03 fevereiro 2009

Editoras # 3 - Postcard - The Sound Of Young Scotland

Ao contrário de Londres e Liverpool, nos anos 60 e 70, a Escócia não tinha tradição musical.
Isso mudou com a criação em 1979 da Postcard Records por Alan Horne. Situada em Glasgow, a partir de um pequeno andar arrendado, esta memorável editora foi a responsável por apresentar ao mundo bandas talentosas e visionárias como os Orange Juice, Aztec Camera e Josef K, e pelo celebrado slogan “The Sound Of Young Scotland”. Mas também foram responsáveis por descobrirem e terem editado o primeiro registo dos australianos The Go-Betweens.
Apesar de todos estes grupos terem assinado por outras editoras, muitos argumentam e debatem que nunca editaram nada tão bom com aquando da sua estadia na Postcard. Podemos não concordar com isso, mas o que é inequívoco é que cada “single” editado pelo Postcard é um absoluto clássico. E o seu impacto na música “pop” escocesa foi fundamental, inspirando bandas que durante os anos se foram confessando fãs como The Wedding Present, Teenage Fanclub, Belle & Sebastian, Franz Ferdinand e até mesmo os Travis.
A Postcard obrigou a industria musical fortemente centrada em Londres a olhar para norte, mais precisamente para Glasgow (da mesma forma como a Factory iria fazer para Manchester), de onde também surgiram outros grupos visionários como Associates, Altered Images ou The Fire Engines.
As grandes editoras estiveram atentas e de repente surgiram numerosamente em Glasgow para a caça ao ouro. E o rápido sucesso da Postcard acabou por ser também a sua desgraça e ruína, pois os grupos da editora acabaram por a abandonar para assinarem pelas multinacionais. Também a partir da segunda metade dos anos 80, os principais músicos escoceses abandonaram a ética DIY do Postcard e ao assinarem pelas grandes editoras, abraçaram o seu lado comercial. E se por um podemos incluir os magníficos The Jesus and Mary Chain nos grupos que assinaram por multinacionais, por outro temos que os excluir pois numa primeira fase nunca se desviaram da sua muita peculiar sonoridade, numa época onde surgiram os manhosos e ornamentados Hue & Cry e Deacon Blue. Mas as pessoas depressa se cansaram desse som açucarado, e uma nova geração de músicos escoceses iria novamente redescobrir e reinventar o som da Postcard. E a partir do final dos anos 80, a Escócia produziu muita da música mais original e criativa através dos já referidos The Wedding Present ou Teenage Fanclub, mas também dos The Pastels, The Vaselines ou Mogwai.
Hoje esse espírito pioneiro ainda poderá ser encontrado em pequenas editoras escocesas como a Chemikal Underground ou a Geographic.
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23 janeiro 2009

Inovadores # 11 - Pere Ubu - “The Modern Dance” (1978 Blank) / “Dub Housing” (1978 Chrysalis)

Um dos grupos mais importantes dos últimos 30 anos, os Pere Ubu, formaram-se em Cleveland, uma cidade industrial orgulhosamente decadente, que fomentou o sentimento de reclusão e a simpatia pelas ruínas da industrialização que serviriam de inspiração para a formação dos mesmos.
Liderados pelo seu ideólogo e arauto, David Thomas, descrevem um mundo onde os propósitos foram modificados e servem a banda-sonora desse mesmo mundo em mutação.
Embora afastados de Nova Iorque, de onde eclodiu o “punk”/ “new wave” americano – Patti Smith, Television, Talking Heads – os Pere Ubu estavam próximos em temperamento, eram o lado sombrio dessa geração. Tiveram poucos antecedentes e poucos seguidores (só se referenciar-mos o projecto embrião Rocket From The Tombs), nesta sonoridade muito própria, que decididamente não será “punk” (nem sei se eles próprios o sabiam), mas que resulta na singular mistura do “art-rock” de Captain Beefheart, com as indolentes texturas “avant-garde” – os ritmos opostos, as guitarras dementes, a temerosa electrónica, o abstracto “noise”, as vibrantes psicóticas vocalizações de Thomas – gerando um importuno mas vigoroso “rock”.
Os seus dois primeiros discos são realmente especiais, fenomenalmente inventivos e proféticos, onde temos que reconsiderar todas as ideias preconcebidas do que é harmonia, melodia e ritmo.
Em “Modern Dance” (1978) (com a sua exótica capa - um trabalhador operário do antigo regime soviético com sapatos de “ballet”) Thomas canta sobre a sua incapacidade de comunicar, sobre a sua confiança na namorada para protege-lo contra o mal, ou sobre o pânico resultante da possibilidade de relações íntimas, e divide-se entre um gorjeador melodioso ou um relinchar explosivo. Destacam-se obviamente a pós-traumatica “Non-Alignment Pact” e “Life Stinks” que ainda hoje soam agressivas e niilistas, e ainda a psíquica “Sentimental Journey”, “Street Waves”, “Real World” e “Humor Me”.
Em “Dub Housing” a mescla é fantástica, desde as contagiantemente “funky” “Navvy” ou “On The Surface”, passando pelas experimentações “noise” de “Thriller” ou “Blow Daddy-o”, pela levemente oscilante “Drinking Wine Spodyody”, pelo “psico-pop” de “Ubu Dance Party”, ou a brilhante “Caligari’s Mirror”, que captura magnificamente a tensão entre paranóia e hilaridade, sempre presente na gelada tonalidade que percorre este disco, com Thomas completamente psicótico, a derramar torrentes de conscientes divagações que obviamente influenciaram Black Francis e os seus Pixies.
Uma experiência nada fácil.
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Pere Ubu - Non-Alignment Pact
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Pere Ubu - Navvy

20 janeiro 2009

Grouper – “Dragging A Dead Deer Up A Hill” (2008 Type)

Grouper é o projecto muito pessoal da enigmática Liz Harris. E se os primeiros discos, desta originária de Portland, eram mais baseados em “drones” de guitarra e muito mais abstractos, neste terceiro, onde ainda continuam presentes os murmúrios minimalistas, existiu uma expansão e desenvolvimento sonoro, onde Harris reduziu a quantidade de distorções e introduziu muitos mais rudimentares dedilhados de guitarra acústica que permitiu tornar a sua voz mais límpida.
Um disco introspectivamente melancólico calorosamente emocional que merece grande elogio e atenção – pela utilização de delicadas estruturas sonoras baseadas nas arrepiante mas serenas e ininteligíveis vocalizações e nas assombrosas mas calmantes guitarras carregadas de efeitos sobre arrebatadores “drones” ambientais.
Apesar da presença única de Harris na guitarra e vocalizações, ambas são multiplicadas, causando uma ressonância das mesmas, tornando estupendamente rica a atmosfera sonora, e dando ao disco uma estranha e inexplicável coesão. E apesar do seu perturbador titulo e da arrepiante fotografia da rapariga com o chapéu preto na capa, existe uma grande profusão de beleza evidente em canções como a absolutamente fabulosa “Heavy Water/I’d Rather Be Sleeping”, a excelentemente construída “Disengaged”, a assustadora “Invisible”, as atmosféricas “Wind And Snow” e “Tidal Wave”, ou a ritmada “Fishing Bird”.
Uma “pop-drone” experimental onde as comparações com Cocteau Twins podem justificar-se pelas sedutoras vocalizações de Harris, mas a sua atmosférica temerosa e as dissonantes harmónicas “folk” relembram também o trabalho de Andrew Chalk.
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19 janeiro 2009

The Fall @ CdM - 17.01.2009

A espera pela prestação ao vivo de uma das mais lendárias bandas de todos os tempos era grande. E o aperitivo foi um excelente jantar acompanhado pelos distintos bloggers April Skies, Classe de 70, Dedos Bionicos, Gravilha, Mouco, O Puto, elementos de uma das melhores bandas nacionais, e de uma loja de referência do Porto.
A recepção foi efectuada com uma curiosa e interessante manipulação vídeo-sonora de gente diversa como Eurythmics, Elvis Presley (esta particularmente brilhante) ou Barbra Streisand, que preparou a entrada da banda em palco.
Como previsto a prestação incidiu sobre “Wax Imperial Solvent”, o ultimo de originais do grupo e um dos melhores da última década.
Para além da presença carismática em palco de Mark E. Smith, que alguém brilhantemente comparou a Mr. Magoo - cujo momento alto foi a leitura das letras a partir de um folha de papel de costas viradas para a audiência - ficou na memória de todos os presentes a forma fenomenal como transformaram “50 Year Old Man” ou “Reformation!” em autênticos exercícios frenéticos de transe psicadélico, com destaque para a excelente performance da banda que actualmente acompanha MES, e que excluindo Elena Poulou (a actual Sra. Smith), apenas estão juntos desde 2006. Parecem que estão dispostos a aturar MES - como sempre a mexer nos amplificadores do guitarrista e do baixista.
Para todos os fieis seguidores faltou o regresso aos anos 80, e dessa época o máximo que MES retrocedeu foi até 1988 com “Carry Bag Man”, e se para o encore existiam expectativas em todos para que os seus desejos pessoais - “Mr.Pharmacist”, L.A.”, “Victoria” – fossem realizados, nem à década de 80 foram, ficaram por 1991 com uma das várias “covers” que sempre realizam, neste caso a honra couve a “White Lightning”.
Este é o seu mundo e nem todos são convidados, e como o próprio diz: “I’m a 50-year-old-man”… “and i like it”…

15 janeiro 2009

The Fall – Discografia Selectiva


“Dragnet” (1979 Step Forward)
O som claustrofóbico, tenebroso de uns amadores ranhosos a explorar os nossos nervos. Os regalos incluem o funesto “Flat Of Angles” e “Psykick Dancehall”.

“Grotesque (After The Gramme)” (1980 Rough Trade)
A primeira verdadeiramente grande obra. Foi aqui que os Pavement se inspiraram. A combinação entre o entusiasmante pop-psicadélico e a perversa melancolia – conseguiam ser simultaneamente contagiantes e repugnantes. Melhores faixas: “Container Drivers”, “English Scheme”, “New Face In Hell” e o manifesto “N.W.R.A.” que definiu a sua continuidade.

“Hex Enduction Hour” (1982 Kamera)
“Denso e desordenado. Um massivo desmoronamento de “noise” e histórias ocultas. Um crítico descreveu-o como “música criada para torturar imbecis”. Inclui “The Classic” e “Hip Priest”, que iria ser incluída na banda-sonora de “O Silêncio dos Inocentes”.

“The Wonderful And Frightning World Of The Fall” (1984 Beggars Banquet)
O avanço gradual para a normalidade “pop” com a produção a cargo de John Leckie e já com Brix Smith a bordo. O maravilhoso “Disney’s Dream Debased” está aqui presente, assim como o bombasticamente sangrento “The Lay Of The Land”. Soberbo.

“This Nation’s Saving Grace” (1985 Beggars Banquet)
Provavelmente o melhor disco. Novamente com Leckie, recheado de “riffs” gigantescos e batidas propulsoras, foi aqui onde estiveram o mais próximo do “rock tradicional”, mas ainda bastante afastados do “pop”. Aqui estão presentes a colérica e psicologicamente opressiva sátira de “Spoilt Victorian Child”, o presciente “L.A.” e “I Am Damo Suzuki”, o tributo ao vocalista dos Can.

“Bend Sinister” (1986 Beggars Banquet)
Ao longo do disco prevalece um imenso pessimismo, neste sombrio endereço à mediocridade e ao caprichismo da sociedade. Inclui “Mr. Pharmacist” e “Dktr Faustus”. Seria o fim da associação com John Leckie.

“The Frenz Experiment” (1988 Beggars Banquet)
Quando nos apercebemos que a nossa mente está a ser controlado por este disco, já é tarde demais. Entre a tranquilidade (“The Steak Place”) e a violência (a oculta perversidade de “Bremen Nacht”). Inclui ainda a bem sucedida versão de “Victoria” dos The Kinks.

“Extricate” (1990 Phonogram)
A presença de Adrian Sherwood e dos Coldcut, abrangeu o uso de mais tecnologia (sintetizadores e caixas de ritmos) que conseguiram estimular a banda – “Sing! Happy” rouba a ”Little Doll” dos The Stooges, enquanto o fabuloso “Bill Is Dead” demonstra subtileza. Fabuloso.

“The Infotainment Scan” (1993 Permanent)
Profundamente sintético, consegui entrar no Top 10 das tabelas de vendas britânicas. Apesar de “Glam Racket” ser inconsciente nostálgico e “Paranoia Man In Cheap-Shit Room” ser excentricamente autobiográfico. Um dos seus melhores álbuns.

“The Unutterable” (2000 Eagle Rock)
A velha fórmula – “rock’n’roll”visceral esboçado por cima de abstracções – é completamente implementada. Produzido por Grant Showbiz (que também realizou “Dragnet”) também inclui uma canção sobre William Blake, tal como “Dragnet”.

“Reformation Post-TLC” (2007 Slogan)
Mais uma vez após ter perdido uma formação numa tournée nos Estados Unidos, juntou membros de bandas de Los Angeles, e o resultado foi uma energética união de “riffs”, declamação e tecnologia, entregue com os mesmos níveis de vigor de outros tempos.
E ainda temos os vários singles:
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14 janeiro 2009

Tributo # 9 - The Fall

Se visualizarmos uma das primeiras tabelas de vendas independentes do Reino Unido em 1979 encontramos obscuridades como os Splodgednessabounds ou The Vibrators, mas também encontramos um grupo desse período que nunca parou. Imunes às modas, unicamente auto-confiantes e possivelmente o mais desprezível grupo de sempre, os The Fall e o seu implacável ditador Mark E. Smith perduram.
Ao longo de 33 anos, em 17 diferentes editoras, através de mais de 40 membros, entregaram-nos cerca de 60 discos oficiais, sendo 27 de gravações originais e a sua história é imensa.
Elogiando The Stooges, Can e a música “reggae” anos antes de todos se tornarem objectos de moda, Mark E. Smith formou os The Fall em Salford, Manchester no final de 1976. O seu primeiro disco foi o EP “Bingo-Master’s Breakout” em 1978, uma bizarra história de um mal fadado jogador de bingo, executado por uma banda que não sabia tocar e um vocalista que não sabia cantar, ainda hoje subsiste brilhantemente. Um ano depois surge o primeiro álbum – “Live At The Witch Trials” – a veloz percussão, os inarmónicos teclados baratos e as gatafunhadas guitarras já fariam este disco muito perturbador, mas Smith “ladrando” histórias de terror e farsas psicóticas por cima das mesmas, dizia mais sobre “punk rock” que muitos dos discos da altura. O segundo disco de 1979 –“Dragnet” – viu a chegada do guitarrista Craig Scanlon e do baixista Steve Hanley – e uma espécie de núcleo central formou-se. As contínuas edições de discos determinaram um standard para uma implacável produtividade. A ideia comum era que os The Fall tinham muito mais ideias que a maioria dos contemporâneos. Essa abundância de material era continuada nas letras que eram uma verdadeira confusão mental, e a essência dos The Fall - não-partidários, visões tangenciais, sátira social e uma aversão à sofisticação urbana.
Em 1983, com o seu casamento com a guitarrista Brix Smith, a sonoridade suavizou para formatos “pop” mais reconhecíveis. E descortesmente, na década seguinte os The Fall perseguiram um rota mais comercial que anteriormente. No final dos anos 80 incorporaram alguns elementos de programação electrónica, cuja experimentação atingiu o auge em “The Infotainment Scan” de 1993. No entanto em 1995, aquando da edição de “Cerebral Caustic”, tornou-se claro que um tipo de deterioração se instalou. Os concertos tornaram-se cada vez mais erráticos, culminando com uma cisão total depois de uma luta em palco entre Smith e os restantes membros, em Abril de 1998 na cidade de Nova Iorque – a saída de Hanley, um dos membros mais antigos, e que discutivelmente era tão crucial como Smith, poderia indiciar o fim do grupo.
Mas tal como muito erradamente muitos citam o início dos anos 80 como o único período valido dos The Fall, uma lição é que nunca sabemos o que esperar desta banda. Rapidamente uma nova formação se agrupou, e os concertos e gravações recomeçaram, e já em “The Unutterable” (2000) a banda soava totalmente inspirada. E ainda hoje, numa altura onde a musica “underground” é cada vez mais difícil de se identificar, Mark E. Smith continua a ser o seu padrinho.
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The Fall - Bingo Master's Break Out

12 janeiro 2009

Do fundo da prateleira # 13 - Cardinal – “Cardinal” (1994 Flydaddy)

Para mim, o australiano Richard Davies e o americano Eric Mathews nunca conseguiram igualar, nas suas carreiras a solo, o modesto esplendor deste disco único. Editado numa época onde o movimento “grunge” era verdadeiramente dominador, o duo criou, sem grandes pretensões, este belo e assombroso disco, que é um dos mais melodicamente e liricamente inesquecíveis dos anos 90.
Dez faixas maioritariamente escritas por Davies, mas que Matthews adorna cada uma perfeitamente com os seus singularmente barrocos arranjos “pop”. Se formos a citar influências, seria algures entre os Beach Boys de “Smile”, os Beatles de “White Album” e Syd Barrett, mas todas as canções têm uma vida própria, pois o que é extremamente satisfatório neste disco, é que eles pegaram nessas mesmas influências e renovaram-as em vez de as reciclar. E assim “Cardinal” não é uma reversão, pois eles criam uma música resoluta, aterradoramente cheia de profundidade e originalidade.
As harmoniosas canções são delicadas na sua construção, próprias para o tom sombrio e melancólico que enfeita as mesmas, e mesmo quando as letras desmentem a sonoridade, o disco tem sempre um triste e ansioso sentimento presente, como acontece em “You’ve Lost Me There” um dos destaques aqui presentes. A esta canção podemos adicionar ainda, como momentos memoráveis, “If You Believe In Christmas Trees”, “Big Mine”, “Dream Figure” e “Silver Machines”.
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09 janeiro 2009

Compilação # 4 - “Nuggets: Original Artyfacts from the First Psychedelic Era, 1965-1968” (1972 Elektra)

Originalmente editado em 1972, “Nuggets” é uma terrivelmente fabulosa colecção que reúne algumas das maiores descobertas dos tesouros perdidos do rock. Compilado por Lenny Kaye, colaborador de Patti Smith, incluía uma pletora de gravações de bandas de “garage-rock” pouco conhecidas com pequenos êxitos.
E se a palavra “psicadélica” que consta no título pode afastar alguns, esqueçam, pois as movimentadas e cintilantes cores e luzes e viagens intergaláticas com a mente só chegaram no início da década de 70.
Aqui, esta “primeira era psicadélica” é assente nas ondulantes guitarras, nos órgãos Farfisa, e em pequenos sistemas sonoros. Mais próximos da urgência do “punk” e da “new wave”, pela sua espontânea explosão de testosterona, as ousadas guitarras e o simbolismo dos 7”, tornou-se um critério de referência para esses movimentos. E muitas das raízes estão aqui bem presentes, desde o proto-punk dos The Seeds com “Pushin' Too Hard” ou em “Dirty Water” dos The Standells, o garage punk dos Count Five em “Psychotic Reaction”, o proto-metal dos Amboy Dukes em “Baby Please Don’t Go”, o punk-psicadélico dos The Magic Mushrooms em “It’s-A-Happening”, ou a incompreensível experimentação dos The Castaways em “Liar Liar“.
Vamos esquecer-nos momentaneamente dos Beatles, de Bob Dylan, e de outros revolucionários culturais, “Nuggets”, é uma simples colecção que captura a alegre estética que atraiu os “teenagers” e celebra o básico ideal do “rock”: qualquer um consegue gravar um disco e editá-lo, habilitando-se a ter um sucesso.
A Rhino iria editar mais recentemente uma caixa com 4 discos, mas esta colectânea, a primeira de revelo da era do “rock moderno”, é mais concisa e fundamental com uma avalanche do mais rude e estranho que o rock dos anos 60 ofereceu, e que três décadas depois continua a demonstrar o resplandecente aprumo de quem o realizou.
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The Standells - Dirty Water

08 janeiro 2009

Classic # 17 - Brian Eno – “Another Green World” (1975 Island)

Se “Taking Tiger Mountain” (o seu disco anterior), era largamente um maior desdobramento dos temas de maior sucesso encontrados no seu primeiro disco a solo (“Here Come The Warm Jets”), “Another Green World” é uma declaração de independência artística, que nada deve aos seus antecessores. Eno extraiu muita energia e confiança das suas bem sucedidas colaborações com músicos como John Cale, Phil Manzanera e particularmente Robert Wyatt. A aparentemente fragmentária construção de “Another Green World” recordava o último de Wyatt, “Ruth Is Stranger Than Richard”. Os dois discos têm uma qualidade aventureira, e um sentimento de espontaneidade e imprevisivilidade.
A intenção de Eno para este disco era dispensar a disciplina tradicional de gravação e de criar em estúdio um ambiente que iria precipitar, através de ideias e propostas acidentais, a concepção e captura de estratégias oblíquas num processo que não tivesse um objectivo específico ou predeterminado. A música resultante é o resultado da interacção entre várias combinações de oito músicos totalmente complacentes com a experimentação. E se o imprevisível sempre foi adoptado por Eno como uma fonte viável de informação e inspiração, aqui a proeza, é a sua habilidade de orquestrar os diferentes estados e atmosferas produzidas ao longo da construção do disco de forma a submeter os estilos e as texturas sonoras numa única dimensão.
A maior parte do disco possui uma extraordinária e incandescente beleza que ocasionalmente dá lugar a uma mais sombria e sobrenatural tranquilidade. “St.Elmo’s Fire” é uma brilhante ilustração da primeira qualidade: abre com uma complexa matriz rítmica dispersa através dos altifalantes seguida pela voz de Eno à deriva pelo meio de um bruma de subtis enfeites de teclados. A guitarra de Robert Fripp subitamente surge numa brilhante cascata de som, delicadamente realçando o tom predominante da canção com enorme destreza. Este tema está em directo contraste, com a compulsiva cadência rítmica de “Sky Saw” e “Over Fire Island”, que também contêm a claridade glacial que caracteriza “Becalmed” e a excepcional sequência final, “Spirits Drifting” - a brilhante perfeição desta composição é arrepiante. “Golden Hours”, “Zawinul/Lava” e “Everything Merges With The Night” confiam no inegável efeito da pouca complexidade. E assim, o disco, como um todo, é marcado por uma surpreendente frugalidade e uma refrescante ausência da dispensável decoração auricular.
Altamente recomendado.
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06 janeiro 2009

Best of 2008

Algum dinheiro extra recolhido nesta fase de Natal e aniversário (é verdade), ainda permitiu a aquisição de mais alguns discos, e após muita “reflexão”, anexo a sempre polémica lista dos melhores do ano. Como é sempre difícil a ordenação, a selecção está por “grupos”, para ser mais democrático.

Top 5
Deerhunter – “Microcastle” (Kranky)
Fleet Foxes – “Fleet Foxes” (Bella Union/Sub Pop)
Nick Cave & The Bad Seeds – “Dig!!! Lazarus Dig!!!” (Mute)
Portishead – “Third” (Island)
TV On The Radio – “Dear Science” (4AD)

Top 15
Atlas Sound - “Let the Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel” (Kranky)
Bon Iver – “For Emma, Forever Ago” (Jagjaguwar)
Drive-By Truckers – “Brighter Than Creation’s Dark” (New West)
Foals - "Antidotes" (Transgressive)
High Places – “High Places” (Thrill Jockey)
My Brightest Diamond – “A Thousand Shark’s Teeth” (Asthmatic Kitty)
Ra Ra Riot - “The Rhumb Line” (Barsuk)
The Ruby Suns – “Sea Lion” (Sub Pop)
Why? – “Alopecia” (Anticon)
Young Knives – “Superabundance” (Transgressive)

Top 40
Awesome Color – “Electric Aborigines” (Ecstatic Peace)
Beck – “Modern Guilt” (XL)
Bonnie “Prince” Billy – “Lie Down In The Light” (Drag City)
British Sea Power – “Do You Like Rock Music?” (Rough Trade)
DeVotchka - “A Mad & Faithful Telling” (Anti)
Erykah Badu – “New Amerykah Part One (4th World War)” (Motown)
Evangelista - “Hello, Voyager” (Constellation)
Foge Foge Bandido – “Foge Foge Bandido” (Turbina)
Fuck Buttons - “Street Horrrsing” (ATP)
Fujiya & Miyagi – “Lightbulbs” (Grönland)
Human Bell - “Human Bell” (Thrill Jockey)
No Age – “Nouns” (Sub Pop)
Mogwai – “The Hawk Is Howling” (Rock Action)
Ricardo Villalobos – “Vasco” (Perlon)
Robert Forster - “The Evangelist” (Yep Roc)
Santogold – “Santogold” (Downtown/Lizard King)
School of Language - “Sea From Shore” (Thrill Jockey)
Spiritualized – “Songs In A&E” (Fontana)
Stereolab - “Chemical Chords” (4AD)
The Fall – “Imperial Wax Solvent” (Sanctuary)
The Kills – “Midnight Boom” (Domino)
The Walkmen – “You & Me” (Gigantic)
The Week That Was – “The Week That Was” (Memphis Industries)
Two Banks of Four - “Junkyard Gods” (Sonar Kollektiv)
Xiu Xiu - “Women as Lovers” (Kill Rock Stars)

30 dezembro 2008

High Places – “High Places” (2008 Thrill Jockey)

O duo Rob Barber e Mary Pearson esforçaram-se por fazer com que a sua sonoridade não se enquadrasse facilmente nos géneros habituais e apresentam-nos uma excitadamente única experiência auditiva. O facto do disco ter sido gravado no seu apartamento de Brooklyn, e a utilização de um conjunto de objectos domésticos mundanos, tornam os resultados dessas experiências muito terrenos.
Através de uma gradual e paciente construção de sons e dinâmicas sonoras onde a presença constante da voz demasiado doce de Pearson, que nos surge abafada de forma de a repercutir e a retardar, torna-a em mais um versado instrumento na incompreensível mistura de colagens rítmicas de “ruídos e sons” de Barber, criando uma música irregular, adequada para as alegres e meditativas letras infantis, cheias júbilo e surpresas, que invocam contos de fadas e dão às canções um sentimento de absorção.
O resultado é um conjunto de canções hipnóticas, impetuosas, soporíficas, normalmente dolorosamente doces que nos deslumbrem completamente. Desde as finas porções de electrónica e os oscilantes tons penetrantes de “The Storm” e “The Tree With The Lights In It”, passando pela maravilhosamente incerta percussão, da excelente literalmente “Vision’s The First”, pelos hesitantes “beats” de “Gold Coin”, pelo esplendorosamente apurado “electro-pop” de “From Stardust To Sentience”.
Algures num universo perdido entre Panda Bear e Aphex Twin.
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19 dezembro 2008

Canções de Natal II

Com um desejo de festas felizes para todos os visitantes do blog, anexo mais uma lista de canções alusivas à época, com a particularidade de também termos aqui incluidas duas versões para Ramones (por Asobi Seksu) e "King" Elvis Presley (por My Morning Jacket)

Asobi Seksu - Merry Christmas (I Don´t Want To Fight Tonight) (2007 do 7” homónimo)

Basement 5 - Last White Christmas (1980 do álbum “1965 – 1980”)

De La Soul - Millie Pulled A Pistol On Santa (1991 do álbum “De La Soul Is Dead”)

Housewives On Prozac - I Broke My Arm Christmas Shopping At The Mall (2004 do álbum homónimo)

Malcolm Middleton - Burst Noel (2005 do álbum “Into The Woods”)

Mogwai - Christmas Steps (1999 do álbum “Come On Die Young”)

My Morning Jacket - Santa Claus Is Back In Town (2000 do EP “My Morning Jacket Does Xmas Fiasco Style”)

Saint Etienne with Tim Burgess - I Was Born On Christmas Day (1993 do 7” “Xmas 93”)

Willard Grant Conspiracy - Christmas In Nevada (2000 do álbum “Everything's Fine”)

18 dezembro 2008

Covers # 7

Nestas noites frias a melhor coisa a fazer é mesmo ouvir umas musiquinhas no calor do lar. E em mais uma ronda pela prateleira, consegui relembrar algumas curiosas versões de canções bastantes conhecidas.

E neste conjunto, muitas delas foram grandes êxitos nesses "gloriosos" anos 80.

Esta em 1988:

Xiu Xiu - Fast Car (Tracy Chapman)


Esta liderou, em absoluto, os tops no distinto ano de 1982:

Violent Femmes - Do You Really Want To Hurt Me? (Culture Club)


E esta em 1987

JJ 72 - It's A Sin (Pet Shop Boys)



16 dezembro 2008

Blur - Formação original de regresso...

Li num site que os Blur vão regressar aos palcos com a sua formação original.
Será no Hyde Park no próximo mês de Julho. Despachem-se pois os bilhetes já estão à venda no site http://www.livenation.co.uk/. Preço de £45.00, com venda limitada e taxa de reserva.

E o segundo dia já está esgotado...

15 dezembro 2008

My Favorites # 12 - Iron & Wine – “The Creek Drank The Cradle” (2002 Sub Pop)

Este disco foi editado numa altura em que existiu um verdadeiro redescobrimento da música “folk” por parte do “underground” americano. Tivemos também os PG Six, Jack Rose, Six Organs Of Admittance, Joshua Burkett, etc, cada um utilizando fundamentos semi-baseados no ”folk” para transportar os ouvintes a um lugar especial. O que me chamou a atenção nos Iron And Wine”- um projecto de Sam Beam - foi o facto de a sua performance ser desprovida e descontraída com uma abordagem simples. Os “riffs” que ele exerce nas guitarras acústicas, eléctricas, banjos, etc, são tão directos como as mais singelas composições de uns Pearls Before Swine. Isto dá a sua forma de tocar uma emoção instantânea que nem todos os seus contemporâneos possuem.
O conteúdo lírico de “The Creek Drank The Cradle” é personalizado no método daqueles que estudaram os discos de Nick Drake, mas a atmosfera aqui é maduramente americana. Como o título do disco deixa explícito, Beam estava familiar com o peso icónico de certas palavras numa era onde se redescobriu o trabalho antológico de Harry Smith. Outras distintas influências americanas no seu trabalho são igualmente oferecidas sem pretensão. O encanto das suas melódicas composições e a sua entrega lançam sopros quer de David Crosby quer dos primórdios de Paul Simon, duas referências que são uma anátema para alguns, excepto os conscientes estudantes da tradição “folk” americana.
Para além de todas estas referências, o que torna este disco tão cativante é a combinação invulgar de elementos. A sua forma gentil e vacilante arrasta-me para as suas profundezas de cada vez que ouço. A forma como a gravação “lo-fi” combina com a mesmérica qualidade da guitarra circular e a sussurrante vocalização criam uma rara atmosfera holística.
Curiosamente, estranhei que um disco como este fosse editado numa editora associada a um tipo muito específico de “rock”. Mas é mais excitante pensar que a velha guarda do “underground” estava/está a expandir a sua mente para conter tudo o que é digno – independente dos géneros. Como deve ser.
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Iron & Wine - Southern Anthem

12 dezembro 2008

Extremos # 4 - Boredoms


“Chocolate Synthesizer” (1994 WEA Japan)
“Super æ” (1998 WEA Japan)
“Vision Creation Newsun” (1999 WEA Japan)


Os japoneses Boredoms liderados pelo incomparável Yamataka Eye criam uma música agradavelmente difícil. Originários de Osaka, uma cidade bastante próspera culturalmente, com grandes tradições no “noise” experimental e minimalista, evoluíram do abrasivo “punk” divergente que praticavam nos primeiros anos para uma sonoridade verdadeiramente única. (Essa evolução é bem visível ao longo dos vários “Super Roots”)
No início da década de 90, ganharam maior notoriedade com a colaboração de Eye nos Naked City de John Zorn e com a partilha de palcos com os Sonic Youth. E foram estes últimos que os encorajaram a elevar a sua música.
Primeiro surgem “Pop Tatari” (1992) e especialmente “Chocolate Synthesizer” (1994) dois discos totalmente antinaturais, mas que de um modo crescente, nos cativam com o seu fascinante, anárquico e primitivo “noise-rock”. As aparentemente incongruentes e delirantemente indomáveis partes (“hardcore punk”, psicadelismo, “free jazz”, “hip hop”,etc) encaixam perfeitamente e o caos furioso presente ao longo de “Pop Tatari” é no segundo disco subordinado, disciplinado, concentrado e amplificado.
“Super æ” (1998) foi o ponto de transição, uma verdadeiramente impressionante afirmação da criativa perspicácia musical que os caracteriza. Incorporando mais elementos de uma impetuosa electrónica e “jams” de “rock” psicadélico, com densos e grandiosos acordes, e essas incomparáveis percussões poliritmicas, a sua sonoridade aproximou-se mais de grupos como Tangerine Dream, Can ou Hawkwind. E aqui é bem evidente a energia e paixão que os Boredoms entregam em cada disco. Um dos mais originais discos dos anos 90.
“Vision Creation Newsun” (1999) é um disco maravilhosamente focado e aerodinâmico. As frenéticas percussões tribais sustentam uma ditosa electrónica, “riffs de rock psicadélico e cânticos transcendentais. Os Boredoms parecem ter uma instintiva interpretação/compreensão da relação entre tensão e desprendimento, entre a dinâmica e a importância de espaço vazio. Um vibrante e voluto opus psicadélico.
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10 dezembro 2008

The New Year – “The New Year” (2008 Touch & Go)

Um disco que exige a nossa atenção, pois gentilmente nos envolve na sua subjugante “Wall of Sound” em mais uma gloriosamente impura produção de Steve Albini.
A música é extraordinariamente consistente, e as cáusticas e intimistas letras mantêm-se como o centro emocional na senda dos extintos Bedhead, cujo núcleo central constitui agora este grupo.
Com um sonoridade muito própria, baseado no glaciar entrelaçamento das guitarras, com a incorporação ocasional do piano para um efeito estimulante e um enormemente sóbrio trabalho de bateria a cargo de Chris Brokaw (ex-Codeine), harmonizadas perfeitamente com as vocalizações abatidas e frágeis de Matt Kadane, dão uma beleza luminosa às canções.
Ouçam a forma como “Folios” começa com a guitarra acústica e depois é cercada pelas guitarras eléctricas, bateria e órgão num crescendo até à triunfante pequena altercação próximo do fim. A forma perfeita como o ondulante piano e a vigorosa melodia de “The Company I Can Get” coabitam com as sarcásticas mas divertidas vocalizações. Como as mudanças, na imersa em “feedback” “The Idea Of You” demonstram um equilíbrio dinâmico. Ou a complexidade, mas de interpretação simples da emotiva” The Door Opens”, da agridoce “MMV”, da existencialista “Body And Soul”
Um disco sólido, recompensador, encantadoramente e dedicadamente elaborado.
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The New Year - The Company I Can Get

09 dezembro 2008

Electronic # 6 - Black Jazz Chronicles – “Future Juju” (1998 Nuphonic)

A palavra “jazz”, mesmo no seu formato mais ”futurista”, leva muitas pessoas a duvidarem, ou mesmo a evitarem tudo o que rodeia a mesma.
Assim quando Ashley Beedle, conhecido pela sua colaboração nos projectos X-Press 2, Ballistic Brothers e Black Science Orchestra, editou o seu primeiro disco a solo, a pergunta foi…seria este um desses impenetráveis, dissonantes e abstractos objectos? (Pois só quem passou 20 anos a meditar profundamente sobre os melhores momentos de Miles Davis é que normalmente é referenciado). Felizmente não. “Future Juju” é provavelmente o melhor trabalho publicado por Beedle. E isso quer dizer alguma coisa.
Obviamente bastante enraizado nas raízes da história da música negra e nas invocações dos anos 70, mas nunca excluindo as tendências actuais. O que retira do “jazz” é uma terrível atmosfera de antigos ritmos tribais, de jogos de percussão africana, de rituais “voodoo” representados para uma nova era digital. Começa e acaba com um melodioso solo de piano, mas o que se encontra entre essas faixas é um disco que nos transporta desde uma noite em Marrakesh até a um amanhecer em Kalahari. A falta de intervalos entre os temas, previne uma exploração “faixa-a-faixa”, razão suficiente para dizer que “Future Juju” situa-se entre os discos de Kirk Degiorgio para a Mo’Wax e os cantos hipnóticos de Fela Kuti (a cuja memória o disco é dedicado), entre o “funk” electrónico de Carl Craig e os místicos cânticos de louvor ao espaço de Sun Ra.
Não é uma viagem difícil, mas uma que revela mais contornos escondidos com cada audição.
Afrocêntrico, excêntrico, e deslumbrantemente ecléctico.
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04 dezembro 2008

Compilação # 3 - ESG – “South Bronx Story” (2000 Soul Jazz)

Primeiro de tudo, temos de agradecer à senhora Scroggins, pois esta, para que as suas filhas não ficassem nas ruas e assim pudessem cair nas tentações do South Bronx, comprou-lhes alguns instrumentos musicais. As irmãs alinharam e cedo começaram a criar excertos musicais onde tentavam copiar o som de James Brown. O passo seguinte foi participar em alguns concursos de talentos, e num desses Ed Bahlmann, dono da pequena editora independente 99 Records, vê algo de especial naquelas adolescentes, e sobre a sua alçada coloca-as a partilhar os palcos com os seus futuros companheiros discográficos - Liquid Liquid e Konk. Impressionado também ficou o patrão da Factory, Tony Wilson, quando as viu em Nova Iorque, e que de imediato se ofereceu para editar o seu trabalho. Assim em 1981 gravaram as três canções - “You’re No Good”, “U.F.O.” (uma das canções mais sampladas da história) e “Moody” – que iriam constituir o seu primeiro single, e que seriam produzidas à distância em Manchester por Martin Hannett. Rapidamente se tornaram muito populares no circuito de dança de Nova Iorque, que apadrinhou especialmente “Moody” e iriam partilham o palco com gente como A Certain Ratio, Gang Of Four e P.I.L..
Todo isto porque conseguiram criar um tipo de “funk” minimal, primitivo e repetitivo, muito próprio, com ritmos esqueléticos, baseado essencialmente no baixo e percussão, que agradou a brancos (pelo minimalismo associado ao punk) e a negros (pela insistência rítmica).
Para além dos três temas mais conhecidos, destacam-se o mini-ritmo distinto de “Tiny Sticks” e a fascinante simplicidade de “My Love For You”. Mas até no mais recente e convencional “Erase You” as ESG nunca perdem a sua cândida identidade.
Problemas legais com a 99 Records fizeram com que os registos discográficos fossem poucos (somente dois álbuns de originais, o último de 1991), mas esta compilação, que agrega o essencial, permite regalar-nos com a pura inocência da banda e demonstrar que com ritmos simples se podem criar belos momentos musicais.
A positiva reacção a esta mesma compilação fez com que regressassem ao activo e editassem mais dois álbuns, “Step Off” em 2002 e “Keep On Moving” em 2006. E actualmente ainda são vários os músicos, de géneros como o hip-hop, passando pelas Luscious Jackson ou Le Tigre, que nunca esconderam a sua forte admiração.
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02 dezembro 2008

My Favorites # 11 - The Cure – “Pornography” (1982 Fiction)

Esta é inquestionavelmente a hora mais negra de Robert Smith. Todos os momentos de “Pornography” são assustadores, desesperantes e angustiantes, nunca os The Cure soaram tão frios e rancorosos, nem a música “rock” tinha sido tão opressiva e claustrofóbica. Cinco anos após o apogeu dos Sex Pistols e The Clash, este era o seu momento de violência “punk”, nada como os anteriores, mas na mesma furiosa e niilista. Foi um marco no movimento “pós-punk” onde apenas rivaliza com “Closer” dos Joy Division. Mas é um disco colossalmente criativo pois contém alguma da música mais sepulcral já criada. O facto de na altura Smith ser um regular utilizador de LSD, e que mal falava com os seus companheiro, é evidente na forma como a sua voz frágil é levantada por impiedosos gritos de agonia, surgindo desesperado e transtornado. Assim como os rígidos ritmos - a forma mais dissonante e extenuante de tocar guitarra, os tons lúgubres dos sintetizadores, o baixo sorumbático, a forma monótona e mecânica de tocar bateria de Lawrence Tolhurst criam um absoluto sentimento de inércia ao longo do disco – são factores que contribuem para a triste aura deste convidativo disco. Este começa com a frase: “It doesn’t matter if we all die”, retirada de “One Hundred Years”, cheia de desespero e desejo não correspondido. Seguem-se os hipnóticos hinos fúnebres “Siamese Twins” e “The Figurehead”, a tribal “The Hanging Garden” que é provavelmente uma das melhores canções dos The Cure, “A Strange Day” que é dominada pelo presente sentimento de raiva, mas com algo contíguo em beleza oculto no seu interior. E a faixa-título é uma claustrofóbica e completa descida aos abismos da total loucura, como deve ser o fecho de um disco destes.
Smith revisitou este disto com “Disintegration”, em 1989, que a par deste, continuam a ser as suas obra-primas. E estes são os The Cure com que me identifico, e não os de “Friday I’m In Love”.
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28 novembro 2008

Ebay # 4

Nesta minha estadia prolongada em Barcelona, tive oportunidade de explorar melhor o fantástico mercado de San Antoni, mas o meu mercado favorito ainda continua a ser o virtual. Aqui fica mais uma amostra de algumas pechinchas que encontrei nestes últimos tempos, tudo por menos de £3.

Red Crayola – “Live 1967” CD (1967 Drag City)
- Uma reedição de uma gravação ao vivo do grupo de Mayo Thompson.
Improvisação pouco convencional; como convidado aparece John Fahey.

Boxhead Ensemble – “The Last Place to Go” CD (1998 Atavistic)
- O projecto de Michael Krassner numa gravação ao vivo na Europa, utilizando maioritariamente instrumentos acústicos, uma mistura de jazz e post-rock.

Cotton Mather – “Kontiki” CD (1997 Copper) /“Hotel Baltimore” EP (1999 Rainbow Quartz)
- De Austin, no Texas, melodias inteligentes e cativantes,
assentes numas guitarras rebeldes. Influências de Beatles, Byrds e Big Star.

Cotton Mather - Lily Dreams On

Milanese – “Extend” CD (2006 Planet Mu)
- Por ser editada na Planet Mu, já sabia que esperaria uma electrónica similar ao som da Warp.
É isso, mas o puzzle também contém jungle, electro e dubstep.
Um mundo à parte.
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25 novembro 2008

Deerhunter – “Microcastle” (2008 Kranky)

Depois da edição do primeiro disco do seu muito pessoal projecto paralelo - Atlas Sound – era com muita ansiedade que aguardava pelo novo disco da banda de Bradford Cox. E os Deerhunter não me desiludiram, pois apresentam-nos um disco colossal.
“Microcastle” é um disco original e imaginativo, com um charme e uma competência fora do comum, e está recheado de um “pop” florescente, com calorosos e sibilantes solos de guitarra e uma percussão enérgica. Aqui as rudes arrestas sonoras foram limpas para um formato mais digestível e orientado para a canção, comparado com a dura escuridão ambiental de “Cryptograms”, e se a redução do “noise” pode diminuir o impacto, é o lado mais brando dos Deerhunter que torna a sua música tão compelível. Existe uma elegância nesta simplicidade, que pode comprovar que as guitarras distorcidas de “Cryptograms” não serviam para esconder algum tipo de incompetência. Sobressaem as directas e enérgicas “Nothing Ever Happened” e “Saved By Old Times”, a despreocupada melodia de “Never Stop” ou a simetria da flutuante “Agorophobia”, que não estavam associadas ao som dos Deerhunter.
Os temas base (morte, perda e desespero) continuam presentes, mas parecem mais preocupados em arranjar formas de escapar aos mesmos, mesmo que seja de uma forma efémera e assim uma impressionantemente postura esperançosa está presente em temas como “Little Kids” e “Green Jacket”, apesar das vocalizações continuarem submissas e deprimidas.
A natureza complexa e individualista dos vários membros é uma mais-valia, que se pode comprovar pela brilhante contribuição do guitarrista Lockett Pundt, que também partilha por esta via as suas obsessões.
“Microcastle” é uma luxuriante paisagem sonora, muito mais próxima da perspectiva de uns My Bloody Valentine do que de outros grupos de rock experimental com quem os Deerhunter costumam ser associados e mais uma forma de Bradford Cox confirmar a sua influência como futuro ícone musical.
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22 novembro 2008

Pop # 4 - Aztec Camera - “High Land, Hard Rain” (1983 Rough Trade)

Precisamente, em Janeiro de 1980, um miúdo, Roddy Frame, fundava os Aztec Camera. Estes gravitariam sempre à volta das suas visões muito especiais e da sua qualidade de composição.
A inovadora e complicada miscelânea de “pop”, “rock”, “jazz”, “folk”, que caracterizava o som dos Aztec Camera, faz com que o grupo chame a atenção da jovem independente editora Postcard, que edita os seus primeiros dois singles. O percurso iria prosseguir na Rough Trade, que edita os singles seguintes, “Pillar To Post” e “Oblivious”. Ambos atingem os topos das tabelas “indie” e tornam-se numa das melhores promessas da “pop” escocesa.
Tudo isto fez com que a expectativa que rodeava o seu disco de estreia fosse enorme. E “High Land Hard Rain” não iria desiludir ninguém.
Uma exalação de ar fresco aquando da sua edição (uma terrível altura para a “pop”), era musicalmente vibrante e extremamente único, para além de ser incrivelmente super-produzido para o período (penso que só “Skylarking” dos XTC poderá ser alvo de comparação).
As canções eram ricas em melodia, baseadas em deslumbrantes arranjos e texturas vocais, apoiadas nas assombrosas letras, extremamente comoventes, que expunham sem enfeites as ansiedades da juventude (“The Boy Wonders” é um belo exemplo).
A isto acrescenta-se a capacidade inata de Roddy Frame na guitarra e um puro e total entusiasmo que faltava a muitas bandas.
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18 novembro 2008

Classic # 16 - Patti Smith - “Horses” (1975 Arista)

Um dos discos de estreia mais escandalosamente original, em 1975, “Horses”, foi fundamental para estabelecer a nova estética “punk” que alterou as regras do “rock” para sempre, mas catalogar Patti Smith não é fácil, pois a sua música transcende qualquer género musical. Iconoclasta abre o disco com a referência (“Jesus died for somebody’s sins, but not mine”), reinterpretando o velho clássico “Gloria”, de uma forma rude, determinada e provocadora. Está dado o mote para o resto do álbum: sem limites.
Produzido por John Cale, o disco está recheado de perturbadores, mas vivos relatos de sexo e violência, com temas que abordam a violação homossexual, a luxúria e até o suicídio, onde somos transportados para um halucinatório e perigoso sub-mundo. Intensa e poética, no entanto simultaneamente genuína e sincera, ela fez com que as suas “faladas/cantadas” letras se tornassem não só compelíveis, mas também credíveis.
Nunca ninguém verdadeiramente conseguiu restabelecer a originalidade criada por Smith.
É evidente a dramática estrutura das canções: a esperançosa “Free Money” com a sua mutação da bela balada de piano até o mais puro “rock”, o surrealismo evocativo de “Kimberly”, a pesarosa e gentil “Redondo Beach” com as suas influências “ska” e arranjos de sintetizador, o belo hino “Break It Up” que se eleva continuamente e que conta com o contributo de Tom Verlaine dos Television, as duas encantatórias invocações de fantasmas passados - a sublime e emocional “Birdland” (baseado em “Book of Dreams” de Wilhelm Reich), que nos transporta da plenitude até ao êxtase na sua complexa estrutura lírica e musical e a cinemática “Land”, violentamente erótica, com uma transcendente parte vocal e um extraordinário trabalho de guitarra – até à suicida “Elegie”que fecha assustadoramente o disco (escrita a meias com Allan Lanier dos Blue Oyster Cult, tal como “Kimberly”). Convém acrescentar que isto tudo não seria possível sem a excelente banda, liderada por Lenny Kaye, que a acompanhou.
“Horses” será um percursor do “punk”, primeiramente porque antecipou aquele género sonoramente antes da sua materialização, no entanto também porque antecipou o espírito do “punk” pela retrospecção dos velhos dias do “rock’n’roll” e capturar a sua juvenil e inspirada essência.
A sua influência foi óbvia e está presente em P.J.Harvey ou Liz Phair, em outras, ou até mesmo nas Sleater-Kinney. E como a icónica capa com a fotografia de Robert Mapplethorpe o testemunha, Patti Smith é a original Riot Grrrl.
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16 novembro 2008

Stereolab - “Chemical Chords” (2008 4AD)

Em quase duas décadas, a discografia da banda de Tim Gane e Laetitia Sadier sempre foi uma íntima exploração de ideias. Apareceram no início da década de 90 desafiando o dominante “shoegazing”, oferecendo uma mistura de “krautrock”, electrónica, e vozes despidas. E ao longo dos anos tiveram desvios pelo universo de Martin Denny, da Tropicália, da “french chanson” ou do cinema italiano, “Chemical Chords” não foge à regra, mas é um excelente exemplo de exploração e um novo propósito para a banda.
A música aqui presente encontra-se na forma mais elaborada, mas fluida e natural, descarada no efeito desejado – uma massiva reacção emocional. Tal como muitos dos anteriores discos, contém uma simplicidade do princípio ao fim que pode-nos abstrair do seu encanto. Temos de insistir gradualmente, pois neste disco, está presente uma urgência que já não ouvíamos à muito nos Stereolab, tudo parece inteligentemente compacto e agrupado magnificamente como num organismo vivo. O regresso de Sean O’Hagan (High Llamas) é uma mais valia pelos seus dominantes e delicadamente cuidados arranjos presentes em todo o disco.
Destacam-se o requintado “pop”, aqui presente no mais puro dos encantos e esplendor em “The Ecstatic Static”, “Valley Hi!” e “Self Portrait With Electric Brain”, a circulatória energia e intrigante melodia de “Neon Beanbag”, a furtivamente “sexy” linha sonora e os arranjos de sopros de “One Note Symphony”, ou o agitante e incandescente baixo de “Three Women”.
Muitos poderão ouvir “Chemical Chords” e afirmar que ainda soa aos velhos Stereolab, mas como uns Sonic Youth, as pequenas mutações vão existindo, no entanto mantêm-se sempre fieis ao seu projecto sonoro
Não será tão épico como eles já provaram ser capazes, mas é extremamente satisfatório, e após algumas audições ficará alojado no nosso cérebro.

Stereolab - Three Women

13 novembro 2008

DVD # 4 - Vários - “1991: The Year Punk Broke” (1992 Tara Films)

Quando o movimento “grunge” explodiu, a música categorizada como “underground” tornou-se no “mainstream”, com a atenção dada pela imprensa e apoiada por todo o marketing forjado que dai resultou.
E muito do que de negativo chegou com essa mini revolução social, faz com que muitas vezes se esqueça tudo o que de bom existia antes de “Nevemind”. Estamos na presença de um grande DVD - cujo nome é uma astuta resposta ao fenómeno, através da comparação com o que aconteceu em 1976 na Inglaterra com os Sex Pistols, Buzzcocks e The Clash, pois o movimento “punk” americano (Black Flag, The Germs, X) nunca extraiu os benefícios da fama - que nos relembra desses bons momentos, recheado de brilhantes performances da tournée pela Europa realizada em 1991 pelos Sonic Youth, e por isso é essencialmente focado nestes.
O nosso “guia” Thurston Moore, simultaneamente arrogante e encantador, é excelente nas suas hilariantes deambulações, especialmente no episódio com os jornalistas alemãs. E o ponto alto do DVD é mesmo o registo das actuações dos SY, sendo que “Dirty Boots” é verdadeiramente excepcional, recheada de premência, assim como o são “Schizophrenia” (soa melhor ao vivo), “Mote” ou “TeenAge Riot”. Outras boas performances incluídas são os Dinosaur Jr., que tocam de uma forma ciclónica “The Wagon”, os Nirvana com “Negative Creep” e “Smells Like Teen Spirit”, e as Babes In Toyland em “Dustcake Boy”. Para além destes temos a contribuição musical dos Gumball e Ramones, pequenos momentos passados nos bastidores que retratam a excitação vivida no período e ainda a presença esporádica de gente ilustre como os Mudhoney ou Bob Mould (a comer um cachorro quente).
Um excelente momento de nostalgia, mas também uma visão antropológica da música alternativa em 1991, com a presença de algumas das bandas mais influentes do movimento.

06 novembro 2008

Do fundo da prateleira # 12 - Opal - “Happy Nightmare Baby” (1987 SST)

O único disco de originais dos Opal, deu cobertura à narcótica aventura amorosa que o guitarrista David Roback (ex-Rain Parade) e a vocalista-baixista Kendra Smith (ex-Dream Syndicate) iriam procurar refinar nos seus projectos subsequentes – Roback nos Mazzy Star, Smith na sua carreira a solo.
Entre primitivos e flutuantes “drones” de guitarra e brilhantemente aveludados e lamentosos “riffs”, foi um dos poucos discos que emergiu do movimento designado como Paisley Underground que realmente se salvou, desse conceito prometedor de um som “western” negro e psicadélico.
A voz lacónica, desprendida, e passiva de Smith é perfeita, bem profunda no interior das canções e magnificamente misturada com as penetrantes guitarras e o saltitante orgão de Roback, carregando o disco de torturantes melodias. Resultado, uma música insensatamente excelente - assombrosa, sedutora e intoxicante, com espantosas letras – ouçam “Grains Of Sand”, “Fell From The Sun”, “All Souls” ou “Happy Nightmare Baby”.
Infelizmente ainda hoje é um disco obscuro e menosprezado.
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Opal - Happy Nightmare Baby

03 novembro 2008

Tributo # 8 - Cabaret Voltaire – 1983-1987


“The Crackdown” (1983 Virgin)
“Micro-Phonies” (1984 Virgin)
“Code” (1987 Virgin)

Numa altura em que o “punk” dominava, existiram alguns movimentos que fugiam aos padrões sonoros do género. Muitos deles trabalhavam com instrumentos electrónicos e pré-gravações, e numa primeira, e mais primária fase, ficaram rotulados como electro-industrial.
Em Sheffield, uma cidade industrial, na verdadeira acessão da palavra, iriam aparecer grupos como os The Human League, os Clock DVA, e os Cabaret Voltaire. Estes últimos seriam um dos mais importantes ao combinarem música electrónica experimental com o “pop”“dub”, “tecno”.
Formados por Stephen Mallinder, Richard H. Kirk e Chris Watson, a sua evolução sonora esteve interligada com a evolução da própria tecnologia, evoluindo das primitivas colagens sonoras para os sintetizadores e samplers.
Uma forte componente visual sempre os acompanhou, desde as imagens que eram projectas nos espectáculos ao vivo, passando pelo grafismo dos discos, e os vídeos – neste último tendo criado a sua própria produtora de vídeo, a Doublevision.
Numa primeira fase dominava a agressividade politica e o terrorismo sonoro, dissonante e vibrante muita na veia dos Throbbing Gristle. Era um som experimental, livre electrónica industrial, e assim temas como “Silent Command”, “Eddie’s Out” ou “Control Addict” mais se parecem com colagens sonoras do que verdadeiras canções. Nesse período gravaram dois álbuns fundamentais, “Red Mecca” (1980) e “The Voice of America”(1981).
Já reduzidos a um duo com a saída de Watson, que iria formar os Hafler Trio, assinam pela Virgin, e a partir daqui a sua sonoridade ficou mais elaborada e passou a focar-se em ritmos mais dançáveis, mais “pop” orientados, e com a incorporação de estruturas do “funk”. Isto em 1983, quando a música industrial ainda se estava a desviar das guitarras e a norma era emergir nas electrónicas (Test Department) ou na experimentação (Einstürzende Neubauten).
Desta segunda fase resultaram discos como “The Crackdown” (1983), “Micro-Phonies” (1984) ou “Code” (1987), onde estavam incluídos alguns dos seus melhores temas, mas também os mais acessíveis como “Sensoria” ou “Here To Go”, que rapidamente se tornaram favoritos das pistas de dança.
Era um som sombrio, os ritmos frios e as vozes hesitantes com mensagens e advertências. E apesar do som mais “limpo” a imagem dos CV continuava algo sinistra, mas talvez mais distinta, e gradualmente foram desenvolvendo a variação “dançante” da música industrial que eventualmente definiu o género a partir de meados dos anos 80. A mudança começou com “The Crackdown” onde a música é mais complexa e estratificada, destacam-se “Talking Time”, “Crackdown”, a maravilhosamente complexa e altamente introspectiva “Just Fascination”, e as excursões ambientais de “DoubleVision” e “Badge of Evil”. Seguiu-se “Micro-Phonies”, provavelmente o melhor disco do CV, é mais disciplinado e resoluto, mas um dos mais intransigentes do seu tempo. Uma verdadeira banda-sonora da idade moderna, está cheio de humor negro e comentários sociais, visíveis nesse exercício de “samples” que é “Do Right”, na ciber-paranóia de “Spies In The Wires”, ou em “Blue Heat”. “Code” é o mais acessível, mas completamente contagiante, produzido por Adrian Sherwood, é mais “funky”, mas musicalmente inteligente e cínico. Destacam-se “Don’t Argue”, “Thank You America” e “No One Here”.
Seguiram-se colaborações com produtores como François Kevorkian, que realizaram remisturas com o intuito de tomar de assalto as pistas de dança, que iria culminar em 1990 com a edição de “Groovy, Laidback & Nasty”, já bastante influenciado pela sonoridade “house”.
Desde 1994 que estão semi-retirados (Richard H Kirk continua muito activo com vários projectos – Sandoz, Dark Magus, Sweet Exorcist), mas esta variação de música electrónica industrial iria influenciar directamente grupos como os Front 242, Nitzer Ebb, Skinny Puppy e Nine Inch Nails, o lado negro do “tecno pop”._

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30 outubro 2008

Human Bell - “Human Bell” (2008 Thrill Jockey)

A música de Nathan Bell e Dave Heumann (dos Arbouretum) desafia qualquer fácil categorização. Estamos na presença de um disco instrumental, que mistura de uma forma exemplar padrões musicais tradicionais: “rock”, “folk”, “pós-rock”, “blues” e “americana”.
O que transmite é uma evidente sinergia e um genuíno bem-estar dos intervenientes nestas cuidadosamente executadas composições, simultaneamente sensoriais e evocativas, com os dois guitarristas sempre em perfeito sincronismo.
É notável a forma como estruturam os longos temas. “A Change In Fortunes” abre sinistramente com uma fúnebre guitarra no estilo “americana”, mas lentamente transforma-se num belo e desapressado conjunto de acordes optimistas. “Splendor And Concealment” começa brando e vasto antes de repentinamente acelerar e cerrar-se quebrando a hipotética fantasia numa expressiva dupla improvisação bem ao estilo do visionário John Fahey. São melodias que perduram, graças às repetições hipnóticas e aos momentos rítmicos verdadeiramente empolgantes que conduzem a um climax espiritual.
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27 outubro 2008

My Favorites # 10 - Built To Spill - “Keep It Like A Secret” (1999 Warner Bros)

Com “Perfect From Now On” (1997), Doug Martsch e os seus rapazes já nos tinham prometido uma obra-prima. Ela chegou com “Keep It Like A Secret”, que continua a mesma fórmula, com mais 10 intensas canções literalmente de cortar a respiração.
Neste disco perfeitamente equilibrado criaram algo único e impetuoso, onde podemos pensar nos velhos Sonic Youth, mas sem a abstracção.
Sendo um incrivelmente dotado músico, Martsch abstêm-se largamente de solos que aturdem, em ordem de manter o foco nas canções. E com isto não quero dizer que ele não nos presenteia com excelentes momentos no disco. Pois em vez de momentos instrumentais onde nos demonstra a sua formidável proficiência como guitarrista, ele opta antes por usar o instrumento como um meio de constituição da estrutura e dar coloração a cada canção.
Começa de forma perfeita com a concisa “The Plan”, depois segue-se essa declaração “pop” que é “Center Of The Universe”, o assombroso trabalho de guitarra na fenomenalmente simples “Carry the Zero”, o desenvolvimento do núcleo da canção em “Time Trap”, as brilhantes camadas sonoras de “Temporarily Blind”, ou as suaves harmonias de “Else”.
O disco termina com o épico “Broken Chairs”, e admiramos como pode um disco soar tão variado e no entanto, simultaneamente parecer tão consistente.
Puro esplendor.

24 outubro 2008

Inovadores # 10 - Associates – “Sulk” (1982 Beggars Banquet)

“Sulk”, foi uma distinta revolta contra os tons negros predominantes do pós-punk (cuja capa do disco bem o serve para ilustrar). Seria o último álbum de originais de uma trilogia de obras-primas (incluir “The Affectionate Punch” e”Fourth Drawer Down”) que os Associates iriam editar, e será provavelmente o mais acessível dos três, e onde as suas canções mais conhecidas estão incluídas.
Mas ao contrário de muitos disco dos anos 80, que se condenaram sonoramente a eles próprios a ficar encarcerados nessa década, este, como o passar dos anos, parece cada vez mais actual do que aquando da sua edição. E se, segundo reza a história, como o processo de gravação foi longo, felizmente o seu resultado final não resultou em nada de confuso ou desapontante, mas sim num grande disco “pop”.
Da combinação dos talentos do multi-instrumentista Alan Rankine, que criou uma música antinatural baseada em camadas sonoras de singularidade sintética, com as vocalizações eloquentes e transcendentais de Billy MacKenzie, resultou um disco conceptual, com a primeira metade (lado A no antigo vinil) a levar-nos para as trevas, com as canções mais sinistras, e com a segunda metade a restituir-nos a claridade, com as mais calmamente melódicas.
Ficaram peças únicas e extravagantes, como a alienada “Party Fears Two”, a incrível “Club Country”, a fantástica “Gloomy Sunday”, ou a maníaca cacofonia de “Nude Spoons”. E outras que amadureceram magnificamente como “Skipping”.
Se o suicídio de MacKenzie, poderá ter-lhe assegurado um estatuto de culto, é aqui que verdadeiramente conseguimos ouvir, através da sua elevada voz, a sua alma torturada e o seu grandioso espírito.
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22 outubro 2008

Compilação # 2 - Coldcut - “Journeys By DJ” (1995 JDJ)

Em 1995, o colectivo de DJ’s Coldcut – Jonathan Moore, Matt Black, Strictly Kev e PC - editou um CD-mix que tinha como objectivo 3 pressupostos - tinha de incluir os seus discos favoritos através de uma ofuscantemente ampla selecção musical, tinha de ser um disco que se pudesse escutar no conforto caseiro, e tinha de dar um “proverbial” pontapé no saturado e confuso género, muito obcecado por apenas gerar dinheiro.
E logo na sua edição, a reacção foi unânime, este era o disco a possuir.
Seria pelo facto do disco abranger uma desconcertante mistura de géneros com muita qualidade, contendo “electro” (Newcleus, Mantronix), “reggae” (Junior Reid), “hip hop” (Boogie Down Productions), “tecno” (Plastikman, Luke Slater), “house” (MAW), “ambient-pop” (Joanna Law), “jazz-funk” (Red Snapper), “mad funk” (Pressure Drop), “drum’n’bass” (Photek, 2 Player), humor (excertos da série Dr. Who) e outras formas mais abstractas (Jello Biafra, Air Liquide e as outras incarnações dos Coldcut na Ninja Tune)?
Seria pela forma como os efeitos e o tratamento no computador, de que foram pioneiros, adaptou este ajustado puzzle?
Seria pela nova posição numa velha formula, cujo resultado parecia realizado de um forma descarada e sem esforço?
A resposta é obvia, tudo isto e muito mais. “Journeys By DJ” é uma mescla de ingredientes que o tornam maior do que a soma das suas partes, e é muito mais amplo na sua estrutura temporal.
Foi uma surpreendente definição de um estilo numa era e quebrou as regras para o atingir. Intemporal? O melhor será mesmo ouvir, pois é uma viagem fantástica.

Como bónus anexo um original de “Let’s Us Play!” (1997)
Coldcut - More Beats And Pieces

20 outubro 2008

Ra Ra Riot - “The Rhumb Line” (2008 Barsuk)

Um disco de estreia marcado pela morte prematura do baterista e compositor John Pike, ocorrida pouco tempo antes da sua gravação. Assim um sabor agridoce está presente em canções como a explosiva e voluta “Ghost Under Rocks” ou a suspirante “St. Peter’s Day Festival”, que foram co-escritas por Pike.
Assim para além das constantes e óbvias referências à morte e ao mar (onde o corpo de Pike foi encontrado, e vividamente evocando perda numa cidade da costa marítima), a presença do violino e do violoncelo, reforçam a gentil melancolia presente ao longo do disco.
Mas se a musica é essencialmente sepulcral, também é efervescente e dilacerante, pois torna-se cativante por ser fundamentalmente uma afirmação da vida, e não só um réquiem por um amigo perdido, mas também um tributo para os que se aguentaram nos tempos mais difíceis.
Para além das duas canções referidas anteriormente, destacam-se neste “opus”, a macabra, mas irreprimivelmente contagiante “Dying Is Fine”, a jovial “Can You Tell”, ou a inesperadamente energética “Too Too Too Fast”, carregada de ruidosos sintetizadores.
As sólidas e exultantes melodias e a performance segura, permite que este seja um apropriado e muito particular memorial.
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