30 agosto 2007

Tony Allen – “Black Voices” (1999 Comet)

Aproveitando mais uma visita deste percussionista, por muitos considerado um dos melhores de sempre...

Se devemos relembrar o seu trabalho como líder do grupo que acompanhou Fela Kuti nos seus anos mais produtivos (1969-79), também devemos referir o seu notável trabalho a solo muitas vezes menosprezado.
Para mim um dos melhores registos é este “Black Voices”, um regresso em força após uma década pouco produtiva.
O disco foi gravado em Paris com uma produção minimalista de Doctor L. O resultado é um conjunto estrutural de composições, onde intensos ritmos Afrobeat, rodeados por guitarras, teclados “wah-wah”, e um poderoso e enérgico baixo, apoiados nas vozes (negras e claustrofóbicas) dos veteranos do P-Funk, Mike “Clip” Payne e Gary “Mudbone” Cooper, nos proporcionam uma crescente viagem psicadélica que nos deixa intoxicados.
O seu som continua inovador e experimental, e onde a improvisação serve de complemento às estruturas rítmicas predefinidas, abrindo novos rumos, ao combinar o afro-beat com o dub, e com a electrónica.

Hoje 22H15
Festival Músicas do Mar - Póvoa de Varzim

29 agosto 2007

My Bloody Valentine Reuniting?

Será verdade....

Via DS - But now some tantalizing hints have emerged in the past few weeks that suggest the band is finally gearing up for a return to action. In July, several fans reported encounters with Shields at Primal Scream and Dinosaur Jr. shows in England, Ireland, and Russia, each returning with the same story: that Shields very matter-of-factly spoke of My Bloody Valentine in the very present tense. The fans reported Shields said that two new My Bloody Valentine releases are in the works – an anthology of unreleased 90s material and an album of brand new studio recordings – along with the imminent release of remastered versions of the band’s original studio work. He is also reported as saying, on several different occasions, that a 2008 tour is in the works that will feature the band’s original lineup. Furthermore, in an interview published earlier this year in Magnet magazine, Shields was adamant about the band’s return: “We are 100% going to make another My Bloody Valentine record unless we die or something,” he said.

28 agosto 2007

Singles # 4 - Blur – “There’s No Other Way” (1991 Food)

Após escutar o charme inocente de “She’s So High”, o primeiro single dos londrinos, Stephen Street interessou-se pela banda, e como resultado surgiu “There’s No Other Way”, o primeiro resultado de uma longa colaboração entre ambos.
O segundo single dos Blur é bastante diferente do trabalho futuramente realizado pela banda, está mais próximo da “indie-dance” do final dos anos 80 do que do “brit-pop”, apesar que a melodia me relembra os R.E.M. em “Stand”.
Estávamos numa altura em que a banda ainda não tinha de se preocupar em ser porta-estandarte de uma geração.
Após a edição, no mesmo ano, do álbum de estreia “Leisure”, os Blur iriam reinventar-se e os frutos surgiriam um ano depois com o lançamento de “Popscene”.
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23 agosto 2007

Seefeel – “Quique” (1993 Too Pure)

Apesar de terem assinado posteriormente trabalhos na Warp e na Rephlex, seria no seu disco de estreia
- o meu favorito - que os Seefeel, realizaram provavelmente o trabalho mais conceptual do grupo, e onde se denota uma maior sinergia entre os diversos membros.
Assim criaram uma mistura de hipnóticas texturas analógicas com efeitos de guitarras “Shoegazing” (influência clara My Bloody Valentine) My Bloody Valentine) e as luxuriantes angélicas vozes femininas.
O disco agrupa de uma forma completamente única diversas influências distintas, às vezes de uma forma experimental, outras de uma forma estética.
É difícil escolher um destaque porque o disco funciona como um todo.
Ouçam os três temas iniciais: “Climactic Phase #3” com os seus ritmos simples, e as imensas ondas de sintetizadores, seguida de “Polyfusion” que adorna o “feedback”, com densas camadas sonoras e a bela e incompreensível voz de Sarah Peacock, e “Industrious”, mais uma vez com a voz a estremecer etereamente sobre uma poderosa batida rítmica; e constatem como ao juntarem as possibilidades oferecidas pela electrónica com um trabalho de guitarra e baixo poderoso e sensual, criaram algo verdadeiramente diferente.
Se os Cocteau Twins tivessem integrado mais sintetizadores e caixas de ritmos talvez soassem assim.
Um clássico “indie-electronica” de um grupo que teve uma curta carreira, está agora disponível numa “Redux Edition” de 2 CD’s com mais 9 temas do que a edição original (o costume: B-Sides e remixes). Se ainda não o possuem, aproveitam, pois nos restantes discos nunca mais capturaram a criatividade aqui presente.
Um sedativo de atmosferas digitais.

13 agosto 2007

Extremos # 1 - Naked City – “Naked City” (1989 Nonesuch/Elektra)

Um dos discos que mais me surpreendeu aquando da sua edição em 1989. As primeiras audições foram brutalmente surpreendente, pois do pouco que conhecia do trabalho de Zorn (essencialmente “The Big Gundown”) não esperava nada disto.
Trata-se de um estimulante projecto do multifacetado saxofonista John Zorn, acompanhado pela fina-flor dos músicos nova-iorquinos: Bill Frisell, Fred Frith, Wayne Horvitz, Joey Baron; e com a colaboração do vocalista Yamatsuka Eye dos Boredoms, cujo objectivo inicial era testar os limites da composição e da improvisação com uma banda de rock tradicional.
Dessa forma a música presente no disco incorpora elementos tão diversos como o free-jazz ou o punk-rock.
Assim o disco inclui uma notável reinterpretação de “Lonely Woman” de Ornette Coleman, alucinantes versões de temas de filmes clássicos como “The James Bond Theme”, “Chinatown” ou “A Shot In the Dark”, e inclusive puros exercícios de hardcore-rock, próprios para fãs dos Napalm Death ou Carcass (com quem chegaram a partilhar os palcos), como em “Speedball” ou “N.Y. Flat Top Box”, onde Yamatsuka Eye parece estar possuído.
No entanto a maioria dos temas são imprevisíveis originais, onde são evidentes também as qualidades de compositor de Zorn, que se destacam em “Saigon Pick-Up”, onde vão variando de estilo e “tempos”, mas conseguem-se manter perfeitamente consistentes.
Totalmente diferente do seu trabalho posterior com o projecto Masada, não é um disco para ouvidos e corações frágeis. Excitante, mas assustador.

10 agosto 2007

Singles # 3 - Altered Images – “Don’t Talk To Me About Love” (1983 Epic)

Estes escoceses já tinham editado um single - “Happy Birthday” (podia ser uma escolha) - que os tinha tornado num dos grupos independentes mais populares do início dos anos 80.
Entretanto a banda amadureceu e os frutos estão presentes no álbum “Bite”, o terceiro da sua carreira.
Fundamental para esse desenvolvimento sonoro foi a contratação do produtor Mike Chapman (que produziu “Heart Of Glass” dos Blondie), para a produção do álbum, que continha “Don’t Talk To Me About Love”.
A canção soa tão fresca hoje como quando foi editada.
Atinge o auge da verdadeira expressão artística, liricamente é tão dolorosa como encantadora. E a voz de Clare Grogan, soa voluptuosamente polida.
Infelizmente, actualmente não são muito relembrados, o que é estranho quando ouvimos um dos melhores singles indie-pop de sempre.
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08 agosto 2007

Patrick Cleandenim – “Baby Comes Home” (2007 Ba Da Bing!)

Após o sucesso obtido no ano transacto com o disco de estreia dos Beirut, esta pequena editora parece ter encontrado outro potencial sucessor para o ano corrente, com o disco de estreia do nova-iorquino Cleandenim.
O disco contém uma enorme quantidade de influências, evidentes nos trabalhados arranjos que são um testemunho das suas capacidades de criador de clássicos pop, baseados nos seus conhecimentos enciclopédicos que incluem desde o trabalho inicial de Scott Walker, até às “big bands orchestras” e o swing dos anos 50, passando pelo 60’s beat, pela Motown, e a grandiosidade cinemática que percorre permanentemente o disco.
E se estas influências podem funcionar como homenagens, o disco não está preso ao passado, e tem a capacidade de o recriar. Ouçam “Whispers Only Hurt Them”, com a dualidade entre o piano e o órgão Rhodes e a voz ligeiramente distorcida, que refrega de outro modo uma serena canção.
Com um retro “vibes”, onde “Days Without Rain”, é um perfeito exemplo, com o omnipresente piano suportado pelas maravilhosas investidas da secção de cordas, que a transforma numa canção brilhante ao ponto de poder desafiar Rufus Wainwright.
E como podemos resistir a canções com títulos como “Caviar & Cognac”(outro destaque patetamente elegante).
É um disco ambicioso, a música é super-melódica, com sofisticados arranjos de cordas, e um sofisticado trabalho vocal. Uma das grandes surpresas de 2007.
Um episódio da era dourada do pop revitalizado no século 21.

03 agosto 2007

Classic # 7 - Slint – “Spiderland” (1991 Touch and Go)

Dezasseis anos após a sua primeira edição, “Spiderland”, não perdeu nenhum do seu encanto.
É difícil explicar o impacto que este disco teve, porque paradoxalmente, não soa como nada que surgiu antes ou depois da sua edição.
Para mim o parente mais próximo será o trabalho desenvolvido pelos Tortoise e outras bandas “post-rock” onde estiveram envolvidos os antigos membros dos Slint, nomeadamente o projecto posteriormente desenvolvido por Brian McMahan, os The For Carnation. No entanto ”Spiderland” é no essencial música “rock”, mas com um sentido de mistério que escapa totalmente à maioria das “bandas rock”.
Renunciando completamente a tradicional estrutura da canção:”versos-refrão-versos”, os Slint (Brian McMahan, David Pajo, Britt Walford e Todd Brashear) criaram e estratificaram composições densas e atmosféricas, com dinâmicas diversificadas, mas acessíveis ao mesmo tempo.
O seu encanto reside no facto da sua brutalidade ser “brutalmente” subtil.
Uma música poderosamente enérgica e dramática, notória na intensidade das épicas canções.
E reza a história que as gravações foram tão intensas que vários membros da banda tiveram de receber apoio psiquiátrico.
Como exemplo e destaque óbvio, “Good Morning Captain”, a melhor canção do disco, sete minutos e meio estranhamente “assustadores”, que através dos suspiros de Brian McMahan, complementadas pelas guitarras incendiarias em fundo e o ritmo tribal da bateria, evolui até atingir o seu êxtase, quando a canção explode e liberta aquele grito arrepiante “I Miss You”. Aquele momento é um dos mais emotivos pedaços de música que alguma vez ouvi.
É um final extraordinário para um disco extraordinário.

01 agosto 2007

Singles # 2 - Saint Etienne – “Only Love Can Break Your Heart” (1990 Heavenly)

Surgiram do nada com uma versão fantástica do original de Neil Young, e com o nome inspirado na famosa equipa francesa de futebol dos anos 70.
Pegaram no rústico original e transformaram-no numa excelente canção “pop” para a geração pós-rave, com uma batida irresistível, um crescendo de piano e um baixo orquestralmente mecânico, dando-lhe uma nova e impensável revisão.
Na altura sem vocalista definida, utilizaram Moira Lambert, que ao não acrescentar muita emoção na performance, acabou por favorecer a canção.
A mesma tornar-se-ia um clássico “chill-out” devido à excelente remistura realizada pelo mágico Andrew Weatherall, “mix of two halves” presente na versão 12” e na posterior re-edição em CD.
Como muito do trabalho inicial do St. Etienne (“Nothing Can Stop Us”; “Filthy”; Join Our Club"), “Only Love Can Break Your Heart”, é fortemente evocativo de uma época, o verão do início dos anos 90.

PS – Para os curiosos o original está no “After The Gold Rush”, e também é uma excelente canção, dentro do seu género.

Video

30 julho 2007

Summer Songs


B-52’s – “Summer of Love”
Ben Kweller – “Sundress”
Block 16 – “Morning Sun”
Elvis Costello – “The Other Side of Summer”
Flaming Lips – “It’s Summertime”
Hüsker Dü – “Celebrated Summer”
Koop – “Summer Sun”
Marianne Faithfull – “Summer Nights”
Mogwai – “Summer”
Queens of the Stone Age – “Feel Good Hit of the Summer"
Six Organs of Admittance – “You Can Always See the Sun”
Spiritualized – “Lay Back In The Sun”
Sparklehorse – “Knives of Summertime”
Spectrum – “Indian Summer”
The Stranglers – “Midnight Summer Dream”
The Thrills – “Don’t Steal Our Sun”
The Troggs – “Hot Days”
The Undertones – “Here Comes The Summer”
Weezer – “Island in the Sun”
Yo La Tengo – “The Summer”

26 julho 2007

The Detroit Cobras – “Tied & True” (2007 Bloodshot)

O regresso desta banda de “covers” é sempre de saudar, pois desde que os descobri em 2001, e numa carreira de 13 anos, só editaram 4 álbuns.
Criam versões de músicas soul, r&b e rock’n’roll dos anos 50 e 60 (pois são de Detroit), misturando os habituais clássicos com tesouros perdidos, mas transformando-as em exercícios garage-rock/ garage-soul.
“Life, Love & Leaving” (2001 Sympathy for the Record Industry) era esplêndido, quer ao nível conceptual, quer ao nível musical.
Este “Tied & True” (que conta com a contribuição de Greg Cartwright dos Reigning Sound) talvez não seja tão conseguido, no entanto destaques como as versões de “Nothing but a Heartache” (The Flirtations) e “I Wanna Know What’s Going On” (Art Neville), são do melhor que já fizeram.
Em canções como “You’ll Never Change” (Betty Lavett) ou “Puppet On a String” (Gino Washington) aventuram-se em territórios mais sombrios do que a banda alguma vez explorou.
A distinta voz, frágil “femme fatale” de Rachel Nagy é uma mais-valia. Como exemplo, a forma como transformam a versão de “Leave My Kitten Alone” de Little Willie John, que adquire um significado totalmente novo na voz “nicotinada”de Nagy. Em vez do típico cenário do homem que defende a sua dama, esta versão reforma os sexos e as sexualidades, sugerindo uma nova e mais volátil interpretação.
No catálogo da banda, “Tied & True” é outro capítulo na arte de “Be Cool”.

18 julho 2007

Singles # 1 - The La’s – “There She Goes” (1988 Go! Discs)

Uma das canções mais belas de sempre, com as suas harmoniosas guitarras e cativantes letras, vaticinaram o “Britpop” que ainda estava a anos de distância. Apesar de ter sido originalmente editada em 1988, foi com a reedição deste single (e a consequente edição do seu único álbum) em 1990 que este quarteto de Liverpool se tornou numa das mais famosas bandas de “one-hit-wonder”, como os “brits” tanto gostam.
Liderados por Lee Mavers, um perfeccionista, que preferia ter guardadas na sua cave as versões rudimentares e "lo-fi" da suas composições, do que ter editado a versão final que a sua editora lançou, produzida pelo conhecido Steve Lillywhite.
No álbum de 1990, de título homónimo, misturando as melhores partes dos Beatles, dos The Kinks, e dos Who, Mavers compôs simples canções que cantava com uma voz extramamente vulgar e um impecável sentido de ritmo e graciosidade.
O baixista John Power iria formar os Cast, e tentar dar continuidade ao som dos La’s, sem sucesso.
No entanto este disco permanece como uma das mais sólidas referências do “indie-pop”.
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Video

09 julho 2007

Do fundo da prateleira # 4 - Damien Jurado – “Where Shall You Take Me?” (2003 Secretly Canadian)

Com este introspectivo disco, Jurado volta a comprovar que é um dos mais talentosos, deprimidos e sombrios compositores da actualidade.
O som de rudimentares instrumentos acústicos e as influências tradicionais criam uma notória tensão.
Comparações com “Nebraska” de Bruce Springsteen são óbvias, mas não fazem totalmente justiça à original capacidade deste nativo de Seattle.
Pequenas e inquietantes histórias, com ricos detalhes de lugares e pessoas, que tornam a audição mais arrepiante, como um pesadelo que nunca passa, mas estranhamente, neste disco dolorosamente honesto, esta indistinta voz oferece um certo tipo de conforto.
Como exemplificado no tema de abertura, “Amateur Night”, com a voz a ecoar lamuriosamente sobre uma relaxada guitarra acústica, e uma letra sombriamente ambígua. A canção é perfeita e encanta, até que surge uma distorção em fundo, que a torna mais perturbadora, como se aproximasse algo horrível e inevitável.
Mais espantosa é a sincera história de um amor proibido em “Abilene”.
A simplicidade e a delicadeza escondem uma grande tristeza, como em “I Can´t Get Over You”, ou nesse afável hino à vida nas pequenas cidades, que é “Matinne”.
E o disco encerra como começou, só que agora em “Bad Dreams”, sem disfarce, aberto e inconstante.
Se isto é música “folk”, andará mais perto dos mundos de Sparklehorse, Smog ou Cat Power, do que o “british-folk” de influência renascentista.

03 julho 2007

Classic # 6 - My Bloody Valentine - “Loveless” (1991 Creation)

Em “Isn't Anything” (1988) já tinham identificado o projecto sonoro, no entanto o disco tinha como base a experimentação.
Com “Loveless”, Kevin Shields e os MBV expandiram esses sons pegando nos conceitos de “feedback” e “noise”, dando-lhe um sentido de estrutura, harmonia, e uma intensa e bela aproximação atmosférica.
Este conceito é demonstrado na primeira faixa, “Only Shallow”, onde Shields cria uma espiral de melodias, que parece que balança entre os “speakers”, enquanto em fundo, a assombrosa voz de Bilinda Butcher se funde com as outras instrumentações, sugerindo uma multiplicidade de eflúvios possíveis.
A segunda faixa, “Loomer” promove este conceito fundindo as vocalizações com rígidas distorções e uma bateria distante. E na terceira faixa, “Touched”, um instrumental de Colm O’Ciosoig, somos transportados numa viagem surreal, completa de estranhos “loops” e “samplers”.
A partir daqui o disco parece serenar, e Shields começa a tomar mais controlo sobre o som – visível nas guitarras densas e vocalizações celestiais.
Como resultado, “To Where Knows End”, “When You Sleep”, I Only Said”, “Sometimes”, e “Soon” são das mais belas canções da década, com os MBV a criarem um conjunto de temas que simultaneamente oferecem uma experiência desconcertante e perturbadora.
A melodia nunca está esquecida, e as atmosferas sonoras criadas são absolutamente incríveis.
Apesar do som distorcido das guitarras em fundo, nunca é dissonante escutá-lo, é pelo contrário calmante, provavelmente como resultado do uso das Fender Jazzmaster e Jaguars que lhes transmite um som mais caloroso.
As canções confundem-se umas nas outras e todo o disco surge como uma peça de arte, onde a sua coesão é simplesmente persistente, e onde todas as canções ou são praticamente tangíveis ou são inacessíveis.
O “Magnum Opus” dos My Bloody Valentine é um dos discos mais influenciais dos anos 90, um clássico moderno, em originalidade e sedução.

29 junho 2007

Jimi Tenor & Kabu Kabu – “Joystone” (2007 Sahko)

Ao longo dos anos Jimi Tenor foi um dos músicos mais aventureiros na área da música electrónica no seu desejo de experimentação, ao criar um som caracteristicamente único em editoras como a Warp, a Kitty-Yo, e na sua Sahko.
Ao reunir-se com o colectivo africano Kabu Kabu (que inclui nas suas fileiras Nicholas Addo Nettey, ex-percussionista de Fela Kuti), Jimi Tenor conseguiu a liberdade de realmente explorar-se e expandir-se, e assim regressa com um dos seus melhores discos.
Com “Joystone” Jimi Tenor simultaneamente consolida o seu som electrónico particularmente “kitsch”, ao mesmo tempo que o expande ao incorporar os ritmos terrenos dos Kabu Kabu. O resultado é uma experiência musical imaginativa e calorosa.
Existe uma mudança de rumo, e assistimos a um regresso aos anos 70, que servem de inspiração na forma brilhante como é efectuada a interligação ente a música electrónica, o afro-beat, o soul-jazz, o funk e a pop.
Os teclados e os sintetizadores de Tenor mantém-se como o ponto central das composições, no entanto as percussões africanas dão uma contribuição notável conduzindo-as numa direcção única. É um cocktail funk, com temas extremamente alegres, que nos relembram o verão.
Excepcionalmente contagiante e único.

28 junho 2007

As 7 Maravilhas da Blogosfera

Como estas escolhas muitas vezes são pessoais e subjectivas, não devem ser muito levadas em consideração.
Mas como amavelmente me nomearam, e como sabe bem ver o nosso "trabalho" reconhecido, também vou fazer o mesmo.
Infelizmente só é possivel seleccionar 7 blogs, mas como todos os links que estão no meu blog são para aqueles que são consultados regularmente e que na minha opinião me transmitem alguma forma de mais-valia (no meu caso, essencialmente musical), a verdadeira votação estará nesse link. Os restantes não me interpretem mal.
Penso, que em ultima análise, este tipo de votações pode é servir para divulgar alguns blogues que podem andar perdidos na blogosfera.
"Depois da ideia de se elegerem as 7 Maravilhas do Mundo, alguém teve a brilhante ideia de eleger as 7 Maravilhas de Portugal. E como se não bastasse, outra alma iluminada teve a ideia de fazer a votação para as 7 Maravilhas da Gastronomia Portuguesa. Bem, depois disto tudo também tive uma ideia... Por a votação as 7 Maravilhas da Blogoesfera.

Regulamento:
1. Podem participar na votação todos os bloggers que mantenham blogues activos há mais de um mês [os outros esperem por outra ideia brilhante que alguém irá ter].
2. Cada blogger deverá referenciar sete nomes de blogs. A cada menção corresponde um 1 voto.
3. Cada blogger só poderá votar uma vez, e deverá publicar as suas menções no seu blog [da forma que melhor lhe aprouver], enviando-as posteriormente para o seguinte e-mail:
7.maravilhas.blogoesfera@gmail.com.
No e-mail, para além da escolha, deverão indicar o link para o post onde efectuaram as nomeações. A data limite para a publicação e envio das votações é dia: 01/07/2007.

4. De forma a reduzir alguns constrangimentos [e desplantes], e evitar algumas cortesias desnecessárias, também são considerados votos nulos:
- Os votos dos blogger(s) em si próprio(s) ou no(s) blogue(s) em que participa(m);
- Os votos no blog O Sentido das Coisas.

No dia 7.7.2007 serão anunciados os vencedores e disponibilizadas todas as votações."
Nomeações:

26 junho 2007

Inovadores # 2 - Minutemen – “Double Nickels On The Dime” (1984 SST)

No início dos anos 80 as bandas da SST sentiam um salutar sentido competitivo, o que tornou possível que quando os Hüsker Dü gravaram o duplo “Zen Arcade”, este trio de californianos pensaram que também deveriam fazer um disco duplo. E o resultado são 45 canções (43 na reedição em CD), de paixão e clareza.
O disco representa os Minutemen e a sua atitude perante a música, a política e a vida.
Desafiando todas as convenções musicais com a sua atitude e experimentação, encontra-mos de tudo neste disco: rock, punk, jazz, folk, funk, blues, country, psicadelismo, spoken-word, e versões dos Creedence Clearwater Revival, Steely Dan ou Van Halen (só no vinil), mas contrariamente à maioria dos grupos punk que realizavam versões irónicas dos artistas que desprezavam, os Minutemen gostavam dos grupos que revestiram.
D. Boon através de confidentes e assertivas vocalizações ultrapassava as suas imperfeições. Não sendo um grande guitarrista, a sua técnica era baseada no “treble”. Mike Watt era/é um dos melhores baixistas de sempre, com o seu estilo jazzy. Com ele o baixo parece que ganha vida. E o baterista George Hurley conseguia fazer sons notáveis com um pequeno “drumkit”. Os Minutemen tinham nas suas fileiras três dotados músicos, que excediam a maioria das bandas punk da altura. Adicionando um “condimento” jazz-funk, criaram um som único.
Como exemplo vejam a forma como em cinco minutos, os Minutemen, passam do funk de “Viet Nam”, pela introspectiva guitarra acústica de “Cohesion”, até aos “drum breaks” de “It’s Expected I’m Gone”.
Cheio de grandes canções na maioria inferiores aos 2 minutos, destacam-se o punk-pistoleiro de “Corona”, o hipnótico “Jesus and Tequila”, essa falsa semi-balada que é “History Lesson-Part II”, e o funky “Anxious Mofo”.
Duas decádas após a sua edição, a sua influência ainda é palpável no trabalho de bandas como os Red Hot Chili Peppers, musicalmente, e os Wilco liricamente/politicamente.
Um marco absoluto no domínio rock alternativo.

15 junho 2007

Classic # 5 - P.I.L. - “Metal Box” (1979 Virgin)

Com o fenómeno punk em declínio, John Lydon estava desencantado e saturado, pois na senda do sucesso dos Sex Pistols, aparecerem muitas pretensas bandas punk, que pouco tinham em comum com o ideal punk. E claro estava no início a longa batalha legal entre Lydon e Malcolm McLaren.
Lydon decidiu que estava na altura de fazer algo diferente. Os Public Image Ltd eram diferentes, muito diferentes.
Após o relativo sucesso do primeiro disco “First Issue”, Lydon continuou a levar a música para outras direcções, e com “Metal Box”, o segundo disco, conseguiu-o, brilhantemente.
Muitas das canções em “Metal Box” são criticas sociais e políticas, algumas referem os seus dias nos Sex Pistols, e mais especificamente como eram explorados e a forma com era esperado que eles “actuassem” não só no palco, mas também como uma espécie de circo ambulante. Lydon não queria nada disso nos P.I.L. E logo no primeiro tema do disco (“Albatross”) encontramos essas referências.
O que distingue este disco é a sua unicidade, e a combinação de 3 factores: a voz distinta de Lydon, as guitarras metálicas de Keith Levene, e o baixo de Jah Wobble, que é a força dominadora deste álbum.
Essa unicidade é evidente e poderá ser entendida ao escutar-se seguidamente a triologia "Memories”, “Swan Lake” e “Poptones”.
Ao ritmo baixo/bateria de “Careering” existe um acompanhamento de um teclado que parece emitir sons retirado de um filme de ficção científica série b. Essa mesma sensação parece estar evidente na vocalização de Lydon em “No Birds”.
Seguem-se duas canções favoritas: “The Suit” conduzida pelo baixo, e um ritmo de bateria simples, mas é a forma monótona de cantar de Lydon que torna o tema sombrio e ameaçador; e “Bad Baby” , também essencialmente comandado pelo baixo, e o com o regresso das teclas alienistas, é um perfeito exemplo da já referida unicidade, onde tudo está perfeitamente em harmonia e sincronia, até a voz de Lydon.
“Socialist” é um instrumental “up-tempo”, que contrasta com o desarticulado “Chant”, onde Lydon usa as repetitivas palavras: “love, war, kill, hate”. E esta canção efectua outra radical transposição para o ultimo tema “Rádio 4”. E como é difícil descrever “Radio 4”, só mesmo ouvindo este tipo de exercício de musica clássica ao estilo P.I.L.. Uma excelente maneira de acabar o disco.
Classificar a música dos P.I.L. e em particular este disco, é impossível, pois não se encaixa em nenhum género, apesar de já ter sido referenciado como uma mistura de “dub-reggae” e “krautrock”.
E para suportar a minha opinião de que esta música não é classificável, quem me explica como é que no meio dos discos de vinil ou nas caixas de CD (conforme seja o caso da edição original ou da reedição em CD), se consegue guardar uma caixa de metal!?!

12 junho 2007

Lanu – “This Is My Home” (2007 Tru Thoughts)

O disco de estreia a solo de Lance Ferguson dos The Bamboos, é uma maravilhosa surpresa, que vem revelar mais um talento que surge da Nova Zelândia, a juntar aos fantásticos Fat Freddy’s Drop ou a Mark Clive-Lowe.
Nota-se um distinto afastamento do som mais “deep-funk” do Bamboos, e uma produção mais intuitiva e sensível.
Assimilando e incorporando diversas influências globais, criou uma notável mistura de “neo-soul”, “nu-jazz”, electrónica, hip-hop e “funk”, que proporcionam uma fascinante viagem, com ritmos e texturas complexas, que relembram o trabalho de outros pioneiros como Roy Ayers, 4 Hero ou Fela Kuti.
Os teclados “electro-funk” Rhodes/Moog em “Dis-Information”, as influências afro-beat de “Mother Earth” (com a colaboração de Quantic), ou o “swing” brasileiro de “Shine” são um excelente exemplo.
Um disco versátil e profundo, com qualidade do início ao fim do disco, que se distingue de tantos projectos de fusão medianos que aparecem hoje em dia.

08 junho 2007

The Pop Group - “Y” (1979 Radar/Rhino)

Oriundos do movimento “post-punk” de Bristol, os The Pop Group nunca tiveram muito a ver com “pop”. Fundindo elementos de free-jazz, reggae, dub minimalista, funk e punk, criaram um assalto sonoro, reminiscente dos movimentos “no wave” e “mutant disco” nova-iorquinos (ESG, Konk, Liquid Liquid), onde o ritmo era a base fundamental.
Produzido por Dennis Bovell, “Y” demonstra uma banda musicalmente muito confiante.
As guitarras eram cortantes, luminosas e intensas, a bateria de Bruce Smith alternava entre ritmos militaristas e explosões sonoras. E o saxofone parecia estar desconectado do resto da banda.
As canções de “Y” ou parecem estar prestes a explodir em estilhaços de vidro ou fragmentos de metal, ou a implodirem num combate rítmico interno.
O vocalista Mark Stewart (que também era o responsável pelas altamente politizadas e polémicas letras) era um inflamatório líder, um sinistro pregador possuído.
Destaca-se também o segundo disco “For How Much Longer Do We Tolerate Mass Murder” que foi editado em 1980 na Rough Trade.
Novamente disponível numa excelente edição da Rhino, que incluiu como bónus o clássico single “She Is Beyond Good and Evil” (na versão original), e o seu lado b “3.38”, “Y” continua a ser um disco chave da era, audacioso, pioneiro e excitante.

06 junho 2007

Do fundo da prateleira # 3 - Jackie-O Motherfucker - “Fig. 5” (2000 Road Cone)

De uma banda com um nome como este, seria de se esperar um som punk-trash.
Mas os Jackie-O Motherfucker são difíceis de classificar, se sonoramente estão próximos do pós-psicadelismo de uns Amon Düül, estão também fortemente enraizados nas tradições da música americana.
Este colectivo de Portland, leva a improvisação e o “jamming” ao extremo, tocando tudo o que possa fazer barulho. E se ao início parece faltar coesão e detalhe, ao longo das audições descobrimos algo magnífico.
Se o tema de abertura “Analogue Skillet” (algo verdadeiramente único) é confusamente estruturado como “drone-rock”, é imediatamente seguido pelo “folk” caleidescópico de “Native Einstein”, e pelo “post-rock” de “Your Cells Are In Motion”. As estruturas do “blues” estão presentes em “Beautiful September (We Are Going There)” e são acompanhadas pela encantadora voz de Honey Owens.
Notável é também a sua versão do tradicional clássico “Amazing Grace”.
Fig. 5 é inovativo, surpreendente e hipnótico.

P.S. Destaco ainda a excelente embalagem de Ben Dury (com trabalhos realizados para a Mo’Wax).

04 junho 2007

Junior Boys - “Dead Horse EP” (2007 Domino)

A qualidade deste disco começa na excelente selecção de artistas de diversas áreas musicais que tornam este ecléctico disco de remisturas diferente da maioria do género. São cinco remisturas no CD (os 12” não tem a mix de Marsen Jules).
Os Hot Chip subvertem “In The Morning” polvilhando-o com sons organicos de sintetizadores e órgãos “Moog”.
A remistura dos Ten Snake é a surpresa do disco, ao transformarem o sereno “FM” numa maravilhosa obra de house minimal.
O mágico Carl Craig pega em “Like A Child” e cria um épico ao chocar sons polidos com interferências industriais.
Kode 9 cria uma viagem futuristica de “deep-dub”em “Double Shadow” despindo-o dos seus traços iniciais e tornando-o irreconhecível.
Marsen Jules aplica a “FM” uma mix fantasmagórica reminiscente de Fennesz.
Estas “remixes” permitem aos temas expandirem-se para destinos não previstos, mas no fim parece mais que natural que assim fosse.

01 junho 2007

My Favorites # 4 - The Magnetic Fields - “69 Love Songs” (2000 Circus)

Stephen Merritt sempre foi um compositor prolífero, tendo gravado para além dos Magnetic Fields, como The 6ths, The Future Bible Heroes ou The Gothic Archies. No entanto, até este disco, a sua obra sempre foi um pouco marginalizada.
Estamos perante três CD’s contendo 69 canções de amor, um excessivo catalogo pop, que cobre todos os géneros, desde o rock até ao country, passando por valsas e punk-rock.
A excelência dos arranjos e a brevidade das canções, todas com menos de 3 minutos (tão básicas e naturais, que nunca tornam o disco pretensioso), utilizando as alternâncias vocais e um arsenal de instrumentos: “ukelele”, banjo, acordeão, piano, flautas, violinos, violoncelos, uma variedade de guitarras e os usuais sintetizadores, fazem com que o ouvinte não se aborreça.
E o que dizer das cativantes e inventivas letras.
Começa com “Absolutely Cuckoo”, ridiculamente engraçada e contagiante. E o mote está dado.
Temos duetos à Sonny & Cher (“Yeah! Oh Yeah!”), baladas românticas (“Come Back from San Francisco”), World Music (“World Love”), o distinto som dos 80 (“I Can´t Touch You Anymore”) ou “60’s standards” (“For We are the King of the Boudoir”), mas Merritt também nos mostra que consegue criar canções surpreendentemente sinceras como “Busby Berkeley Dreams” ou “The Book of Love”. Merritt ainda aproveita para abordar temas que não são abordados em canções pop, ouçam “Papa Was A Rodeo” ou “My Only Friend”.
“69 Love Songs” é um disco que facilmente poderá ocupar toda a nossa vida com a sua inteligente, graciosa, presunçosa e brilhante forma, numa deslumbrante e ofuscante inconsistência que não conseguimos evitar de gostar. Se calhar era essa a sua finalidade.

30 maio 2007

Inovadores # 1 - Defunkt - “Defunkt” (1980 Hannibal)

Este colectivo formado em Nova Iorque em 1978, após os seus membros terem desertado dos projectos Contortions e The Blacks de James Chance, foi pioneiro pela forma como incorporou as influências dos grupos de funk dos anos 70, na corrente estética punk-rock nova-iorquina.
Numa intoxicante mistura de free-jazz, “funk grooves” e a atitude punk-rock, criaram uma música abrasiva, frenética e enérgica, ao combinarem uma linha de baixo intimista, e as dinâmicas dançáveis das guitarras e da secção de sopros.
Ouçam os ritmos “funk” de “Make Them Dance”, onde os mesmos parecem que vão explodir a qualquer momento. O claustrofóbico clássico single “Strangling Me With Your Love” é uma referência, com uma surpreendente amarga história de amor. O brilhante “In the Good Times”, uma paródia ao clássico “Good Times” dos Chic, onde os “bons tempos” são os cínicos retratos da vida nos guetos. E o que disser do tema-titulo, com uma introdução vocal fantástica, e a sua história de rejeição.
Existiram muitas reincarnações do projecto que ainda existe actualmente, sempre liderado por Joseph Bowie, e onde se incluíram nomes conhecidos como Vernon Reid ou Melvin Gibbs, mas o nível criativo foi diminuindo ao longo dos anos. No entanto, os dois primeiros discos (este e “Thermonuclear Sweat” de 1982) são fundamentais.
As actuais tendências, podem tornar este disco comum ou ordinário, mas em 1980, numa era de experimentação e cruzamento entre estilos, a música era revolucionária, e não perdeu nenhum do brilho que continha.

28 maio 2007

Battles – “Mirrored” (2007 Warp)

Finalmente chegou “fisicamente” este primeiro disco para a Warp deste grupo de Nova Iorque, que inclui ex-membros dos Don Caballero, Helmet, Tomahawk e Lynx.
Excitante, deslumbrante, imprevisível, e carregado de ideias novas, “Mirrored” é um disco único. O grupo não tem receio de forçar os limites sonoros independentemente do risco de alienar alguns dos seus antigos fãs.
Com “Mirrored”, criaram um grande disco. E em relação aos trabalhos anteriores, ainda expandiram mais a sua música ao adicionar vozes e refrãos mais “pop”. O tema de abertura “Race:In” é o exemplo perfeito desta mudança no som dos Battles, onde as vocalizações assumem o destaque. Não são as letras, são as vozes, muitas vezes tão desenquadradas que não se percebe o que se pretende dizer.
O grupo pode ser facilmente comparável com os géneros de “math rock” e electrónica, no entanto não se prendem a estas referências, e são capazes de surpreender com canções dançáveis como “Leyendecker”, ou dragar aquele “beat” contínuo e poderoso baixo, nada previsível, como no single “Atlas”.
O futuro do rock passará por aqui.

25 maio 2007

Manuel Göttsching – “E2-E4” (1984 RRK/MG.Art)

Uma chamada de atenção, agora que está disponível em Portugal a edição especial do 25º aniversário deste disco.
Editado originalmente em 1984, foi gravado em 1981 num intervalo de uma sessão com o seu grupo Ash Ra Temple.
Intemporal, é um dos mais influenciais objectos de música electrónica de todos os tempos. A beleza hipnótica dos flutuantes acordes de guitarra, a suavidade melódica do som e a beleza rítmica criados pelos sequenciadores, combinam para formar um disco que é um encanto para os nossos ouvidos.
Foi celebremente “samplado” para criar um dos clássicos do “chill-out” em “Sueno Latino” no ano de 1989. E é constantemente referenciado por vários músicos no topo das suas influências, entre eles os veteranos Carl Craig e Derrick May, e mais recentemente James Murphy ou Prins Thomas.
Um trabalho ainda hoje extraordinário. Se ainda não o possuem ou não o conhecem, aproveitem, pois é essencial.

24 maio 2007

DVD # 1 – “Kill Your Idols” (2004 Palm)

Não estamos perante um documentário típico. “A documentary on thirty years of alternative NYC rock 'n roll” era o objectivo.
Scott Crary compila entrevistas com os pioneiros do movimento no-wave e post-punk, e tenta efectuar a ligação do movimento com bandas contemporâneas. A ponte é efectuada pelo grupo que provavelmente uniu os movimentos – os Sonic Youth.
Gravado nas ruas e em apartamentos de Nova Iorque (para além de incluir filmagens originais de actuações em pequenos clubes), em vez de utilizar os tradicionais estúdios de gravação, leva-nos a meditar/reflectir sobre as noções de nostalgia, tempo, tendências e a história da música.
A primeira parte retrata os fins dos anos 70/ princípios dos 80, com elementos de bandas como Suicide, DNA, Theoretical Girls, Teenage Jesus & The Jerks, Swans, a contarem-nos a forma caótica como levaram o punk até aos extremos, ao contrario de outras bandas nova-iorquinas mais “populares” como os Ramones ou os Dead Boys.
Era “anti-music”, atonal e extrema, mas muito mais de acordo com a ética punk de quebrar a barreira entre o artista e a audiência.
Por várias razões, o post-punk/no-wave está novamente na moda, e na segunda parte, saltamos até ao presente, onde encontramos uma selecção de artistas (Yeah Yeah Yeahs, Liars, Black Dice, Gogol Bordello) que se relacionam com essa estética, mas também com todo o contexto musical e cultural do fim dos anos 70/princípios dos anos 80. Eles falam sobre essas influências e sobre as tendências actuais em Nova Iorque.
Interessantes são os comentários dos veteranos sobre os mais novos. Em particular Lydia Lunch, que afirma que estes últimos nada acrescentam e apenas se aproveitam do “hype” em redor do revivalismo criado. Mas, felizmente, o documentário não incide na perspectiva “nova cena versus velha cena”.
As duas gerações estão em contraste; na primeira, a alienação, os riscos, a originalidade e o zero em reconhecimento. Muito diferente da actual que consegue elevar os Strokes para estatuto de superestrelas mesmo antes de ouvirmos a sua música.
Este documentário não diz o que devemos pensar, mas obriga-nos a pensar.

22 maio 2007

Antibalas - “Security” (2007 Anti)

Após dois discos na Ninja Tune, que eram puros exercícios de tributo a Fela Kuti, o regresso em grande com “Security”, que é um passo em frente para este grupo de Brooklyn.
O grupo começa a querer sair da sombra do mestre do Afro-Beat e a explorar o seu próprio som, com resultados surpreendentes. E se nas canções mais longas como “Fillibuster X” ou “Sanctuary” a influência do som de Fela ainda está fortemente presente, em canções mais pequenas como “Beaten Metal” ou “I.C.E.” é evidente o esforço em expandir a música para sons mais próximos do jazz.
Não será alheia a presença de John McEntire na produção, pois o homem dos Tortoise colocou em relevo a densidade harmónica do som, criando uma preciosa textura melódica que relembra tanto Charles Mingus, Sun Ra ou os Can, como Fela Kuti.
A partir da base rítmica do Afro-Beat, os membros do grupo, introduzem jazz, funk, dub, soul e música latina, misturados num “groove” que é simultaneamente hipnótico e infeccioso.

18 maio 2007

Classic # 4 - Joy Division - “Unknown Pleasures” (1979 Factory)

A arte gráfica minimal, monocromática, os títulos modernistas, o vestuário formal e a postura austera faziam dos Joy Division um grupo diferente. Mas seria com a sua música, que se iriam distinguir.
Este quarteto de Manchester nunca imaginou que o seu encontro com Martin Hannett iria mudar o futuro da música. As suas ambições iam para além da mera produção. A sua visão seria fundamental na definição do som que caracterizou este disco. As diferenças entre os singles anteriores e “Unknown Pleasures” são bem evidente. O espaço, o ruído e os efeitos sonoros (gravações de vidro a partir, portas a fechar, passos, etc.) são tão importantes como a estrutura das canções. Na produção envolveu os instrumentos com um rígido eco metálico, e adicionou à bateria de Stephen Morris caixas de ritmos. As canções desdobram-se atrás de barulhos furtivos de emoção e actividade.
As canções de “Unknown Pleasures” fugiram dos “clichés” das letras do “rock” (amor, drogas, juventude, rebeldia, etc), para incluir reflexões sobre tristeza, ódio, desespero, depressão urbana, existencialismo e pessimismo, cujas letras são baseadas nas fabricas fechadas, nas crises económicas, nas consequentes relações desmanteladas, que caracterizavam a Inglaterra no fim dos anos 70.
As dez músicas que constituem o disco são marcos absolutos, qualquer que seja a canção, desde a nervosa dança da morte de “She’s Lost Control”, a chamada pungente de escape, libertação (com o seu magnifico apogeu final) de “New Dawn Fades”, a alternância rítmica que acompanha o imaginário assassinato de “Shadowplay” (que pode ser sumariada na frase “In the Shadowplay acting your own death”), o caminho para o apocalipse de “Insight”, ou a forma como Curtis parece anunciar o fim do mundo em “Day of The Lords”.
Depois temos a estrutura melódica. A voz de Curtis é áspera, profunda e dramática. O baixo de Peter Hook é tratado como o instrumento principal. A percussão/bateria é metronómica. As guitarras são ambientais mas também atacam.
O nascimento da lenda dos Joy Division e um dos documentos do pós-punk. Inigualável na sua perturbante beleza e energia, que ainda hoje soa provocadoramente invulgar e vagamente inquietante. Intemporal. Perfeito.

15 maio 2007

Mary Timony Band - “The Shapes We Make” (2007 Kill Rock Stars)

Este disco representa uma evolução qualitativa na música desta veterana do movimento “riot-grrrl”, que sempre se manteve de fora das tendências mais “hypes” do indie-rock.
Com uma mistura de clarividência e virtuosidade, a multi-instrumentista Timony e a sua banda, desenham diversas paisagens sonoras das mais variadas texturas.
A utilização de teclados, banjos, sintetizadores analógicos, “mellotrons”, viola de arco, e muitos instrumentos “vintage” como os Casios, tornam a música complexa, mas ao mesmo tempo dão-lhes uma sensibilidade “pop”.
”Pause/Off” com os seus arranjos soltos é post-rock, “já “Rockman” exibe traços do prog-rock” que caracterizou as suas experiências anteriores, em oposição “Sharpshooter” é baseado em secos riffs de guitarra.
A determinação que emprega em cada disco faz com que a ex-Helium seja uma das vozes mais reconhecidas e respeitadas do “underground” americano.

10 maio 2007

Stars of the Lid - “And Their Refinement of the Decline” (2007 Kranky)

Após 5 anos de ausência, o regresso deste eclético e atípico duo.
Editado na sempre credível Kranky, este duplo CD (ou triplo LP), é possivelmente ainda mais elaborado musicalmente do que o disco anterior. Com a integração de novas texturas ambientais e a expansão sonora dos temas, o resultado é uma transformação estrutural do som “ambient-drone” que caracterizava o disco anterior, e que torna este trabalho ainda mais calmo e subtil.
O disco abre com “Dungtitled (In A Major)” onde a secção de sopros, se dissolve na panorâmica secção de cordas, imagem de marca do duo. Violinos, violoncelos, harpas, trompetes, substituem cada vez mais a guitarra. Os instrumentos acústicos que anteriormente serviam como apoio, aparecem aqui como o elemento principal.
As alternâncias de “Articulate Silences”(Pt.1 and 2) e os dez minutos de “The Daughters Of Quiet Minds” são inovadores e refrescantes, mas ao mesmo tempo parecem tão familiares, que a sua audição dá-nos conforto.Este duo conseguiu criar outro conjunto sólido de canções, diferentes da maioria dos restantes artistas que exploram um som similar.

07 maio 2007

Tributo # 3 - Mark Kozelek – Red House Painters

Os Red House Painters eram basicamente um projecto de Mark Kozelek, um compositor que via o mundo de uma forma trágica, melodramática, e cujas canções autobiográficas, eram relatos de dor, desespero e perda. Através de metáforas e alegorias, ele enfrentava os seus demónios na primeira pessoa, tendo criado alguns discos singulares e sem paralelo na sua vulnerabilidade e honestidade.
Kozelek tornou-se dependente de drogas ainda na adolescência, e numa das suas fases de reabilitação, tomou contacto com a música, e começou a tocar com bandas.
Após a sua mudança para Atlanta, na Geórgia, conheceu o baterista Anthony Koutsos, e formou a primeira incarnação dos Red House Painters. Em São Francisco iria completar a banda com o guitarrista Gorden Mack e o baixista Jerry Vessel. Numa actuação, chamaram a atenção de Mark Eitzel dos American Music Club, que enviou gravações do período 1990/91 para a 4AD, que as iria lançar como o primeiro disco dos Red House Painters: “Down Colorful Hill”. Este Mini-LP, era uma colecção que combinava magníficas melodias “folk-rock”, com a voz fantasmagórica de Kozelek. O ano de 1993, com a edição de dois discos homónimos, viria a ser o da consagração de Kozelek como um compositor único, capaz de conceber em canções como “Grace Cathedral Park”, Katy Song”, “Evil” e “Uncle Joe” a palete de emoções, que evidenciam e detalham o seu errático e perturbador passado. É uma “folk” desolada, triste, mas simultaneamente é tão belo. Mais uma vez, a imprensa tinha de rotular o estilo, que ficou conhecido como “slowcore” ou “sadcore”. No ano seguinte edita o EP “Shock Me”, uma versão surreal de um original dos Kiss. Após dois anos de intervalo, regressa aos álbuns com “Ocean Beach”, uma colecção de canções mais coloridas, com belos dedilhados delicados de guitarra, que o mostram mais confidente. Será o último disco para a 4AD, e o último dentro do estilo que caracterizou os três primeiros. “Songs for a Blue Guitar”, aparece em 1996 na Supreme, e apesar de Kozelek ser o único membro presente, o disco é lançado sobre o nome Red House Painters, no entanto este trabalho é de orientação mais “rock”, sinalizando o caminho que iria prosseguir.
Os projectos seguintes, a solo, incluem um disco de tributo a John Denver e o disco de versões radicais de canções dos AC/DC.
Em 2003 lançou sobre a designação Sun Kil Moon, o disco “Ghosts of The Great Highway”, um bom regresso, recheado de histórias com referências a “boxeurs”!

03 maio 2007

Classic # 3 - Ride - “Nowhere” (1990 Creation/Sire)

Considerado por muitos como o melhor disco dos Ride, “Nowhere” é não só um dos grandes momentos do chamado “shoegazing”, mas também um dos discos que poderá estar num Top 20 dos discos da década de 90.
“Nowhere” com a sua capa emblemática, é um disco clássico, do princípio ao fim.
Todas as canções, à sua própria maneira, demonstram a magia da música deste quarteto de Oxford no seu melhor: o caos controlado da bateria de Laurence Colbert, a urgência do baixo de Steve Queralt, o “feedback” monótono da guitarra ritmo de Mark Gardner, superiormente “misturados” com a atmosfera melódica criada pela guitarra de Andy Bell. Todos eram soberbos músicos. Outros instrumentos, como a harmónica e a guitarra acústica, aleatoriamente incluídos, visavam ainda embelezar mais as canções. E a perfeita combinação harmónica das vozes de Bell e Gardner, distinguia-os das restantes bandas.

Na melhor tradição britânica de classificar os géneros musicais, o som dos Ride é o que se definiu como “shoegazing”, (os músicos em palco estavam tão absorvidos com a sua música que ficavam a olhar para baixo, para as guitarras, dando a impressão que estavam a olhar permanentemente para os sapatos) mas comparando-o com o dos reis do movimento – My Bloody Valentine – é mais melódico e directo. Provavelmente é o resultado da presença da Rickenbacker de Andy Bell, e os seus efeitos e distorção.
O disco começa em clímax, com ondas de distorção e guitarras que parecem estar a chorar em “Seagull”, e contém canções imensas como “Dreams Burn Down”, e profundas como “Paralysed”. O resultado final é que não encontramos ao longo destas onze canções nenhum momento de fracasso.
O legado de “Nowhere” é um disco clássico, que ao procurar atingir as estrelas, consegue alcançar a lua.

30 abril 2007

Panthers - “The Trick” (2007 Vice)

Este quarteto de Brooklyn, regressa com um disco intenso, que merece atenção de todas as áreas musicais. Uma combinação das origens hardcore e punk dos seus membros com intervenção politica. Gravado com Steve Revitte, que anteriormente trabalhou com Liars ou Beastie Boys, estamos perante canções guitar-rock hipnótico de três minutos. Ruidosas, pesadas e rápidas, mas ao mesmo tempo super-melódicas.
Elementos dos The Jesus Lizard e Stooges, são evidentes nestes hinos rock totalmente cativantes nos seus escassos 32 minutos.
Um som que seria perfeito, se nos encontrassemos num bar nos anos 70 em Detroit ou Cleveland.

26 abril 2007

Explosions In The Sky - “All of a Sudden I Miss Everyone” (2007 Bella Union/ Temporary Residence Limited)

Aos primeiros acordes de “The Birth and Death of the Day” (a faixa que abre o disco), constatamos que estamos perante um disco brilhante.
Este disco, o quarto do grupo texano, é passo em frente em relação aos anteriores trabalhos da banda. Musicalmente as canções estão muito mais eficientes e a variedade instrumental utilizada foi muito mais ampla.
Comparações com bandas classificadas de “post-rock” como Godspeed You Black Emperor! ou Mogwai, podem entender-se devido à música encaixar no mesmo quadrante contemplativo. O que diferencia e ao mesmo tempo ainda mantém a atracção deste formato musical, é resultado da arte dos Explosion In The Sky.
Ao longo do disco, as guitarras contorcem-se ao longo de etapas sombrias, as quais tentam transmitir relações sonoras como: tensão e escape, conflito e resolução, emoção e conforto.
Estamos perante canções “indie-rock” transformadas em longos instrumentais, centradas em melodias simples, mas no entanto obscuras.

Existe uma edição especial de dois CD’s, que contém remisturas dos temas pelos Four Tet ou Adem, entre outros.

16 abril 2007

My Favorites # 3 - Magazine – “The Correct Use of Soap” (1980 Virgin)

Não é fácil escolher o melhor disco dos Magazine. As opiniões sempre se dividiram entre os três primeiros discos desta banda simultaneamente clássica e extremista: “Real Life”(1978), “Secondhand Daylight”(1979) e “The Correct Use of Soap”(1980).
Para mim, sempre me fascinou “The Correct Use of Soup”, que conta com a presença de Martin Hannett na produção, porque é o resultado da evolução sonora começada com “Real Life”, e apesar de poder ser considerado mais comercial do que os anteriores, é neste disco que os cenários de paranóia existencial criados por Howard Devoto atingem o seu limite.
O disco abre em alta com “Because You're Frightened”, com o chocalhar de guitarra que era a marca registada de John McGeoch,, e com Devoto a emitir poesia numa psicose delirante. Em “You Never Knew Me” e “I Want To Burn Again”, estão as anti-canções de amor, da depressão resultante do rompimento da relação
A forma irónica de abordar a auto-estima e o ódio em canções como “I’m A Party” e em “A Song From Under The Floorboards, esta última provavelmente a melhor canção dos Magazine, onde a letra define na perfeição o carácter individualista de Devoto.
E o que dizer da inquietante versão de Sly Stone, “Thank You (Falettinme Be Mice Elf Agin)”, que é seguida pela oblíqua “Sweetheart Contract”, com o baixo de Barry Adamson destoante dos sintetizadores de Dave Formula.
Um trabalho surpreendentemente durável dado o nível de experimentação presente.

11 abril 2007

Andrew Bird - “Armchair Apocrypha” (2007 Fat Possum)


Se “The Mysterious Production of Eggs” (2005) era uma pérola de experimentalismo pop, em “Armchair Apocrypha” o compositor de Chicago expandiu o som desse disco, enriquecendo-o com uma nova densidade rítmica. Agora a guitarra é mais predominante, mas a textura sonora criada pela presença de instrumentos como o violino, aumenta a esfera de acção musical.
Outra detalhada colecção de canções, este disco tem de tudo: melodias cantáveis, letras fáceis de interpretar, alegria, tristeza, emoção, discernimento.
Um dos factores que me fascinam na música de Bird é a forma como nunca leva a melodia no ritmo que esperamos que ela tome. Ouçam “Plasticities” como exemplo.
Dentro de um género, onde abundam cantores/autores medíocres, Bird desenvolveu um estilo singular, que independentemente das surpresas que nos possa reservar, a sua música será distinta dos restantes.
Em última análise, “Armchair Apocrypha é outro objecto de uma beleza única, deste inventivo compositor.

05 abril 2007

Classic # 2 - Gang of Four - “Entertainment!” (1979 EMI)

Este quarteto de Leeds, composto por estudantes de Ciências Sociais (o seu nome é uma referência retirada da China comunista), foi responsável pela produção de alguma da mais excitante música proveniente de Inglaterra no período pós-punk.
Associações aos ensinamentos dos situacionistas, caracterizaram a curta carreira da banda. Curiosamente os membros da banda eram sempre listados alfabeticamente, dando conformidade ao seu espírito equitativo.
“Entertainment!” é a ponte de inspiração entre a primeira onda punk e o pós-punk, que inclui outros percursores como Birthday Party ou 23 Skidoo.
O seu som experimental era punk-funk, ritmos funk de James Brown alimentado pela dinâmica “raw punk” característica da época. Também as letras politizadas baseadas na vida quotidiana e monólogos existenciais, não eram paralelas às do movimento punk.
As canções de “Entertainment!” são verdadeiros tesouros. “Damaged Goods” é tenso, muscular, com as guitarras distorcidas, e com a voz seca Jon King, é a canção que melhor simboliza a obra dos Gang of Four. Em “Anthrax”, após o feedback inicial, o ritmo funky da secção rítmica acompanha 2 vozes em simultâneo, uma que canta outra que fala, e se é desorientador, ao mesmo tempo torna-se única. E “Not Great Men”, para além de ser também uma das melhores canções do pós-punk, é a base dos primeiros discos dos Red Hot Chili Peppers, segundo os próprios.
Curiosamente sempre influenciaram muito mais a música underground americana, desde The Jesus Lizard, Nirvana ou Jon Spencer, até aos representantes da nova onda pós-punk, como Interpol, Radio 4 ou Liars.

30 março 2007

Do fundo da prateleira # 2 - Papas Fritas – “Helioself” (1997 Minty Fresh)

O segundo disco deste trio de Massachusetts, é um lição pop.
Canções pop “lo-fi” de 3 minutos ridiculamente contagiantes.
O piano e órgão relembram o soft-rock dos 70, enquanto as alternâncias vocais levam-nos para o power-pop dos 60. E se estas influências normalmente dão-nos vontade de fugir antes de admitirmos que gostamos delas, aqui conseguem seduzir-nos.
Instrumentalmente este segundo disco foi também uma evolução, em relação ao primeiro, que era muito rudimentar. Especialmente a coordenação entre a secção rítmica, e a prestação de Tony Goddess no piano e órgão.
O disco abre com “Hey Hey You Say”, exercício psicadélico recheado com harmonias vocais exuberantes, e um sintetizador que parece zumbir constantemente.
Enquanto “We´ve Got All Night” e “Live By the Water” com os “falsetos” vocais e as guitarras “surf”, demonstram as influências “Pet Sounds”, já “Sing about Me” é “girl-group” pop puro. “Say Goodbye” apesar de melancólica, é equilibrada com o positivismo da descoberta de algo ou alguém novo.
“Small Rooms” com as suas guitarras e aquele refrão “la la la”, é um hino aos quartos pequenos (ironia ou eternos adolescentes).
“Helioself” é um disco de verão, onde se desejam discos pequenos para dias maiores, e assim sempre o poderemos ouvir duas vezes.

20 março 2007

Malcolm Middleton – "A Brighter Beat" (2007 Full Time Hobby)

Ao longo dos seus três discos, o ex-Arab Strap está a transformar-se. As suas canções estão a perder o fatalismo que as caracterizavam, estão mais agradáveis, revelando que Middleton estará mais optimista em relação à vida.
Este último disco, é um exercício de reflexão, recheado de canções melódicas que evocam simultaneamente serenidade e desespero, complementadas com excelentes arranjos orquestrais, que comprovam a qualidade de composição de Middleton.
Sonoramente distinto do trabalho realizado com Aidan Moffat nos Arab Strap, canções como “We’re All Going to Die”, “Stay Close, Sit Tight” ou “A Brighter Beat”, são mais ritmadas e parecem destinadas a alegrar a rotina diária.
“Superhero Songwriter” encerra o disco, e é um épico de humor negro, onde Middleton aborda com cinismo os seus temas predilectos (solidão, insignificância, etc) até atingir o clímax com um solo de piano, onde afirma: “Superhero songwriter, fixing to change the world from my room, maybe i should stick to writing wills, cos i’m no good at finding ways”.

16 março 2007

Classic #1 - The Modern Lovers – "The Modern Lovers" (1976 Beserkley)

Formados em Boston no início dos nos 70, são por muitos considerados como percursores do punk. Eram diferentes da maioria das bandas do início dos anos 70 (onde a decadência era o mote), pela sua forma de estar e de vestir. Com as suas actuações ao vivo, os Modern Lovers, chamaram a atenção da Warners, que os convidou a gravar uma demos em 1972/73, metade das quais seriam produzidas por John Cale. Mas quando Jonathan Richman disse que não pretendia tocar as canções ao vivo, a Warners anulou o contrato e não lançou o disco. Em 1976, Matthew Kaufman deixou a Warners para formar a Besrkley, e editou o disco com as demos gravadas em 1972/73. E apesar de não ser um álbum no verdadeiro sentido da palavra, este disco é o seu manifesto. É o disco que marca uma fase do som americano da época com a passagem das experiências psicadélicas (expoente máximo Velvet Underground ) para um rock cru e rudimentar. Canções de angústia, neuróticas, recheadas de comentários sociais introspectivos, e com letras adolescentes e bizarras (o que pretende com “Hospital”).
As canções não negam as influências de Lou Reed, em especial na forma como Richman canta e toca guitarra, ouçam “Astral Plane”, “Pablo Picasso” e “Someone I Care About”. O som é reforçado com o complemento musical providenciado pelo orgão Farfisa de Jerry Harrison.
E claro, contém esse clássico rock “on-the-road” que é “Roadrunner”.
Para mim, é esse som primitivo, em combinação com a voz nasal de Richman que faz com que este disco seja tão especial.

08 março 2007

Paul Murphy – “The Trip” (2006 AfroArt)

Este é um projecto pessoal do veterano Paul Murphy, mentor do projecto Soul Drummers, e companheiro de luta de Ashley Beedle. Segundo a informação que consta do interior deste álbum, o mesmo foi imaginado após uma viagem pela Índia. Mas as influências presentes neste disco são universais, já que são vários os estilos musicais aqui representados, concretizados nas sessões gravadas em Londres, com músicos experientes como Roger Beaujolais, David Mantovani ou Ashley Slater, e permitem através da perspectiva “live”, que o disco transmite, atingir um misto de modernidade e tradição, reminiscente das experiências musicais realizadas no princípio dos anos 90 por editoras como a Talkin’Loud ou a Mo’Wax.
A maioria dos temas são excelentes exercícios instrumentais (a viagem psicadélica de “The Trip”, é notável), excepção feita a um dos melhores momentos do disco: “Budapeste Chachacha”, que conta com a participação vocal do duo húngaro Secta Chameleon, é um épico “gypsy-jazz” que hipnotiza o ouvinte.
Só temos que esperar que realize mais viagens idênticas.

05 março 2007

Chin Up Chin Up – “This Harness Can´t Ride Anything” (2006 Suicide Squeeze)

Se “We Should Have Never Lived Like We Were Skyscrapers” (2004) foi uma excelente surpresa, “This Harness Can´t Ride Anything” é um disco que confirma a qualidade deste quinteto de Chicago. 10 canções pop meticulosamente estruturadas, um som envolvente de guitarras e sintetizadores, que chama a atenção para a qualidade musical dos intervenientes. Se o disco de estreia provocou admiração por esse mesmo facto, este disco surpreende pela consistência e qualidade das canções. Estas interligam-se entre si, e quando concluímos a sua audição, ficam-nos na cabeça. Temas como "Mansioned", "I Need a Friend With a Boat", ou "Trophies for Hire" destacam-se pela sua beleza.
A música é difícil de catalogar (o seu território andará próximo de American Analog Set, Modest Mouse, Broken Social Scene). Mas são excelentes canções pop, que lembram a nossa adolescência, cheia de esperança e optimismo.

02 março 2007

Little Annie @ Serralves 02-03-2007

Little Annie ou Annie Anxiety ou Annie Bandez, é uma eclética artista multimédia, cuja música não pode ser categorizada de forma convencional. Ao longo da sua carreira a solo ou nas inúmeras colaborações trabalhou com artistas tão díspares como Wolfgang Press, Current 93, Coil, Fini Tribe, ou mais recentemente com Antony e Khan.
O seu último disco “Songs from the Coalmine Canary” (2006) conta com a participação de Antony, que toca piano. E a grande beleza deste disco, é essa combinação do piano de Antony com a voz crua de Annie, que cria um ambiente jazz negro, retrato cruel da nossa sociedade actual.
Se a sua actuação incidir somente sobre este disco, não iremos ter oportunidade de assistir a outros momentos da sua carreira, como “Little Annie & The Legally Jammin’” (2003), a sua colaboração com Khan (Air Liquide) e Jendreiko, que é um disco excelente. É um projecto baseado no discurso “Spoken-word” de Annie, sobre estruturas rítmicas electrónicas, que poderá ser qualificado como “No Wave Disco”.
Também seria excelente recordar temas dos seus discos mais antigos como "Short and Sweet" (1992), que me revelou esta ex-punk.


Recomendado.

16 fevereiro 2007

New Rave – A cultura rave de regresso – Don’t Believe the Hype?

1. Segundo vários jornalistas ingleses, a cultura rave está de regresso.
Como é normal nestes tempos de nostalgia, as tendências culturas tem um ciclo de 20 anos, senão vejamos: o psicadelismo nos anos 80, o grunge nos anos 90, o electroclash e o pós-punk já nesta década. A cultura rave está de regresso, mesmo na altura em que se prepara a comemoração dos 20 anos do “Second Summer of Love”, que decorreu em Inglaterra no ano de 1988.
Tudo terá começado no último trimestre do ano passado, com o aparecimento dos Klaxons, que auto-intitularam a sua música de “new rave”. O facto de efectuarem uma versão de um clássico rave hardcore (“The Bouncer”dos Kick like a Mule) desse período reforçou essa ideia, e ao juntarem sintetizadores e caixa de ritmos, ao tradicional som rock’n’roll (guitarra, bateria, gritaria, muita gritaria) ajudaram a imprensa a catalogar esta nova tendência. Os singles que editaram, “Atlantis to Interzone”, “Gravity’s Rainbow”, e “Magick”, foram todos sucessos.
O “indie-rock” nunca se deixou ir em modas, a pureza do conceito “indie” é a principal razão para o conceito ainda se manter. Mas o facto é que muitos “indies”, nestes últimos meses, estão a ouvir cada vez mais música de dança, devido a bandas “electro-rockers” como os Justice, Soulwax, MSTRKRFT, Digitalism ou Errol Alkan, principalmente pelas remisturas efectuadas para bandas “indie”, mais do que pelas suas próprias composições.
Se a “new rave” é mais uma reincarnação da chamada “indie-dance”, teremos que aguardar. Mas a mudança visual já acontece, como é norma, basta observar os Klaxons como porta-estandartes.
Mas para mim, como sempre nas modas, o mais interessante será sempre a maneira como, neste caso, a cultura rave será reexaminada, por uma geração muito nova para a ter vivido da primeira vez.

2. Também na Alemanha, a cultura rave está novamente na mó de cima, como consequência nostálgica da relação do país com a música “techno”, “trance”, e as famosas festas “raves” que marcaram a viragem dos anos 80 para os 90.
Mas ao contrário de Inglaterra, o fenómeno é diferente e curioso. Os alemães nunca afastaram definitivamente a cultura “rave”, pois sempre esteve omnipresente. Como exemplo temos o que está a acontecer com o colectivo “Rave Strikes Back”, que inclui DJ´s como Michael Mayer ou Miss Kittin, que ao elaborar o seu Top de temas “rave”, inclui os nomes clássicos como Prodigy, Joey Beltram, Speedy J, Energy 52, entre outros. Mas não deixa de ser curioso e fascinante constatar que também estão incluídos temas dos Kraftwerk, The Human League, Grace Jones, Depeche Mode, Joy Division e até os Sonic Youth. Isto vem constatar a máxima de que para uma festa correr bem, o que o público quer ouvir é que interessa. Um objectivo idealístico deste colectivo é redistribuir a atenção desde o DJ para a festa.
http://www.rave-strikes-back.de/

14 fevereiro 2007

My Favorites # 2 - Spacemen 3 – “Recurring” (1991 Fire)

A união de duas almas gémeas nascidas no mesmo dia do mesmo ano (Pete "Sonic Boom" Kember e Jason Pierce) criou uma das bandas mais incompreendidas pela crítica, quer pelo facto de nunca terem compreendido a sua música, quer pelo facto da banda nunca ter escondido o seu excessivo consumo de drogas duras. Apesar disso os Spacemen 3 rapidamente ganharam uma legião de fãs.
Os Spacemen 3 caracterizavam-se por um som psicadélico, minimal, harmonias distorcidas ao limite, baseadas em guitarras e sintetizadores.
Claramente “Playing with Fire” (1989 Fire) é o grande disco dos Spacemen 3, mas “Recurring” sempre me fascinou pelo cocktail de influências que a sua audição me proporciona.
“Recurring foi gravado numa altura em que os 2 "génios" não se falavam, ficando o lado 1 com as gravações de Boom, e o lado 2 com as de Pierce. Mas o facto é que o disco funciona perfeitamente desta forma.
As composições de Boom são mais horizontais, com um ritmo hipnótico constante do princípio ao fim dos temas. “Big City” é um hino à cultura rave, com o seu ritmo “electro”, só que não dançamos, flutuamos.
“Set me Free”/”I´ve got the Key” é psicadelismo puro, os efeitos sonoros envolvem-nos como uma nuvem.
O som de Pierce é mais lírico, construindo as canções em clímaxes. “Sometimes” é um exemplo típico.
“Feel So Sad” é a pérola deste disco, um “blues” melancólico, com um a voz fantasmagórica. “Feelin’ Just Fine (Head Full of Shit)” não podia ser mais explícita, a nossa cabeça é submetida ao acumular de efeitos sonoros.

O resultado final é um disco envolvente, sem um elevado grau de sofisticação, mas surpreendente comovente.

09 fevereiro 2007

4 Hero - Play With The Changes (2007 Raw Canvas)

Este disco não pode passar a lado…
Não é tão inovador como trabalhos anteriores (já não será necessário), mas mantém os mesmos padrões de qualidade, que os 4 Hero nos habituaram, seguindo a sofisticada trajectória musical que caracteriza o seu som.
É mais um disco onde a dualidade das influências entre o tecno underground e a soul clássica, faz da música uma experiência única, uma síntese do passado e futuro.
Estamos perante um disco complexo, mas rico em texturas musicais. Os frágeis “beats” fundem-se com divagações orquestrais. Os arranjos de cordas misturam-se com uma electrónica desajustada. Conta com um lote de vocalistas de superior qualidade, como seria de esperar, incluindo Carina Anderson (que tinha participado no fantástico “Les Fleur”), a poetisa Ursula Rucker, a lendária Jody Watley (ex-Shalamar), e a participação especial dessa lenda do “jazz-funk” que é Larry Mizell (trabalhou com os Jackson 5 e Marvin Gaye, entre outros).
O amor pela música negra e pela inovação tecnológica, resulta nesta alquimia que nos trouxe discos que são marcos na história da música de dança. Desde o lançamento do clássico “rave” “Mr Kirk´s Nightmare”, passando pela criação da Reinforced Records, pioneira do “drum& bass” , responsável pelo lançamento de Goldie, Doc Scott, Photek, e pelos trabalhos de remistura realizados (recomenda-se a remistura para “Black Gold Of the Sun” dos Nu Yorican Soul). Isto para nem referir o seus álbuns “Parallel Universe” (94), “Two Pages” (98) e “Creating Patterns" (2001).
A sua música sempre teve um significado muito mais importante do que a pista de dança.
No conjunto um grande disco, refrescante e positivo.