30 julho 2010

Classic # 27 - Bauhaus - “In The Flat Field” (1980 4AD)

Sempre odiei o rótulo “gótico”, esse mesmo não fez outra coisa senão prejudicar os Bauhaus, pois para mim eles são tão “rockers” como Elvis Presley.
O seu disco de estreia, “In The Flat Field”, é uma grande obra do melhor “art rock” expressionista.
Provavelmente a banda foi responsável pela criação de um género musical e de um estilo de vida cultural, mas em primeiro lugar, os Bauhaus eram um colectivo de génios criativos. Podem questionar se bandas como The Sisters of Mercy ou mesmo Alien Sex Fiend foram superiores quando se tratava do “rock gótico”, mas nenhuma delas conseguiu executar os inúmeros estilos que os Bauhaus abordaram com perfeição.
“In The Flat Field” contém uma série de pedras angulares do dicionário “rock gótico”, mas simultaneamente oferece um punhado de faixas que mostram como os Bauhaus estavam definitivamente dispostos e aptos para assumir riscos. Hinos fúnebres como “Double Dare” e “Stigmata Martyr” basicamente definiram o modelo de como deveria soar a música gótica, no entanto em faixas como “God In An Alcove” a banda parece dizer “fuck off” ao suposto “público alvo” e a verdadeira capacidade artística é demonstrada em peças experimentais como “Nerves”.
O álbum é muito intenso, não sendo depressivo, é paranóico e recheado de uma negra vida cinética, muito mais do que em qualquer dos outros registos dos Bauhaus. Mas a instrumentação austera e a bela, vacilante e profunda voz de Peter Murphy são o que realmente define o som Bauhaus.
A negra e muscular beleza dos Bauhaus mais do que criar um género, é responsável pelo nascimento de uma subcultura “rock n' roll” obcecada pela morte, que poderia ser simultaneamente assustadora, ritmada e experimental mas sem perder o “focus” na sua visão única.
_

27 julho 2010

Editoras # 7 - 4AD

A história começa em 1972 quando o jovem de 17 anos, Ivo Watts-Russell deixou Northampton para descobrir Londres, e encontrar refugio atrás do balcão da loja de disco Beggars Banquet.
No final dessa década, as consequências do “punk” deixaram muitos excitados com as possibilidades criadas pelo movimento. Ivo foi um deles e ficou tão excitado com as inúmeras “demos” que infestavam a loja (proprietária da editora Beggars Banquet) que solicitou os responsáveis da mesma para criarem uma nova editora. Cansados de tanta insistência, deram-lhe £2000 para começar a sua própria editora, com a premissa de que podiam ficar com os potenciais futuros sucessos. Foi assim que surgiram em 1979, os Shox, Bearz, The Fast Set e Bauhaus, os responsáveis pelos quatro primeiros “singles” da recém formada Axis. Mas um telefonema de outra Axis Records, obrigou-o a renomear o seu projecto para 4AD. Os Bauhaus foram os únicos que se enquadraram no plano original da Beggars Banquet e posteriormente deixariam a editora. Mas entretanto chegaram os Rema-Rema, os Modern English, os Dif Juz, e um bando de australianos chamados The Birthday Party, que permitiram a uma pequena editora dar um grande passo em frente. Estes grupos iriam criar um tipo de padrão sonoro, sombrio e melancólico, que discos subsequentes não iriam eliminar. Mas o que faltava era continuidade, pois os seus artistas eram errantes ou descontentes. Os Bauhaus abandonaram, os Modern English foram despedidos, os Birthday Party acabaram.
Mas as peças começaram a juntar-se novamente a partir de 1982, quando três excêntricos escoceses decidiram reinventar a “pop” com uma surpreendente sonoridade vocal, e assim surgiu “Garlands” pelos Cocteau Twins. Surgem também os The Wolfgang Press, o mutante “disco-noise” dos Colourbox e Vaughan Oliver é recrutado como designer das capas dos discos.
Agora a 4AD tem a possibilidade de longevidade do seu lado, com uma deliciosamente abstracta imagem a unir um conjunto de bandas que iria moldar uma fachada uniforme. Isso seria cimentado pelo colectivo This Mortal Coil, um desejo de Ivo se envolver musicalmente e que virtualmente criou um manisfesto estético para toda a etiqueta. Assim quando os Dead Can Dance e os Xymox surgiram em 1984/85 já o termo “disco 4AD” era um factor diferenciador.
No meio dos anos 80, indiferentes ao movimento das “fuzzy” guitarras indie “C86”, aventuraram-se nas torturas apocalípticas dos A.R.Kane e nas expansões mentais das Le Mystère Des Voix Bulgares. E não podemos esquecer essa bizarra colaboração entre os A.R. Kane e os Colourbox, que resultou em “Pump Up The Volume” dos M/A/R/R/S o primeiro disco que fez os obsessivos questionar: “o que é que isso faz na 4AD?”. Mas o disco seria líder nas tabelas, vendendo dois milhões e meio de cópias por todo o mundo, naturalmente Ivo teve o seu momento corrupto.
Mas o seu consolo estava perto, se bem que do outro lado do Atlântico, ao localizar o caldeirão borbulhante de angústia e raiva das “Throwing Muses e um grupo de Boston notável pelas suas furiosas mudança de tempo, chamado Pixies. Esta dupla iria ter enorme sucesso, e para além de serem as bases futuras das The Breeders e das Belly, e seria responsável pelo despertar de grupos como as Lush e os Pale Saints.
A editora tinha afastado o rótulo etéreo e foi propositadamente procurando “bandas de guitarra”, na busca de uns novos Pixies, facto que se tornou urgente, após o fim da banda, e que se tornaria uma constante nos anos seguintes.
Seriam também bandas americanas a atingir maior sucesso na década de 90, como os Red House Painters, Unrest e His Name is Alive, mas a exploração de novos territórios continuou com a assinatura dos Gus Gus.
Coincidente com os fortes sentimentos da atribulada partida dos Cocteau Twins, praticamente após uma década a trabalharem em conjunto, em 1999 Ivo vende a editora ao Beggars Group, onde ainda hoje se encontra incorporada, mas a editora continuou a manter a sua identidade e selecção de artistas ao manter a ex-Throwing Muses, Kristin Hersh ou as The Breeders, e recrutando novos actos como Blonde Redhead, ScottWalker ou St. Vincent.
_
Cocteau Twins - Crushed
_
Throwing Muses - Colder

21 julho 2010

Rock # 15 - Polvo - “Exploded Drawing” (1996)” (Touch And Go)

O catálogo dos Polvo está bem recheado com discos ousados e tentadores, que literalmente engolem as melodias e os ritmos como é o caso de “Shapes” e “Today’s Active Lifestyles”. Mas pessoalmente o hipnótico e formoso “Exploded Drawing” é o que mais me fascina.
Todas as esculpidas dissonâncias, os calmantes vocais, e os afiados desvios rítmicos que tão bem definem os Polvo e que os tornam tão difíceis de categorizar estão presente aqui mas com uma dose adicional de um purificante turbilhão sónico e estranhas estruturas “pop”.
Anteriores referências comparativas incluem os Sonic Youth, os U.S. Maple ou o ”math-rock”, sendo que esta última referência é uma “etiqueta” extremamente enganadora, uma vez que alude muito mais para o método do que para os resultados e para a própria música – é certamente um sofisticado e matemático “noise-rock”/“indie–rock”, mas onde os resultados desses ritmos complexos e das ortodoxas estruturas de guitarra pertencem a um formato não convencional.
As melodias estão divididas em regimes de tons que nem perecem humanos, e tal como a capa que o seu título evoca “Exploded Drawing”, golpeia as estruturas convencionais, abrindo-as e recombinando-as em novas e intrigantes formas, que nos transportam para outra realidade.
Um soberbo e ambicioso “opus”, de uma das mais inesquecível e originais bandas da década de 90.
_

11 julho 2010

Electronic # 18 - Arthur Russell – “World Of Echo” (1986 Upside/Rough Trade)

Um dos menos “honrados” elos entre o “disco” e o “avant garde”, Arthur Russell, foi um violoncelista cuja ânsia de experimentar foi demasiada para a Manhattan School of Music, pois desde que chegou a Nova Iorque nos meados dos nos 70, para aí estudar, começou a fazer conexões entre os formatos.
O simplesmente espantoso “World Of Echo” (o disco é essencialmente uma exploração do eco nas suas diversas formas) – para violoncelo solo, voz, efeitos e electrónica – encerra em si mesmo muitas das suas ideias para uma música “loose-limbed” (como o próprio a definiu) e que sempre manteve a curiosidade como a sua parte mais central. “World Of Echo” continua a ser um disco extraordinário pelos seus cintilantes, reverberantes, quase tangíveis sons: ritmos “sonar” e melodias derivam através de várias camadas de som e significado, como uma metáfora para o inconsciente.
Apesar de Russell, que faleceu em 1992 vitima de SIDA, ser muitas vezes lembrado apenas pelos seus “singles” “disco” nos Loose Joints e Dinosaur L – “Kiss Me Again”, “Is It All Over My Face”, “Go Bang” – e por ter co-fundado a Sleeping Bag Records, este meditativo, quase melancólico registo, categorizado simplesmente como estranho aquando da sua edição, deve ser reexaminado bem de perto.
_

06 julho 2010

Compilação # 7 - Y Pants – “Y Pants” (1998 Periodic Document)

Barbara Ess tocou com Glenn Branca nos The Static, mas o seu grupo posterior, Y Pants, descolou-se do idealismo “make-it-new” do movimento artístico “no wave”, para se tornarem num dos mais divertidos grupos femininos de sempre.
Baseados em torno do baixo pulsante de Ess, no pequeno teclado Casio de Gail Vachon e na forma brusca e vigorosamente primitiva com que Virginia Piersol tocava a sua bateria de plástico, as Y Pants evitaram a centralidade da guitarra tanto quanto elas poderiam – quando era necessário algo para preencher uma faixa, elas geralmente preferiam o “ukulele”. Elas tinham todas vozes frágeis e límpidas, mas cantavam em simultâneo para se reforçarem umas as outras, e apesar de todo o seu repúdio pela ortodoxia “rock”, elas adoravam o seu ritmo e a sua simplicidade.
Este disco reúne todas as gravações realizadas pela banda: o seu EP de estreia em 1980, uma faixa de uma compilação da Tellus, e o seu único álbum de originais, “Beat It Down” de 1982. E é um belo documento de um momento particular na história da “downtown NYC”, pois para além dos chilreantes e tinidos originais, como o satírico ”Do The Obvious”, estão presentes configurações de Bertold Brecht e Emily Dickinson, e uma versão imortal do clássico “That’s The Way Boys Are” de Lesley Gore, abrandada como para um canto fúnebre e cantada “acappella” com um grito ouvido vagamente na retaguarda.
_

03 julho 2010

Singles # 24 - Beck – “Loser” (1993/4 Bong Load/Geffen)

Em 1992, Beck Hansen vivia em Los Angeles e ocasionalmente tocava num pequeno espaço chamado Jabberjaw. Os seus contactos nesse espaço levaram à sua apresentação a um produtor local chamado Karl Stephenson – o cérebro por detrás do projecto “art-pop” Forest For The Trees.
A dupla, juntamente com um amigo em comum, resolveu reuniu-se em casa de Stephenson, onde Beck tocou algumas das suas canções, mas nada de produtivo surgiu, e Stephenson, inclusive, parecia terrivelmente entediado. Numa altura em que Beck começou a tocar um “riff” de guitarra “slide”, os outros saíram para comer uma pizza, e deixaram a “tape” a rolar, Beck escreveu a letra enquanto eles estavam ausentes e posteriormente gravaram a canção, tendo Stephenson adicionado um “drum beat”. Tudo foi feito num par de horas, e quando Beck saiu, já se tinha esquecido completamente da canção.
Nove meses depois a Bong Load Records emitiu 500 cópias da mesma. Rapidamente cópias gravadas começaram a circular pelas rádios americanas e na Primavera de 1994, “Loser” tornou-se um “hit single”, tendo Beck assinado com a Geffen. O “timing”, fortuitamente foi brilhante: com a obsessão dos “media” pela geração “slacker” num pico absoluto, uma canção a conter um refrão destes, era referência obrigatória para chocar a consciência americana.
E se tudo isto ameaçou Beck de se tornar um “one-hit wonder”, a sua carreira posterior não deixa dúvidas sobre esse facto.
_

28 junho 2010

Covers # 13

Mais uma ronda pela prateleira com o objectivo de seleccionar algumas versões que particularmente aprecio.


Este é uma excelente interpretação para um grande clássico intemporal.

Death Cab For Cutie - This Charming Man (The Smiths)


Ainda me lembra do filme que incluia esta na sua banda-sonoro. Curiosamente Ray Manzarek foi o produtor.

Echo And The Bunnymen - People Are Strange (The Doors)


Um grupo que merecia muito mais atenção do que a recebeu, mas que terá sempre um carinho especial cá por casa.

Shop Assistants - She Said (The Beatles)

E aqui está uma boa razão para ainda comprar "singles".

25 junho 2010

Inovadores # 17 - Ash Ra Tempel - “Join Inn” (1973 Ohr)

Os Ash Ra Tempel fundiram um denso psicadelismo com sobrecargas de electrónica e no processo tornaram-se pioneiros do movimento “space-rock” alemão. Formados em 1970 pelo guitarrista Manuel Göttsching, pelo baixista Hartmut Enke e pelo também elemento dos Tangerine Dream, Klaus Schulze, gravaram uma série de extraordinários e resplandecentes discos durante a primeira metade da década de 70. Discos como “Schwingungen”, “Seven Up”, “Join Inn”, e o seu disco homónimo de estreia são de audição obrigatória para quem estiver interessado na história da “kosmische musik”. E apesar de com o passar dos anos se terem afastado das sonoridades “acid-rock” para terrenos mais diversos, como uma primária electrónica, e de serem popularmente perceptíveis como o arquétipo trio “freeform” dos “krautrock”, Göttsching, Enke e Schulze produziram alguma da mais potente exploração do período.
O muitas vezes menosprezado “Join Inn”, é constituído apenas por dois longos temas instrumentais (e aproxima-se mais do seu disco de estreia), e foi o último capítulo quer para Schulze (que abandonou para prosseguir uma carreira a solo) quer para Enke (que abandonou totalmente a realidade consensual, ao ser vitima de uma doença mental) nos Ash Ra Tempel.
“Freak’n’Roll” é uma apelante viagem espacial desfigurada pela confiante progressão “blues” de Göttsching (aqui em grande forma), uma sua nova predilecção que surgiu e alterou o disco anterior dos Ash Ra Tempel – o ultrajante “Seven Up”. Reciprocamente, o outro tema, “Jenseits” é um ditoso épico cósmico com alongados diáfanos de guitarra trémula em modo elusivo que coagulam as progressões pendulares do baixo de Enke, enquanto diversas tonalidades sonoras provenientes do sintetizador de Schulze flutuam. Simplesmente encantador.
_

22 junho 2010

Extremos # 8 - Gastr Del Sol – “Upgrade & Afterlife” (1996 Drag City)

Os Gastr Del Sol começaram como um projecto paralelo do vocalista/guitarrista dos Bastro, David Grubbs, e ao longo dos seis anos em que existiram como banda, sempre desenvolveram inúmero conteúdos musicais, sem nunca se tornarem previsíveis.
No elegante “Upgrade & Afterlife”, o segundo disco onde predominou a parceria entre Grubbs e Jim O’Rourke, o talentoso duo trabalhou com o percussionista dos Tortoise, John McEntire e o violinista Tony Conrad, entre outros convidados para compor “rock”, música electro-acústica, poesia, dedilhações de guitarra acústica (incluindo uma versão de “Dry Bones In The Valley”, original de John Fahey) e composições minimalistas em algo espaço e hipnótico, que, de acordo com o que Grubbs na altura disse de forma sarcástica, serviu como uma “janela” para os interesses colectivos que tinham no momento. Superficial, talvez, mas certamente que muito mais se estava a passar, e assim tornou as possíveis interpretações infinitas.
O posterior “Camofleur” é amplamente considerado, pela comunidade “indie”, como sendo o melhor disco deles, essencialmente pelo facto de possuir composições mais estruturadas e ter menos experimentação, mas pessoalmente considero o absolutamente formoso e extremamente comovente “Upgrade & Afterlife” como um notável e evocativo trabalho de génio e que mostra realmente Grubbs e O’Rourke no seu auge.
_

18 junho 2010

Rock # 14 - Elastica – “Elastica” (1995 Deceptive)

Ao abrir uma porta através da qual inúmeras bandas alternativas lideradas por mulheres não hesitaram em transpor, o disco homónimo de estreia das Elastica, também surgiu de um vácuo auto-imposto que as próprias seriam tolas em não quebrar. O disco apresentava canções curtas, afiadas e chocantes que eram tão breves como as melhores dos Ramones, e notoriamente instáveis como as primeiras dos Wire. E se essa última homenagem especial foi perdida quer nos advogados (os Wire queixaram-se da apropriação rítmica de “I Am The Fly” para “Line Up”), quer nos críticos, bandas como as Sleeper e as Echobelly (somente citando as que mais se destacaram), teriam sido muito mais puras sem a influência de canções como “Connection”, “Stutter”, “Line Up”, “Waking Up”, “Hold Me Now”, “Annie”, “Car Song”, “Vaseline” ou “2:1”.
“We’re crap at writing middle eights, and i get really bored when songs are longer than three minutes”, esta foi a única defesa a seu favor por parte da vocalista/guitarrista Justine Frischmann. As suas canções eram tão acentuadas e tão resolutas que rapidamente as Elastica foram absorvidas indiferentemente pelo “mainstream”. O seu segundo álbum não conseguiu acompanhar as expectativas que se criaram com a admirável estreia. Mas na sua rota para o esquecimento, elas ressuscitaram e reinventaram o minimalismo para uma geração sinfónica.
_

15 junho 2010

The Black Keys – “Brothers” (2010 V2)

Depois de terem trabalho com o produtor Danger Mouse no seu último disco, o duo de Ohio - Dan Auerbach e Patrick Carney – aventuraram-se corajosamente no legendário estúdio Muscle Shoals em Alabama, e se ao longo dos anos, eles sempre procuraram novas formas de actualizar o seu indistinto “roadhouse-blues”, e sempre tentaram diferenciar cada álbum do anterior, “Brothers” é mais um bom exemplo desses pressupostos, pois é uma totalmente comprometida, feroz e emotiva exploração do “blues” contemporâneo, repleto de “old school rock”, e cheio de detalhes intrigantes e imaginação.
E se o excitável e cintilantemente “funky” “Tighten Up” é um dos grandes temas do disco, é também a única produção de Danger Mouse no mesmo, pois uma das mais-valias do álbum é o estilo de produção simples (eles parecem ter aprendido isso com Danger Mouse, juntamente com a introdução de novos elementos sonoros) e são os precisos instintos de Auerbach e Carney, que aliados à excepcional capacidade de composição, fazem com que os grosseiros “blues rockers” e os crus “soul grooves” sejam apresentados através de esqueléticas misturas que permitem aos instrumentos e às vocalizações espalharem-se.
Através da intensidade torcida e do trémulo “falsetto” de “Everlasting Light”, do “riff” “heavy rock” de “Next Girl”, do agitado “Howlin’ For You”, do rodopiante orgão de “The Only One”, do “vintage” “r&b” de “Too Afraid To Love You”, da fumegante guitarra de “Ten Cent Pistol”, do rastejar lento de “Unknown Brother”, da respeitosa versão de “Never Gonna Give You Up”, ou do encantador e subjugado “These Days”, “Brothers” é um agradável, diversificado e inteligente estudo de géneros que combina perspectivas clássicas e contemporâneas do “blues”, “rock”, “soul” e “r&b”.
_

12 junho 2010

Electronic # 17 - Dntel – “Life Is Full Of Possibilities” (2001 Plug Research)

Os discos anteriores do projecto de Jimmy Tamborello dos Figurine estavam mais alinhados com o IDM praticado por experimentalistas com Fennesz ou Oval. Mas aqui ele resolveu sair das gélidas sombras do “glitch” e separar-se dos inúmeros “bedroom programmers” e apimentar a sua electrónica ao fundi-la com elementos do mais irregular” indie-pop” - incluindo o recrutamento de alguns vocalistas da elite “indie” como Ben Gibbard dos Death Cab For Cutie, Mia Doi Todd ou Chris Gunst dos Beachwood Sparks – explorando no processo todas as suas incomparáveis e infinitas possibilidades.
Assim magníficos instrumentais são intercambiados com canções onde Tamborello manipula os convidados vocais como se fossem “samples” para criar delicados e intimistas ambientes. O disco demonstra a incrível capacidade de Tamborello para elaborar intricadamente acessíveis e credíveis canções “pop” a partir das mais abstractas formas da música electrónica, pois poucos “músicos electrónicos” chegam perto da robustez de composição contida neste delicadamente produzido disco.
Sejam os encharcados efeitos digitais de “Umbrella”, o assombroso “Anywhere Anyone”, com Mia Doi Todd a cantar tristemente sobre uma mix de sintetizadores invertidos e “glockenspiels” a pingar em reverberação, a escuridão confusa de “Fear of Corners”, o ambiente flutuante de “Pillowcase”, a maravilhosa tristeza de “Why I’m So Unhappy” ou a excelente melodia de “The Dream of Evan and Chan” que acendeu a parceria musical com Ben Gibbard e que resultaria no sucesso dos The Postal Service.
Um disco precioso e negligenciado que merece o seu muito legitimo lugar como uma das mais inventivas e deslumbrantes peças da moderna música electrónica.
_

07 junho 2010

Do fundo da prateleira # 24 - The For Carnation - “The For Carnation” (2000 Touch And Go)

Este projecto do ex-Squirrel Bait e ex-Slint, Brian McMahan ajudado por músicos rotativos, criou uma música minimalista, comoventemente tímida e requintadamente bonita
Muito menos catárticos do que os Slint, os The For Carnation não eram menos sombrios e claustrofóbicos, assim aqui são várias as semelhanças com o lendário "Spiderland", pois os ritmos fatiados ainda lá estão, mas neste registo gravado durante três anos e que inclui seis canções gravadas em seis diferentes estúdios de gravação, surgem muito mais enraizados no “blues”, sendo posteriormente fracturados através de uma prisma sonoro.
As músicas não possuem uma estrutura convencional, no entanto, o estilo musical é muito mais contido. Todos os temas são movidos por lânguidas e sinuosas linhas de baixo, com uma percussão minimal, acrescidas de florescentes arranjos de cordas e rajadas de guitarras distorcidas, que acompanham o estilo vocal de McMahan - uma assustadora narrativa meio-falada – que se assemelha à fala mansa de uma predador que sussurra para a sua preza. Isto tudo resulta numa música lentamente e cuidadosamente confeccionada, mas maravilhosamente atmosférica e sombria, tão sufocante e poderosa, que ao entrar em qualquer “lugar”, preenche-o, não deixando espaço para o ar circular. Soa hiperbólico, mas o efeito é palpável.
Existem no entanto algumas tréguas e as texturas ambientais de “Moonbeam” e “Emp. Man’s Blues” com as suas rastejantes vagas de sintetizador e vibrações “low end”, aliviam a tensão, mas por outro lado e subjacentes a elas, são construídas as fundações da paranóia. Pois McMahan é paranóico em nunca aumentar o volume externo, excepto para alguns gemidos dos seus apoiantes, de forma de que o seu sussurro sufocante, sustente toda a tensão a um nível incrivelmente baixo.
“The For Carnation” é uma surpreendente e digna viagem através das paisagens sonoras e das profundezas do inconsciente.
_

02 junho 2010

In the Beginning # 4 - Spiritualized – “Lazer Guided Melodies” (1992 Dedicated)

Após o término dos seminais Spacemen 3, o obscuro “rocker” Jason Pierce avançou em frente com o projecto Spiritualized, cujo brilhante disco de estreia “Lazer Guided Melodies” provou que as espirais hipnóticas de “noise” nem sempre levam os ouvintes à catatonia. “Lazer Guided Melodies” é por muitos considerado como música evangélica para aqueles que adoram o altar dos “estados mentais alterados”, mas nunca soa ocioso ou lento na sua tentativa de levar o ouvinte a lugares muito mais elevados.
A dramática voz de Pierce, planeia sobre as alegóricas e felpudas paisagens sonoras que se dilatam com um requinte “art-rock” e uma ousadia “arena-rock”, mas que se recusam a derivar sem objectivo para um qualquer buraco negro que possa sugar toda a paixão evidenciada como acontece com outros similares grupos do denominado “space-rock”. Este disco atinge patamares verdadeiramente poderosos, que seriam posteriormente reflectidos em “Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space”, mas que para muitos, nunca soaram tão perfeitos e brilhantes como aqui, com uma radiância tumultuada, num plano superior de existência.
Em ultima análise, a capacidade dos Spiritualized para estabilizar a sua orbita é resultado da forma como as sublimes melodias encaixam perfeitamente dentro das primorosamente trabalhas outras camadas sonoras que são construídas ao longo de cada canção no impecável “Lazer Guided Melodies” (seja a beleza cintilante de “You Know It’s True”, o “uptempo” exagerado de “Run” e “Angel Sigh”, a sensação hipnotizante de “Shine A Light” ou os oscilantes e espaçados “Step Into The Breeze”, “Symphony Space” e “Sway”) - um original casamento do natural com o sobrenatural que faz com que flutuar no espaço pareça uma actividade perfeitamente normal.
_
Spiritualized - Shine A Light

28 maio 2010

Singles # 23 - Suede – “The Drowners” (1992 Nude)

Como declaração de intenção, “The Drowners” pode ser questionável. Combinando a encardida profanidade de uns The Smiths com o acanhado histrionismo do melhor “glam”, o “single” de estreia dos Suede teve um impacto absolutamente intencional. Muito disso deveu-se às brutalmente excelentes linhas de guitarra do jovem Bernard Butler. Mas as letras também foram “construídas” com o propósito de chamar a atenção de quantos mais possíveis, em conformidade com a confessas intenções de Brett Anderson de fazer canções “rock” menos abertamente heterossexuais. Assim esta pode ser visualizada de duas perspectivas diferentes: a do sexo feminino a falar do seu amante, e a ideia de incesto homossexual que transparece do primeiro verso. Essencialmente aqui retratam-se duas pessoas que estão drogadas no sexo e na paixão, em intensas emoções humanas.
Através da reapropriação dos clássicos com uma abrasadora auto-confiança e investindo em cada segundo uma sexualidade ameaçadora, “The Drowners” respectivamente prefigurou os Blur, os Oasis e os Pulp no assalto ao “Britpop”, e apesar de apenas ter atingido o número 49 em Maio de 1992, mudou a forma como as bandas britânicas abordavam o “pop”, sugerindo que os anos 90 poderiam ser uma década musical tão vibrante como qualquer outra.
_

26 maio 2010

Pop # 13 - Beulah - “Yoko” (2003 Fargo)

O quarto disco dos Beulah é um épico “indie-rock” apaixonadamente ecléctico.
Produzido pelo experiente Roger Moutenot (conhecido pela sua longa colaboração com os Yo La Tengo), e em comparação com os registos anteriores revela uma maior profundeza de detalhes e será provavelmente o mais sombrio e melancólico. Pois o que poderia ser um consciente passo para longe das harmonias solarentas dos discos anteriores, não é mais do que o relato dos problemas conjugais que abalaram a banda antes da gravação do disco, evidente nas letras muito mais directas e mais maduras, marcadas pela tristeza, que parecem distanciadas das presentes nos discos anteriores, e que lhes dá uma ligação mais emocional, mais ainda assim mantendo o som “indie-rock” intacto.
Assim e tal como o sinistro titulo do álbum - que certamente poderá ter algo a ver com o seu homónimo de desagradável destruidor de bandas – estamos na presença de uma bela colecção de elegias a amores falhados, que abordam a amargura, a raiva, a reflexão, o perdão das mesmas, e onde as emoções são exploradas de uma forma real, sem nenhum traço de auto-piedade. O espectro “pop-rock” é amplo, e contempla o bonito apogeu de “A Man Like Me”, o “garage-pop” de “Landslide Baby”, a deprimente e lamentosa, “You’re Only King Once”, a deliciosamente discordante “Me and Jesus Don’t Talk Anymore”, a sincera “Don’t Forget To Breathe” ou a épica “Wipe Those Prints and Run”.
Impressionante a vários níveis, é uma receita sónica de “rock’n’roll” entregue com inteligência e sagacidade. E se nos anteriores registos as referências musicais eram os Beatles e os Big Star, agora são mais facilmente identificados com os Wilco de “Summerteeth” e “Yankee Hotel Foxtrot”.
_

21 maio 2010

Do fundo da prateleira # 23 - The Nectarine No. 9 – “Received Transgressed & Transmitted” (2001 Beggars Banquet)

Davey Henderson pode nunca ter escrito uma canção “pop” ambiguamente simples – nem mesmo nos WIN, a sua ostensiva tentativa de seduzir o “mainstream”, ele se mostrou incompreensivelmente ambicioso para os gosto das massas - mas o ex-Fire Engines também não é um incorrigível vanguardista.
Este disco é uma imprecisa delícia, do eternamente desvalorizado colectivo formado pelo famoso erudito do “post-punk” de Edimburgo. Cada álbum dos Nectarine No.9 centra-se na capacidade alquímica que Henderson tem em encontrar beleza no caos, enquadrando no processo um bizarro círculo que agrupa Captain Beefheart, Marc Bolan e Charles Bukowski.
“Received Transgressed & Transmitted” evidencia que essa capacidade para encontrar a mais doce melodia através das colagens sonoras do seu grupo só tem melhorado com a idade.
Aqui a formação de três vertentes de guitarra dos Nectarine No.9 é aumentada com a presença do clarinete de Gareth Sager (ex-The Pop Group ) e camadas de desarticulações electrónicas. Considerando que todos exceptuando Henderson e o guitarrista Simon Smeeton vivem em diferentes partes do Reino Unido, a empatia que o grupo demonstra em “Pocket Rainbows” (uma excêntrica abordagem ao “reggae”), na relaxante melodia e no puro prazer de “Constellation of A Vanity” e na beatifica felicidade de “Lazy Crystal” é verdadeiramente notável.
Daqui por 20 anos provavelmente poderão ser tão legendários como os Velvet Underground. Mas é claro que podemos usufruir do prazer já hoje.
_

18 maio 2010

In the Beginning # 3 - Mercury Rev – “Yerself Is Steam” (1991Mint Films)

O “rock’n’roll” tinha uns decrépitos 35 anos quando os Mercury Rev o alimentaram com um comprimido de nitroglicerina – o seu alienado álbum de estreia – em 1991. Apesar de não ser verdadeiramente inovador, “Yerself Is Steam” realmente estendeu todas as fronteiras da ousadia ao reinventar o “rock psicadélico” tão elegantemente que pareceu que o género passou por uma segundo e superior nascimento.
Ao longo das suas oito faixas, o caos e a beleza são superiormente conjugados como figuras do Kama Sutra e as amaldiçoadamente cativantes e estruturadas “canções” de alguma forma resistiram aos ciclones de guitarras, baixo, bateria, flauta e às vocalizações radicalmente desprendidas, do na altura, vocalista David Baker.
Liderados pelos erraticamente brilhantes guitarristas/compositores Grasshopper e Jonathan Donahue, os Mercury Rev conseguiram forjar “prog-psych” à escala de Wagner (“Sweet Oddysee Of A Cancer Cell t’th’ Center of Yer Heart”), conjurar novas tonalidades de guitarras e flautas mentalmente desafiadoras (“Chasing A Bee”), criar virtuais alucinações a partir de nebulosas camadas de guitarras eléctricas e acústicas (“Frittering”), ou electrocutar o nosso sistema nervoso com um “rock” anfetaminico (“Coney Island Cyclone”, Syringe Mouth”). Alguns fãs podem considerar muitos dos discos posteriores mais consistentes, mas os extremos de “Yerself Is Steam” ainda tem de ser superados no cânone deste sub-apreciado tesouro americano.
_

14 maio 2010

The Besnard Lakes - “The Besnard Lakes Are the Roaring Night” (2010 Jagjaguwar)

Os canhões, o fogo e o céu vermelho presentes na capa do terceiro disco do grupo de Montreal são um claro indicador do que se encontra no seu interior.
Mais ritmado e imediato do que o anterior “The Besnard Lakes Are a Dark Horse”, onde tinham brilhantemente estabelecido a ambiciosa combinação entre “pop” orquestral e “guitar-heavy rock” (e que muitos mais milhares de grupos também tentaram sem sucesso fazer), aqui a mistura desses aparentemente incompatíveis estilos é ainda mais transparente e refinada.
Além disso eles realmente parecem ter retirado os seus fundamentos de bases mais distantes, e o seu majestosamente intenso “rock psicadélico” carregado de reverberação é bem alimentado por guitarras que sugerem influências tão díspares como Hawkwind ou Godspeed You! Black Emperor, mas também revelam uma real leveza de carácter.
O álbum é cintilantemente lúcido, demonstrando que eles obviamente estão no seu elemento, e tal como os discos anteriores, é um registo que funciona como um todo e que garante uma plena e ininterrupta audição do início ao fim, pela forma como as canções se fundem maravilhosamente nos seus ambientes circundantes.
Assim o voluptuoso épico “Like The Ocean, Like The Innocent, part II - The Innocent”, é edificado de uma forma que eleva a guitarra psicadélica e as maravilhosamente atmosféricas harmonias (aqui denota-se uma inspiração de Neil Young), a beleza etérea de “Chicago Train”, começa com as perfeitas harmonias bem ao estilo The Beach Boys por cima de um delicado sintetizador até que por volta do meio da música esta muda bruscamente para uma engrenagem em crescendo de reverberação e volutas vocalizações, o brilhante “Albatross” combina a deslumbrante voz de Olga Goreas com enormes “drones” de guitarra como pano de fundo, invadindo o território “shoegazing”, e a cintilante “Land Of Living Skies” contrasta as grandes camadas de ondulantes guitarras com as vocalizações espectrais.
Quase que posso garantir que não irá fazer o mesmo ruído que “…Are a Dark Horse”, mas estamos na presença de um álbum definitivamente forte e mais inequívoco que o anterior.
_

11 maio 2010

My Favorites # 20 - The Angels of Light – “Everything Is Good Here/Please Come Home” (2003 Young God)

Ao terceiro disco do seu projecto The Angels of Light, e mais uma vez após as experiências com World of Skin/ Skin e The Body Lovers, Michael Gira continua na tentativa de exorcização da tensão criada pelo seu primeiro grupo - Swans - agora que se reinventou como um “shaman” que procura no misticismo e na religião a sua fonte de inspiração.
Apesar de muitas vezes ser inferiormente comparado com os dois registos anteriores do projecto, essencialmente por apresentar um mais variado conjunto de músicas e ser muito menos sufocante do que os referidos discos, aqui as canções conseguem atingir um efeito misterioso e fascinante. As palavras, como sempre, parte fundamental da essência dos The Angels of Light, são acentuadas pelo pulsar da contagiante música e da sua complexa instrumentação.
Está recheado de pequenas histórias tristes, que assentam no contraste que resulta da combinação entre o sombrio e a luz, e ao serem relatadas na voz de Gira, obtêm o efeito de controlo e comando de um capaz líder de um obscuro culto (aqui adjuvado por Devendra Banhart, Siobhan Duffy e o coro infantil de Stratford-Upon Avon). O resultado é deslumbrante pela forma como sugere dor, tensão, escuridão, e até mesmo redenção simultaneamente.
Destacam-se a lúdica, quase infantil melodia da mística “Palisades”, a primitiva, dissonante e obsessiva “All Souls’ Rising”, o sónico esplendor de “Kosinski” com os seus arranjos hipnóticos, a complexa e deprimente “The Family God”, a delicada “What You Were”, a contagiantemente alegre “Sunset Park” com a sua rica textura de vozes a interagir, e a melodiosamente triste “What Will Come” com a sua atmosférica instrumentação.
_

09 maio 2010

Rock # 13 - Swervedriver – “Mezcal Head” (1993 Creation)

Desconcertantemente aglomerados no movimento “shoegaze” do início dos anos 90, quando a sua brilhantemente explosiva abordagem do “guitar rock” americano era muito mais sangrenta, este quarteto de Oxford misturou os Sonic Youth com os “grooves” de uns Crazy Horse e hectares de vagas "low-end".
Este disco foi a sua obra-prima - mais brilhante do que a estreia “Raise”, mais atrevido do que o irónico “psych-pop” de “Ejector Seat Reservation” - e baseado na teoria de que a única coisa melhor do que guitarras são mais guitarras. No disco estão em grande forma, eles possuíam uma impressionante capacidade para envolver melodias memoráveis em torno de camadas de guitarras para criar músicas realmente inspiradoras. A atenção dada às melodias é o que define este registo e o separa do género “shoegaze”, o verdadeiramente incrível “noise” não é projectado para ofender, mas para estimular e elevar.
Cada canção é um “road movie”, com o vocalista-guitarrista Adam Franklin como o exausto protagonista, e uma quinta velocidade sempre pronta para engrenar - desde o provocador intro de “From Seeking Heat”, passando pelas carregadas guitarras de “Duel” que rompem alegremente num brilhante pôr do sol, pelos crepitantes “riffs” do incendiário “Blowin’ Cool”, pelas ondulantes guitarras de “Last Train To Satansville”, até ao fantasista “Duress”, – Mezcal Head” merece um estatuto de inovador. Mas numa altura em que o “indie-rock” britânico estava a encaminhar-se para as drogas halucinogénicas, os Swervedriver atingiram um fosso.
Ao contrário dos seus companheiros na Creation, My Bloody Valentine ou The House Of Love, nunca receberam o apoio popular que a sua música merecia. Difícil de classificar, “Mezcal Head” permanece com um clássico do “rock alternativo” dos anos 90.
_

05 maio 2010

The 90's Tendencies

Ainda a propósito do post anterior e do seu impacto, e outro colocado no sempre excelente April Skies, resolvi efectuar um "rewind" sobre uma das mais interessantes facetas da imprensa musical, e em especial da britânica, que é a necessidade que sentem em rotular os vários géneros musicais.
Definitivamente os anos 90 foram dominados por três grandes movimentos: Grunge, New Glam e Brit-Rock
Existiram vários que não tiveram a mesma exposição, mas alguns deles foram extremamente influentes em gerações futuras (Shoegazing) e outros apesar de efémeros, ainda nos presentearam com algumas bandas muito interessantes.
Foi ver à prateleira, e diverti-me a tentar recuperar alguns deles e seleccionei estes:

Techno-Rock (1990) – Jesus Jones, Pop Will Eat Itself, EMF

Shoegazing (1990-91) – Slowdive, Chapterhouse, Lush

Fraggle/Grebo (1991) – Wonderstuff, Ned’s Atomic Dustbin

Agit-Rap (1993) – Credit To The Nation, Senser, Chumbawamba

New Wave of New Wave (1994) - These Animals Men, Mantaray, SMASH

Skunk Rock (1997) – Lo-Fidelity Allstars, Regular Fries, Delakota,

Big Beat (1998) – Fatboy Slim, Dub Pistols, editoras Wall Of Sound/Skint
_
_
_
_

03 maio 2010

Singles # 22 - Nirvana - “Smells Like Teen Spirit” (1991 Geffen)

Quando os Nirvana começaram a gravação de “Nevermind”, em Maio de 1991, reforçados com um novo brilhante baterista e um acordo com a Geffen, eles eram a banda de Seattle com maior probabilidade de obter sucesso. E o que “sucesso” significa neste contexto era repetir o êxito dos Sonic Youth, que tinham conseguido atingir o Top 100 de álbuns nos Estados Unidos, com o seu último disco.
Apenas algumas semanas antes, Kurt Cobain tinha apresentado à banda um novo “riff”, com o qual eles experimentaram vários acordes durante uma hora, até atingirem a canção que ele intitulou “Smells Like Teen Spirit”. Ele tomou consciência dessas palavras após uma noite passada a pintar slogans revolucionários com spray pelas ruas de Olympia na companhia de Kathleen Hanna das “riot grrrls” Bikini Kill. No regresso a casa, e no meio de uma conversa sobre a insurreição juvenil, Hanna disse: “Kurt smells like teen spirit”. Kurt tomou a frase em consideração, sem imaginar que referenciava uma marca de desodorizante.
As letras podiam ser obscuras e semi-improvisadas, mas ainda referenciavam os padrões da geração X: o sarcástico cinismo e o violento niilismo. E desde o seu lançamento em Setembro de 1991, “Smells Like Teen Spirit”, obteve um sucesso comercial sem precedentes, conseguindo unir a juventude americana como nada há vários anos, e permitindo aos “media” focarem-se em Kurt como um ícone para uma geração indolente.
Naturalmente, o próprio Kurt foi extremamente ambivalente em relação ao sucesso da canção (e a sua extrema exposição na MTV), tendo posteriormente intercalá-la nas actuações ao vivo com o “hit” dos Boston, “More Than A Feeling”, a canção que a imprensa “mainstream” acreditava que mais se assemelhava. Ironicamente a banda quase que inicialmente tinha descartado a canção, pois achavam que poderiam ser acusados de ter copiado os Pixies. Isso, acabaria por tornar o menor dos seus problemas.
_
Nirvana - Smells Like Teen Spirit

30 abril 2010

The Album Leaf - “A Chorus of Storytellers” (2010 Sub Pop)

Os calmantes “drones” electrónicos e as suaves melodias que podemos esperar de um disco dos The Album Leaf continuam presentes neste último registo, mas agora e através da utilização de uma verdadeira banda, Jimmy LaValle foi capaz de expandir a sua sonoridade com resultados extremamente gratificantes.
Assim, e ao invés da utilização de “overdubs” das suas próprias performances, cada faixa apresenta o tipo de vibração resultante das colaborações, uma mais impulsiva criatividade que respira vida nas mini obra-primas de lenta combustão.
Existe aqui muito mais paixão e imaginação e uma real consistência. Certamente o facto de terem passado algum tempo com os Sigur Rós, quer na estrada, quer em estúdio, foi responsável por nutrir aos The Album Leaf um “upgrade” na sonoridade “lo-fi” para um som épico. O disco foi gravado em Seattle mas foi remisturado na Islândia por Jón Birgisson e parece beneficiar nesse sentido.
Desolado mas ainda assim reconfortante, inclui o tipo malabarismos de géneros e uma serenidade que é ao mesmo tempo totalmente audível e irresistivelmente atraente.
E sendo verdade que o disco possui uma decente quantidade de contribuições vocais – com destaque para a presença de Pall Jenkins dos Black Heart Procession – ainda são as deslumbrantes melodias e as sonoridades estratificadas que falam mais alto.
Destacam-se a melodia hipnótica de “There Is A Wind”, a “glitch no entanto serena “Within Dreams”, as delicadas sensibilidades “pop” de “Falling From The Sun”, o grande instrumental “Stand Still”, e a glacial no entanto calorosa “Summer Fog”.
Esta nova ambição que encontramos em “A Chorus of Storytellers”, terá levado os The Album Leaf possivelmente à sua melhor execução, mas a sua gentileza e decoro são tão consistentes que este é um disco que procura e requer o máximo de atenção.
_

27 abril 2010

In the Beginning # 2 - My Bloody Valentine - “Isn’t Anything” (1988 Creation)

Após a regulamentação da pureza “indie-pop” nos EP’s “Strawberry Wine” e “Ecstasy” (ambos de 1987), “Isn’t Anything” foi comprovadamente pós- lapsariano. A transformação dos MBV de pretendentes ao espectro sonoro dos The Jesus and Mary Chain, para aventureiros sónicos ainda hoje é de difícil crédito. Só mesmo a audição do tenso holocausto que foi o EP “You Made Me Realise” e o verdadeiramente inovador álbum que o seguiu, podem ajudar a sua compreensão.
Sonoramente caótico, incorporando as desfalecidas paisagens sonoras dos Cocteau Twins, juntamente com um uso altamente inovador de “microtons” e artisticamente submerso no estúdio, é impressionante a sua consistente tonalidade negra e erótica, alternadamente desnorteante ou agressivamente voraz. É um disco cheio de contrastes, sejam as exuberantes paisagens sonoras recheadas de “feedback”, sejam as sensuais combinações das vocalizações vazias de Kevin Shields contra os encantos etéreos de Bilinda Butcher. As músicas não são “sobre” amor, sexo e emoções, mas “soam” como fossem momentos hiper-sensíveis de amor, sexo e emoções.
E ao ouvir “Isn’t Anything” actualmente, ele parece ter muito em comum com o sentimento de euforia vivida na altura em torno do “second summer of love”, pois tem a mesma qualidade entorpecedora do que os resultados das experimentações químicas ocorridas aquando do referido movimento.
Embora a apoteose do MBV ficasse completa após o lançamento de “Loveless”, “Isn’t Anything” mantém uma nitidez e clareza de composição, que é às vezes um pouco ausente nos inúmeros de efeitos de guitarra presentes em “Loveless”.
Desde o dub-balançante do totalmente sexual “Soft As Snow (But Warm Inside)”, passando pelo orgásmico, minimalista e absolutamente arrebatador “Lose My Breath”, pela poesia de tom fúnebre do perturbador “No More Sorry”, pelo alegremente perturbador “All I Need”, pelos “riffs” brutais do apocalipticamente erótico “Feed Me With Your Kisses”, pelo verdadeiro letal “Sueisfine” até à violentamente sexy “Nothing Much To Lose”, “Isn’t Anything” é uma aventura musical que transcende qualquer redundante género estilístico onde possam inadvertidamente ter sido colocados os MBV.
_

23 abril 2010

Pop # 12 - Kitchens Of Distinction

“Love Is Hell” (1989) (One Little Indian)

“Strange Free World” (1990) (One Little Indian)

Este trio londrino presenteou-nos com canções apaixonantes, inteligentes, honestas, bruscas e graciosas, recheadas de extáticas e intensas emoções, através da despretensiosa poesia de Patrick Fitzgerald, que detalhavam as fraquezas e os desaires dos relacionamentos que ele observava. A homosexualidade de Fitzgerald significa que as letras não se refugiavam na tradicional história “rapaz encontra rapariga”, mas ainda assim ressonavam com empatia, ternura e sensibilidade. Ao contrário de bandas como os Echo And The Bunnymen ou os The Chameleons, que tinham os seus incentivos nas trevas, os KOD usavam dinâmicas mais electrizantes como ponto de partida. Estas estavam assentes na fogosa voz e nas brilhantemente confessionais letras de Fitzgerald, na aterradora e voluta guitarra de Julian Swales, que produzia uma assombrosa quantidade de extraordinários sons gerados via uma extensa utilização de efeitos e na pulsante bateria de Dan Goodwin, que adicionava uma verdadeira musculatura e simultaneamente sustentava a estrutura das canções. Foram aglomerados na pletora de bandas “shoegazing”/”dream –pop” juntamente com os recém chegados Slowdive e Chapterhouse, o que trouxe comparações injustas e pouco sensatas, pois a sua música possuía muito mais alma, variedade e emoções genuínas (aquele turbilhão de guitarras de certo modo relembra uma música psicadélica bem enraizada). Tudo isto é extremamente visível nos seus dois primeiros álbuns. O brilhante “Love Is Hell” (1989), que inclui as indolentes rajadas de guitarra presentes em “In A Cave”, a efémera guitarra de “Time To Groan”, a simplesmente fabulosa “Prize”, e a eufórica “The 3rd Time We Opened The Capsule”. Evoluíram para algo verdadeiramente transcendente em “Strange Free World” (1990), que inclui a esplendorosa “Railwayed”, a poderosa “He Holds Her, He Needs Her”, a impiedosamente frenética “Drive That Fast” e a sublime “Quick As Rainbows”. Uma banda lamentavelmente esquecida, que nunca teve o reconhecimento que mereciam (provavelmente devido ao nome desajeitado, provavelmente devido pela obvia homosexualidade que assustou e afastou muitas pessoas), mas cuja dor era definitivamente o nosso prazer.
_
Kitchens Of Distinction - The 3rd Time We Opened The Capsule
_
Kitchens Of Distinction - Railwayed

21 abril 2010

Electronic # 16 - Amon Tobin – “Out From Out Where” (2002 Ninja Tune)

Muitas vezes considerado inferior em relação aos seus antecessores “Permutation” (1998) e “Supermodified” (2000), ou até mesmo à sua aventura como Cujo, a opressiva contextura maciça de “Out From Out Where” realmente confirma o virtuoso e visionário Amon Tobin como um dos mais qualificados e imaginativos artistas do “sampling” do século 21, pela forma como ele coloca os padrões qualitativos incrivelmente altos de álbum para álbum. Provavelmente este disco não será tão formoso como o subversivo “Supermodified”, e é bem evidente que Tobin baixou o tom experimental, refugiando-se em fórmulas mais seguras. E apesar de tematicamente ser mais coeso, aqui é a fantasia que toma lugar, oscilando entre um romantismo simultaneamente infantil e desesperante, num muito particular estádio de espírito. É virtualmente impossível descortinar a origem da maioria das sonoridades “sampladas”, mas uma atmosfera “noir”, os sons artificiais e as tendências “sci-fi”, tornam o disco sinistro, como um frio monólito de “funk” astral. A genialidade de “Out From Out Where” reside no facto de ser tão ricamente evocativo de diferentes panóplias de imagens a cada poucos segundos, através do hipnótico e onírico “Back From Space”, do ameaçador “El Wraith”, do rigoroso “Verbal”, do enérgico “Rosies”, do claustrofóbico “Triple Science”, do cósmico “Searchers”, ou do delicado “Mighty Micro People”.
_

19 abril 2010

Record Store Day - The Day After

Ok, não encontrei edições especiais, mas com o desconto de 20% em todos os discos, deu para adquirir os últimos dos Field Music, MGMT, The Album Leaf e Four Tet.
Na secção das promoções, ainda consegui encontrar um disco pedido dos velhinhos Crime & The City Solution (que tinha emprestado a alguém e fiquei sem ele), e ainda discos dos Echoboy, Tipsy e Oneida, que acabaram por ficar a 4€.
Um dia muito bem passado.

15 abril 2010

Record Store Day

Amanhã é o "Record Store Day", e independentemente de tudo o que se possa dizer acerca da importância e significado deste evento, é sempre uma boa oportunidade de visitar as lojas "independentes" e procurar adquirir alguns discos a preços especiais.

A Jo-Jo's promete um dia em cheio. Mas vou dar um "tour" pelas restantes lojas com que mais me identifico aqui no Porto. Fica a sugestão.



14 abril 2010

Do fundo da prateleira # 22 - The American Analog Set – “The Golden Band” (1999 Emperor Jones)

A beleza intransigente é uma das coisas mais difíceis para um artista realizar. O verdadeiro objectivo da beleza é lançar um feitiço sobre a audiência, para colocá-los em êxtase. A criação artística da beleza envolve saber o que torcer e virar e até onde e quando parar, e tem que ser feito de forma orgânica e inconsciente. Assim, quando uma banda libertina mais conhecida por um furioso “rock” de confronto e um orgulhoso amadorismo cria uma obra de rara beleza, é um momento importante. Com os The American Analog Set, aquele “indie rock”, conflituosamente contrário, abraça plenamente uma beleza exuberante.
Através da utilização de equipamento de gravação analógico, baseando-se numa secção rítmica muscular subjacente aos sintetizadores analógicos e numa voz macia a cantar serenamente, “The Golden Band” é uma obra de beleza refinada da primeira até à última nota. A banda utiliza como ponto de partida canções curtas e bonitas tal como os The Velvet Underground as usavam para neutralizar a sua penetrante escuridão, e em seguida baseiam-se nelas até que as mesmas se tornem em quentes e exuberantes tapeçarias de sonoridades pulsantes (mas nunca sonoramente aglomeradas). Como uns mais estanques Galaxie 500, os The American Analog Set tocam canções ricamente alusivas, e cujos apertados e compactos arranjos florescem como flores quando os escutamos. E podemos ser tão embalado para não nos apercebermos que estamos a ouvir algo tão revolucionário como um trabalho de qualquer ícone do “indie” ou “punk”. Este é um disco de uma beleza simples e subtil. E num mundo onde o antídoto ao estridente niilismo “indie”, é um estridente comercialismo, um álbum com a calma e a confiança anacrónica como “The Golden Band” soa estranhamente, como um manifesto.
_

12 abril 2010

The Morning Benders – “Big Echo” (2010 Rough Trade)

O jovem quarteto de Berkeley está de regresso com um disco cujo título, “Big Echo”, apropriadamente informa a mudança ocorrida. Eles demonstram ambição, pois o disco representa um enorme passo em frente, uma bela evolução estilística, que confirma o potencial demonstrado em registos anteriores.
Chris Chu tentou expandir o som da sua banda utilizando a técnica “wall of sound” desenvolvida por Phil Spector, mas modernizando-a. A magnífica utilização da reverberação e do eco, são completadas com as harmonizadas e assertivas vocalizações de Chu, que recria o que Brian Wilson fez para os The Beach Boys em “Pet Sounds”. Tenta ainda fugir ao “indie-guitar-pop” que marcou a maioria das suas primeiras gravações, dando mais atenção à sonoridade criada, mantendo o foco nas abundantes e inebriantes melodias, que apesar de simples são cuidadosamente trabalhadas. Deixa os efeitos sonoros para segundo plano e surge mais experimental, provavelmente devido à influência de Chris Taylor dos Grizzly Bear que co-produz o disco. O resultado é uma sonoridade muito própria, onde cada canção é extremamente estratificada, construída lentamente e pacientemente com sons vibrantes e suaves, onde floresce a capacidade de escrita de Chu. É uma complexa experiência auditiva, pois as canções introduzem uma infinidade de variações que inesperadamente esgueiram-se para a nossa cabeça, permitindo descobrir algo de novo mesmo após várias audições.
O melhor exemplo é a peculiar e encantadora “Excuses”, mas não existe ao longo do disco nenhum ponto que pareça introdutório ou conclusivo, pois o verdadeiro efeito produzido por “Big Echo” é a continuidade. Desde a deslumbrantemente agridoce “Promises”, passando pelo economicamente viciante “folk” de “Cold War”, pela serenidade da épica “Pleasure Sighs” ou pela bela fragilidade “pós-rock” de “Stitches”, os The Morning Benders criaram uma gloriosa obra de arte sonora.
_

09 abril 2010

Singles # 21 - Primal Scream - “Higher Than The Sun” (1991 Creation)

Os Primal Scream eram um grupo que ninguém levava muito a sério. No início de 1989, eles só queriam ser os MC5. No final desse ano, editaram "Loaded", que apesar do seu envolvimento óbvio, foi rapidamente considerado como tendo sido resultado do trabalho único de Andrew Weatherall. Mesmo depois desse “single” ter atingido o Top Ten e eles terem-no seguido com "Come Together", ainda eram considerados uma desinteressante banda que derivou para o “house”. "Higher Than The Sun" mudou tudo isso - e no processo mudou a forma como a música “pop” seria feita na década de 90.
Eloquentemente definiu o estado de uma nação à deriva no “Ecstasy”. Com as suas mentes "libertas" por sucessivos abusos de substâncias, Bobby Gillespie, Andrew Innes e Robert Young reuniram-se no apartamento de Innes em East London, com uma variedade de instrumentos que colocam o puritanismo “indie-guitar” contra a parede. Pois basta ouvir a versão “demo” (encontra-se no lado B de "Burning Wheel") para ver que "Higher Than The Sun" é uma muita própria concepção da banda. O que lhe deu essa “dimensão vital” foi a inspirada participação de Alex Paterson dos The Orb - que superou até mesmo a grandeza da sua própria "Little Fluffy Clouds" - com uma produção alucinogénica.
Liricamente também estavam muito à frente. Naquela época, o Ecstasy parecia ser um falso bilhete para os bons momentos, mas referências sem precedentes como "”hallucinogens can up-end me or untie me”, sugeriram que algo mais negro estava a chegar.
_

07 abril 2010

My Favorites # 19 - Lisa Germano – “Geek the Girl” (1994 4AD)

O segundo disco da multi-instrumentista Lisa Germano (que esta noite toca na Casa da Música) é um trabalho coerente e focalizado, sincero e sombrio. Não é um disco musicalmente assustador ou sequer aventuroso, mas o absolutamente puro e emocional poder que transmite, esse assusta.
Aqui a música acompanha o profundamente reflectivo auto lirismo, relatando tragédias num tom sombrio e assustador, recheado de paranóia, estados depressivos e prisões espirituais, que pode ser verdadeiramente venenoso e deprimente. Através de uma atmosfera calma, mas exuberante, as dolorosas vocalizações de Germano são entregues num arrepiante silêncio, e os instrumentos (principalmente piano e violino) soam lúgubres. Assim estão apropriados às sinistras e analíticas letras que através de uma íntima abordagem extremamente feminista, relatam temas proibidos do nosso quotidiano - seres proscritos, violações, assaltos e infância - até estes atingirem um clímax de emoção e desespero, num impressionante equilíbrio entre o sonho e a realidade, entre o terror e a diversão, entre a resignação e a raiva.
Mas Germano consegue capturar algo genuíno, sem soar constrangedoramente emocional, como é evidente no desolado “My Reason Secret”, no devastador “Cry Wolf”, na assustadora ”Sexy Little Princess” ou no doloroso “Cancer of Everything”.
Pode relembrar Nico ou uma ferida Liz Phair, poderia ainda ser uma Tom Waits no feminino, mas certamente falta-lhe a variedade vocal. Agora o desespero presente na sua voz e a forma como nos faz sentir quentes e estridentes de uma vez só é bastante impressionante. A capacidade de soar triste e miserável, e cínica ao mesmo tempo, é um talento ímpar que faz este álbum verdadeiramente único.
_

05 abril 2010

In the Beginning # 1 - Billy Bragg – “Brewing Up With Billy Bragg” (1984 Go! Discs)


Lembro perfeitamente que quando comprei este disco na feira da vandoma por volta de 1986, com cerca de quinze anos, ainda estava numa fase inicial da minha descoberta musical. Aqui descobri um “one-man band”, um homem contra o sistema, numa rebelião politica, falando em nome dos necessitados contra o governo de Margaret Thatcher. A sonoridade era escassa, somente voz e guitarra, deliberadamente áspera e não adulterada, impulsiva e graciosa. E se soava interessante, era porque a capacidade de escrita é brilhante. Bragg foi sempre um dos principais líderes do movimento designado como “The Red Wedge” – um grupo de artistas da esquerda – mas a suas referências politicas inicialmente eram diminutas.
Este segundo álbum de Bragg, continha 11 impressionantemente observadas e detalhadas canções que representam muita da mais sólida e da mais efectiva escrita de Bragg. Amplamente equilibrando mensagens politicas de esquerda (a estridentemente feroz critica à imprensa de direita “It Says Here”, os claustrofóbicos horrores da guerra em “Island of No Return”, a perspicaz “Like Soldiers Do”, que relata a perspectiva do comum soldado), com lamentosas histórias de amor suburbanas que nunca correm bem (a encantadora melancolia do notável “A Lover Sings”, a profundamente comovedora paixão adolescente de “The Saturday Boy”, os detalhes de infidelidade e do colapso de uma relação na dolorosa “The Myth of Trust”, a triste, mas melancolicamente bela “St.Swinthin’s Day”).
Ele tornou-se mais estridente e menos observador de várias maneiras, e os seus discos tornaram-se mais ambiciosos com o passar dos anos. Não sou adverso ao seu trabalho nos anos 90, mas os três primeiros discos (juntar “Life’s A Riot With Spy Vs. Spy” (1983) e “Talking With The Taxman About Poetry” (1986)), representam o seu pico criativo para mim, tendo depois disso a qualidade declinado de disco para disco.
_

01 abril 2010

Electronic # 15 - Kraftwerk - “Trans-Europe Express” (1977 Kling Klang/Capitol)

Os mecanizados Kraftwerk atingiram um pico criativo em 1977 aquando da edição deste disco. Depois do tecnologicamente pioneiro “Autobahn” e antes do sucesso comercial de “The Man Machine”, “Trans-Europe Express” será provavelmente o disco mais essencial e mais influente da sua carreira, e que ainda hoje impressiona pela inestimável inovação tecnológica proposta por Ralph Hutter e Florian Schneider.
Na edição original em vinil existia uma clara divisão entre os lados. No primeiro tínhamos uma reflexão sobre as disparidades entre a realidade e a imagística. Aqui estavam contidas as excêntricas melodias e os hipnóticos “beats” que estão presentes na brilhante beleza da ondulante “Europe Endless”, nas misteriosas e deslocadas vocalizações da glacial “The Hall Of Mirrors” e na sombriamente cómica “Showroom Dummies”.
O segundo lado era dedicado a uma possível recreação auricular duma viagem intercontinental de comboio através da Europa – começa com “Trans Europe Express”, que se desenvolve em direcção às colagens sonoras de “Metal On Metal” e na magnificente melodia de “Franz Schubert”, a mesma melodia de “Europe Endless”, mas transformada lentamente como uma pintura sonora em evolução.
A ausência de qualquer particularmente sólido conteúdo lírico, efectivamente serve para tornar a consistentemente memorável música mais aprazível e permite-a dominar todo o disco.
A sua combinação de ritmos mecanizados e minimalistas com melodias contagiantes, seria uma influência enorme e um estímulo para inúmeras bandas britânicas, como os The Human League ou os Cabaret Voltaire, entre outras, utilizarem mais os sintetizadores (convém relembrar que o disco saiu no mesmo verão de “Never Mind The Bollocks” dos Sex Pistols), e iriam ser um dos maiores fornecedores de “samples” para a comunidade afro-americana dos grandes centros urbanos dos Estados Unidos (não esquecer que Afrika Bambaataa “samplou” “Trans-Europe Express” para o seu seminal “Planet Rock”). E se poderíamos pensar que o disco soa datado presentemente, a música resiste ao passar dos tempos, e ainda permanece verdadeiramente atmosférica hoje.
_

29 março 2010

Do fundo da prateleira # 21 - Tara Jane O’Neil - “Peregrine” (2000 Quarterstick)

O’Neil tinha sido anteriormente a baixista/vocalista nessa banda de tributo ao Slint, Rodan. Mas este secretamente belo “Peregrine” é muito mais genuinamente “pós-rock” (num sentido não-genérico) do que algo que os Rodan alguma vez criaram.
O título do disco alude à solitária, suspensa qualidade sonora interior: o som de alguma coisa mais, algo verdadeiramente secreto.
Enquanto a música dos Rodan articulava-se no contraste entre as dinâmicas “quiet/loud”, aqui O’Neil pendura-se em esvaziadas harmonizações onde “incorrectos” acordes cristalizam cadências que perfuram pequenos buracos melódicos através das suas canções. Elas embelezam incertas fronteiras circulares que se recusam a permanecer no mesmo local de uma audição para outra.
Os dissolutos, estratificados arranjos das guitarras acústicas, flautas, violinos e piano concedem-lhe uma quase mística atmosfera, e as vocalizações de O’Neil são similarmente carregadas com as mesmas imagens surreais, que estavam presentes em discos como “Astral Weeks” de Van Morrison ou “Red Apple Falls” de Smog.
Mas estas possíveis referências são de todo demasiado limitadoras para qualificar a música, pois o enigmático no entanto sempre intrigante “Peregrine” tenta planear de um modo elusivo para fora do nosso alcance.
_

24 março 2010

Classic # 26 - Big Star – “# 1 Record” (1972 Ardent)

Em 1972, as canções “rock” relevantes deviam supostamente incluir complicadas progressões musicais, letras introspectivas e uma aparente tendência progressista. Canções agradáveis e concisas acerca de “boys and girls and cars”, eram uma traição para as sempre futuristas tendências do “rock”. Mas no seu disco de estreia, dois miúdos inteligentes de Memphis, Alex Chilton e Chris Bell, mostraram-nos como podiam combinar a delicadeza do “british pop” de uns Beatles, com o “american rock”, e ainda juntar pedaços de “garage-soul”, ajustado a um profundamente pessoal e frequentemente revelador universo lírico.
Eles eram uma verdadeira versão americana de Lennon e McCartney, e se não inventaram o “power pop”, forneceram a mina de ouro que serviu de inspiração a gente como R.E.M., Teenage Fanclub, The Replacements, Elliot Smith, The Posies, entre muitos outros.
“#1 Record”, com uma vibrante e cintilante produção de John Fry, adquire apropriadas e distintas reviravoltas, umas atrás de outras, através das cuidadosamente idealizadas canções e da formosa reciprocidade entre as guitarras acústicas e eléctricas e as vocalizações repartidas, seja na “auto-afirmativa “Ballad Of El Goodo”, no turbilhão “pop” de “My Life Is Right”, na magnificente “Thirteen”, na impetuosa “When My Baby’s Beside Me” ou na ondulante “Feel”.
Alguns responsabilizaram Bell (o McCartney), que abandonou após este disco, pelo excessivamente acústico e melancólico segundo lado, mas quer ele quer Chilton (o Lennon) iriam atingir aqui estados de espírito distintos, e beneficiaram dos alternados entusiasmos e suspiros nas suas letras e vocalizações. E por isso “#1 Record” é praticamente perfeito.
Os Big Star eram obviamente e excessivamente “Sixties” – ele estavam demasiadamente feridos para as ideias revolucionárias do “rock” e eram suficientemente sensatos para saber que “boys, gals and the gang” iriam sempre durar muito mais que qualquer tendência.
_