29 julho 2009

Inovadores # 13 - Neu! – “Neu! 75” (1975)

Provalvelmente, e em conjunto com os Can e os Faust, os Neu! foram os melhores representantes do “krautrock”. Este exemplar notável, é tal como os dois discos anteriores, um trabalho fascinante e que ainda hoje não soa datado. Mas este foi também o álbum onde deixaram completamente de lado a sua componente mais abstracta, que dominou os dois primeiros discos, e incorporaram melodias e ritmos mais estruturados, tornando-o no mais consistente e mais audível.
Criado após uma separação inicial, a reunião resultou num esforço esquizofrénico, onde belas texturas sonoras e ruído, se fundem com guitarras flutuantes e uma percussão rítmica verdadeiramente única para criar no ouvinte um efeito verdadeiramente hipnótico.
O disco divide-se entre a abordagem mais ambiental e minimalista de Michael Rother e o “rock” abrasivo e impetuoso infundido pelo demente Klaus Dinger (e a sua irresistível batida repetida conhecida como “motorik”). A primeira parte, mais sedativa e mais melódica, inclui os sedutores e melodiosos teclados de “Isi”, a derivante imponência de “Seeland”, e a quietude hipnótica de “Leb Wohl” é de Rother, e onde estão ausentes as usuais e regulares batidas de bateria. Já a segunda parte é toda de Dinger (onde ele geme e grita), e está recheada de guitarras inflamáveis e ondulantes, e estranhos efeitos electrónicos, que criam paisagens sem expressão, evidenciadas no “proto-punk” de “After Eight” ou no agressivo “Hero”.
Mas o resultado final demonstra que apesar das diferenças globais entre Rother e Dinger nas suas abordagens sonoras e mesmo nas suas personalidades, eles conseguiam produzir em conjunto alguma da melhor música de sempre. Deixaram-nos três registos altamente originais e sem precedentes, e exerceram uma enorme influência em muita da moderna música alternativa, desde o “punk”, passando pelo “techno” de Detroit até ao pioneiros “lo-fi”. E isso é evidente nas várias referências proferidas por gente tão diversa como por exemplo, John Lydon , Negativland, Stereolab, Spacemen 3, Add N To X ou Wire.
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13 julho 2009

Do fundo da prateleira # 17 - Seam – “The Pace Is Glacial” (1998 Touch And Go)

Durante anos, os Seam especializaram-se em criar uma perfeita casta de “power-pop”. E os longos períodos entre álbuns, como o realizado antes da edição de “The Pace Is Glacial”, fazem-nos sempre pensar se a banda terminou. Esperemos que não, pois todas as canções aqui presentes são consistentes e distintivas, recheadas com uma mistura de estrondosas guitarras e óptimas melodias. Muitas outras bandas usaram uma receita similar com vista ao sucesso, mas os Seam desenvolveram uma identidade única que os separa dos restantes. Comparações com o “dream pop” de bandas como os Galaxie 500 são validas, mas os Seam nunca tiveram receio de adicionar densas e agressivas doses de guitarras.
A combinação da expressividade e com o carácter melodioso é o aspecto mais forte da sua música. Alguns dos melhores momentos de “The Pace Is Glacial” acontecem quando as guitarras se edificam ciclicamente, em catárticos “crescendos”. Mas eles também têm uma aptidão para composições mais tranquila, e as mais elementares baladas deste disco são minimalmente belas.
Não existe nada radicalmente diferente neste disco, mas todas as canções soam genuinamente emotivas, o que é mais que suficiente. Em vez de se tentaram ajustar a um novo modelo, os Seam simplesmente perseguiram a evolução gradual do seu estilo com muita dignidade.
Assim, subtilmente, eles conseguiram produzir um grande disco, recheado de canções impecavelmente melódicas.
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09 julho 2009

Tributo # 10 - John Cooper Clarke

Começou com um tema numa compilação, depois foi pela descoberta de alguns discos em segunda mão, e a apreciação por este “poeta punk” foi crescendo.
Desde novo que recitava poesia em pequenos clubes de Salford (a sua terra natal) e Manchester, onde divertia as audiências com a sua bem humorada e acelerada poesia.
Em 1977 juntamente com Ed Banger e Jilted John ingressou na editora Rabid, que para além de lhe permitir abrir as primeiras partes de grupos como Buzzcocks ou Warsaw/Joy Division., ainda lhe possibilitou de gravar o seu primeiro single, que inclui “Psycle Sluts Parts 1 & 2”, um ataque violento e grotesco, recheado de desvirtuadas imagens e obscenamente inteligentes trocadilhos que soava tão terrificante como os Sex Pistols.
Surge como um poeta punk/electrónico, no seu apertado fato e com um penteado e óculos à Bob Dylan fase “Blonde On Blonde”, traçando um mapa da sociedade britânica nos anos 70, recheado de diversos retratos inteligentes de personalidades mesquinhas e dos seus meios de vida, descritas no seu estilo colorido, politicamente e socialmente sensato, sarcástico e perversamente engraçado. Apoiado na sua inarmónica voz, disparava supostas rimas sobre distintos “beats”, tradicionalmente fornecidos pelos The Invisible Girls, que inclui gente como Martin Hannett, Bill Nelson ou Pete Shelley.
Rapidamente assinou com a CBS e editou o seu primeiro álbum – “Disguise In Love” (1978) - gozou algum sucesso com o “single “Gimmix!” e com “Snap Crackle & Bop” (1980), que é provavelmente o seu melhor disco e que inclui o clássico “Beasley Street”, uma ode à miséria industrial de Salford, repleta de imundice, decadência e desespero infiltrada em cada poro. Imagens de parasitas, homicídios, prostituição geram um incomparável sentimento de desesperação.
“Zip Style Method” (1982) foi o seu último disco – nos anos seguintes a sua dependência de drogas (heroína) fez com que passasse a maior parte do seu tempo em clínicas de reabilitação com a sua companheira no vício, Nico.
Recentemente regressou aos palcos e acompanhou os The Fall numa tournée britânica. E teve uma homenagem e tributo da parte de Alex Turner dos Arctic Monkeys. Mas o seu estilo de vida sufocou o seu talento.


John Cooper Clarke - Psycle Sluts (Part 1)

18 junho 2009

Pop # 6 - Galaxie 500

“Today” (1988 Aurora)

“On Fire” (1989 Rough Trade)

“This Is Our Music” (1990 Rough Trade)

Aparentemente a ortodoxa combinação de guitarra, baixo e bateria do trio Galaxie 500 continha inapreensíveis e caprichosas qualidades.
As suas invulgares canções – especialmente no impressionante “On Fire” e no excelente “This Is Our Music” – são na sua essência simples e directas, mas eles entregaram os seus segredos lentamente.
A música era opaca, parcialmente devido à produção com rédea branda de Kramer, “fechando”as guitarras de Dean Wareham, repercutindo o seu queixume nasal e adicionando algumas ideias para os arranjos. E segundo o próprio grupo, apesar de Kramer fumar quantidades épicas de marijuana, os efeitos são subtis e em certos momentos subliminais.
A forma como estes três colegas de escola tocavam tinha uma inquietante e surrealista sensação de sempre pairar no ar, com as canções a desfraldarem-se de uma forma linear, mas em vagas, onde o contraste entre a voz desastrada e desafinada de Wareham e a voz flutuante e etérea de Naomi, acrescentava profundidade e equilíbrio. Aqui a guitarra caótica e retumbante de Wareham – com um pendor ocasionalmente vibrante e inflamado numa feroz e intensa erupção eléctrica, profundamente influenciado pelos Velvet Underground – encontrou contraponto no ponderado, cuidadoso baixo de Naomi Yang e na ondulante bateria de Damon Krukowski. “This Is Our Music” exemplifica este confronto, especialmente em “Fourth Of July” e na incandescente versão de “Listen, The Snow Is Falling”, original de Yoko Ono.
O seu disco de estreia, o amargo e romântico “Today” é mais experimental em comparação com os seguintes, mas ainda possui a sua quota de preciosidades - como a sensual e poderosa “Tugboat”, a dócil no entanto assombrosa “Flowers”, ou It’s Getting Late”.
“On Fire” demonstrou a sua crescente competência técnica, possibilitando uma sonoridade mais hermética e é estruturalmente mais possante e o mais unificado, recheado de canções consistentemente calmantes e harmoniosas, exemplificando o que fazem melhor na trágica “Blue Thunder” (uma das mais emotivas e corajosas canções que já ouvi), no sentimento proscrito de “Strange”, no turbilhão de “Snowstorm”, na beleza de “Another Day”, e na perfeita reconstrução do original de George Harrison, “Isn’t It A Pity”
“This Is Our Music” é um luxuriante épico onde guitarras acústicas e eléctricas rodopiam numa magnificente bruma, recheado de canções brilhantes e incomparáveis, como a incrível “Fourth Of July” (provavelmente a mais forte dos G500), a surreal “Hearing Voices” ou a soberba “Summetime”. A edição em CD inclui ainda a deliciosa “Here She Comes Now” (original dos Velvets).
Em 1991 durante uma tourneé completa pelos Estados Unidos e Europa suportando os Cocteau Twins, separaram-se em amargas circunstâncias: Wareham formou os Luna, os quais ele avalia como mais importantes, e Krukowski e Yang tornaram-se primeiro em Damon & Naomi e posteriormente nos Magic Hour. Desde essa altura, todos eles produziram muito boa música, mas estes discos revelam os Galaxie 500 como um dos grupos mais enigmáticos de tempos recentes.
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15 junho 2009

Classic # 21 - Serge Gainsbourg - “Histoire De Melody Nelson” (1971 Philips)

Se bem que Gainsbourg já tivesse determinado para si próprio, uma vida recheada de provocações e comportamentos semi-proibidos, como adição à de estrela musical, as partes nunca encaixaram tão perfeitamente como em “Histoire De Melody Nelson”, que pode ter só 28 minutos, mas que 28 minutos. Uma hábil e intrigante história baseada no brusco romance do narrador com a jovem ninfa Melody do título, de apenas 14 anos. E onde Serge exercitou uma orquestra de 50 elementos com uma destreza que faz com que as obras contemporâneas grandiosamente propensas como “Tommy” dos The Who, pareçam imensamente deselegantes.
Seguindo o seu impulso para chocar, a história é Gainsbourg no seu método tipicamente atenuante: conheceu Melody depois de a derrubar na sua bicicleta com o seu Rolls Royce, depois planeia transporta-la bizarramente para Sunderland, mas entretanto ela morre numa acidente de aviação.
Melody é bem representada no disco e na sua capa pela grávida, no entanto ainda púbere Jane Birkin (sua companheira de vários anos), enquanto a música (criada em colaboração com Jean-Claude Vannier, e que foi samplado por Massive Attack e Portishead, entre outros) alterna desde a resolutamente cinemática “Melody”, passando por várias ritmadas baladas, pelo interlúdio orgiástico “En Melody”, com os risinhos despropositados de Birkin, antes de concluir com o imperioso e trágico “Cargo Culte”.
Uma obra-prima inundada com delicadas guitarras, luxuriantes arranjos de cordas e impetuosos coros, que continua a atrair atenção, pelo numeroso numero de admiradores famosos (Air, Beck), e que serviu de planta para obras como “This Is Hardcore” dos Pulp.
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05 junho 2009

Extremos # 5 - U.S. Maple – “Long Hair In Three Stages” (1995 Skin Graft)

No actual “rock moderno” não existe muito que desafie Jim O’Rourke, o músico, produtor e editor cujo interesse na “música sem precedentes” (ex: Bernhard Günter, Nuno Canavarro) é bem conhecido.
Mas em relação aos U.S. Maple, cujos dois primeiros discos produziu, O’Rourke simplesmente afirmou: “eu gosto dos U.S. Maple, porque quando os ouço, eles desafiam-me e isso é bom”.
Este quarteto de Chicago teve as suas sementes em minúsculas bandas de rock abrupto – Snailboy, Shorty, Diaper – e debutou como algo em que as raízes não se ligam a nenhum género.
Em “Long Hair In Three Stages”, a clivagem das guitarras gémeas (aqui não existe baixo), um sentimento acidental e a livre reciprocidade instrumental, conjugam uma sonoridade que junta o primitivo com o complexo e que remete para um Captain Beefheart em “Trout Mask Replica”. Mas o disco foi completamente escrito noutra linguagem, recheado de humor e níveis absurdos de ironia (verifiquem o gozo com as vedetas musicais), penetrante e confrontante, com explosivos andamentos temporais, onde tudo é misturado e é esta perplexidade musical que o torna tão agradavelmente provocador.
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03 junho 2009

Electronic # 11 - Pan Sonic - “Aaltopiiri” (2001 Blast First)

Em “Aaltopiiri”, os Pan Sonic, dão mais um passo em frente na direcção de caminhos mais quentes
As diferenças são subtis, mas vincadas, eles ainda seguem a trajectória minimalista da claridade rítmica tonal iniciaPoldas em “Vakio” (1995), mas agora existe uma sensibilidade “electro-dub” reminiscente do trabalho de Pole. Os elementos componentes destes temas podem ser reminiscentes da sonoridade dos Pan Sonic, mas soam mais a caixas de rimos dos anos 80 do que modernos osciladores e interruptores. Pois parece que agora respiram um novo ar, recheado de pequenas ondulações que geram novos espaços imaginados, onde se invocam cenários cinemáticos, como em “Aanipaa” (um “Trans-Europe Express” para o século XXI). Nota-se verdadeiramente que estão centrados em simplificados contrastes de espaço, volume e divisão temporal. A isto junta-se um manifestado toque humano que os distingue dos seus intimamente relacionados, numerosos e ruidosos produtores de algoritmos sonoros. E faixas como “Kone”, Muskaus” ou “Kierto” fazem-nos recuar 15 anos até ao esqueléticos “beats” de Marley Marl e Rick Rubin, quando as sonoridades rítmicas eram feitas através de batimentos leves no cimo de um microfone.
Ao longo do disco, Mika Vainio e Ilpo Väisänen cultivam um equilíbrio precário entre o elegante formalismo das suas próprias “construções” e a ameaçada proliferação caótica do “feedback”. E mais uma vez atingem uma fundente perfeição.
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25 maio 2009

Editoras # 5 - Factory

A Factory desempenhou um papel incrivelmente activo dentro da sua comunidade natal. Pode ser citada como uma influência cultural catalisadora do noroeste britânico na decada de 80.

A editora “Factory” foi precedida pelo clube “Factory” domiciliada no Russell Club em Manchester durante o ano de 1978. O seu nome foi escolhido por Alan Erasmus (um actor que foi sócio de Tony Wilson em vários aventuras), não, como normalmente é associado, ao estúdio de arte de Andy Warhol nos anos 60 em Nova Iorque, mas pela simples razão de que um enorme placar com a designação “Factory for Sale” chamou a sua atenção. Poucos meses depois, em resposta à florescente actividade musical de Manchester e da vizinha Liverpool, e pelo sucesso do clube, acharam que podiam capitalizar ainda mais com a edição de 12”.
Wilson e Erasmus aceitaram o desafio e recrutaram o produtor local Martin Hannett e o designer Peter Saville. Em Janeiro de 1979, saiu o duplo 7” “A Factory Sampler” com a contribuição dos Joy Division, The Durutti Column, John Dowie e Cabaret Voltaire. Baseados no modesto apartamento de Erasmus, a editora destacou-se pela excêntrica união de música alternativa com uma perversa destreza por discografias estranhas.
No verão de 79, os A Certain Ratio , heróis não celebrados até ao dia de hoje, editaram “All Night Party” e os Orchestral Manoeuvres In The Dark, “Electricity”. Mas o passo mais arrojado foi quando Rob Gretton, manager dos Joy Division, decidiu editar o enorme álbum de estreia, “Unknown Pleasures”, pela Factory em vez do gigante WEA. Apesar do disco ter recebido criticas mistas na imprensa especializada, a sua edição conjuntamente com o subsequente single, “Transmission”, definiu o futuro durante anos.E se nos primeiros meses demonstraram uma capacidade de aproveitar as oportunidades que surgiram à sua volta, os anos seguintes provaram o quanto difícil seria sobreviver. Os Joy Division atingiram grande sucesso com o enorme “Love Will Tear Us Apart”, mas o suicídio de Ian Curtis obrigou-os a repensar no futuro. Assim surgiram os New Order, que iriam com “Ceremony” e “Movement” editar discos de grande sucesso em 1981, em contraste com as menos distintas edições dos Minny Pops e Stockholm Monsters.
Nessa altura as ambições aumentaram e a Factory Records tornou-se na Factory Communications Ltd., e surgiu um clube associado ao império Factory, o Hacienda. Os primeiros rumores de falência surgiram logo no ano seguinte, mas em 1983, com a edição do single recordista de vendas "Blue Monday” dos New Order, a situação acalmou. Só assim se justifica a edição de registos de bandas como Abercederians ou The Wake. A partir de 1985, começou a surgir no Hacienda, um movimento inspirado pela música de dança originária dos Estados Unidos que anos mais tarde viria a designar-se por “Madchester”, e que iria culminar com o sucesso em 1987 de “True Faith” dos New Order, e de “Squirrel And G-Man, 24 Hour Party People…” o primeiro álbum dos Happy Mondays.
Com o surgimento de novas dificuldades financeiras, a companhia tornou-se menos errante, começou a utilizar melhores técnicas de marketing, muito mais de acordo com o resto da indústria musical, e realizaram os primeiros contratos escritos da sua história.
Com o advento da “acid-house”, com a Hacienda como expoente do movimento, com o sucesso de “Bummed” dos Happy Mondays, com “Technique” dos New Order, a atingir o lugar cimeiro dos tops, o despontar de uma nova era adivinhava-se. A “dance remix” de “Wrote For Luck” dos Happy Mondays, não foi a primeira, mas foi certamente a mais efectiva nesta ocasião, tornando Shaun Ryder e companhia, nuns improváveis heróis adoptados pela nova geração “pop-dance”.
Projectos como os Northside e os Revenge de Peter Hook ofereciam pouco em termos de inspiração musical. E só os Happy Mondays dominavam com sólidos sucessos como os singles “Hallelujah” e “Step On” ou o álbum “Pills ‘N’ Thrills And Bellyaches”, mas mesmo eles não estavam a gerar as receitas necessárias para suportar a organização.
Mas a Factory sofreu outro imprevisto quando as autoridades encerraram o Hacienda. A contratação dos The Wendys e dos The Adventures Babies também não iria convencer ninguém. E para culminar tudo os dispendiosos débitos na gravação de “Yes Please!” dos Happy Mondays nos Barbados e de “Republic” dos New Order em Ibiza, curiosamente as suas bandas mais rentáveis, fizeram com que em Novembro de 1992, a Factory Communications Ltd, declarasse falência.

20 maio 2009

Mono – “Hymn To The Immortal Wind” (2009 Temporary Residence)

Depois do excelente “You Are There” (2006) era com expectativa que se aguardava o regresso dos Mono, felizmente eles excederam-se e criaram uma cinemática, iluminada, meditativa e espiritual obra-prima orquestral.
Produzido por Steve Albini, cuja atenção aos requintados pormenores de gravação do som ambiente dá ao disco uma sensibilidade sufocada e claustrofobica, a qual paradoxalmente fornece a sua explosiva conectividade. E a banda usando similaridades estruturais que dão ao disco uma essencial homogeneidade e fluxo, criam temas irresistíveis, começam com delicadas melodias, depois aplicam camadas e camadas de guitarras (inundadas de noise) e arranjos de cordas, e finalmente adicionam cintilantes explosões revestidas de uma enorme aura.
O disco abre com a colossal e asfixiante experiência que é “Ashes In The Snow”, a qual fornece o padrão sonoro, ao atingir o seu intolerável clímax somente passados oito minutos (num total de onze que constituem o tema), mas que transgride o estabelecido protocolo musical ao possuir e introduzir um novo “coda” – uma secção de cordas que domina o disco. Notáveis são também as arrebatadoras guitarras e orquestrações de “The Battle To Heaven”, o melancólico “Burial At Sea” e o seu provocador esplendor, o vertiginoso espiral de feedback e frenesim orquestral de “Pure As Snow (Trails Of The Winter Storm)”, até fecharmos ao belo capitulo final, “Everlasting Light”, recheado de convenientemente esmagadores crescendos, que desabrocham num elevadíssimo vértice final. E que estabelece os Mono como modernos expoentes máximos do “post-rock”, ao lado de Sigur Rós, Explosions In The Sky ou A Silver Mt. Zion.
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18 maio 2009

Classic # 20 - Joy Division - “Closer” (1980 Factory)

É difícil descrever adequadamente a experiência que é a audição de “Closer”. É formidável a forma como os Joy Division conseguiram amontoar tanta ruína e melancolia num disco. Ao lado de “Closer”, muitas das supostas bandas “melancólicas” parecem superficial, e poucas são as bandas desse período que tivessem uma visão “pós-punk” tão seca, gelada e isolada.
“Closer” é um disco completo, cuja autenticidade como facto é garantida pela autenticidade da vida (e morte) do seu criador. Imensamente deprimente e sombrio, é no entanto estranhamente compelível, não obstante a sua gelada beleza.
A voz de Curtis estava mais rica e mais expressiva, recheada de letras completamente honestas sobre a perda de fé na humanidade, o isolamento, a perda de controlo e por fim a morte. “Closer” revela a sua perturbada vida interior, com rendições de depressão e alienação, capturando o desespero e as ansiedades resultantes da sua deterioração física devido à epilepsia. E as inflexíveis e vagas texturas musicais, tipicamente escassas e friamente eficientes fornecem o perfeito fundo de misteriosa e penetrante obscuridade. Menos baseado nas guitarras do que “Unknown Pleasures”, “Closer” é mais exposto e amplo, edificado sobre teclados e uma sonoridade minimalista.
Como expressão musical e lírica, “Closer” é um dos discos mais fascinantes de sempre, evidenciado pela sinistra percussão tribal de “Atrocity Exhibition” (cuja referência “This Is The Way- Step Inside” é um convite para a câmara de horrores que é Closer”), a precisa electrónica matemática de “Colony”, os espaçados e hipnotizantes acordes de “A Means To An End”, a singela e formosa “Heart And Soul , a aniquiladora melancolia de “Passover”, e pelas 3 últimas faixas, que reforçam esse enorme impacto emocional, começando com “24 Twenty Four Hours”, passando pelo vagarosamente dilacerante “The Eternal” e terminando com o irresistível e dolorosamente excessivo “Decades” (especialmente com a pergunta “Where Have They Been?).
Uma pergunta paira constantemente no ar -“Teria a música o mesmo poder se Curtis não se tivesse suicidado?” – mas para mim isso não é relevante, nem o mais importante, apreciamos antes o facto de termos ficado com “Closer”, a elegia de Curtis.
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14 maio 2009

Do fundo da prateleira # 16 - Moonshake - “Eva Luna” (1992 Too Pure/Matador)

Após repetidas audições, o disco de estreia dos britânicos Moonshake ainda revela surpresas e possibilidades.
Liderados pelos compositores, guitarristas e”samplistas” Dave Callahan e Margaret Fiedler, o quarteto usou a tecnologia do “sampling” para criar novas perspectivas sonoras sobre o altamente rítmico suporte base.
Fugindo dos géneros musicais estabelecidos, ofereciam tumultos e excitação, através de uma furiosa decadência urbana e enaltecimento do ódio. Aparentemente, misturavam pedaços grosseiros de discos “easy-listening” com os sons das suas desconexas implosões orquestrais enquanto as tendências “pós-punk” da banda (notavelmente próximas dos P.I.L. de “Metal Box”) acentuam a tensão e animosidade.
De um lado tínhamos as entusiastas, hipnóticas, sedutoras, murmurantes e incendiárias canções de Fiedler, do outro os desdenhosos, no entanto brilhantes, comentários social, normalmente bombásticos do perpetuamente transtornado Callahan. E se quase soam como bandas diferentes, tudo funciona numa imaculada unicidade.
Mas a pressão e a carga de stress que fizeram “Eva Luna” tão forçado, teve que ceder, e 18 meses depois, Fiedler e o baixista John Frennett terminaram o grupo para formar os Laika com Guy Fixsen (o produtor da banda, deixando Callahan e o baterista Mig, que recrutaram dois novos elementos para o irregular disco seguinte, “The Sound Your Eyes Can Follow”.
Neste “Eva Luna” (cuja edição americana inclui ainda o excelente EP, “Secondhand Clothes”) oferecem quer lições históricas de “pós-punk”, quer reflexões sobre direcções futuras.
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11 maio 2009

My Favorites # 15 - The Feelies – “Crazy Rhythms” (1980 Stiff)

Originários de Hoboken, New Jersey, foram juntamente com Sonic Youth, Mission Of Burma ou Bush Tretas, uma das bandas da costa este que estiveram na vanguarda do movimento pós –punk americano. As ideias musicais de Glenn Mercer e Bill Million sobre minimalismo, dinâmicas, tonalidades e texturas musicais foram apoderadas pelo núcleo central dos músicos que integravam o emergente movimento “rock alternativo”.
Criaram uma inimitável e completamente única sonoridade, onde as suas canções tem uma evidente sensação de urgência e a sua sonoridade destilava uma perfeita sensibilidade estética. As guitarras de Mercer e Million são delicadas e elevadas – em contraste com os fortes acordes do “punk” – o incessante e descendente dedilhar, com crescendos sem clímax, e acções descontroladamente repetitivas é um óbvia influência dos Velvet Underground. Os ritmos – vocais e instrumentais – eram tensos e desassossegados – tal como os Talking Heads, mas com uma qualidade ameaçadora que foi meia abafada na música dos Heads, com as suas investidas na “world music”.
São inevitáveis as comparações com os grupos já referidos e os Television, mas “Crazy Rhythms” é tão impressionantemente original que é como se tivesse desenvolvido numa estufa desprovido de quaisquer influências ambientais. E o que torna o disco ainda mais inovador, foi o facto da percussão ser particularmente efectiva, em virtude da substituição do anterior baterista pelo extravagantemente inventivo Anton Fier. O seu frenético e forte tambor “tom-tom” tornou-se numa terceira voz no diálogo rítmico com os duelos de guitarra de Mercer e Million. Para além disso, o uso de um variado conjunto de instrumentos de percussão pouco convencionais (tamborim, “maracas”) e a acção combinada entre silêncio e ruído adiciona estrutura e solidifica o seu som. Daí resultaram momentos sublimes como a honestamente semi-biográfica “The Boy With Perpetual Nervousness”, “Fa Ce La”, a intensa “Moskow Nights”, a contagiante “Loveless Love”, a “estratificada complexidade de “Force At Work”, “Original Love”, a revoltada “Raised Eyebrows”, ou a irreconhecível e irreverente versão de “Everybody’s Got Something To Hide Except For Me And My Monkey” dos Beatles.
Um disco muito subestimado (e o único disco onde exerceram controlo criativo), ideal para descobrir as origens do “indie rock”/”rock alternativo”, onde muitos grupos - R.E.M., The Dream Syndicate, Yo La Tengo, até Clap Your Hands Say Yeah - retiraram elementos sonoros, mas que não são tão citados como alguns dos seus pares.
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08 maio 2009

Bill Callahan – “Sometimes I Wish We Were An Eagle” (2009 Drag City)

O seu segundo registo sobre nome próprio depois do estilisticamente disperso e liricamente relaxado, “Woke On A Whaleheart”, é um regresso ao temas parcialmente sombrios e à suave monotonia da sua prestação como Smog, após uma breve experiência com a felicidade, conforme ele próprio afirma no dolorosamente belo semi-autobiográfico “Jim Cain”: “I used to be darker, then i got lighter, then i got dark again”.
Aqui descobrimos o seu autor muito concentrado em torno de um despojado “alt-country pop” carregado de luxuriantes e concisos instrumentos de corda. Tal como na incarnação Smog, usa narrações na primeira pessoa, mas agora vivifica as atribuladas histórias com sentimentos admiravelmente fortes. Parece que ele está a falar directamente connosco, recontando sórdidas histórias de dor e conhecimento. A sua famosamente seca voz soa amplamente desenvolvida e demonstra muito mais desprendimento e maturidade como músico/compositor – a refinada palete musical é tornada muito mais transparente pela cristalina produção, muito distante do rude lo-fi, de discos como “Julius Caeser” ou “Wild Love”.
O ouvinte é convidado para inúmeros momentos transcendentes como na profundamente sincera, docilmente galopante “Eid Ma Clack Shaw”, na agridoce “The Wind And The Dove”, na dramática “Too Many Birds”, na sinistra indolência de “My Friend”, na intimidadora “All Thoughts Are Prey To Some Beast”, no desorientado instrumental “Invocation Of Ratiocination”, até fechar ao delicado fecho com o arrebatador anti-épico “Faith/Void”. Fazendo com que este disco seja o culminar da sua singular e astuta narrativa e encantadora entrega.
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06 maio 2009

Electronic # 10 - Tarwater – “Dwellers On The Threshold” (2002 Kitty-Yo)

O título do disco é uma oblíqua referência à linha que demarca a fronteira entre os cantores/compositores dos criadores de electrónica. E os Tarwater bem personificam essa divisão, caminhando sobre essa linha, entre o analógico e o digital, o tradicional e o moderno.
O quarto disco do grupo de Berlim na editora alemã Kitty-Yo é o mais aventureiro que editaram, uma inversão de alguns dos seus trabalhos iniciais. Pois aqui a sonoridade sombriamente hipnótica fica curiosamente mais fria, ao hesitar perante outra divisória: entre a dissonância da electrónica e a concreta inflexibilidade do industrialismo. O rigor dos contornos da música torna-o menos abstracto do que discos anteriores, mas aqui domina uma austera economia que determina os seus pequenos e comprimidos temas, que na maioria consistem em altamente tratados “beats” e “samplers” vocais.
Eles abandonaram o desfavoravelmente delimitado “som europeu” que garantiu aos Tarwater e ao seu grupo gémeo To Rococo Rot a sua reputação de filhos dos Kraftwerk. No seu lugar surge uma encantadora e alargada “mix” geográfica. Em “Phin” transformam-se tambores africanos numa sensual corrente rítmica, enquanto “Be Late” é tão voluptuoso como um exuberante “gamelean” Indonésio.
A diferença entre os Tarwater de agora e antigamente é mais vividamente sublinhada num redentor humor que espreita debaixo da sua ascética imagem. Pequenos “samples” presumivelmente retirados de um comício político apimentam “Miracle Of Love” mas com ideias a correr em sentido contrário ao seu título. Enquanto, “Tesla” (inspirado nos “b-movies” dos anos 50) mitiga o desdenhoso objectivo dos Tarwater, ao insinuar que foram raptados por extraterrestres.
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04 maio 2009

Rock # 8 - The Replacements – “Let It Be” (1984 Twin/Tone)

Nomear um disco com o mesmo título com que os Beatles nomearam um dos seus, pode ser um pau de dois bicos. Felizmente estes quatro rapazes de Minneapolis (e companheiros de estrada dos Hüsker Dü) criaram um disco extremamente consistente que em nada envergonha o do quarteto de Liverpool.
Em grande parte devido aos incríveis talentos naturais de Bob Stinson e Paul Westerberg – que até podiam aproximar-se em “talento bruto” de Lennon & McCartney - foram das melhores bandas surgidas no início da década de 80 a exprimirem a sua revoltada angustia através da música – um incontornável “pop-trash” malandro. Agrupadas no movimento “punk/alternative rock” americano (apesar da sua sonoridade incluir elementos de “hard rock”, “country” ou até de música psicadélica), situavam-se num patamar muito superior à maioria dos grupos desse movimento.
A excelente capacidade de composição de Paul Westerberg surge no seu estimável melhor em “I Will Dare” e “Androgynous” – onde mistura pura poesia com uma porção de humor.
Destacam-se ainda a revolta de “We’re Coming Out”, a desilusão da adolescência intencionalmente mordaz de “Sixteen Blue”, o “punk” puro de “Gary’s Got A Boner”, a provavelmente auto-biográfica “Unsatisfied”, ou a torturada canção de amor “Answering Machine”. E se “Black Diamond” poderia ser a mais obscuras da versões visto ser um original dos Kiss, quem entende a banda percebe que encaixa perfeitamente e é bem melhor que o original.Um clássico da década e um dos mais importantes discos do “rock alternativo” americano.
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28 abril 2009

Compilação # 5 - The Beta Band – “The 3 E.P.s” (1998 Regal)

O grupo de Edimburgo juntou aqui os seus três altamente coleccionáveis EP’s, de edição limitada que chegam a atingir preços exorbitantes no mercado. E aqui é onde eles estão ao seu melhor e não no homónimo disco de estreia.
A música é tão idiossincrática e nada processada, super nostálgica e surge algo desligada do mundo, no entanto é extremamente emocional, distinta e excitante. Será algo parecido a um “cocktail” onde se misturam Beck, música psicadélica e “jams”. Mas isso é reduzir a enorme ambição sonora que almejam. Incluindo uma extraordinária variedade de sonoridade e géneros musicais no seu interior, nota-se essencialmente que se estão a divertir, pela forma como os patetas, complacentes, premeditadamente repetitivos ritmos psicadélicos abundam. E se o seu intentado som é desordenado com a inclusão de todo o tipo de instrumentos, como bongos, guitarras acústicas, trompetes, harpas, “hammonds”, palmas e “dub bass” (onde entrelaçando tudo isto está a soporífica voz de Steve Mason), este foi tecnicamente fundido com destreza para elevar a sua aura exótica.
Sendo impossível indicar uma canção que seja o perfeito exemplo da sonoridade criada pelos The Beta Band, podemos destacar a delicada intimidade de “I Know”, a sedutora monástica nostalgia de “Dr. Baker”, a extremamente relaxada cadência rítmica do indolente manifesto “Dry The Rain” (como é possível resistir a esta vibrante canção), a fantástica “Inner Meet Me”, o “pedrado” deambular de “Push It Out”, a atenuante “Needles In My Eyes”, o hábil e subtil poder de “Dogs Got A Bone”, a épica sensibilidade “pop” de “She’s The One”, e os 16 minutos da louca e sinuosa “The Monolith”.
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24 abril 2009

Covers # 9

Um post no sempre excelente prozac, fez-me recordar um disco que não ouvia há anos e fez-me procurar uma versão das poucas que conheço de Dr. John.

Depois lembrei-me de mais esta, um pouco improvável para a época (ou daí talvez não...).


Já estes senhores criaram um disco que é uma reinterpretação total de "Loveless". Devem ser mesmo fãs.
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Por ultimo fica uma das mais recentes aquisições, e particularmente bem recebida cá por casa.

22 abril 2009

Seeland – “Tomorrow Today” (2009 Loaf)

Primeiro chamaram-me a atenção os nomes de Tim Felton e Billy Bainbridge, que estão associados às suas experiências anteriores nas bandas Broadcast e Plone, respectivamente, duas das melhores propostas musicais que surgiram da cidade de Birmingham nos últimos anos.
Regressaram agora com o projecto Seeland (presumivelmente inspirados no tema dos Neu!). E depois de dois singles editados na Duophonic dos Stereolab, e já como um trio com a entrada do baixista Neil McAuley, editam o seu primeiro álbum. E aqui apresentam-nos uma nova sonoridade que combina com aprumo elementos de “krautrock”, da subtil electrónica analógica reminiscente de uns White Noise e de electrónica “indie” anos 80 (mas também é evidente que foram muito influenciados pelos primeiros discos a solo de Brian Eno).
Através de arranjos complexos, melodias extremamente fortes e delicados padrões electrónicos, criam pequenos, mas concisos e melodiosamente vibrantes regalos “pop”, assentes na linear e voluntariamente impassível voz de Felton, que nos transmitem uma sensação de abstracção. E chegam a atingem um tipo de grandeza sonora que nos dá arrepios através de canções como a propulsiva “Burning Pages”, nos intensamente cortantes dedilhados de guitarra na brumosa “Library”, no efervescente acidulado “pop” de “Goodbye”, na superlativa “Call The Incredible”, ou na implacável batida mecânica e vibrante linha de baixo presente em “Static Object”.
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20 abril 2009

Tributo # 10 - Robert Wyatt

Um verdadeiro cavalheiro, um gracioso e sensato poeta lírico, um hábil instrumentista, mas será pela sua forma de cantar que Robert Wyatt será certamente melhor recordado.
Na sua estranha, coloquial voz, Wyatt, destilou a sua singular contribuição para a sitiante alma do rock. A sua voz deu sequência a inúmeras canções ao longo de sucessivas tapeçarias de rock psicadélico, rock experimental, pós-punk, agit-pop, jazz, electrónica, sem nunca afasta-lo do trajecto que ele definiu para si próprio à 40 anos atrás.
Foi Wyatt que introduziu a noção revolucionária de cantar tal como falávamos, numa época onde todos à sua volta estavam a imitar os vocalistas “r&b” americanos. Nos Soft Machine era baterista e vocalista no agridoce “pop” do movimento Canterbury, de onde surgiram os Caravan ou Kevin Ayers, e onde Wyatt ajudou a definir um tipo especial de psicadelismo britânico, com a sua voz elevada, penetrante e muitas vezes deliberadamente deprimida para elevar o cociente de melancolia.
Após a sua injusta saída dos Soft Machine, formou os Matching Mole (o mesmo significado em francês para brincar com os seus ex-colegas) e produziu dois álbuns com eles – um deles uma errática obra-prima – mas em Junho de 1973 iria cair de uma janela num quarto andar aquando de uma festa e partiu as costas. O incidente tornou-o paraplégico. Mas na sua estadia no hospital ele começou a elaborar “Rock Bottom”, o seu primeiro regresso.
Wyatt mais tarde, chegou a afirmar que “foi libertado” pela paraplegia, pois não teria mais que estar ligado a um grupo. Assim sentia-se mais confortável a fazer o que queria primeiro e depois procurava as pessoas mais indicadas para trabalharam nos temas que queria.
A dor, mas também o humor nunca estiveram afastados no trabalho de Wyatt. A sua música é tão profundamente comovedora, porque é uma muito directa expressão dos seus sentimentos no momento da gravação. “Rock Bottom” (1974) registra o choque da hospitalização, a enormidade da alteração da sua vida, em submersas e deslizantes melodias electrónica sobre ondulantes correntes de percussão. Pois sendo Wyatt um baterista, o acidente forçou-o a procurar formas musicais mais imaginativas. O disco seguinte “Ruth Is Stranger Than Richard” (1975) inclui a extraordinária versão de “Song For Che”, original de Charlie Haden.
O segundo regresso surge no início dos anos 80 a convite de Geoff Travis da Rough Trade, que editou uma colecção de “singles” que eram destinados a funcionar como boletins políticos sobre a liberdade (reunidos em ” Nothing Can Stop Us”), e que inclui superlativas versões de “At Last I’m Free” dos Chic ou de “Strange Fruit” popularizado por Billie Holiday. Iria inclui ainda “Shipbuilding” de Elvis Costello, que este ultimo compôs especialmente para Wyatt, e que resultaria num inesperado êxito.
O seu terceiro regresso surge em 1997 com o magnifico “Shleep”, gravado no estúdio de Phil Manzanera, e com a colaboração de Brian Eno, Evan Parker ou Annie Whitehead e também, surpreendentemente, de Paul Weller. Com o balanço entre invenção musical e jovialidade, estruturas sonoras e a liberdade para músicos como Parker de alargar as canções para além dos seus parâmetros, e as cáusticas reflexões e as disparatadas letras, “Shleep” inverte a espiral de desespero que caracterizavam os seus últimos discos. Ouçam a debilmente cómica, no entanto arrebatadoramente melancólica meditação psicológica denominada “Free Will And Testament”. Continuou a surpreender-nos com “Cuckooland” (2003) e “Comicopera” (2007), uma dissoluta espécie de ópera mas nitidamente ambiciosa, que inclui a atmosfera intranquila de “Out Of The Blue, e que são uma real celebração de amigos e músicos a tocarem juntos, a convite de um artista que nesta altura simplesmente não se interessa por géneros ou rótulos musicais.
Um penetrantemente inteligente músico que nunca devia ter parado de criar, pois a sua cativante obra fascina pela sua lírica sinceridade.
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14 abril 2009

Classic # 19 - The Band – “Music From Big Pink” (1968 Capitol)

Tal como “John Wesley Harding” de Bob Dylan, o primeiro disco dos The Band afigurava-se completamente singular com a maioria da música “rock” contemporânea, não só na sua apurada sobriedade, mas também pelo invulgar aspecto espectral das canções, que impecavelmente abordavam a difícil e fatalista existência vivida por aqueles que se afastaram do sonho americano. A música, no entanto, era uma infinitamente flexível mistura de influências forjadas após anos de actuações em bares e outros antros.
Indo contra a tendência “psychedelic rock” que rebentava no final dos anos 60, criaram uma música misteriosa, terrena, sincera, emotiva, arrebatadora e eclética que captura tantas emoções e funde com sucesso numerosas tradições musicais americanas. O termo “Americana”, fornece a sugestão, mas não abrange tudo, pois existem elementos de “r&b”, “blues”, “country”, “hillbilly” e “gospel”, tornando-o inclassificável no panteão do “rock” onde ele se insere.
Musicalmente são soberbos, numa ostentação de talento dos 5 membros, e se a música soa simples, é pela minimalista aproximação que realça a estranha aura do disco, pois as canções e a performance são floreadas e complexas (e que conforme reza a história influenciou gente como os The Beatles ou Eric Clapton).
Cada canção é uma sinfonia em si mesma, combinando o irregular e complexo entrelaçar das três subtis e apaixonadas vozes com instrumentos eléctricos e acústicos, e invocando tempos e espaços espirituais que existem apenas num imaginário distante. Desde a pungente “Tears Of Rage” com a sufocante guitarra, o volátil e inimitável órgão de Garth Hudson, a vaticinante percussão de Levon Helm, e a dolorosamente bela e angustiante voz de Richard Manuel, passando pela forma contundentemente económica de tocar guitarra de Robbie Robertson no requintado solo no final de “Kingdom Come”, pelas vacilantes harmonias vocais de “We Can Talk”, pelo épico poder emocional de “The Weight”, pela coerentemente relatada “Long Black Veil”, que derrota qualquer outra versão, ou pelo incendiário “intro” da oscilante “Chest Fever”.
Este disco fez com que outros músicos tornassem a olhar para as tradições musicais americanas. E provavelmente sem ele não teriamos tido um Bruce Springsteen, um Tom Petty ou uns R.E.M..
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09 abril 2009

Rock # 7 - Girls Against Boys - “Cruise Yourself” (1994 Touch And Go)

Depois de reinterpretarem o “american hardcore” na sua primeira banda, Johnny Temple e Scott McCloud recrutaram o baixista Eli Janney e o baterista Alexis Fleisig com o objectivo de criarem um tipo de música que seria inspirada pelo emergente movimento praticado por editoras como a Wax Trax! e a Some Bizarre. No entanto em vez da aproximação ao “industrial-rock”, optaram por uma sonoridade rock mais estéril, com focagem em ritmos temperados e abruptos e nas conscientemente morais letras de McCloud. Muitos fãs citam o disco de estreia na Touch And Go, “Venus Luxure No1 Baby” como o seu ponto mais alto, mas é “Cruise Yourself” que contém todos os elementos sonoros da banda firmemente no seu lugar. Assim temos “pós-punk”, a dupla tracção dos baixos, batimentos regimentar de bateria e um inteligente uso de “samples”, que resultam em hipnotizantes canções de isolamento e de arrogantes e cínicas homenagens a todas as formas possíveis de comportamentos obscuros e alterados. Desde a curiosamente furtiva, ameaçadora, insidiosa e um tanto inepta “Tucked In”, passando pelas as irresistíveis “Kill The Sexplayer” e “(I) Don’t Got A Place”, apoiadas na incrivelmente electrizante forma de tocar bateria de Fleisig, pelo contraste entre as apáticas guitarras e o ritmo intensamente sensual dos baixos gémeos de “Explicitly Yours”, até à compelível “Glazed Eye” que com o seu deprimido vibrafone e a sombria, melancólica linha de baixo, combinam para um genuíno efeito glacial.
Este disco iria preparar o caminho para “House Of GVSB” e o elegantemente violento “Freak*On*Ica”, trabalhos que iriam firmemente estabelecer o quarteto como um dos mais inovadores do “rock” alternativo americano.
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07 abril 2009

Electronic # 9 - Meat Beat Manifesto – “99%” (1990 Mute)

Frequentemente e erradamente aglomerados no género musical “rock-industrial” pelo facto de alguns dos seus discos terem sido editados na Wax Trax!, os britânicos Meat Beat Manifesto foram um dos mais inventivos praticantes do “sampladelic funk”. O seu líder, Jack Dangers, construía as paisagens sonoras com a clarividência de um profundo conhecedor ou de um mestre arquivista.
Sobre ritmos desordenados mas brutalmente “funky”, Dangers colocava idiossincráticos enfeites sonoros, deformadas texturas de sintetizadores e inteligentes “samples” vocais que serviam de isco para uma viagem neste violento pesadelo urbano, que culminava todas as suas experiências anteriores.
Se “99%” contém uma pletora de memoráveis canções apoiadas em amontoados pedaços retirados do trabalho de outros artistas, por sua vez, os MBM foram “samplados” pelos Chemical Brothers e Future Sound Of London entre outros, e de facto todo o fenómeno “big beat” está em divida aos MBM. Mas tal como disse Flavor Flav dos Public Enemy: “you can’t copyright no beat!”. E ritmicamente e textualmente “99%” é um disco singularmente terrível, que possui uma profunda e misteriosa intensidade, e podemos colocar junto dos melhores dos PE. E poucos artistas podem dizer isso.
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03 abril 2009

Do fundo da prateleira # 15 - Jessamine – “Don't Stay Too Long” (1998 Kranky)

Na altura da sua edição, muitos esperavam que isto nunca acontecesse, a Kranky editar um disco “pop”. Mas no seu terceiro disco de originais, os Jessamine procuraram uma sonoridade mais baseada no formato “canção”, com a baixista Dawn Smithson a assumir um novo papel principal, escrevendo todas as letras e cantando todas as melodias vocais. E o resultado é um perfeito híbrido entre as anteriores excursões instrumentais pelo rock psicadélico e a forma concisa dos seus anteriores singles. E se o anterior disco do grupo (“Another Fictionalized History”) tinha sido uma compilação desses mesmos singles, com o complemento de algumas experimentações cósmicas inéditas, parece que os Jessamine procuraram inspiração no seu próprio catalogo, pois este parece ser uma perfeita combinação das melhores partes dos álbuns prévios.
E se os seus fãs mais “avant-garde” possam ter ficado mais desiludidos com esta viragem musical, os Jessamine seguem uma lógica progressão musical, apesar de a mesma poder conter desvios. A sua marca sonora continua presente – o rodopiante piano eléctrico, as guitarras “drone” cheias de efeitos, os ritmados acordes do baixo e a voz fuliginosa de Smithson por cima – e conserva o ameaçante e amorfo pessimismo do seu homónimo disco de estreia. A única diferença, realmente, é na forma de como as ideias estão agrupadas – em vez das longas e espontâneas “jams”, as canções são concisas comparadas com as dos discos anteriores. Os Jessamine criaram aqui um disco vencedor, cavando uma atmosfera que eleva a tristeza e a monotonia para níveis perigosamente sedutores, e continuaram a transformar-se em uma das mais intrigantes bandas do movimento “pós-rock”.
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28 março 2009

Howling Bells – “Radio Wars” (2009 Independiente)

Este segundo disco do quarteto de Sydney, é uma grande evolução do seu disco de estreia, retendo e remexendo na fórmula que tornou esse disco tão hipnótico e excitante - o delicado balanço entre luz e escuridão - mas incorporando uma maior variedade de sons e estilos. É uma progressão natural do disco de estreia, que agradará aos fãs do disco de estreia e alcançara uma nova audiência. A intenção de mudar é evidente, notando-se uma maior engrenagem na produção e foi visivelmente acrescentada uma camada de brilho, mas a atmosfera de maquinação mantém-se.
Assentes nas distintamente assombrosas e idiossincráticas vocalizações de Juanita Stein (o seu lirismo desenvolveu-se desde o primeiro disco), as composições revelam configurações que seduzem o ouvinte numa calma submissão, pois Juanita exala vida em cada canção, dando-lhes profundidade, significado e beleza.
O resultado final são canções assustadoramente e ameaçadoras deslumbrantes, e verdadeiramente únicas. Começando na cuidadosa e estranguladora “Treasure Hunt”, passando pela hipnotizante e pensativa “Cities Burning Down”, pela apaixonada magnificência de “Nightingale” (simultaneamente taciturna e sedutora), pela brilhante melancolia de “Let’s Be Kids”, até chegarmos ao épico e altaneiro turbilhão de “pop” cinemático presente em “Into The Chaos” e ao notável clímax final no verdadeiro sofrimento da sincera “How Long” (com uma extraordinária e apaixonada vocalização que invoca Hope Sandoval dos Mazzy Star ).
Um disco esplêndido, uma viagem através de inumeráveis e divergentes emoções que nos estimulam e electrizam.
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18 março 2009

Rock # 6 - Dinosaur Jr.- “You’re Living All Over Me” (1987 SST) / “Bug” (1988 SST)

Apesar de nunca terem tido a importância histórica de uns Pixies ou Sonic Youth, ou mesmo de uns Hüsker Dü ou Big Black, foi por aqui, via The Stooges e o “punk-hardcore” que se começou a desenvolver o caminho que iria levar aos Nirvana. É aqui que encontramos as raízes do grunge e do “lo-fi”.
O trio de Amherst composto por J. Mascis, Lou Barlow e Murph, foram uma explosão de energia, resultado da acção combinada entre a vitalidade e a tensão da química interna produzida pelo grupo liderada por J Mascis, um proto-Cobain que escreveu importantes capítulos na história da guitarra eléctrica. Ousadamente tornaram OK criarem “jams” e aplicarem extensos solos no essencialmente leal movimento “punk-indie”, totalmente desprovido de qualquer enfeite musical.
No inigualável “You’re Living All Over Me”, as canções são concisas e sinceras, onde os dotes e a presença de Mascis são colossais, pela intensidade emocional que coloca nos seus solos de guitarra, complementado por um grande trabalho de Barlow no baixo, uma mistura de melodia e distorção.
Brilhante desde o distinto e contagiantemente louco “feedback” de “Little Fury Things”, passando pela segura “The Lung”, pelo agradável “noise” de “Tarpit”, pela forma como as pesadas guitarras de “Raisans” e a insana “Sludgefeast” envenenam o ouvinte com o seu poder, até chegarmos a “Lose” e à assombrosa “Poledo”, ambas escritas por Barlow (cujas sonoridade relembram mais as desenvolvidas posteriormente no seu trabalho com os Sebadoh).
Em “Bug” o som está mais ordenado e estruturado, mas a banda estava prestes a explodir em conflitos internos. No entanto as acções combinadas mantêm-se num nível elevadíssimo, onde a dinâmica “soft/hard” é um padrão que iguala a atitude de Mascis, que alterna entre delicadeza e desejo e um mortal desencantamento, bem reflectida no ocioso e suavemente distorcido “garage.rock” de “Freak Scene” (a “marca registada” era resmungar vagarosamente vocalizações “folk” e rápidos, ásperos “riffs” e depois derramar ardentes solos de guitarra). Destacam-se ainda o dilacerantemente belo solo de “No Bones”, o reprimido “trashing” de “Pond Song” (que relembra Neil Young na fase “Rust Never Sleeps”), a directa “Budge”, e os enormes e patetas “riffs” de “Yeah We Know”.
Dois discos de prazer intenso misturado com sofrimento intenso.
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16 março 2009

Electronic # 8 - Doctor Rockit - “The Music Of Sound” (1996 Clear)

Matt Herbert empreendeu aqui um novo conceito musical, inspirado pelo “techno” mas frequentemente leve como uma pena, inspirado pelo “ambient” mas projectado para focar tanta atenção quanta conseguir produzir. Os seus trilhos rítmicos são trabalhados a partir de bizarras gravações, seja de uma pessoa a correr na praia ou de alguém a comer uma maça. Sinistras matrizes electrónicas são esculpidas, e distanciados arranjos de cordas e vibrafones são ligeiramente introduzidos, aludindo aos filmes de espionagem dos anos 60. Existem ainda faixas que são baseadas em gravações realizadas em meios onde Herbert se movimenta habitualmente, assim há uma ressonância pessoal quando ele próprio surge a tocar piano acompanhado pelas campânulas de uma igreja Italiana; ou a divertir-se com os seus amigos e os seus acordeões nasais num café de Viena. Também esta aqui incluída “A Quiet Week In The House”, uma bela e simples banda-sonora para um filme animado de Jan Svankmeyer.
A primeira metade do disco tem uma consciência mais experimental; a segunda metade assenta em exercícios rítmicos levemente mais fáceis e directos. Sempre muito delicadamente trabalhados, os sons parecem dar impressão de estarem filtrados e despojados, e existe imenso espaço.
Ao juntar citações da cultura popular com referências muito pessoais e uma animada atitude experimental em relação à tecnologia, Herbert criou uma música muito particular que impressiona por ter muito em comum com muitas das correntes artes visuais. Podem rotula-lo de banda-sonora imaginária ou après-techno, se quiserem, para mim, é somente um tipo de arte encantadora.
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13 março 2009

Pop # 5 - Aimee Mann - “Lost In Space” (2002 SuperEgo Records)

Ainda bem que Aimee Mann teve problemas com a editora multinacional onde estava, pois a pressão que esta exerceu sobre Aimee, para que editasse um disco mais comercial, resultou num acordo que lhe deu a sua independência. Essa liberdade fez com que a ex-‘Til Tuesday renascesse e regressasse, já na sua própria editora, mais consistente como compositora e como executante. Primeiro com “Bachelor No.2“ (também um disco notável) e depois com este “Lost In Space”, onde nos oferece mais uma viagem muito pessoal, por um mundo onde as personagens alienadas da sociedade tentam encontrar o seu lugar nesse mundo, muitas vezes com consequências devastadoras.
As letras são incrivelmente mordazes e cheias de significado, onde as forças condutoras são ressentimento, frustração e desespero, resultando num sombrio ambiente que percorre o disco.
A voz profundamente nasal de Mann condiz perfeitamente com as letras causticas, que pronunciam exactamente aquilo em que pensamos, mas que muitas vezes temos dificuldade em expressar.
Aqui existe uma mescla de vários géneros musicais que são elevados para novos patamares, criando uma sonoridade muito própria – distinta, rica e celestial.
Tal como “Yankee Hotel Foxtrot” dos Wilco, não existem aqui “singles” óbvios pois o disco funciona como um todo, no entanto, no entanto neste excelente conjunto de canções, articuladas e inteligentes, destacam-se algumas pela sua perfeição - as àsperas “This Is How It Goes”, “Invisible Ink”, as soberbas “Humpty Dumpty” e “Pavlov’s Bell”, a genial “The Moth”, “Real Bad News” e “Guys Like Me”.
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11 março 2009

Covers # 8


Mais uma ronda à procura de versões, e esta é especialmente dedicada a Lou Reed e os Velvet Underground. Como há tantas versões disponiveis fica desde já prometida uma segunda "edição".
Primeiro os globetrotters musicais DeVotchka:
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Esta versão é deve ser das primeiras que foram realizadas, mas como recentemente é que comprei o disco, ainda me está no ouvido:
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O projecto revivalista "glam" de David Sylvian e Mick Karn, criou esta que é uma que gosto particularmente:


Finalmente para acabar, uma versão radical de uma das canções mais perfeitas
(e mais conhecidas) de Reed.

06 março 2009

Classic # 18 - Love – “Forever Changes” (1967 Elektra)

Um dos mais perfeitos discos alguma vez registados, impressiona-me pelos exuberantes arranjos, pelas estruturas acústicas e pelo tom melancólico. E apesar de parcialmente soar como um produto do seu tempo, o disco é extremamente sofisticado musicalmente. Está repleto de instrumentos, de excelentes sinfónicas orquestrações (por David Angel), de sumptuosas harmonias vocais, de distintas melodias, de uma atmosfera sombria e uma grande produção de Bruce Botnick e Lee. Apesar de baseados em Los Angeles, a sua sonoridade não tinha nada a ver com contemporâneos como The Doors, pois a sua música envolve vários estilos, como “folk” e “jazz” o que a torna difícil de catalogar. Por essa altura Lee tornou-se incrivelmente fatalista, convencido que iria morrer e que este seria o seu último testamento, e sabendo que não conseguia competir com a energia eléctrica do seu amigo Jimi Hendrix, Lee decidiu investir num som mais introspectivo.
Tal como a fantástica capa do disco, é um disco cheio de vida, uma rodopiante colecção de cores, estados de espírito e emoções. E alguém pode duvidar disso depois de ouvir o primeiro tema - “Alone Again Or” – começa com a sua contagiante e serena guitarra acústica para depois inesperadamente surpreender-nos com o majestoso e hábil solo de trompete. E o que parece ser uma canção de amor transforma-se numa noção “hippie” em que o narrador proclama “could be in love with almost everyone”.
Os temas são interpretados de uma forma triste, (a paranóia e a morte misturam com temas mais animados) mas nunca oprimida, e ao longo do disco existe uma vivacidade até nas canções mais delicadas como na visão apocalíptica de “Andmoreagain” ou “The Good Humor Man He Sees Everything Like This”. Mesmo nas canções mais “rock”, na propulsiva “A House In Not A Motel” ou na realista “Live And Let Live” o tom é subjugado e a ira é controlada. As visionárias “Maybe The People Would Be The Times Or Between Clark and Hillsdale” e “You Set The Scene” são autênticos postais da era - o verão do amor, cínico e desesperante, formoso e imponente – onde na última tão bem se reflecte a realidade nos seus momentos de solidão e optimismo existencial.
Arthur Lee é um dos mais sobrestimados compositores de todos os tempos, e esta primeira incarnação dos Love foi a melhor pelo seu incompatível convívio com Bryan Maclean.
Indescritivelmente essencial.
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04 março 2009

The Durutti Column - Discografia Selectiva

“The Return Of The Durutti Column” (1980 Factory)
“LC” (1981 Factory)
“The Guitar And Other Machines” (1987 Factory)
”Vini Reilly” (1989 Factory)

O ironicamente intitulado disco de estreia, resultou de que devido a diversas singulares circunstâncias, Vini Reilly ficou de fazer um álbum sozinho com Martin Hannett. O resultado é um disco muito simples, mas com um grande charme. A forma de tocar levemente relaxada de Reilly isolado em pranto num canto, é suportada apenas pelas extremamente espaçadas sequências rítmicas de Hannett. Este certamente percebeu que “menos é mais”. “Sketch For Winter” e “Collette” são particularmente belas, e onde o doloroso som das guitarras imediatamente induz um sentimento de nostalgia.
O segundo disco dos TDC surgiu em 1980 e o seu título – LC – foi baseado no movimento político italiano “Lotta Continua”. Desta vez Reilly envolveu-se mais na gravação e trouxe o seu colaborador de longa data, Bruce Mitchell, para tocar bateria. Não surpreende que Reilly surja aqui mais confidente, mas ainda existe uma qualidade intimista, tipo “caseira”, parcialmente porque não participam mais nenhuns músicos, parcialmente porque usaram um gravador de quatro pistas TEAC. Reilly invoca emoções dos pedais de efeitos e restante equipamento, e chega a cantar em algumas canções (algo que até os seus maiores apreciadores desaprovam). É certo que as vocalizações são bem misturadas na retaguarda, mas “The Missing Boy” (sobre a morte de Ian Curtis dos Joy Division) é uma canção tão boa, que faz-nos pensar o que aconteceria se ele tivesse convidado alguém para a cantar.
Com “The Guitar And Other Machines” (1988), estavam hesitantes em realizar um disco “pop”, mas a força de carácter de Reilly assegurou que tal não acontecesse. Este disco é fascinante – Reilly aprendeu a trabalhar com sequenciadores, e alargou a palete sonora ao incluir a “viola” de John Metcalfe e a harmónica de Rob Gray. Finalmente encontrou as apropriadas vocalistas em Pol e na chinesa Liu Sola. E até existe um verdadeiro produtor na figura de Stephen Street. Uma canção como “When The World” tem mais estruturas do que era habitual, com paragens, solos rabiscados e inclusive um refrão.
Recuando um pouco da cratera latente do “pop” ”Vini Reilly” de 1989 ainda conta com a participação de Street, mas têm Reilly na co-produção. Aqui adicionou o “sampling” aos seus atributos e vários “samples” vocais estão disseminados pelas canções. A sonoridade é grandiosa e quente de uma forma melancólica, devido principalmente à maior presença da vigorosa guitarra acústica.
Os quatro discos são todos notáveis, e se prefiro “The Guitar And Other Machines, desconfio que é pela tensão existente entre a disciplinada produção de Stephen Street e a auto-indulgência genial de Vini Reilly”.
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27 fevereiro 2009

My Favorites # 14 - The Disposable Heroes Of Hiphoprisy – “Hipocrisy Is The Great Luxury” (1992 4th & Broadway)

Em 1992, os TDHOH editaram um dos mais subestimados discos da década. E eles são tudo menos “disposable”, pois estabeleceram um novo padrão para o rap. Erguendo-se das cinzas dos The Beatnigs, Michael Franti e Rono Tse, criaram um disco histórico numa altura onde a maioria dos “rappers” estavam a promover o “gangsta”, os TDHOH criticavam severamente a América e os seus estabelecidos limites, empreendendo uma campanha global, cheia de inéditos comentários politico e social que rasga até ao núcleo central das modernas injustiças, abordando temas tabus no rap, como a homofobia e os vícios consumistas dos negros, tudo isto através de descrições acutilantes e de um discurso articulado e não dogmático.
Mas classificar este disco como “rap”, é ambíguo, pois os elementos industrias estão bem presentes e relembram as experiências anteriormente abordadas pelos Consolidated e Tackhead – e se os “Inspirators & Conspirators” listados no “booklet” que acompanha o disco incluem Gil Scott-Heron, KRS-One e Public Enemy, também incluem Jello Biafra, Adrian Sherwood e Meat Beat Manifesto – podemos dizer que temos uma fusão, um “industrial rap”, totalmente diferente do que Franti desenvolveu posteriormente no projecto Spearhead.
Os TDOHO atacavam politicamente, emocionalmente e racialmente de uma forma inteligente, onde cada cortante canção é brilhante, entregue pela intensamente hipnotizante e serena voz de Franti sobre contagiantes “beats” e inteligentemente colocados “samples”.
Relatos nada delicados de uma sociedade dominada pela televisão (“Television, The Drug Of The Nation”), de casos violentos de descriminação contra minorias (“Socio Genetic Experiment”), da Guerra do Golfo (“The Winter of The Long Hot Summer”), ou a notável versão de “Califórnia Über Alles” (original dos Dead Kennedys) eram fortes mensagens que nos permitem decidir sobre o tópico politico em discussão pela nossa própria cabeça.
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23 fevereiro 2009

Inovadores # 12 - Silver Apples – “Silver Apples” (1968 Kapp)/ “Contact” (1968 Kapp)

Alan Vega dos Suicide costumava citar o nome dos Silver Apples como a principal influência para as suas estranhas psicoses sonoras. Nada soava como os Silver Apples quando o duo apareceu em 1968. Era uma rígida, embora pulsante e hipnotizante apropriação do “rock” para além dos seus limites. Se bem que o apetite pela experimentação inevitavelmente conduziu muitos grupos a introduzir instrumentos electrónicos, foram os SA, que desde o princípio, ousaram abandonar todos os outros instrumentos para estender e capturar o som do futuro.
Simeon Coxe deixou Nova Orleans com 21 anos para tentar a sua sorte como pintor em Nova Iorque. Mas um encontro casual com o compositor Hal Rodgers, iria mudar o seu rumo. Este mostrou-lhe o “oscillator” que tinha ligado ao seu equipamento “stereo”. Era a primeira vez que Coxe via de perto um instrumento electrónico, e ficou totalmente fascinado pelos sons alienados que produzia. Posteriormente Coxe adquiriu o instrumento, que iria costumizar e que viria a ser a base do futuro som dos Silver Apples.
Antes ainda teve algumas experiências com outros grupos, que se foram distanciando de Coxe pelo facto de este querer introduzir gradualmente mais electrónica, até que um dia ficou sozinho com o baterista Danny Taylor, que tinha tocado com Jimi Hendrix e por isso não era facilmente perturbado por ruídos antinaturais, e ambos decidiram formar os SA.
O seu primeiro disco foi editado por uma pequena editora chamada Kapp em 1968, suportado pela surpreendente capa prateada com o recorte de duas maças a negro. A música era uma unicamente híbrida mistura de dinâmicas “rock” - cortesia da sintonizada bateria de Taylor - de caprichosa electrónica e de poesia fornecida por vários conhecidos da banda. Para o segundo disco tiveram acesso a um estúdio de 24 pistas, com uma mesa de mistura que se parecia com a consola de um avião. Isso seria espelhado em tom de brincadeira na capa do disco, onde aparecem fotografados dentro do “cockpit” de um avião real da Pan Am.
Mas seria também o inicio do fim, a companhia aérea ameaçou avançar com uma acção judicial, a que se seguiu um conflito com o agente da banda relacionado com dividas contraídas, que iria impedi-los de actuar ou gravar, e que eventualmente acabou com a banda.
No final do século passado surgiu um interesse pelo trabalho do grupo através de tributos prestados por gente como Xian Hawkins, Flying Saucer Attack, Third Eye Foundation e Spacemen 3. E chegaram a gravar um disco mediano com Steve Albini, mas é neste dois discos que está um importante capítulo da evolução musical.

19 fevereiro 2009

Brian Eno – Discografia Selectiva

Como complemento a “Another Green World” e “My Life In The Bush Of Ghosts”.

Pop
“Here Come The Warm Jets” (1973)
“Taking Tiger Mountain” (1974)
“Before And After Science” (1977)
O primeiro disco a solo de Eno, “Here Come The Warm Jets” foi editado à trinta e seis anos e ainda hoje soa moderno e surpreendente, com a sua descarada combinação de “glamour”, “pop” clássico e do dramatismo dos Velvet Underground. São pequenas e singulares canções iluminadas por relâmpagos de demência.
“Taking Tiger Mountain” inspirado pela revolucionária opera Chinesa do mesmo nome, vai ainda mais longe e mais misteriosamente na mesma linha.
Em “Before And After Science”, o fértil sentido de fluidez na música de Eno, criou um disco clássico, onde um resplandecente e excepcionalmente invulgar “pop” (“Backwater”, “Kings Lead Hat”) aparece lado a lado com a imponente melancolia de “Julie With…” e “Spider and I”.

Ambient
“Music For Airports” (1978)
“On Land” (1982)
“Thursday Afternoon” (1985)
Tenho a percepção de que “Music For Airports” é um dos mais influentes discos dos últimos 30 anos, se não de sempre. Eno teve a distinta intenção de criar um novo tipo de música, que procuraria produzir atmosferas e texturas, ou se preferirmos “ambientes”, em vez de canções que se podiam assobiar. Ainda hoje soa comoventemente excêntrico.
“On Land” confia ainda menos em ferramentas convencionais, conjura sensações específicas aplicadas numa variedade de texturas sonoras que inclui “samplers” de sapos!
“Thursday Afternoon” foi especialmente desenvolvido para CD e Vídeo, (um peça de 61 minutos para uma instalação de Christine Alcino), e é espantoso.

Experiências instrumentais
“Discreet Music” (1975)
“Music For Films” (1978)
“Apollo: Atmospheres And Soundtracks” (1983)
Deitado na cama, após ter sido atropelado por um táxi, Eno descobriu que um dos canais da sua aparelhagem estava tapado, retribuindo a musica que escutava pouco audível por cima da chuva que cai-a. A semente da música ambiental foi disseminada com “Discreet Music”, uma longa peça título e três variações inspiradas no conhecido “Canon” de Pachelbel.
“Music For Films” é um atractivo pacote de pequenos fragmentos instrumentais que explora toda a extensão musical desde leves camadas ambientais até “funk” oblíquo.
“Apollo” foi produzido para o filme de Al Reinert sobre aterragens na lua e é uma brilhante invocação dessa grandeza que utiliza técnicas tão diversas como ruídos de tractores e reluzentes guitarras dobro.

Colaborações
“No Pussyfooting” (1973) com Robert Fripp
“Evening Star” (1975) com Robert Fripp
As colaborações de Eno são lendárias e aqui estão duas que são mais que pertinentes hoje. Os dois discos com Fripp eram bastantes avançados para o seu tempo – longas explorações instrumentais que eram distintas do rock progressivo da época pelo seu senso de risco e pela existência das fronteiras do conhecimento. Também nunca tivemos títulos como “Swastika Girls” pelos Yes.