06 Novembro 2009

Do fundo da prateleira # 18 - McCarthy – “The Enraged Will Inherit The Earth” (1989 Midnight Music)

Apesar de serem muitas vezes apenas referenciados por terem sido o grupo onde estiveram os futuros criadores dos Stereolab, Tim Gane e Laetitia Sadier (esta apenas tinha entrado no grupo pela altura do ultimo álbum), este quarteto inglês, originário da pequena cidade de Barking, criou uma sonoridade verdadeiramente única na combinação entre a guitarra melodiosa de Gane, com a distinta percussão de Gary Baker e a voz à menino do coro de Malcolm Éden. Daí resultaram pequenas jóias de “pop” dissonante que poderiam ter sido extraídas do reportório primário dos The Smiths, e que iriam inspirar futuros dissidentes da “agit-pop”, através de repetições melódicas, que apoiavam as manifestamente e expeditamente canções políticas, mas sem os slogans e o dogma, pois eram canções avunculares, recheadas de sátira social, sarcasmo e inconformismo, criticando os capitalistas, os banqueiros, os governantes ou a monarquia.
Destaco o segundo disco (“I Am A Wallet” de 1987 também é indispensável), porque foi o primeiro que tive e por incluir a minha canção favorita deles – “Keep An Open Mind, Or Else” – e para além desta obra-prima, inclui outras preciosidades como “Boy Meets Girl So What”, “I’m Not A Patriot But”, “You’ve Got To Put An End To Them” ou “The Home Secretary Briefs The Forces Of Law And Order”.
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04 Novembro 2009

Inovadores # 14 - Tortoise - “Tortoise” (1994 Thrill Jockey)

A história da música alternativa americana foi involuntariamente alterada em 1993 quando um conjunto de membros de bandas como Bastro, Tar Babies, Gastr Del Sol e Eleventh Dream Day (apenas para numerar alguns) entraram no estúdio Idful Music Corporation em Chicago. As sessões daí resultantes produziram um elegante trabalho. Simultaneamente rico e esquelético, era uma brilhante e totalmente instrumental exploração de ritmo e fidelidade (uma verdadeira exploração sonora, reflectiva e cerebral), que busca inspiração – sem directamente referenciar - no “dub”, no “jazz”, no “krautrock”, no “funk”, na música electrónica e no pós-punk, que criava ilimitadas possibilidades.
Jubiloso, austero e cáustico, está recheado de ritmos tensos e tremeluzentes, e distintivas dinâmicas, onde a música nunca varia de velocidade, e que é em iguais partes dócil quietude rítmica e um muito particular e refinado som cerebral.
O próprio Steve Albini interminavelmente divulgou o disco, e chegou mesmo a declarar que este era o melhor disco alguma vez feito em Chicago. Dan Bitney, John Herdon, Douglas McCombs, Bundy K. Brown e John McEntire deram-nos um disco que se assimila com simplicidade e como os vários admiradores provaram, é também um disco fácil de prestar homenagem.
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Tortoise - Onions Wrapped In Rubber

02 Novembro 2009

R.I.P.: António Sérgio

Aos 59 anos, António Sérgio, último dos radialistas com programa de autor, morreu sábado à noite em consequência de um problema cardíaco, mas a sua influência nas ondas hertzianas estendeu-se ao longo dos anos, na divulgação da chamada música alternativa.
Começou em 1968 na Rádio Renascença, mas foi no final da década de 1970, quando ingressou na Rádio Comercial, que a sua popularidade se consolidou, ajudando a divulgar novos estilos e tendências da música moderna. Ficaram celebres programas onde deixou a sua imagem de marca como Rotação, Rolls Rock, Som da Frente, Lança-Chamas, O Grande Delta e A Hora do Lobo.António Sérgio fazia actualmente o programa Viriato 25 da rádio Radar, e cujo dono o qualificou como "um mestre da rádio, uma referência" ou o "John Peel português".
Musicalmente foi um pai para muitos da minha geração, e uma das suas frases com que mais me identifico é: "tudo é música desde que saibamos apreciar".
Muita falta vai fazer.

30 Setembro 2009

Yo La Tengo – “Popular Songs” (2009 Matador)

Ao seu décimo segundo disco (ou será decimo quarto) e ao longo de uma consistente carreira de 25 anos, o grupo de Ira Kaplan e Georgia Hubley, continua abrangente, alienante e prolifico como sempre.
E tal como o excelente último disco, “I’m Not Afraid Of You And I Will Beat Your Ass”, desistem rapidamente de se manterem fiéis a uma sonoridade constante e oferecem-nos as características variações sonoras que os fãs se habituaram a esperar da banda.
A destreza com que mudam de estilos, sons e temas de canção para canção é ao mesmo tempo idiossincrásica e surpreendente, e apenas possível de ser conjugado pelo singular ouvido conhecedor de melodias de Kaplan.
Desde o frágil “pop”, passando pelas explosões psicadélicas, pelo áspero “country-pop”, até às improvisações “noise” (e apesar de ser notável, que as suas principais influências musicais – “soul”, “garage rock” – estão mais tradicionais do que é usual), continuamos na presença de uma banda ainda persuasivamente enfeitiçada pela mutabilidade da música “pop”.
Isso é visível nos luxuriantes arranjos orquestrais do “funky” “Here To Fall”, no esplendoroso “pop-rock” de “Avalon Or Someone Very Similar”, na cintilante e encantadora “Nothing To Hide”, no inesperado dueto retro de “If It’s True”, no resplandecente rastro de “feedback” da épica “More Stars Than There Are In Heaven”, ou no hipnótico “noise-freak” de “And The Glitter is Gone”.
É inevitável não se questionar a mensagem subliminar da capa do disco – sinónimo de um futuro digital ou do papel da música nas nossas vidas – em qualquer caso, o disco vive de acordo com o seu título.
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28 Setembro 2009

Covers # 11 - Jon Auer - “6 1/2” (2001 Pattern 25)

Fico sempre desconfiado com os supostos discos de “versões”, pois na maioria das vezes, nem sempre conseguem entender, nem igualar a intenção das mesmas, e ficam muitas aquém das expectativas criadas. Felizmente neste caso, a mestria como Jon Auer reinventa radicalmente os originais, apropriando-se dos mesmos e moldando-os ao seu estilo faz o disco funcionar na perfeição.
Não sei se na altura da sua edição, este disco funcionou como uma resposta ao excelente disco a solo – “Touched” - que Ken Springfellow editou no mesmo ano, mas o outro Posie apresentou-nos esta pequena maravilha de seis versões e meia (daí o titulo). Pois para além do exercício experimental que é o tributo a “Bonnie & Clyde” de Serge Gainsbourg, temos versões dos The Chameleons, dos Swervedriver, dos Ween, dos Hüsker Dü, dos Psychedelic Furs, e até de Madonna. E se a escolha dos temas é fantástica, os resultados são surpreendentes. As canções contêm o característico estilo rancoroso de Auer e evocam o “pop” delicioso que caracterizava os The Posies.
E realmente o único pecado deste disco é ser tão pequeno.
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24 Setembro 2009

Wilco - Discografia Selectiva

“Being There” (1996 Reprise)

Tal como os Rolling Stones de “Country Honk” e os Grateful Dead de “American Beauty”, executam uma mistura de estilos – primariamente “country-rock” e rude “American punk” – com uma excitação “bar-room” e um charme decrépito que é inteiramente ilusório neste disco de dupla meditação sobre a idade e a vida “rock’n’roll”. Existe uma busca optimista na visão do compositor Jeff Tweedy que é perfeitamente igualada pela força das suas melodias.
Destaques: “Hotel Arizona”, “Outtasite (Outta Mind)”

“Summerteeth” (1999 Reprise)

Uma miasma de “rock, pop e “country”, que transcende géneros, onde trocaram as suas raízes “roots rock” pelos acordes “power-pop” dos Big Star, pelas harmonias radiosas dos The Beach Boys e por uma esfera de experimentação.
Rodopiando numa extraordinária tapeçaria de sons e uma enormidade de instrumentos que inclui mellotrons, guitarras “e-bow”, moogs, trompetes e várias percussões - todos tocados de uma forma vibrante, apurada e imaculada - as canções invocam as angústias amargas e as euforias irrealistas das relações humanas, através das tristes e sombrias letras, que demonstram um invulgar crescimento da parte de Tweedy. Ele aparentemente é sincero e directo, e o resultado é imediato, alternativamente amável e irritado, simultaneamente esplendoroso e perturbador.
Destaques: “Can’t Stand It”, “I’m Always In Love”, She’s A Jar”, “Via Chicago”

“Yankee Hotel Foxtrot” (2002 Nonesuch)

Um disco verdadeiramente especial, de uma banda que estava a alterar a sua sonoridade, com uma unicamente sóbria sensibilidade, e que leva o ouvinte numa ecléctica viagem existencialista.
Impregnado com uma consistência codificada e com uma complexidade rítmica jamais atingida num disco dos Wilco, onde os instrumentos típicos batalham com turbilhões de ruídos e sons bizarros, que interligam as canções de todas as formas possíveis. A presença de Jim O’Rourke não será alheia a esta sonoridade.
Está recheado de escuridão e mistério, com comoventes canções acerca do amor (imprevisível, magnífico, doloroso, incompreendido, desleal), num estranho mundo moderno, que revelam uma beleza intangível.
Destaques: “I Am Trying To Break Your Arm”, “War On War, “Heavy Metal Drummer”

“A Ghost Is Born” (2004 Nonesuch)

Outro diversificado e encantadoramente incompreensível esforço de um dos mais interessantes experimentalistas da musica moderna. Para além dos paradigmas e da ironia musical, temos o intrigante “pop”, mas também o rude, fumegante e jubiloso “rock’n’roll”. Imprevisivelmente, as canções aqui geralmente evitam os rápidos dividendos e grandes refrãos em favor de arranjos complexos e subtis dinâmicas. Tweedy surge mais relaxado, mais subjugado, e mais dependente do estúdio de gravação. O efeito é gradual, libertino em tonalidade, detalhe e nas estruturas libertas de convencionalismos das canções. Provavelmente não cativará na primeira audição, todavia, quando investimos tempo e o ouvimos repetidamente, conseguimos apreciar este disco sem esforço e as canções tornam-se verdadeiramente contagiantes.
Detaques: “At Least That’s What You Said”, “Hummingbird”,


21 Setembro 2009

Rock # 9 - The Jesus Lizard – “Goat” (1991 Touch And Go)

No seu segundo álbum, os lunáticos e depravados de Chicago cumpriram bem o seu papel dos primos retardados e alcoólicos dos britânicos Gang of Four. Nesta espiral de caos, produzida por Steve Albini, a sua sonoridade está no mais doentio, repulsivo e ameaçador possível em faixas como “Then Comes Dudley”, a psicótica “Nub”, a venenosa “Mouthbreaker”, “Monkey Trick” ou a paranóica “I Can’t Swin”.
O baterista Mac McNeilly e o baixista David Sims tocavam com uma ritmada subtileza fulminante, o guitarrista Duane Denison aparentemente arranha as cordas erradas para criar vibrantes “riffs” pós punk e o infame porta-voz David Yow, com o seu incomparável estilo vocal, capturara a alma de um imoderado e desarticulado personagem.
Depois de “Goat”, continuaram a fazer álbuns excelentes – como “Liar” de 1992 (e o famoso “single” a meias com os Nirvana, de onde provavelmente serão mais relembrados) – e repetidamente reinventaram-se a eles próprios, mas os verdadeiros fãs do rock aventuroso necessitam de “Goat”.
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16 Setembro 2009

Pop # 7 - Julian Cope – “Fried” (1984 Mercury)

Com “Fried, Julian Cope criou algo quase surrealista e verdadeiramente aventuroso. Recheado de alienação mental e bucolismo britânico, Cope ainda surge cambaleante do imenso turbilhão que foi o final dos The Teardrop Explodes (principalmente excessos de LSD e o colapso financeiro) e do falhanço do seu primeiro disco a solo, mas tentando não derrocar.
Os introspectivos conteúdos do disco mostram um indivíduo incrivelmente focado, e embora este seja ecléctico, é o invulgar ambiente de tristeza que mantém a coesão do mesmo, mesmo quando este parece estar a sucumbir.
Notáveis canções de pop psicadélico com surpreendentemente belas melodias, surgem entre um conjunto de esotéricos e impenetráveis exercícios acústicos audaciosamente reminiscentes do trabalho a solo de Syd Barrett.
Os resultados são sublimes, evidenciados nas galopantes e ásperas guitarras de “Reynard the Fox”, no gracioso “Bill Drummond Said” (e a sua trémula guitarra), nas acústicas “Me Singing” e “Laughing Boy”, incandescentes com espaço e melancolia (possivelmente influenciado por Tim Buckley), na bizarra explosão de melodia “Sunspots”, e as suas celestiais ondas de teclados, ou nas viciantes e contundentes guitarras de “The Bloody Assizes”.
Para além disso, esta é provavelmente a mais idiossincrásica capa de disco jamais imaginada - onde Cope prostra-se nu debaixo de uma gigante carapaça de tartaruga.
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11 Setembro 2009

Regina Spektor – “Far” (2009 Warner)

Inicialmente fiquei alarmado com a curiosa presença de produtores como Jeff Lynne dos ELO, ou Jacknife Lee (Snow Patrol, Bloc Party), mas Spektor apresenta-nos um disco imaginativo e poético que é uma mistura da suavidade “pop” de “Begin To Hope” com o anti-folk de “Soviet Kitsch”, e onde as contradições da sua música ainda estão presentes.
A apoiar a sua grandiosa voz, estão letras inteligentes e obtusas, e tortuosas melodias inesquecíveis, onde se destaca o seu absolutamente mágico uso da narrativa, que permite criar canções acessíveis, mas poderosas, que comunicam ideias complexas e reflexões impares de uma forma que até uma criança pode apreciar, que maravilhosamente exploram as maiores questões da natureza humana – religião, fé, amor, confiança, morte, etc. Existe um gradual acréscimo de instrumentos adicionais, e “Far” exibe momentos de grandeza orquestral, que resultam numa ecléctica colecção de sons e canções.
Temos a felicidade rejubilante da ode “The Calculation”, a incandescente “Dance Anthem of The 80’s”, a intensa e contemplativa “Laughing With”, a sinistra e industrial “Machine”, a misteriosamente intitulada “Eet”, a simplicidade de “Wallet”, a fuliginosa e poderosa “Man Of A Thousand Faces”, a espantosa “Human Of The Year”, a mordaz “Genius Next Door”, a assombrosa meditação “Blue Lips”.
Não agradará a todos, mas é mais um excelente disco de uma estranha e apaixonante executante que consegue tornar fácil e acessível, uma música desafiante e assim torna-la muito mais gratificante para o ouvinte.
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08 Setembro 2009

Tributo # 11 - Guadalcanal Diary

Tal como os R.E.M., eram originários da Geórgia e inicialmente utilizavam o mesmo produtor - Don Dixon – mas ao contrário dos primeiros, tiveram uma curta e subestimada carreira.
Distinguiram-se pelo seu incomparável estilo, onde misturavam perfeitas canções “pop” e rock experimental, para criar melodias irresistíveis assentes num extraordinariamente rigoroso combo de muscular percussão, rítmicas linhas de baixo e nas guitarras “power-pop” Rickenbacker.
Formados pelos amigos de longa duração, Murray Attaway e Jeff Walls, seria pela excelente e límpida voz, pelos bizarros temas e pelas impecavelmente distorcidas letras metafísicas (que abordavam religião, cultura Americana, alcoolismo, entre outros) do primeiro e pela fumegante forma de tocar guitarra do segundo, que no inicio da década de 80, conseguiram fazer parte da emergente cena musical que provinha da área urbana de Atlanta, e que incluía os The B-52’s, Pylon, The Fans e os já referidos R.E.M..
Tudo começou com “Walking In The Shadow Of The Big Man” (1984), editada na pequena, mas influente DB Records, e com produção de Don Dixon, onde criaram um “rock” discordante mas recheado de influências “southern roots”, evidentes nos magníficos “Trail Of Tears”, “Fire From Heaven” ou na cómica “Watusi Rodeo”, que gerou inúmeras críticas positivas, e que atraiu a atenção da Elektra que assinou o grupo.
Assim “Jamboree” (1986), com o experiente produtor Rodney Mills, é muitas vezes considerado como um disco menos conseguido, mas isso é apenas devido às imensas expectativas exteriores que o rodeavam, pois aqui mostra-nos a banda no seu melhor quer liricamente, quer musicalmente, como em “Please Stop Me”, “Pray For Rain” ou “Country Club Gun”.
Em “2x4” (1987), com imensos grupos a tentarem imitar a sua sonoridade, eles sentiram a necessidade de explorar novos terrenos musicais, regressaram novamente com Don Dixon o que resultou em arranjos mais desenvoltos e ritmos mais enérgicos e robustos. No entanto as canções são introspectivas e bastante espirituais, como “Litany (Life Goes On)”, 3AM”, “Things Fall Apart” ou “Get Over It”. Ainda como extra brindaram-nos com uma versão de “And Your Bird Can Sing” dos Beatles. Provavelmente atingiram o seu expoente máximo neste disco.
“Flip-Flop” (1989), o último disco, é mais um sólido registo, que demonstra que estavam a crescer como uma unidade, e onde o baterista John Poe surgiu a compor algumas das melhores canções como o ruidoso “pop” de “Always Saturday” , “Pretty Is As Pretty Does” ou “Barometer”.
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Guadalcanal Diary - Trail Of Tears
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Guadalcanal Diary - Litany (Life Goes On)

04 Setembro 2009

My Favorites # 17 - Calexico – “Feast Of Wire” (2003 Quarterstick)

Foi o sábio crítico Greil Marcus que “inventou” o termo “The Old Weird America” como tributo a um sombrio e intrigante lugar, mas que é tão bem sucedida na sua exportação para o resto do mundo.
Muitos músicos agruparam-se debaixo desse crescentemente gasto estandarte “alt-country” para derivarem por essa América ilusória e singular como os Calexico.
John Convertino e Joey Burns, estão há vários anos sitiados em Tucson, muito perto da fronteira com o México, e a sua música é consequentemente infiltrada pela sua natural localização, pois captura a intriga das cidades fronteiriças, a solidão do deserto e o exotismo mexicano.
Apesar do seu quarto disco ter sido provavelmente o mais acessível até à data, e onde a frequentemente fracturada e embriagada música agora soa nitidamente recortada, ainda transmite um sentimento enganador de algo não estar correctamente certo. Como exemplo ouçam “Black Heart”, onde Ennio Morricone se junta a uma marcha fúnebre “Tex-Mex”, ou a belamente intitulada “Not Even Stevie Nicks”, onde a personagem principal espectacularmente comete suicídio.
O mesmo se aplica a “Sunken Waltz” e “Woven Birds” – mas quando parece que estão prontos para serem conotados com o estilo musical “alt-country”, eles subitamente mudam totalmente de direcção como em “Close Behind”, no esplêndido “Mexican Guero Canelo” ou em “Crumble” – e o resultado das suas influências predominantes são direccionadas estrondosamente com pedaços de “bebop jazz”. E contra enormes probabilidades tudo resulta brilhantemente.
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02 Setembro 2009

Electronic # 12 - John Foxx – “Metamatic” (1980 Virgin)

“Metamatic”, surgiu após John Foxx abandonar os Ultravox - o grupo que fundou, e que desenvolveu o som e imagem, quando estes pretendiam abordar uma forma musical mais “pop” – e é um dos discos mais desprovidos de emoção na história da “pop”, permanentemente desolador e disruptivo, com letras que mergulham em sonhos, pensamentos, memórias, constantemente evocando atmosferas de ficção cientifica, e que é ainda mais sombrio e mais desligado do que os primeiros trabalhos de Gary Numan.
Ousado, inovador, imaginativo e inflexível, o que é mais surpreendente, neste diligente registo é o quanto obstinadamente minimalista as texturas musicais são. Robóticas, mecânicas, estéreis e assombrosas, quase exclusivamente baseadas em sintetizadores, caixas de ritmos e distorção sonora, visivelmente influenciadas pela música electrónica que provinha da Alemanha na ultima década, e que ainda hoje não soa nem um pouco datada.
Para além dos singles “Underpass” e “No-One Driving”, destacam-se o gelado e melancólico “Metal Beat” (que carrega similaridades com os Kraftwerk) e o áspero e sombrio “Touch And Go”.
Absolutamente subestimado e invulgar, utilizou um estilo musical que nunca mais foi imitado, nem pelo próprio Foxx.
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31 Agosto 2009

Covers # 10

Mais uma ronda pela prateleira à procura de versões, e esta é uma edição especial dedicada a Mr. David Robert Hayward-Jones.

As edições remasterizadas muitas vezes trazem alguns bonus interessantes, como esta:

The Chameleons - John, I'm Only Dancing (David Bowie)


Esta também veio como bonus no primeiro disco dos Associates:

Associates - Boys Keep Swinging (David Bowie)


E o grande e infelizmente já desaparecido Billy Mackenzie brindou-nos com este versão num dos seus discos a solo:

Billy Mackenzie - Wild Is The Wind (David Bowie)


Finalmente um total descontrução de uma das suas musicas mais famosamente comerciais:

M. Ward - Let's Dance (David Bowie)

17 Agosto 2009

Lindstrom and Prins Thomas – “II” (2009 Eskimo)

Mais um desconcertante fascículo na história do duo norueguês.
Eles que no intervalo entre o seu disco de estreia e este novo registo estiveram bastante activos. Lindstrom, editou no ano passado, o muito discutido “Where Tou Go I Go Too”, onde pareceu veemente entusiasmado em se expandir sonoramente, enquanto Prins Thomas realizou inúmeras remisturas, e é evidente que o trabalho a solo de ambos inspira as estéticas que trazem para a sua colaboração.
Apresentam-nos um disco inovador e estimulante, que através da sua caracteristicamente resplendorosa produção, sinaliza uma ambiciosa trajectória deliberada que os afasta da electrónica excessivamente processada através do uso de mais “live elements” no estúdio, que lhe dá uma sensação mais orgânica, e ao mesmo tempo afastam-se da essência inorgânica do “disco” e da possibilidade de algum aborrecimento dai resultante.
Como resultado temos uma singular e altamente trabalhada reconstrução do “krautrock” com o “disco”, mas onde surgem explorações por outros movimentos do “rock underground” das ultimas décadas, apesar das influências mais obvias serem inspiradas no trabalho de Manuel Göttsching, dos Neu! ou dos Tangerine Dream, mas também em Giorgio Moroder.
Audições repetitivas revelam novos pormenores de um disco onde nos podemos perder confortavelmente em momentos mágicos como no “krautrock” inspirado de “Rothaus”, nas plangentes linhas de piano presentes em “For Ett Slikk Og Ingentino”, ou nas cimeiras secção de cordas de “Rett Pa”.
Uma verdadeira demonstração de que duas cabeças podem ser melhores do que uma.
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13 Agosto 2009

R.I.P. : Les Paul

Notícia recebida hoje, via The Associated Press:

Les Paul, the guitarist and inventor who changed the course of music with the electric guitar and multitrack recording and had a string of hits, many with wife Mary Ford, died on Thursday. He was 94.
According to Gibson Guitar, Paul died of complications from pneumonia at White Plains Hospital. His family and friends were by his side.
As an inventor, Paul helped bring about the rise of rock ‘n’ roll and multitrack recording, which enables artists to record different instruments at different times, sing harmony with themselves, and then carefully balance the “tracks” in the finished recording.

07 Agosto 2009

My Favorites # 16 - Lambchop – “Nixon” (2000 Merge)

Kurt Wagner e a sua cada vez maior banda, podem provir de Nashville, mas a sua sonoridade vai muito mais além do que as limitações que essa cidade impôs na música “country”.
Os excelentes “How I Quit Smoking” e “What Another Man Spills” são completados em “Nixon” um disco mais coeso, aonde às fundações sombrias e rurais, continuam a adicionar enfeites “r&b” e “blues”.
Um dos poucos genuinamente sentimentais discos da ultima década, onde se encontram algumas das sonoridades mais melancolicamente purificadas que já ouvi. Está recheado de fantásticos arranjos e melodias luxuriantes delicadamente executadas que incluem ociosas guitarras, secção de sopro e uma vibrante secção de cordas. E se a musica por si só bastava para tornar este disco honroso, temos que acrescentar as infames, excêntricas e singulares letras, aqui no seu máximo de coerência, sinceridade e consciência social, entregues no inquietante e embaraçantemente desamparado “falsetto” de Wagner, muito atmosférico e dócil, e que realmente relembra o eterno Curtis Mayfield.
Destacar uma canção é difícil, mas como favoritas pessoais, enumero a genial “Up With People” (e o seu magistral final), a ilustre “You Masculine You”, a bestial “Grumpus”, “The Old Gold Shoe” ou a enorme “The Book I Haven’t Read”.
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05 Agosto 2009

Singles # 17 - Ramones – “Blitzkrieg Bop” (1976 Sire)

Em 1976, a faixa principal do disco homónimo de estreia representava a música mais rápida e mais simples que já se tinha ouvido.
Os Ramones criaram uma forma musical que agradava aos jovens, pois qualquer um podia repetir a dose em dois alegres minutos.
Ao longo dos anos fui encontrando muitas interpretações para o título da canção e para o seu conteúdo. Desde logo pelo facto de “Blitzkrieg” ser uma expressão alemã de uma táctica de guerra relâmpago utilizada pelo nazismo, e que podia funcionar como uma referência para toda a energia que dominava as dinâmicas dos Ramones. Também se constou que seria a resposta dos Ramones ao enorme êxito de “Saturday Night” dos Bay City Rollers (também queria uma canção com um refrão contagiante), que seria sobre lutas de gangs ou que era apenas uma referência a passarmos bons bocados nos concertos dos próprios.
Independentemente de tudo isso, “Blitzkrieg Bop” é uma obra-prima de simplicidade que produziu eco nas profundezas do “punk”. “Hey, Ho, Let’s Go!”
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29 Julho 2009

Inovadores # 13 - Neu! – “Neu! 75” (1975)

Provalvelmente, e em conjunto com os Can e os Faust, os Neu! foram os melhores representantes do “krautrock”. Este exemplar notável, é tal como os dois discos anteriores, um trabalho fascinante e que ainda hoje não soa datado. Mas este foi também o álbum onde deixaram completamente de lado a sua componente mais abstracta, que dominou os dois primeiros discos, e incorporaram melodias e ritmos mais estruturados, tornando-o no mais consistente e mais audível.
Criado após uma separação inicial, a reunião resultou num esforço esquizofrénico, onde belas texturas sonoras e ruído, se fundem com guitarras flutuantes e uma percussão rítmica verdadeiramente única para criar no ouvinte um efeito verdadeiramente hipnótico.
O disco divide-se entre a abordagem mais ambiental e minimalista de Michael Rother e o “rock” abrasivo e impetuoso infundido pelo demente Klaus Dinger (e a sua irresistível batida repetida conhecida como “motorik”). A primeira parte, mais sedativa e mais melódica, inclui os sedutores e melodiosos teclados de “Isi”, a derivante imponência de “Seeland”, e a quietude hipnótica de “Leb Wohl” é de Rother, e onde estão ausentes as usuais e regulares batidas de bateria. Já a segunda parte é toda de Dinger (onde ele geme e grita), e está recheada de guitarras inflamáveis e ondulantes, e estranhos efeitos electrónicos, que criam paisagens sem expressão, evidenciadas no “proto-punk” de “After Eight” ou no agressivo “Hero”.
Mas o resultado final demonstra que apesar das diferenças globais entre Rother e Dinger nas suas abordagens sonoras e mesmo nas suas personalidades, eles conseguiam produzir em conjunto alguma da melhor música de sempre. Deixaram-nos três registos altamente originais e sem precedentes, e exerceram uma enorme influência em muita da moderna música alternativa, desde o “punk”, passando pelo “techno” de Detroit até ao pioneiros “lo-fi”. E isso é evidente nas várias referências proferidas por gente tão diversa como por exemplo, John Lydon , Negativland, Stereolab, Spacemen 3, Add N To X ou Wire.
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13 Julho 2009

Do fundo da prateleira # 17 - Seam – “The Pace Is Glacial” (1998 Touch And Go)

Durante anos, os Seam especializaram-se em criar uma perfeita casta de “power-pop”. E os longos períodos entre álbuns, como o realizado antes da edição de “The Pace Is Glacial”, fazem-nos sempre pensar se a banda terminou. Esperemos que não, pois todas as canções aqui presentes são consistentes e distintivas, recheadas com uma mistura de estrondosas guitarras e óptimas melodias. Muitas outras bandas usaram uma receita similar com vista ao sucesso, mas os Seam desenvolveram uma identidade única que os separa dos restantes. Comparações com o “dream pop” de bandas como os Galaxie 500 são validas, mas os Seam nunca tiveram receio de adicionar densas e agressivas doses de guitarras.
A combinação da expressividade e com o carácter melodioso é o aspecto mais forte da sua música. Alguns dos melhores momentos de “The Pace Is Glacial” acontecem quando as guitarras se edificam ciclicamente, em catárticos “crescendos”. Mas eles também têm uma aptidão para composições mais tranquila, e as mais elementares baladas deste disco são minimalmente belas.
Não existe nada radicalmente diferente neste disco, mas todas as canções soam genuinamente emotivas, o que é mais que suficiente. Em vez de se tentaram ajustar a um novo modelo, os Seam simplesmente perseguiram a evolução gradual do seu estilo com muita dignidade.
Assim, subtilmente, eles conseguiram produzir um grande disco, recheado de canções impecavelmente melódicas.
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09 Julho 2009

Tributo # 11 - John Cooper Clarke

Começou com um tema numa compilação, depois foi pela descoberta de alguns discos em segunda mão, e a apreciação por este “poeta punk” foi crescendo.
Desde novo que recitava poesia em pequenos clubes de Salford (a sua terra natal) e Manchester, onde divertia as audiências com a sua bem humorada e acelerada poesia.
Em 1977 juntamente com Ed Banger e Jilted John ingressou na editora Rabid, que para além de lhe permitir abrir as primeiras partes de grupos como Buzzcocks ou Warsaw/Joy Division., ainda lhe possibilitou de gravar o seu primeiro single, que inclui “Psycle Sluts Parts 1 & 2”, um ataque violento e grotesco, recheado de desvirtuadas imagens e obscenamente inteligentes trocadilhos que soava tão terrificante como os Sex Pistols.
Surge como um poeta punk/electrónico, no seu apertado fato e com um penteado e óculos à Bob Dylan fase “Blonde On Blonde”, traçando um mapa da sociedade britânica nos anos 70, recheado de diversos retratos inteligentes de personalidades mesquinhas e dos seus meios de vida, descritas no seu estilo colorido, politicamente e socialmente sensato, sarcástico e perversamente engraçado. Apoiado na sua inarmónica voz, disparava supostas rimas sobre distintos “beats”, tradicionalmente fornecidos pelos The Invisible Girls, que inclui gente como Martin Hannett, Bill Nelson ou Pete Shelley.
Rapidamente assinou com a CBS e editou o seu primeiro álbum – “Disguise In Love” (1978) - gozou algum sucesso com o “single “Gimmix!” e com “Snap Crackle & Bop” (1980), que é provavelmente o seu melhor disco e que inclui o clássico “Beasley Street”, uma ode à miséria industrial de Salford, repleta de imundice, decadência e desespero infiltrada em cada poro. Imagens de parasitas, homicídios, prostituição geram um incomparável sentimento de desesperação.
“Zip Style Method” (1982) foi o seu último disco – nos anos seguintes a sua dependência de drogas (heroína) fez com que passasse a maior parte do seu tempo em clínicas de reabilitação com a sua companheira no vício, Nico.
Recentemente regressou aos palcos e acompanhou os The Fall numa tournée britânica. E teve uma homenagem e tributo da parte de Alex Turner dos Arctic Monkeys. Mas o seu estilo de vida sufocou o seu talento.


18 Junho 2009

Pop # 6 - Galaxie 500

“Today” (1988 Aurora)

“On Fire” (1989 Rough Trade)

“This Is Our Music” (1990 Rough Trade)

Aparentemente a ortodoxa combinação de guitarra, baixo e bateria do trio Galaxie 500 continha inapreensíveis e caprichosas qualidades.
As suas invulgares canções – especialmente no impressionante “On Fire” e no excelente “This Is Our Music” – são na sua essência simples e directas, mas eles entregaram os seus segredos lentamente.
A música era opaca, parcialmente devido à produção com rédea branda de Kramer, “fechando”as guitarras de Dean Wareham, repercutindo o seu queixume nasal e adicionando algumas ideias para os arranjos. E segundo o próprio grupo, apesar de Kramer fumar quantidades épicas de marijuana, os efeitos são subtis e em certos momentos subliminais.
A forma como estes três colegas de escola tocavam tinha uma inquietante e surrealista sensação de sempre pairar no ar, com as canções a desfraldarem-se de uma forma linear, mas em vagas, onde o contraste entre a voz desastrada e desafinada de Wareham e a voz flutuante e etérea de Naomi, acrescentava profundidade e equilíbrio. Aqui a guitarra caótica e retumbante de Wareham – com um pendor ocasionalmente vibrante e inflamado numa feroz e intensa erupção eléctrica, profundamente influenciado pelos Velvet Underground – encontrou contraponto no ponderado, cuidadoso baixo de Naomi Yang e na ondulante bateria de Damon Krukowski. “This Is Our Music” exemplifica este confronto, especialmente em “Fourth Of July” e na incandescente versão de “Listen, The Snow Is Falling”, original de Yoko Ono.
O seu disco de estreia, o amargo e romântico “Today” é mais experimental em comparação com os seguintes, mas ainda possui a sua quota de preciosidades - como a sensual e poderosa “Tugboat”, a dócil no entanto assombrosa “Flowers”, ou It’s Getting Late”.
“On Fire” demonstrou a sua crescente competência técnica, possibilitando uma sonoridade mais hermética e é estruturalmente mais possante e o mais unificado, recheado de canções consistentemente calmantes e harmoniosas, exemplificando o que fazem melhor na trágica “Blue Thunder” (uma das mais emotivas e corajosas canções que já ouvi), no sentimento proscrito de “Strange”, no turbilhão de “Snowstorm”, na beleza de “Another Day”, e na perfeita reconstrução do original de George Harrison, “Isn’t It A Pity”
“This Is Our Music” é um luxuriante épico onde guitarras acústicas e eléctricas rodopiam numa magnificente bruma, recheado de canções brilhantes e incomparáveis, como a incrível “Fourth Of July” (provavelmente a mais forte dos G500), a surreal “Hearing Voices” ou a soberba “Summetime”. A edição em CD inclui ainda a deliciosa “Here She Comes Now” (original dos Velvets).
Em 1991 durante uma tourneé completa pelos Estados Unidos e Europa suportando os Cocteau Twins, separaram-se em amargas circunstâncias: Wareham formou os Luna, os quais ele avalia como mais importantes, e Krukowski e Yang tornaram-se primeiro em Damon & Naomi e posteriormente nos Magic Hour. Desde essa altura, todos eles produziram muito boa música, mas estes discos revelam os Galaxie 500 como um dos grupos mais enigmáticos de tempos recentes.
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15 Junho 2009

Classic # 21 - Serge Gainsbourg - “Histoire De Melody Nelson” (1971 Philips)

Se bem que Gainsbourg já tivesse determinado para si próprio, uma vida recheada de provocações e comportamentos semi-proibidos, como adição à de estrela musical, as partes nunca encaixaram tão perfeitamente como em “Histoire De Melody Nelson”, que pode ter só 28 minutos, mas que 28 minutos. Uma hábil e intrigante história baseada no brusco romance do narrador com a jovem ninfa Melody do título, de apenas 14 anos. E onde Serge exercitou uma orquestra de 50 elementos com uma destreza que faz com que as obras contemporâneas grandiosamente propensas como “Tommy” dos The Who, pareçam imensamente deselegantes.
Seguindo o seu impulso para chocar, a história é Gainsbourg no seu método tipicamente atenuante: conheceu Melody depois de a derrubar na sua bicicleta com o seu Rolls Royce, depois planeia transporta-la bizarramente para Sunderland, mas entretanto ela morre numa acidente de aviação.
Melody é bem representada no disco e na sua capa pela grávida, no entanto ainda púbere Jane Birkin (sua companheira de vários anos), enquanto a música (criada em colaboração com Jean-Claude Vannier, e que foi samplado por Massive Attack e Portishead, entre outros) alterna desde a resolutamente cinemática “Melody”, passando por várias ritmadas baladas, pelo interlúdio orgiástico “En Melody”, com os risinhos despropositados de Birkin, antes de concluir com o imperioso e trágico “Cargo Culte”.
Uma obra-prima inundada com delicadas guitarras, luxuriantes arranjos de cordas e impetuosos coros, que continua a atrair atenção, pelo numeroso numero de admiradores famosos (Air, Beck), e que serviu de planta para obras como “This Is Hardcore” dos Pulp.
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05 Junho 2009

Extremos # 5 - U.S. Maple – “Long Hair In Three Stages” (1995 Skin Graft)

No actual “rock moderno” não existe muito que desafie Jim O’Rourke, o músico, produtor e editor cujo interesse na “música sem precedentes” (ex: Bernhard Günter, Nuno Canavarro) é bem conhecido.
Mas em relação aos U.S. Maple, cujos dois primeiros discos produziu, O’Rourke simplesmente afirmou: “eu gosto dos U.S. Maple, porque quando os ouço, eles desafiam-me e isso é bom”.
Este quarteto de Chicago teve as suas sementes em minúsculas bandas de rock abrupto – Snailboy, Shorty, Diaper – e debutou como algo em que as raízes não se ligam a nenhum género.
Em “Long Hair In Three Stages”, a clivagem das guitarras gémeas (aqui não existe baixo), um sentimento acidental e a livre reciprocidade instrumental, conjugam uma sonoridade que junta o primitivo com o complexo e que remete para um Captain Beefheart em “Trout Mask Replica”. Mas o disco foi completamente escrito noutra linguagem, recheado de humor e níveis absurdos de ironia (verifiquem o gozo com as vedetas musicais), penetrante e confrontante, com explosivos andamentos temporais, onde tudo é misturado e é esta perplexidade musical que o torna tão agradavelmente provocador.
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03 Junho 2009

Electronic # 11 - Pan Sonic - “Aaltopiiri” (2001 Blast First)

Em “Aaltopiiri”, os Pan Sonic, dão mais um passo em frente na direcção de caminhos mais quentes
As diferenças são subtis, mas vincadas, eles ainda seguem a trajectória minimalista da claridade rítmica tonal iniciaPoldas em “Vakio” (1995), mas agora existe uma sensibilidade “electro-dub” reminiscente do trabalho de Pole. Os elementos componentes destes temas podem ser reminiscentes da sonoridade dos Pan Sonic, mas soam mais a caixas de rimos dos anos 80 do que modernos osciladores e interruptores. Pois parece que agora respiram um novo ar, recheado de pequenas ondulações que geram novos espaços imaginados, onde se invocam cenários cinemáticos, como em “Aanipaa” (um “Trans-Europe Express” para o século XXI). Nota-se verdadeiramente que estão centrados em simplificados contrastes de espaço, volume e divisão temporal. A isto junta-se um manifestado toque humano que os distingue dos seus intimamente relacionados, numerosos e ruidosos produtores de algoritmos sonoros. E faixas como “Kone”, Muskaus” ou “Kierto” fazem-nos recuar 15 anos até ao esqueléticos “beats” de Marley Marl e Rick Rubin, quando as sonoridades rítmicas eram feitas através de batimentos leves no cimo de um microfone.
Ao longo do disco, Mika Vainio e Ilpo Väisänen cultivam um equilíbrio precário entre o elegante formalismo das suas próprias “construções” e a ameaçada proliferação caótica do “feedback”. E mais uma vez atingem uma fundente perfeição.
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25 Maio 2009

Editoras # 5 - Factory

A Factory desempenhou um papel incrivelmente activo dentro da sua comunidade natal. Pode ser citada como uma influência cultural catalisadora do noroeste britânico na decada de 80.

A editora “Factory” foi precedida pelo clube “Factory” domiciliada no Russell Club em Manchester durante o ano de 1978. O seu nome foi escolhido por Alan Erasmus (um actor que foi sócio de Tony Wilson em vários aventuras), não, como normalmente é associado, ao estúdio de arte de Andy Warhol nos anos 60 em Nova Iorque, mas pela simples razão de que um enorme placar com a designação “Factory for Sale” chamou a sua atenção. Poucos meses depois, em resposta à florescente actividade musical de Manchester e da vizinha Liverpool, e pelo sucesso do clube, acharam que podiam capitalizar ainda mais com a edição de 12”.
Wilson e Erasmus aceitaram o desafio e recrutaram o produtor local Martin Hannett e o designer Peter Saville. Em Janeiro de 1979, saiu o duplo 7” “A Factory Sampler” com a contribuição dos Joy Division, The Durutti Column, John Dowie e Cabaret Voltaire. Baseados no modesto apartamento de Erasmus, a editora destacou-se pela excêntrica união de música alternativa com uma perversa destreza por discografias estranhas.
No verão de 79, os A Certain Ratio , heróis não celebrados até ao dia de hoje, editaram “All Night Party” e os Orchestral Manoeuvres In The Dark, “Electricity”. Mas o passo mais arrojado foi quando Rob Gretton, manager dos Joy Division, decidiu editar o enorme álbum de estreia, “Unknown Pleasures”, pela Factory em vez do gigante WEA. Apesar do disco ter recebido criticas mistas na imprensa especializada, a sua edição conjuntamente com o subsequente single, “Transmission”, definiu o futuro durante anos.E se nos primeiros meses demonstraram uma capacidade de aproveitar as oportunidades que surgiram à sua volta, os anos seguintes provaram o quanto difícil seria sobreviver. Os Joy Division atingiram grande sucesso com o enorme “Love Will Tear Us Apart”, mas o suicídio de Ian Curtis obrigou-os a repensar no futuro. Assim surgiram os New Order, que iriam com “Ceremony” e “Movement” editar discos de grande sucesso em 1981, em contraste com as menos distintas edições dos Minny Pops e Stockholm Monsters.
Nessa altura as ambições aumentaram e a Factory Records tornou-se na Factory Communications Ltd., e surgiu um clube associado ao império Factory, o Hacienda. Os primeiros rumores de falência surgiram logo no ano seguinte, mas em 1983, com a edição do single recordista de vendas "Blue Monday” dos New Order, a situação acalmou. Só assim se justifica a edição de registos de bandas como Abercederians ou The Wake. A partir de 1985, começou a surgir no Hacienda, um movimento inspirado pela música de dança originária dos Estados Unidos que anos mais tarde viria a designar-se por “Madchester”, e que iria culminar com o sucesso em 1987 de “True Faith” dos New Order, e de “Squirrel And G-Man, 24 Hour Party People…” o primeiro álbum dos Happy Mondays.
Com o surgimento de novas dificuldades financeiras, a companhia tornou-se menos errante, começou a utilizar melhores técnicas de marketing, muito mais de acordo com o resto da indústria musical, e realizaram os primeiros contratos escritos da sua história.
Com o advento da “acid-house”, com a Hacienda como expoente do movimento, com o sucesso de “Bummed” dos Happy Mondays, com “Technique” dos New Order, a atingir o lugar cimeiro dos tops, o despontar de uma nova era adivinhava-se. A “dance remix” de “Wrote For Luck” dos Happy Mondays, não foi a primeira, mas foi certamente a mais efectiva nesta ocasião, tornando Shaun Ryder e companhia, nuns improváveis heróis adoptados pela nova geração “pop-dance”.
Projectos como os Northside e os Revenge de Peter Hook ofereciam pouco em termos de inspiração musical. E só os Happy Mondays dominavam com sólidos sucessos como os singles “Hallelujah” e “Step On” ou o álbum “Pills ‘N’ Thrills And Bellyaches”, mas mesmo eles não estavam a gerar as receitas necessárias para suportar a organização.
Mas a Factory sofreu outro imprevisto quando as autoridades encerraram o Hacienda. A contratação dos The Wendys e dos The Adventures Babies também não iria convencer ninguém. E para culminar tudo os dispendiosos débitos na gravação de “Yes Please!” dos Happy Mondays nos Barbados e de “Republic” dos New Order em Ibiza, curiosamente as suas bandas mais rentáveis, fizeram com que em Novembro de 1992, a Factory Communications Ltd, declarasse falência.

20 Maio 2009

Mono – “Hymn To The Immortal Wind” (2009 Temporary Residence)

Depois do excelente “You Are There” (2006) era com expectativa que se aguardava o regresso dos Mono, felizmente eles excederam-se e criaram uma cinemática, iluminada, meditativa e espiritual obra-prima orquestral.
Produzido por Steve Albini, cuja atenção aos requintados pormenores de gravação do som ambiente dá ao disco uma sensibilidade sufocada e claustrofobica, a qual paradoxalmente fornece a sua explosiva conectividade. E a banda usando similaridades estruturais que dão ao disco uma essencial homogeneidade e fluxo, criam temas irresistíveis, começam com delicadas melodias, depois aplicam camadas e camadas de guitarras (inundadas de noise) e arranjos de cordas, e finalmente adicionam cintilantes explosões revestidas de uma enorme aura.
O disco abre com a colossal e asfixiante experiência que é “Ashes In The Snow”, a qual fornece o padrão sonoro, ao atingir o seu intolerável clímax somente passados oito minutos (num total de onze que constituem o tema), mas que transgride o estabelecido protocolo musical ao possuir e introduzir um novo “coda” – uma secção de cordas que domina o disco. Notáveis são também as arrebatadoras guitarras e orquestrações de “The Battle To Heaven”, o melancólico “Burial At Sea” e o seu provocador esplendor, o vertiginoso espiral de feedback e frenesim orquestral de “Pure As Snow (Trails Of The Winter Storm)”, até fecharmos ao belo capitulo final, “Everlasting Light”, recheado de convenientemente esmagadores crescendos, que desabrocham num elevadíssimo vértice final. E que estabelece os Mono como modernos expoentes máximos do “post-rock”, ao lado de Sigur Rós, Explosions In The Sky ou A Silver Mt. Zion.
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18 Maio 2009

Classic # 20 - Joy Division - “Closer” (1980 Factory)

É difícil descrever adequadamente a experiência que é a audição de “Closer”. É formidável a forma como os Joy Division conseguiram amontoar tanta ruína e melancolia num disco. Ao lado de “Closer”, muitas das supostas bandas “melancólicas” parecem superficial, e poucas são as bandas desse período que tivessem uma visão “pós-punk” tão seca, gelada e isolada.
“Closer” é um disco completo, cuja autenticidade como facto é garantida pela autenticidade da vida (e morte) do seu criador. Imensamente deprimente e sombrio, é no entanto estranhamente compelível, não obstante a sua gelada beleza.
A voz de Curtis estava mais rica e mais expressiva, recheada de letras completamente honestas sobre a perda de fé na humanidade, o isolamento, a perda de controlo e por fim a morte. “Closer” revela a sua perturbada vida interior, com rendições de depressão e alienação, capturando o desespero e as ansiedades resultantes da sua deterioração física devido à epilepsia. E as inflexíveis e vagas texturas musicais, tipicamente escassas e friamente eficientes fornecem o perfeito fundo de misteriosa e penetrante obscuridade. Menos baseado nas guitarras do que “Unknown Pleasures”, “Closer” é mais exposto e amplo, edificado sobre teclados e uma sonoridade minimalista.
Como expressão musical e lírica, “Closer” é um dos discos mais fascinantes de sempre, evidenciado pela sinistra percussão tribal de “Atrocity Exhibition” (cuja referência “This Is The Way- Step Inside” é um convite para a câmara de horrores que é Closer”), a precisa electrónica matemática de “Colony”, os espaçados e hipnotizantes acordes de “A Means To An End”, a singela e formosa “Heart And Soul , a aniquiladora melancolia de “Passover”, e pelas 3 últimas faixas, que reforçam esse enorme impacto emocional, começando com “24 Twenty Four Hours”, passando pelo vagarosamente dilacerante “The Eternal” e terminando com o irresistível e dolorosamente excessivo “Decades” (especialmente com a pergunta “Where Have They Been?).
Uma pergunta paira constantemente no ar -“Teria a música o mesmo poder se Curtis não se tivesse suicidado?” – mas para mim isso não é relevante, nem o mais importante, apreciamos antes o facto de termos ficado com “Closer”, a elegia de Curtis.
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14 Maio 2009

Do fundo da prateleira # 16 - Moonshake - “Eva Luna” (1992 Too Pure/Matador)

Após repetidas audições, o disco de estreia dos britânicos Moonshake ainda revela surpresas e possibilidades.
Liderados pelos compositores, guitarristas e”samplistas” Dave Callahan e Margaret Fiedler, o quarteto usou a tecnologia do “sampling” para criar novas perspectivas sonoras sobre o altamente rítmico suporte base.
Fugindo dos géneros musicais estabelecidos, ofereciam tumultos e excitação, através de uma furiosa decadência urbana e enaltecimento do ódio. Aparentemente, misturavam pedaços grosseiros de discos “easy-listening” com os sons das suas desconexas implosões orquestrais enquanto as tendências “pós-punk” da banda (notavelmente próximas dos P.I.L. de “Metal Box”) acentuam a tensão e animosidade.
De um lado tínhamos as entusiastas, hipnóticas, sedutoras, murmurantes e incendiárias canções de Fiedler, do outro os desdenhosos, no entanto brilhantes, comentários social, normalmente bombásticos do perpetuamente transtornado Callahan. E se quase soam como bandas diferentes, tudo funciona numa imaculada unicidade.
Mas a pressão e a carga de stress que fizeram “Eva Luna” tão forçado, teve que ceder, e 18 meses depois, Fiedler e o baixista John Frennett terminaram o grupo para formar os Laika com Guy Fixsen (o produtor da banda, deixando Callahan e o baterista Mig, que recrutaram dois novos elementos para o irregular disco seguinte, “The Sound Your Eyes Can Follow”.
Neste “Eva Luna” (cuja edição americana inclui ainda o excelente EP, “Secondhand Clothes”) oferecem quer lições históricas de “pós-punk”, quer reflexões sobre direcções futuras.
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11 Maio 2009

My Favorites # 15 - The Feelies – “Crazy Rhythms” (1980 Stiff)

Originários de Hoboken, New Jersey, foram juntamente com Sonic Youth, Mission Of Burma ou Bush Tretas, uma das bandas da costa este que estiveram na vanguarda do movimento pós –punk americano. As ideias musicais de Glenn Mercer e Bill Million sobre minimalismo, dinâmicas, tonalidades e texturas musicais foram apoderadas pelo núcleo central dos músicos que integravam o emergente movimento “rock alternativo”.
Criaram uma inimitável e completamente única sonoridade, onde as suas canções tem uma evidente sensação de urgência e a sua sonoridade destilava uma perfeita sensibilidade estética. As guitarras de Mercer e Million são delicadas e elevadas – em contraste com os fortes acordes do “punk” – o incessante e descendente dedilhar, com crescendos sem clímax, e acções descontroladamente repetitivas é um óbvia influência dos Velvet Underground. Os ritmos – vocais e instrumentais – eram tensos e desassossegados – tal como os Talking Heads, mas com uma qualidade ameaçadora que foi meia abafada na música dos Heads, com as suas investidas na “world music”.
São inevitáveis as comparações com os grupos já referidos e os Television, mas “Crazy Rhythms” é tão impressionantemente original que é como se tivesse desenvolvido numa estufa desprovido de quaisquer influências ambientais. E o que torna o disco ainda mais inovador, foi o facto da percussão ser particularmente efectiva, em virtude da substituição do anterior baterista pelo extravagantemente inventivo Anton Fier. O seu frenético e forte tambor “tom-tom” tornou-se numa terceira voz no diálogo rítmico com os duelos de guitarra de Mercer e Million. Para além disso, o uso de um variado conjunto de instrumentos de percussão pouco convencionais (tamborim, “maracas”) e a acção combinada entre silêncio e ruído adiciona estrutura e solidifica o seu som. Daí resultaram momentos sublimes como a honestamente semi-biográfica “The Boy With Perpetual Nervousness”, “Fa Ce La”, a intensa “Moskow Nights”, a contagiante “Loveless Love”, a “estratificada complexidade de “Force At Work”, “Original Love”, a revoltada “Raised Eyebrows”, ou a irreconhecível e irreverente versão de “Everybody’s Got Something To Hide Except For Me And My Monkey” dos Beatles.
Um disco muito subestimado (e o único disco onde exerceram controlo criativo), ideal para descobrir as origens do “indie rock”/”rock alternativo”, onde muitos grupos - R.E.M., The Dream Syndicate, Yo La Tengo, até Clap Your Hands Say Yeah - retiraram elementos sonoros, mas que não são tão citados como alguns dos seus pares.
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08 Maio 2009

Bill Callahan – “Sometimes I Wish We Were An Eagle” (2009 Drag City)

O seu segundo registo sobre nome próprio depois do estilisticamente disperso e liricamente relaxado, “Woke On A Whaleheart”, é um regresso ao temas parcialmente sombrios e à suave monotonia da sua prestação como Smog, após uma breve experiência com a felicidade, conforme ele próprio afirma no dolorosamente belo semi-autobiográfico “Jim Cain”: “I used to be darker, then i got lighter, then i got dark again”.
Aqui descobrimos o seu autor muito concentrado em torno de um despojado “alt-country pop” carregado de luxuriantes e concisos instrumentos de corda. Tal como na incarnação Smog, usa narrações na primeira pessoa, mas agora vivifica as atribuladas histórias com sentimentos admiravelmente fortes. Parece que ele está a falar directamente connosco, recontando sórdidas histórias de dor e conhecimento. A sua famosamente seca voz soa amplamente desenvolvida e demonstra muito mais desprendimento e maturidade como músico/compositor – a refinada palete musical é tornada muito mais transparente pela cristalina produção, muito distante do rude lo-fi, de discos como “Julius Caeser” ou “Wild Love”.
O ouvinte é convidado para inúmeros momentos transcendentes como na profundamente sincera, docilmente galopante “Eid Ma Clack Shaw”, na agridoce “The Wind And The Dove”, na dramática “Too Many Birds”, na sinistra indolência de “My Friend”, na intimidadora “All Thoughts Are Prey To Some Beast”, no desorientado instrumental “Invocation Of Ratiocination”, até fechar ao delicado fecho com o arrebatador anti-épico “Faith/Void”. Fazendo com que este disco seja o culminar da sua singular e astuta narrativa e encantadora entrega.
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06 Maio 2009

Electronic # 10 - Tarwater – “Dwellers On The Threshold” (2002 Kitty-Yo)

O título do disco é uma oblíqua referência à linha que demarca a fronteira entre os cantores/compositores dos criadores de electrónica. E os Tarwater bem personificam essa divisão, caminhando sobre essa linha, entre o analógico e o digital, o tradicional e o moderno.
O quarto disco do grupo de Berlim na editora alemã Kitty-Yo é o mais aventureiro que editaram, uma inversão de alguns dos seus trabalhos iniciais. Pois aqui a sonoridade sombriamente hipnótica fica curiosamente mais fria, ao hesitar perante outra divisória: entre a dissonância da electrónica e a concreta inflexibilidade do industrialismo. O rigor dos contornos da música torna-o menos abstracto do que discos anteriores, mas aqui domina uma austera economia que determina os seus pequenos e comprimidos temas, que na maioria consistem em altamente tratados “beats” e “samplers” vocais.
Eles abandonaram o desfavoravelmente delimitado “som europeu” que garantiu aos Tarwater e ao seu grupo gémeo To Rococo Rot a sua reputação de filhos dos Kraftwerk. No seu lugar surge uma encantadora e alargada “mix” geográfica. Em “Phin” transformam-se tambores africanos numa sensual corrente rítmica, enquanto “Be Late” é tão voluptuoso como um exuberante “gamelean” Indonésio.
A diferença entre os Tarwater de agora e antigamente é mais vividamente sublinhada num redentor humor que espreita debaixo da sua ascética imagem. Pequenos “samples” presumivelmente retirados de um comício político apimentam “Miracle Of Love” mas com ideias a correr em sentido contrário ao seu título. Enquanto, “Tesla” (inspirado nos “b-movies” dos anos 50) mitiga o desdenhoso objectivo dos Tarwater, ao insinuar que foram raptados por extraterrestres.
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