributo # 7 - Josef K

“Young and Stupid” (1990 LTM)
“Endless Soul” (1998 Marina)
“Entomology” (2006 Domino)


Esta banda que leu Franz Kafka, foi uma das mais interessantes e inspiradas do “post-punk”, e extremamente influente no movimento musical escocês, apesar de mais obscura e menos celebrada que os seus contemporâneos Orange Juice, Fire Engines e Aztec Camera.
Liderada por Paul Haig e Malcolm Ross, produziu alguma da música mais sublime do período.
O facto de terem abortado a edição do seu álbum de estreia (“Sorry For Laughing”), por acharem o som muito polido, e que não reflectia o seu espírito, cometeram um pequeno suicídio. Para a história ficou apenas um álbum – “The Only Fun In Town”, este com um som mais forte - editado e vários singles.
Assim talvez a melhor forma de os descobrir, é nas várias sumptuosas compilações, como “Young and Stupid” (1990 LTM), “Endless Soul” (1998 Marina) ou “Entomology” (2006 Domino) (esta última provavelmente a definitiva, e reforçada pela sua bela embalagem). E ficamos com a oportunidade de descobrir pequenos tesouros perdidos de um curta e brilhante carreira, desta inteligente, talentosa e tão à frente do seu tempo.
Criaram um “pop” alternativo precioso, baseados numa agressivamente dinâmica bateria, em contagiantes e abafadas chicoteadas do baixo, em brilhantes harmónicos cheios de reverberação das guitarras e em vocalizações espontâneas e ásperas (relembrando os primórdios dos Echo And The Bunnymen).
Destacam-se principalmente os seus quatro singles editados na Postcard – o electrizante “Radio Drill Time”, o mordaz “It’s Kind Funny”, o desmazelado” “Sorry For Laughing” e o discordante e lamentoso “Chance Meeting” – mas ainda temos mais momentos arrebatadores no épico “Revelation”, na subtileza de “The Specialist”, em “Sense of Guilt” (e as similaridades com Joy Division), em “The Angle”, no “funk” musculado de “Heart of Song”, ou no refinado “Heaven Sent”.
É verdade, e muita gente já o afirmou, mas é extremamente evidente que foi aqui que os Franz Ferdinand vieram tirar as suas ideias. Mas também são claros os vestígios que encontramos nos The Wedding Present e Interpol.
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15 setembro 2008

Pop # 3 - Orange Juice - “You Can’t Hide Your Love Forever” (1982 Polydor)

Depois de um conjunto de singles para a Postcard, os Orange Juice até já tinham gravado o seu primeiro álbum - “Ostrich Churchyard” - quando assinaram pela multinacional Polydor, mas regressaram ao estúdio com o produtor Adam Kidron, alterando o som mais “garage-rock” do primeiro pelo cintilante “indie-pop” deste. Aqui presentearam-nos com um conjunto de canções cativantes e excitantes, cheias de dilacerantemente belas melodias, que se elevam e exercem o seu poder. Apoiados no crepitar zumbido das inarmónicas guitarras, superiormente lideradas por Malcolm Ross (que tinha abandonado os Josef K), na vibrante batida da bateria de Zeke Manyika e essencialmente em Edwyn Collins com a sua rígida e fora de timbre voz, num estilo inimitável, idiossincrático e unicamente sincero, produziram um som altamente original, por polir, espontâneo, que pegou na intensidade do “punk” e o seu grande idealismo e faculdade de diversão, e fundiu-a com uma romântica sensibilidade lírica e muita alma. Como influências apontam-se várias, Velvet Underground, The Byrds, The Buzzcocks, Television – e também são referenciados como precedentes da similar sonoridade desenvolvida pelos The Smiths (e como obvia influência no som de Stuart Murdoch e dos seus Belle & Sebastian). E só um grande compositor como Edwyn Collins, com as suas letras obliteráveis, tal como Morrissey, visionário, deprimido e levemente cínico, mas inteligente, honesto e credível, poderia abordar as fraquezas do amor e a sua falta de direcção, e criar a pletora de clássicos com a excelência de “Falling and Laughing”, “Satellite City”, “Consolation Prize”, “Untitled Melody” ou a icónica “Felicity”.
Edwyn Collins gravaria posteriormente bons discos, mas foi aqui que revelou o seu génio. Um disco de instantânea e ditosa alegria.
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Orange Juice - Felicity

11 setembro 2008

Electronic # 5 - Squarepusher - “Hard Normal Daddy” (1997 Warp)

Menosprezado pelos puristas do movimento “drum & bass” por não adaptar a sua música aos rígidos padrões em temas mais “DJ-friendly”, Squarepusher, ou melhor Tom Jenkinson, tornou-se no rei (ou será no bobo da corte?) do subgénero designado como “drill & bass”. Se em “Feed Me Weird Things” já tinha dado o mote, é “Hard Normal Daddy”, que conjuntamente com o EP “Big Loada”, melhor representa o seu apogeu estético. Através da sua destreza no baixo (existe ao longo do disco uma fantasia no renascimento de Jaco Pastorius) e a alienadamente febril e complexa programação das caixas de ritmos, Squarepusher, conseguiu a proeza miraculosa de reinventar o difamado género “jazz de fusão”, mas na perspectiva de um delirante fanático de “jungle”.
Apesar de “Rustic Raver”, “Chin Hippy” ou “Vic Acid” serem virtualmente impossíveis de se poderem dançar, excluindo talvez só bailarinos profissionais, estas faixas abrem novos caminhos rítmicos e possuem a virtude de após várias audições se poder compreender a percuciente complexidade implicada.
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08 setembro 2008

Wire – “Object 47” (2008 Pink Flag)

Os veteranos Wire estão de regresso com o seu 47º registo de material original, e mostrando que continuam fiéis ao seu estilo muito próprio, nomearam o disco “Object 47”. E mais uma vez, presenciamos uma nova direcção para uma banda que fez a sua carreira dedicada a reinvenção (veja-se a mudança de “Pink Flag” para “Chairs Missing”). Pois se desde 1999, nesta sua terceira reunião, os seus discos, como “Send” (2003), eram mais densos e toldados de excessiva violência sonora, agora existe uma aproximação à sonoridade que os caracterizou nos anos 70. Um som mais aberto, polido e resplandecente, cheio de “riffs” contagiantes e graciosos trocadilhos, acompanhados pela atmosfera coral dos sintetizadores e a precisão da bateria (o abandono de Bruce Gilbert, provavelmente o mais aventureiro, poderá ser uma justificação).
Apesar de diferente desses três históricos primeiros discos, é uma interessante actualização desse som, funcionando como um somatório das experiências sonoras realizadas pela banda ao longo dos anos e o obvio aumento da sua capacidade musical, para além do persistente amor pelo estúdio de gravação como um instrumento de Colin Newman e Graham Lewis.
No entanto as letras continuam com os seus temas de oposição e as filosóficas lutas políticas e sociais. Pois mantém a agressividade “punk” de 1977, seja nas melódicas “One Of Us” ou “Perspex Icon” e as suas tendências “Madchester”, seja na recordação do “art-punk” nas ásperas “Patient Resurrection” ou “All Fours”, seja na influências do “trip-hop” em faixas como a cínica “Hard Currency”.
Mais um habilmente robusto trabalho combinado com a habitual inteligência e impertinente sensatez.
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19 agosto 2008

Covers # 5

Em mais uma pesquisa pela prateleira à procura de versões perdidas por lados B, Peel Sessions, colectâneas e compilações, identifiquei alguns discos onde se incluia esta versão de uma canção original de Dolly Parton. Tive tanta curiosidade que até fui tentar descobrir o porquê de tanta atenção dada a esta canção.

Desde os One Dove neste lado B do single "Why Don't You Take Me":


Passando pelos The Sisters of Mercy nesta Peel Session perdida:


E incluindo as Strawberry Switchblade (ainda alguém se lembra delas?), que chegaram mesmo a editar a canção em single no ano de 1985:

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Finalmente uma das últimas aquisições, foi apenas com a intenção de poder acrescentar esta versão à colecção:

13 agosto 2008

Rock # 5 - fIREHOSE - “Ragin’, Full-On” (1986 SST)

Apesar da mágoa resultante da morte do seu companheiro nos Minutemen - D.Boon - George Hurley e Mike Watt foram obrigados a regressar à luta, após um jovem fã chamado Ed Crawford (ou Ed Fromohio) ter viajado desde o estado do Ohio até à Califórnia, para lhes prestar tributo e convence-los a tocar com ele.
Os fIREHOSE faziam um som menos engrenado do que os Minutemen, mas com a mesma energia “rock-punk-funk”, no entanto as composições eram mais expansivas e destacava-se a impressivamente ardente tonalidade vocal de Crawford (totalmente diferente de D.Boon). Excelentes músicos, todos contribuíram conformemente para este disco, que transmite a sua plena capacidade de harmonização. Ritmicamente complexo, mas melódico, possante, mas inspirador, o título do disco descreve perfeitamente o conteúdo do mesmo.
Seja nos agitantes e infecciosos ritmos de “Brave Captain” ou “Chemical Wire”, na irresistível batida “punk-funk” de “Relatin’ Dudes To Jazz”, ou na intensa melancolia “folk” de “Candle And The Flame” e “Things Could Turn Around”, eles nunca iriam melhorar a pura arte de escrever canções deste convenientemente intitulado e coesivo disco de estreia.
D. Boon certamente ficaria orgulhoso.
Aconselho ainda “If’n”, menos incendiário que este, mais “rock-funk” e “fROMOHIO”, com uma sonoridade mais “americana”.
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11 agosto 2008

Electronic # 4 - Bola – “Soup” (1998 Skam)

Fui completamente arrasado com a beleza deste álbum, que na altura se revelou uma experiência musical totalmente reconfortante.
Darrell Fitton esconde-se neste projecto que habita o mesmo universo musical de Boards Of Canada, Autechre, Gescom ou Plaid, entre outros. Mas aqui, e ao contrário da química digital de uns Autechre, ou das fantasias caricaturistas dos Plaid, “Soup” toma uma abordagem mais subtil e delicada.
É um disco liberto de muita da ornamentação e processamento tão popular na música electrónica, confiando antes nos formosos arranjos e em puros e calorosos sons.
Notável é a sua capacidade de combinar elementos da música ambiental com as formas mais elementares da música de dança. Ao pegar em modelos da música ambiental como os tradicionais sons de sintetizadores e arranjos de cordas e assentá-los em sólidos blocos estruturais recheados de caixas de ritmos e um vastamente intenso, esplêndido e absolutamente crucial baixo, que cobre tudo o resto como um manto, e assim ricos, dóceis, suavemente melódicos sons servem de base a belas, hipnóticas e futuristas harmonias.
Desde o tremendo e alienado tema de abertura “Glink”, passando pelas soberbas melodias de “Forcassa 3”, e pela desconcertante beleza do épico “Aguilla”, o grande momento do disco.
Um clássico do género, que deverá ser colocado ao lado de “76:14” dos Global Communication, “Music Has The Right To Children” dos Boards Of Canada ou “Music For Airports” de Brian Eno. _

Bola - Aguilla

08 agosto 2008

Do fundo da prateleira # 11 - Sunny Day Real Estate – “How It Feels To Be Something On” (1998 Sub Pop)

Ainda dentro das comemorações dos vinte anos da Sub Pop…
Os devotos dos Sunny Day Real Estate podem discordar de que este não é o melhor disco que a banda de Seattle gravou. Mas “How It Feels To Be Something On” é um disco panorâmico, que nos consegue manter suspensos, e o primeiro dos três que não necessita de um predisposição emocional da parte do ouvinte. E os Sunny Day sempre foram conhecidos pela sua habilidade de proporcionar emoções fortes – as letras ocultas do seu disco de estreia “Diary”, supostamente salvaram vidas, e as do álbum homónimo póstumo de 1995, conhecido como “Pink Release”, receberam interpretações ardentes dos fãs. Em “How It Feels To Be Something On”, o quarteto (que aqui se tinha reunido novamente) revela mais dos próprios do que alguma vez o tinham feito, elaborando líricos temas de amor, perda e espiritualidade através de extensas referências musicais, desde o pop modal da costa oeste ao “art-rock” da costa este.
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Sunny Day Real Estate - The Days Were Golden

06 agosto 2008

My Brightest Diamond – “A Thousand Shark’s Teeth” (2008 Asthmatic Kitty)

Shara Worden está de regresso com o seu projecto My Brightest Diamond, e mostra uma grande evolução do primeiro disco, “Bring Me The Workhorse” de 2006, pois este é muito mais ambicioso, com um maior recurso à experimentação e uma maior utilização de instrumentação, sendo meticuloso em todos os detalhes, realçando a sua violência emocional.
Podem ser evidentes as influências de Kate Bush ou Bjork, mas são essencialmente pelo uso de secções e versos não repetitivos. Pois o que a torna distinta é que a sua música a posiciona como uma digna adição ao rol destas, nunca existindo a impressão de ser uma cópia inferior.
Inicialmente destinado a ser um disco de apenas instrumentos de corda, a sua vontade e prontidão de se focar noutros instrumentos, faz com que ao se acompanhar de extraordinários músicos, esta pianista com formação clássica, crie uma poderosa e eficaz instrumentação.
Mas se a instrumentação é brilhante, é a sua voz soberba e rara, habilidosa e comovedora, que impele o disco, atingindo o apogeu na decidida “Inside A Boy”, apoiada numa vacilante linha de guitarra e uma elegante secção rítmica; na frágil “Ice And The Storm” e os seus emotivos arranjos; na estranha, mas todavia bela “Apples”, com o seu amora “bossa-nova”; na etérea e atmosférica “To Pluto’s Moon”; até ao brilhante final em “The Diamond”, que é uma encruzilhada de todos os estilos presentes no disco.
Um incomparável universo de fantasia.
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05 agosto 2008

Paredes de Coura - 01.08.08

The Rakes – um concerto interessante, ainda com o pôr-do-sol como companhia, o que nem sempre ajuda. Mas a capacidade do vocalista Alan Donohoe de interagir com o público e uma grande fome de palco, permitiu que criassem uma excelente dinâmica na interpretação das canções mais conhecidas como “We Danced Together” ou “22 Grand Job”.

The Sounds – visualmente o espectáculo foi dominado pela forte presença da vocalista e os seus curtos calções. Uma actuação onde a forte sexualidade exibida tentou apagar alguma falta de consistência vocal. De resto apenas o prazer de ouvir essas reciclagens da “new wave” como “Painted By Numbers” ou “Tony the Beat”.

Editors – actualmente já são uma banda que recebe um grande carinho e apoio em Portugal, e demonstraram que não desiludem sempre que pisam os palcos nacionais.
Muito seguros em palco, destacou-se a exuberância do vocalista Tom Smith e a brilhante performance de Chris Urbanowicz na sua Rickenbacker. Exibiram-se a um excelente nível e contagiaram o público, chegando a atingir momentos arrebatadores nas canções mais conhecidas como “Blood”, “Bones”, “All Sparks”, “An End Has A Start”, “Fingers In The Factories” “Bullets”, “Smokers Outside The Hospital Doors”, “Munich” ou “The Racing Rats”.

Primal Scream – Confesso que estava preocupado, pois numa primeira audição, o último disco (“Beautiful Future”) não me tinha convencido. Mas após umas repetições já começava a entrar, e seria aqui, em palco, que essa ideia se dissipou. Pois Bobby Gillespie e companhia, numa prestação muito ecléctica, apesar de mais centrada nos temas mais “rock’n’roll”, demonstraram como se consegue conquistar um público que na sua maioria não conhecia a fase mais experimental dos PS. Numa noite fria (Gary “Mani” Mounfield, grande presença no baixo, ainda perguntou o que se passava com o tempo), abriram o concerto com muita garra através de “Can’t Go Back”, seguiram-se bons momentos com “Dolls”, “Miss Lucifer” e “Suicide Bomb”. Mas penso que foi a partir da surpreendente e notável prestação de “Beautiful Future” (caiu-me bem melhor ao vivo), que conseguiram definitivamente agarrar o público e perspectivar um “belo futuro”. Atingiram o ponto alto na trilogia de “XTRMNTR”: “Kill All Hippies”, “Shoot Speed /Kill Light” e na energicamente viciante “Swastika Eyes”. E com o público já rendido, não baixaram o ritmo, e prosseguiram magnificamente com “Movin’ On Up” (arrepiante, nesta altura já estava rouco), “Country Girl” e “Rocks”. Apenas um senão, faltou um “encore”, para ouvirmos “Higher Than The Sun”.

Ainda fui até ao palco secundário ouvir os putos These New Puritans, que foram uma boa surpresa, pois estivem muito concentrados e não comprometeram na apresentação do seu disco de estreia, “Beat Pyramid”.

31 julho 2008

Primal Scream - They Will Shine Like Stars

Uma das mais interessantes bandas das duas últimas décadas vai estar em Paredes de Coura.
O estágio está a ser realizdo com a audição da sua discografia.
Aqui já se está a rever o início da carreira dos Primal Scream. Mas junto mais uma lembrança, que poderá ser alvo de uma comparação surreal.

Do primeiro single de 1985:

Primal Scream - It Happens
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Do último album de 2008:

Primal Scream - Beautiful Summer

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29 julho 2008

Sub Pop – 3 discos alternativos

Na história da Sub Pop, alguns nomes não tiveram o destaque que mereciam. Aqui ficam três propostas do periodo áureo.

Tad - “God’s Balls” (1989 Sub Pop)
Rock poderosíssimo, com particular destaque para a secção rítmica. A vocalização de Tad Doyle passa pelos mais electrizantes berros alguma vez dados na história do rock, acompanhada de “riffs” que funcionavam como um tipo de serra eléctrica melodiosa, para criarem uma pesada massa sonora que faz lembrar um camião TIR descontrolado a 200 km/h numa auto-estrada. E o que dizer dos títulos das canções: “Satan’s Chainsaw”, “Cyanide Bath”, “Nipple Belt”, “Boiler Room”. Recomenda-se ainda “Salt Lick”, produzido por Steve Albini, e “8-Way Santa”.

Codeine – “Frigid Stars” (1991 Sub Pop)
A música dos Codeine foi designada como “slowcore”, juntamente com outros negros epítetos, mas uma descrição mais adequada para este trio de Nova Iorque seria um “blues” existencialista, mas tocado por brancos. No seu disco de estreia produzem ritmos rastejantes, arranjos esqueléticos e uma quietude vocal que iriam caracterizar todos os discos da banda. Mas Steven Immerwahr (baixo), John Engle (guitarra) e Chris Brokaw (bateria) não estavam a tentar fazer-nos sentir a sua dor, apesar de existir alguma para ser sentida. Tal como a singular linguagem dos “blues” de progressões de acordes e improvisações vocais, a musica dos Codeine foi destinada para fazer sentido, segundo os próprios, “na banalidade do dia a dia”. Mas certamente as suas crises de existencialismo eram mais intelectualizadas que a maioria.

Vaselines – “The Way of The Vaselines” (1992 Sub Pop)
Com um conjunto de temas de uma beleza melódica simplesmente arrebatadora como “Slushy”, “No Hope”, “Molly’s Lips” (que os Nirvana popularizaram), “Monsterpussy” ou “Son of A Gun”, o grupo de Eugene Kelly e Frances McKee foi o mais adolescente e apaixonado que saíu de Seattle. E fizeram do humor doentio uma inspiração descontraída. Eram canções alegres e divertidas, sendo simultaneamente uma ode ao amor inocente e um estímulo ao bater do pé. Um grupo perdido no tempo.

Tad - Flame Tavern

Vaselines - Son of A Gun

28 julho 2008

Editoras # 2 - Sub Pop

Bruce Pavitt foi para Seattle estudar história da arte, mas o seu maior estudo seria o “rock”. Primeiro lança a revista que documentava a cena independente americana, Subterranean Pop” (mais tarde Sub Pop). Depois continua a escrever para mais um par de revistas, a fazer programas de rádio e a editar cassetes com material inédito de grupos desconhecidos. Até que conheceu Jonathan Poneman, que também fazia rádio e que era a pessoa responsável pelo agenciamento dos grupos que tocavam na sala de espectáculos mais aventureira de Seattle, a Fabulous Rainbow Tavern. Conversas sobre música criaram uma admiração mútua, e o passo seguinte para a formação de uma editora estava dado.
A primeira edição da Sub Pop, foi em Julho de 1986, a compilação “Sub Pop 100”, com a participação dos Sonic Youth, Big Black ou Scratch Acid, entre outros. Os representantes de Seattle eram The U-Men e Steve Fisk (que se tornaria um dos mais famosos produtores da cidade). E na capa do disco aparecia a seguinte inscrição: “The new thing, the big thing, the good thing: a multinational conglomerate based in the Pacific Northwest”.
Uma das principais características da editora foi a sua preocupação em ter um identidade e que as pessoas procurassem os discos por estes terem o seu carimbo, simultaneamente encorajando a individualidade de cada grupo. Os seus modelos de inspiração eram a 4AD, a SST, a Stax, e até a Motown. Nem será estranho o facto de passaram a trabalhar quase permanentemente com o produtor Jack Endino (que iria produzir os álbuns de estreia de Nirvana e Mudhoney).
O “marketing” foi sempre um dos pontos fortes utilizados por Pavitt e Poneman. Criaram um clube de singles, disponível apenas por subscrição, através de edições mensais (limitadas e em vinil colorido), e sempre com temas inéditos. Aqui incluíram grupos não só de todos os estados americanos como também europeus. Por outro lado, nas suas edições “normais”, o destaque era dado a grupos locais, aproveitando a política regionalista para melhorar a promoção. As capas dos discos eram semelhantes, assim como os anúncios, uniformizando uma ideia visual e sonora para melhor promover os novos grupos.
Se os Soundgarden foram o primeiro grande sucesso da Sub Pop, editando dois EP’s, “Screaming Life” e “Fopp”, antes de assinarem pela SST e posteriormente pela A&M, já os Mudhoney foram os que mais resistiram à chamada das multinacionais, e só com “Piece of Cake” de 1992 é que assinaram pela WEA (isto, para além de serem o único grupo de Seattle que manteve a sua formação inalterável por muitos anos).
Com o sucesso dos Nirvana, a história mudou, e hoje, a mesma já deve ser conhecida por todos, mas para reforçar a importância histórica da editora, que deixou de ser uma referência local, para ser uma global, refira-se que também por lá passaram grupos com a L7 (de Los Angeles), os Afghan Whigs (de Cincinatti), os Supersuckers, os Come (de Boston), os Pond (do Alaska), os Sunny Day Real Estate, e mais recentemente The Shins, Iron and Wine, ou os criadores de um dos meus discos favoritos do ano, The Ruby Suns.
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Modest Mouse - Never Ending Math Equation

24 julho 2008

Rock # 4 - The Gories – “I Know You Fine, But How You Doin’” (1990 New Rose/Crypt)

Esta banda liderada por Mick Collins, o padrinho do “garage-rock” de Detroit, é considerada, actualmente, como uma das mais influentes, por todos os grupo que revitalizaram essa sonoridade, já neste século. Para além disso, foram provavelmente uma das melhores.
Neste disco, curiosamente produzido por Alex Chilton, é captura toda a essência e arrogância do génio de Collins. Produziam um som brutal e rude, que destrói os conceitos básicos de “rock”, “soul”, “r&b”, “60’s punk”, apoiados na voz poderosa de Collins, suficiente transtornada para ser simultaneamente obscena e emotiva, e pela minimalista mistura explosiva de “garage” e “blues”. Este disco inclui duas fabulosas canções: “Thunderbird ESQ” e “Nitroglycerine” - esta última relembrando os The Sonics, lírica e sonoramente. Sem eles, os White Stripes nunca existiriam. Conflitos internos iriam acabar com a banda, mas Collins prosseguiu a sua cruzada com os The Dirtbombs, que editaram o seu último disco já este ano.
“This is Rock and Roll”.

22 julho 2008

Tributo # 6 - Hugo Largo

“Drum” (1988 Opal)
“Mettle” (1989 Opal)

Uma das mais ignoradas e enigmáticas bandas dos anos 80, apareceram numa altura em que o "guitar-noise" imperava nos Estados Unidos, e em Inglaterra acontecia a revolução da “acid-house”.
A banda era um quarteto composto por dois baixos (impecavelmente tocados por Tim Sommer e Adam Peacock), o violino de Hahn Rowe (que actualmente edita sobre o nome Somatic), e a voz incomparável e evocativa de Mimi Goese. Tiveram uma carreira meteórica com apenas dois álbuns editados na editora Opal de Brian Eno (um dos possíveis pontos de referência sonora a par dos Cocteau Twins). “Drum” e “Mettle”, são obras de arte que desafiam géneros ou categorizações, pois os Hugo Largo criaram uma música encantadora, de ambientes acústicos, com arranjos simples e orquestrações delicadas. Com uma ausência de ritmo, os violinos circulares abriam espaços para a voz poderosa, que investia através das simples melodias dos baixos em câmara lenta, provocando no ouvinte uma espécie de suspensão dos sentidos.
Ao rodearem o silêncio, esculpindo-o com rigor e compondo verdadeiras tapeçarias sonoras, era como se criassem radicais quadros impressionistas que variam desde uma delicada fragilidade até um glacial clímax, muitas vezes no espaço de uma única frase, nas letras celestiais recitadas pela etérea voz de Goese.
A participação de Michael Stipe dos R.E.M. em “Drum”, não lhe proporcionou nenhuma atenção especial, mas ainda hoje canções como “4 Brothers”, “Ohio”, “Turtle Song”, “Martha” mantém uma frescura e intemporalidade notável. E até parece que tinham um belo sentido de humor, já que “Drum” tem um título irónico, pois não existe nenhuma bateria presente no disco, exceptuando a penúltima e melhor faixa – “Second Skin”.
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16 julho 2008

DVD # 3 - White Stripes - “Under Blackpool Lights” (2004 XL)

Esqueçam todas as opiniões e ideias que se possam fazer sobre a importância dos White Stripes, e do facto de terem ou não revolucionado o “garage-rock-blues”. Aqui somente nos vamos centrar neste concerto.
Filmado nos formatos Super 8 e 16mm, com as suas imperfeitas imagens cheias de grãos, e para assim reforçar o objectivo de proporcionar uma magnifica perspectiva intemporal de se capturar a emoção e sentimento (para além das qualidades anti-tecnológicas, evidentes na edição do próprio concerto) de ver uma das melhores bandas contemporâneas ao vivo.
É um documento em bruto, despojado e extremamente genuíno dos White Stripes ao vivo, e que demonstra que não existe mais nada a afirmar, somente a sua idiossincrasia e esplendor.
Pois nesta fria noite de Janeiro, na soturna cidade costeira do noroeste de Inglaterra, realizaram uma fantástica e electrizante performance minimalista, demonstrando que é quando tocam ao vivo onde eles desabrocham mais energia e paixão, e todo o fundamento das raízes da sua música.
A forma de Jack White tocar guitarra é hipnotizadora, como se estive possuído, chegando a relembrar Jimi Hendrix. E Meg White toca bateria descalça, com o seu ar infantil, mas gerando um louco e trovejante barulho, numa forma simplesmente única de tocar a mesma.
Quando Jack White grita o tema de Leadbelly, “Take a Whiff On Me, Death Letter”, temos a melhor descrição desta actuação arrebatadoramente entre o absoluto caos e o sublime. E conseguem atingir o brilhantismo nas terríveis interpretações de “Black Math”, “Truth Doesn't Make A Noise”, “Hotel Yorba” e “Seven Nation Army”.
O facto de incluir muitas canções dos primeiros discos, e não se focaram excessivamente em “Elephant” (na altura o seu ultimo disco), torna-se ainda mais atractivo.

14 julho 2008

Minilogue – “Animals” (2008 Cocoon)

Um surpresa que chega de Malmo na Suécia. Marcus Henriksson e Sebastian Mullaert apresentam-nos um duplo CD (belíssimo “digipack”) – 26 faixas, 154 minutos de música. E apesar de que o título ou a duração do disco, me fizessem pensar nos Pink Floyd ou no rock progressivo dos anos 70, felizmente estamos muito longe.
O disco divide-se em duas partes deliberadamente diferentes, a primeira repleta de vacilantes “bleeps” e “beats”, é uma viagem pelos caminhos do “minimal techno”, reminiscente da segunda geração de Detroit, mas apimentada com temas que desobedecem a esse padrão musical, de uma forma ameaçadoramente inventiva e que fazem com que o disco circule por outros caminhos. Assim temos ecos de “jazz” e “funky-house” em “Loud”, vibrantes ritmos “dub techno” em “Hitchhiker’s Choice” e “electro” em “Giant, Hairy Spiders”. E que chegam a atingir a perfeição no brilhante “33.000 Honeybees” e os seus vigorosos padrões rítmicos.
O segundo disco deveria funcionar como uma suposta peça de música ambiental contínua, que deambula livremente, pois cada estrutura sonora cuidadosamente construída encaixa na próxima, mas que poderiam ter sido realizadas cada por uma diferente banda. Mas aqui o titulo “ambiente” é enganador pois quem esperar “ambient pop” ao estilo de Brian Eno ficará desapontado, pois para todas as longas espirais de sintetizadores ou delicados dedilhados de guitarra acústica, existem complexas melodias que se misturam intimamente com oscilantes “beats” reminiscentes dos Boards of Canada ou dos Global Communication.
Um disco corajoso e aventureiro, sem medo em avançar para novos terrenos, e que será difícil de esquecer.
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09 julho 2008

Covers # 4

A aquisição do ultimo single dos Spiritualized, "Soul On Fire", trazia como brinde no seu lado B, uma versão de "True Love Will Find You In The End" do enigmático Daniel Johnson.
Este artista já teve a sua música louvada e revista por gente tão diversa como Tom Waits, Yo La Tengo ou Teenage Fanclub. E esta canção em especial é uma das mais celebradas.

Spiritualized - True Love Will Find You In The End (Daniel Johnson)

Assim lembrei-me que já tinha uma versão para o mesmo tema no lado B
de "A Shot In the Arm" dos Wilco.


E que também Beck já tinha realizado uma versão para o disco de homenagem "The Late Great Daniel Johnston: Discovered Covered"


E na sequência do post anterior, na compilação de 1988 "Sub Pop 200", os Mudhoney fizeram esta versão:

07 julho 2008

Singles # 15 - Mudhoney – “Touch Me I’m Sick” (1988 Sub Pop)

O disco que marcou a história da Sub Pop. Curiosamente lembro-me bem que a primeira vez que ouvi falar deles foi através do nosso Peel, o carismático António Sérgio, que passou no Som da Frente, a versão que os Sonic Youth (na altura já favoritos cá da casa) fizeram para este tema e a seguir a que estes fizeram para “Halloween” dos primeiros.
Independentemente de classificar-mos a sua sonoridade de “grunge” ou “guitar-noise”, esta foi uma das mais importantes bandas do movimento independente que cresceu em Seattle na segunda metade doa anos 80.
As suas origens estão nos lendários Green River, a primeira banda dos guitarristas Mark Arm e Steve Turner, que incluía ainda Stone Gossard e Jeff Ament, futuros Mother Love Bone e actualmente Pearl Jam.
Fecharam-se num estúdio com Jack Endino e misturando o “hardcore” dos Black Flag com a gloriosa brutalidade dos The Stooges, criaram um som brutal e explosivo, baseado no deformado “riff” de guitarra, extremamente distorcido através de um pedal de distorção Big Muff, acompanhado pelo brusco baixo de Matt Lukin e pela frenética bateria de Dan Peters. Como complemento as obscenas letras de Arm evocam enfermidade e repugnância.
Os Mudhoney seriam a inspiração para um jovem Kurt Cobain, que esperava um dia produzir discos que acumulasse o mesmo ímpeto emocional.
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Mudhoney - Touch Me I'm Sick (Live - Video)

Mudhoney - Touch Me I'm Sick

04 julho 2008

Classic # 15 - Talking Heads - “Remain In Light” (1980 Sire)

Apesar de pertencerem ao contingente originário do CBGB, os Talking Heads nunca fizeram realmente parte do movimento “punk” ou “new wave”. As ambições de David Byrne eram superiores ao género em que os quiseram enquadrar. Enquanto bandas como os Ramones trituravam humorísticos hinos de três acordes, os TH exploraram a sua própria mescla de “art-rock” dançante. E se todos os discos desde “77” até “Speaking In Tongues” são de uma categoria superior, se tivesse de escolher o melhor, esse seria “Remain In Light”. Aqui uma das mais interessantes bandas de todos os tempos, criou o seu mais exótico e formoso álbum, numa fase da sua inspirada e natural evolução criativa. É certo que a presença de Brian Eno está em todo o lado, no entanto este nunca desvia a banda do seu rumo e limita-se a adicionar mais-valias.
As canções eriçam-se, sempre a transbordarem de ritmos africanos, através de melodias e estruturas invulgares, melódicas decorações “pop”, “loops” e efeitos, e acompanhadas por letras incoerentes proferidas por Byrne, que soando agitado, exulta inquietação e desconforto. Como complemento extra, um conjunto de ilustres convidados, adiciona excelência, na forma inventiva de tocar guitarra, Adrian Belew ou trompete, Jon Hassell.
A primeira metade do disco é altamente excêntrica, uma mutação de “punk", musica tradicional africana e “funk”, e é impressionante pela sua coerente energia. As galopantes polirritmias de “Born Under Punches (The Heat Goes On)” é a melhor maneira de começar um disco. Segue-se a substimada “Crosseyed and Painless”, a complexa “The Great Curve” (que possui um dos melhores harmonizadores de refrão), e a profética “Once In A Lifetime”, que com as suas referências ao materialismo que a década bem definiu, acabou por ser um êxito inesperado. A segunda metade tem um carácter mais misterioso e é mais melancólica, chegando a fascinar e a exasperar simultaneamente pela dissonante dispersão sonora. Começa com a intrincada cadência rítmica de “Houses In Motion”, mas as duas últimas composições fecham o álbum com uma tonalidade sombria e volátil. “Listening Wind” é um verdadeiro assombro, enquanto “The Overload” é como se estivéssemos a andar completamente desorientados pelo meio de umas ruínas resultante de alguma catástrofe.
Musicalmente antecipou muita da actual globalização musical ao influenciar músicos de diversos quadrantes.
Um disco que ultrapassa a excelência.
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03 julho 2008

Inovadores # 9 - Brian Eno / David Byrne - “My Life In The Bush Of Ghosts” (1981 EG)

Quando Brian Eno, conhecido pelo seu envolvimento com Roxy Music, Cluster e David Bowie, para além de ter criado o conceito de “ambient music”, colidiu com David Byrne, o excêntrico líder dos Talking Heads, era previsível que algo de extraordinário estaria para acontecer. Eno produziu o segundo disco dos TH, o subestimado “More Songs About Buildings”, e esteve ainda mais envolvido nas brilhantes obras-primas “Fear of Music” e “Remain In Light”. Assim tornou-se natural que os dois realizassem um disco em conjunto, e “My Life In The Bush Of Ghosts” é o resultado dessa colaboração.
Inspirações podem ser encontradas em “Movies” de Holger Czukay, nas colaborações de Eno com Jon Hassell (“Fourth World Vol.1”), e até no lado B de “Low”. Musicalmente, é um impetuoso desvio para territórios bizarros, até para os seus padrões, mas ambos se encontravam num máximo criativo, e a forma como misturam “samples” vocais de rituais de exorcismo, sermões evangélicos e “world music” com ritmos tribais, insidiosas guitarras minimalistas, subtis texturas de sintetizador, e a sensibilidade “funk” de Byrne, permitiu a criação de um disco verdadeiramente único.
O irregular e desvirtuado “America Is Waiting”, o ameaçador “Mea Culpa”, o assombroso “Regiment”, (excelente trabalho de guitarra e com a participação da cantora Libanesa Dunya Yusin), o admirável “Help Me Somebody” (“sampla” os sons de um aviário acompanhados pelo exaltado apelo de um pregador), a desagradável intensidade de “Jezebel Spirit” (“sampla” vozes de rituais de exorcismo, acompanhada por uma batida imparável), ficam gravadas na nossa mente. Não é de audição fácil, provavelmente soando mais como um moderno disco de electrónica experimental, sendo difícil de conceber que foi produzido à mais de 25 anos, e claro, muito do que se seguiu musicalmente, tem aqui as suas raízes.
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Brian Eno & David Byrne - America Is Waiting

02 julho 2008

Phoebe Killdeer & The Short Straws– “Weather’s Coming” (2008 PIAS)

Em primeiro lugar, quero afirmar que nunca apreciei muito o projecto Nouvelle Vague. Agora uma das vocalistas, Phoebe Killdeer, acompanhada por um competente trio clássico (guitarra, baixo, bateria), The Short Straws, avança com o seu disco de estreia. E quem esperava uma continuação do som dos Nouvelle Vague, bem pode olhar noutra direcção, pois este disco é totalmente diferente da sonoridade desenvolvida nesse projecto, e provavelmente era essa a sua intenção. Apesar de ter sido gravado com Marc Collin (o líder do projecto Nouvelle Vague), foi misturado por Oz Fritz, velho colaborador de Tom Waits.
Versátil e ecléctica, ela própria refere como influências, Tom Waits (é obvio), Nick Cave, Yma Sumac ou Art of Noise, e afirma que tem um especial fascínio pelas palavras. Isso obviamente revela-se nas viciantes canções que abordam temas simples – as relações das pessoas e os seus sentimentos, emoções, perturbações, equívocos. Com essas tendências literárias elegantemente subjacentes, as canções serpenteiam de uma forma impressionante à volta da sua invulgarmente pretensiosa voz.
Musicalmente, entre “pop” experimental, blues acústico, jazz psicadélico, soul-rock, r&b (e muito mais), os instrumentos fundem-se com os melódicos arranjos, para criar uma brilhante amálgama sonora, visível na luxuriante “Let Me”, ou na “jazzy” “He’s Gone”. Mas a excelência é atingida na assoladoramente contagiante “Big Flight” e na devastadoramente assombrosa” “I Get Nervous”, que comprovam o talento desta senhora.
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30 junho 2008

Do fundo da prateleira # 10 - Unrest - “Imperial F.F.R.R.” (1992 Teen Beat/Guernica)

Antes de “Imperial F.F.R.R.”, o fanático pela Factory Records e genuíno suburbano Mark Robinson tinha um “fetish” pelas bandas sonoras “blaxploitation” e criou álbuns que misturavam “hardcore”, “noise” e versões de temas de Sammy Davis Jr. Por isso mesmo nunca deixaram antever a feliz fantasia que foi ““Imperial F.F.R.R.” (uma abreviatura de Full Frequency Range Recordings).
Destaques desta frágil e diversificada colecção de minimalista “indie-pop” incluem canções contagiantes como as poderosas “Suki”, “Cherry Cream On”, ou “Isabel” (um tributo a pintora Isabel Bishop). Momentos mais calmos como essa pérola que é “June” (uma dedicatória da baixista Bridget Cross para o falecido pai), a bela ”I Do Believe You Are Blushing” (o legado dos The Smiths bem presente), e a exuberante “Imperial” (a peça central do disco). E ainda belos instrumentais como “Sugarshack” ou “Champion Nines”.
Ainda produziram o contundente “guitar-pop” de “Perfect Teeth, em 1993, antes de se separarem. Mas este clássico ignorado, o primeiro disco editado na Europa pela Guernica, a intrigante subsidiária da 4AD, permanece como o momento mais glorioso da banda de Washington D.C.
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27 junho 2008

Bonnie “Prince” Billy - “Lie Down in The Light” (2008 Drag City/Domino)

Este senhor anda a estragar-me o orçamento. Will Oldham sempre foi muito prolífero, mas ultimamente tem sido demais. Depois das colaborações (menos conseguidas) com Tortoise ou Matt Sweeney, este ano já tivemos o disco de versões e a colaboração com Dawn McCarthy dos Faun Fables. E se pensássemos que toda esta actividade o fizesse distrair, enganamo-nos, pois aqui temos mais um disco magnificente, o melhor desde “I See A Darkness”.
Existe um regresso ao som mais tradicional de “Master & Everyone” (não será estranho a presença em ambos do produtor Mark Nevers dos Lambchop), e um afastamento do som mais polido de “The Letting Go”. Mas Oldham introduziu algumas peculiaridades, como a sonoridade “jazzy” presente em “For Every Field There’s a Mole”. Os temas são os habituais: a futilidade humana, amores perdidos e hinos a Deus, as canções, simples na estrutura, mas nunca monótonas, são luxuriantes, vigorosas, e os meticulosos arranjos são do melhor que já produziu na sua carreira. Ouçam a forma como se diverte ruidosamente no comicamente sério “Easy Does It”, ou a simpática e sensível melodia acústica de “(Keep An Eye On) Other’s Gain”.
Mas a maior transformação é a voz de Oldham, mais potente na forma emocionada de articular tão alegremente as superiormente esculpidas melodias. E que é reforçada nas canções que contam com a presença de Ashley Webber dos Black Mountain, com a sua voz enrouquecida, mas muito feminina. Oiçam o contraste no originalmente seco, mas romântico “So Everyone”.
Neste conjunto de canções, Oldham demonstra confiança, ousadia e franqueza, e não uma exagerada inflexibilidade, ao mostrar-se muito menos introspectivo (excepções são a notável “Missing One”e “Lie Down in The Light”), neste disco afectuosamente concebido e maravilhosamente recompensador.

Bonnie "Prince Billy - Easy Does It

26 junho 2008

Tributo # 5 - Devo

São certamente uma das bandas mais incompreendidas da história da “pop”. Originários de Akron, e constituídos por dois pares de irmãos - Gerald Casalde e Bob Casale, Mark Mothersbaugh e Bob Mothersbaugh – criaram um projecto musical para revolucionarem a sociedade americana.
O seu curioso nome resulta da concepção de “de-evolution” – a ideia defendida pelo antropólogo Óscar K. Maerth, de que em vez de evoluir o homem estaria a regredir.
O objectivo da sua música era de servir como uma rebelião contra a conservadora e reprimida sociedade americana, através de sarcásticos comentários sociais e apoiados no estética minimalista, com ênfase em altamente estilizados e bizarros visuais - chapéus que pareciam vasos para plantas, cabelos preparados artificialmente, uniformes industriais idênticos. Musicalmente criaram uma simples, mas sinistra electrónica experimental - corrosiva, abrupta, assustadora, desprovida de emoções, com vocalizações destoantes. Foram dos primeiros grupos a abusar da utilização de sintetizadores, quer verdadeiros e costumizados pelos próprios, para além de incorporaram brinquedos eléctricos, esquentadores, torradeiras e outros objectos pouco usuais no seu reportório.
Em 1978, com “Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!” produzido por Brian Eno, e que incluía a agora famosa versão de “(I Can’t Get No) Satisfaction” dos Rolling Stones, estabeleceu o grupo como os mais cruéis satíricos sociais da “new wave” (ao desumanizar a sociedade com o objectivo de a assaltar), e como uma banda que compreendia perfeitamente o conceito “Warholiano” do produto “pop”.
Seguiu-se em 1979, “Duty Now for The Future”, mas seria com “Freedom of Choice”(1980), que iriam explodir. E em nada surpreendeu para um grupo instantaneamente reconhecível pela sua imagem, que eles cedo aproveitassem as potencialidades do formato vídeo. “Whip It” – apesar do baixo orçamento disponível – que com a sua imagem futuristica, e os contrastes entre o grotesco “sadomasoquismo” e um saudável rancho americano dos anos 50, foi um dos primeiros clássicos da MTV.
No entanto, o seu sucesso durou pouco tempo, pois o sombrio e mais sério “New Traditionalists” (1981), não era o que o público esperava desta banda invulgar.
No entanto no início dos anos 80 eram um verdadeiro objecto de culto, essencialmente pelas suas elaboradas performances em palco, mas os seus discos dessa fase - “Oh, No! It’s Devo” (1982) e “Shout” (1984) - são dispensáveis. Como foram os Devo pela sua editora, o que fez com que a banda decidisse parar.
Apesar de reuniões posteriores, os resultados nunca foram satisfatórios, e os vários membros partiram para novos projectos. Mark Mothersbaugh virou-se para a produção de bandas-sonoras quer para o cinema quer para a televisão, e Jerry Casale para a realização de vídeo-clips.
Existem imensas compilações, com destaque para “Pionners Who Got Scalped” na sempre excelente Rhino, que reúnem os principais êxitos como “Jocko Homo”, “Be Stiff”, “Girl U Want”, “Whip It” ou “Out of Sync”, mas para perceber a sua verdadeira importância e influência na música “pop” (são várias as bandas dos finais dos anos 80, princípios anos 90, que reconhecem essa influência e muitas delas o demonstraram, ao realizaram versões como os Nirvana, os Soundgarden ou os Superchunk), quer “Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!”, quer “Freedom of Choice” são essenciais.

Devo - Mechanical Man

Devo - Out Of Sync

20 junho 2008

Dosh - “Wolves And Wishes” (2008 Anticon)

Para além do facto de ser na Anticon, inicialmente o que me chamou a atenção foi enorme quantidade de colaboradores que surgem neste segundo disco do talentoso Martin Dosh. Para além de Andrew Bird no violino (que retribui a participação que Martin teve na sua banda), temos a presença do saxofonista Mike Lewis dos Happy Apple, de Odd Nosdam dos Clouddead, do guitarrista Andrew Broder dos Fog, e ainda de Will Odham/ Bonnie “Prince” Billy. E é a forma como Martin utiliza as diferentes características desses diversos colaboradores que transformam a sonoridade deste ambicioso disco.
Pois para além de ser um baterista inventivo, a forma como habilidosamente misturou as suas próprias ideias com alguns conselhos dos convidados, é que permite que as experiências resultam em ecléticos, intrigantes, explosivos e inovadores exercícios de ambiente/pós-rock.
Ouçam a brilhante e harmoniosa “Don’t Wait for the Needle to Drop”, com a percussão ressonante, e o violino de Bird, descontraído e subjugado, para um elevado final. A seca e fria “Bury The Ghost” com a borbulhante bateria, e o clamor tribal em cólera de Will Oldham. “If You Want To, You Have To” que começa com suaves guitarras e piano, e depois lança-se numa mistura propulsiva de sintetizadores, violino, guitarras, tambores e gritos. A forma como “First Impossible” se eleva e cai, num minuto sorumbática, noutro eléctrica. E o que dizer das guitarras “shoegazing” de “Wolves”.
Depois de “Alopecia” dos Why?, mais um disco completo e excitante, que não soa como a maioria.
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16 junho 2008

Extremos # 3 - Swans - “Filth” (1983 Labour)

Inicialmente os Swans criaram uma das sonoridades mais brutais que ainda podem ser consideradas como música.
Oriundos de Nova Iorque, e liderados por Michael Gira, foram um dos expoentes do movimento “no wave”, ao lado de grupos como Sonic Youth ou visionários como Glenn Branca.
A sua mistura de “noise rock” e música industrial (claras influências dos Throbbing Gristle), resultou numa música mental, física, baseada na exaustiva repetição de “riffs” e locuções vocais, e no abrandamento total do ritmo (virtualmente rastejando), de forma a criar um efeito hipnótico.
O título do seu primeiro álbum “Filth” já sugere o que devemos esperar, e poucos discos poderão igualar a brutalidade oferecida, que nos deixa paralisados.
Dois bateristas (Roli Mosimann e Jonathan Kane), com um martelar ritual e abrasivo, criavam uma sensação de agressão, de violência directa, de impiedosa brutalidade. O rosnar de Michael Gira, constantemente abalado, é meio berrado, meio gemido, e funciona como uma arma atroz e formosamente injuriosa, resultado de uma certa ambiguidade das mórbidas letras. Este disco marca também a primeira participação do guitarrista Norman Westberg, cujas guitarras triturantes, seriam um das imagens de marca da banda.
Os discos seguintes “Cop”, “Greed”, Holy Money”, seguem o mesmo padrão sonoro. E seria já com a presença de Jarboe na banda, que os primeiros sinais de mudança acontecem, em 1987 com “Children of God”, e que iriam se concretizar na década seguinte, onde a sua sonoridade se transformou radicalmente.

13 junho 2008

Robert Forster - “The Evangelist” (2008 Yep Roc)

A segunda vida dos The Go-Betweens, estava definitivamente em alta após a edição em 2005 de “Oceans Apart”, um clássico ao nível de “16 Lovers Lane”. A morte de Grant McLennan, em 2006, ditou o fim de uma ligação de duas pessoas com personalidades opostas, mas que se influenciaram uma à outra ao longo de 30 anos, resultando numa das melhores associações criativas da história da “pop”.
Robert Forster editou este disco a solo, que, apesar de não ser um disco dos Go-Betweens (mas foi assim iniciado), conta com a presença de antigos colaboradores dos tempos de “Liberty Belle…” e “16 Lovers…”, como o produtor Mark Wallis e Audrey Riley, responsável pelos arranjos, inclui a ultima secção rítmica do grupo, e está centrado na memória de Grant McLennan, não deve ser considerado como uma elegia, mas sim como um testemunho da influência e camaradagem vivida com McLennan.
E o resultado mais visível, é que neste disco existe uma maior coesão do que em anteriores trabalhos a solo de Forster. Pois, e ao contrário das suas composições a solo ou nos The Go-Betweens, onde sempre foi o mais poético, o mais literário, onde as suas metáforas e alusões, sempre foram complementadas e balançadas pelas composições mais directas e terrenas de McLennan, aqui surge muito mais directo, puro, honesto e vulnerável.
É um disco predominantemente acústico, com momentos notáveis, desde o elegíaco “If It Rains”, passando pelo misterioso “Did She Overtake”, seja nas canções escritas a meias com Grant – “It Ain’t Easy” um franco tributo a um amigo desaparecido, “Demon Days” a alegre tristeza de uma fatal lembrança - ou acerca dele – a elegante e brilhante “Pandanus”. E que melhor forma de fechar melancolicamente um disco com “From Ghost Town”, a arrebatadora e devastadora meditação sobre a perda.
Em “The Evangelist”, Forster, libertou-se e inspirado pelo seu eterno colaborador, criou um disco impressionante e incisivamente emocional.
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11 junho 2008

Electronic # 3 - Jimi Tenor – “Intervision” (1997 Warp)

Se não conhecem o trabalho de Jimi Tenor, não estejam à espera do perverso “techno” muito usual nos discos da Warp.
De uma forma notável Tenor rouba maldosamente de todos os quadrantes da música “pop”, “funk” e “jazz” anglo-saxónica. E as suas influências são bem visíveis, de Stan Getz a Gary Numan, passando por Gary Glitter ou Barry White. Se juntarmos a tudo isto uma confessa fascinação pelas bandas sonoras dos “film noir” dos anos 60 e 70, e graças a uma virtuosidade de camaleão, este finlandês, conseguiu um conjunto de linguagens musicais originalmente diferentes e múltiplas.
Estamos perante uma verdadeira, ecléctica e divertida aventura. Temos a ritmada “Wiping Out” como as suas vocalizações “vocoded” e ritmos “jazzy”, a cativante “Sugardaddy” com as suas impuras e ásperas matrizes rítmicas, a personificação de Barry White em “Downtown” ou “”Can´t Stay With You Baby”. Em “Outta Space” somos rapidamente transportados para um mundo de “esmagadores” baixos, e melodias penosas. E somos surpreendidos pela forma como conduz o clássico de Duke Ellington, “Caravan”, para o século XXI.
O melhor deste disco é o facto que melhora a cada audição, e é o melhor lugar para se começar a acompanhar a obra de Tenor.
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07 junho 2008

Two Banks of Four - “Junkyard Gods” (2008 Sonar Kollektiv)

Já tardava o regresso dos veteranos Robert Gallagher e “Demus” Harris, ilustres membros e colaboradores de projectos como Galliano ou Young Disciples.
Depois dos superlativos “City Watching” e “Three Street World”, regressam agora na Sonar Kollektiv, para mais uma intrigante viagem através de um elegantemente retorcido labirinto de géneros musicais - desde “soul” ao “funk”, passando pelo “jazz”, “house” e “broken beat”. Mas agora a ênfase reside muito mais na interacção e na improvisação entre todos os músicos envolvidos.
Assim através da combinação entre as subtis e complexas experimentações electrónicas, e instrumentos clássicos como flautas, saxofone, trompete e piano, criam fantásticas harmonias estranhamente caóticas.
Desta deliciosa colecção, destaca-se “Queen of Crows”, com uma jovial performance vocal de Valerie Etienne (cuja presença sobressai ao longo do disco), e o contagioso revolver do piano de “Shadowlands”. Depois temos temas mais acessíveis como “Dead Afternoons” ou mais experimentais como “Wake Me 5.30”, e uma re-interpretação “electro” de um tema de Wayne Shorter, “Go”.
Rico e complexo na estrutura, é um disco para ouvidos exigentes, que nos trás uma nova perspectiva para uma fórmula de sucesso.

06 junho 2008

Covers # 3

É universalmente conhecido que durante o ano de 1992 os The Wedding Present decidiram editar um single por mês, e que inclua em cada respectivo lado B, uma versão de gente tão diversa como The Go-Betweens, Neil Young, Altered Images, David Bowie ou Elton John.
A que mais me surpreendeu nessa época foi esta versão do clássico da "blaxploitation":


Mas essa propensão por versões já era anterior, pois já antes no lado B do single "Kennedy" de 1989, tinham realizado esta:


E depois de no último post ter colocado uma versão realizada pelos Cud numa Peel Session, também os Sisters of Mercy tinham gravado um versão de um tema dos Hot Chocolate:
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Finalmente, e já que estamos numa de 7", lembram-se desta anedota no ínicio dos anos 90.
Mais um lado B, do single "Rubbish" de 1990:

04 junho 2008

My Favorites # 9 - Soul Coughing - “Ruby Vroom” (1994 Slash)

“Ruby Vroom” é a vertiginosa investida de uma ruidosa civilização indecisamente, contudo irrevocavelmente em direcção a um novo milénio. O que faz com este disco seja a banda-sonora ideal dos anos 90, uma década onde os géneros musicais confluíam sem aviso e a história era uma coisa do passado.
Uma década onde a maioria das bandas passeou sem objectivos, procurando o abrigo na elusiva sonoridade pós-Nirvana, M. Doughty e companhia, criaram um som único - onde batidas “avant-noise” e melodias fracturadas colidem conscientemente - ao combinaram a poesia com “rock”, “hip-hop”, “blues”, “folk”, “techno” e muito mais, numa magnificamente subtil e agradavelmente eclética “mix” (excelentes músicos, destaca-se o impecável trabalho de Yuval Gabay na bateria).
Juntaram um inteligente, elegante e gracioso, mas cortante vocabulário, e os resultados estão excepcionalmente expressos seja na melancólica canção de amor na América rural em “True Dreams of Wichita”, seja no épico e despropositado sobrecarregado “jam” “Uh Zoom Zip”, seja na história do vendedor ambulante que more de “overdose” num quarto de banho de um hotel em “BlueEyed Devil. “City of Motors” conta a sinistra história de um roubo e da testemunha que o presencia, e “Screenwriters Blues” é um fantástico instantâneo de Doughty numa imaginária vida como argumentista em Los Angeles, cheia de contrastes entre os aspectos negativos de Hollywood e L.A., e a beleza que a cidade exibe.
E ainda falta referir “Mr. Bitterness”, “Is Chicago, Is Not Chicago”, “Casiotone Nation”, “Down To This”, “Bus To Beelzebud”, todas elas geniais.
Uma das bandas mais criativas, inovadoras e interessantes dos anos 90, e também uma das mais inclassificáveis, foram um verdadeiro oásis.
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03 junho 2008

Ebay # 3

O último mês, para além dos mais recentes dos Why? e Foals a menos de $5, permitiu encontrar algumas pechinchas:

Dan Boadi & The African Internationals – “Money Is The Root of Evil” CD (1978 Aestuarium)
- uma reedição de um disco perdido, originalmente só existiam 500 cópias em vinil. Afro-Beat do Gana gravado em Chicago. Preço em conta, £3.99

Half Cousin – “The Function Room” CD (2004 Gronland)
- Folk-Pop experimental, combinando electrónica e funk,
reminiscente dos The Beta Band, oriundos de Orkney na Escócia – Só £0.99

Model 500 – “Be Brave/ Psychosomatic” 12” (1998 R&S) - o tema principal é evitável, já o lado B “Psychosomatic” é indispensável, é o tipo de “electro-funk” obliquo que Juan Atkins é especialista – como é um Promo só $1.50

Beaumont Hannant – “Sculptured” CD (1994 GPR)
- disco a solo de um dos Outcast, ambient- techno ,
participação de Lida Husik nas vocalizações – só £0.49 _

Dan Boadi and The African Internationals - Money Is The Root Of Evil